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A Igreja das Catacumbas

15 nov

A catacumba não é uma invenção dos cristãos. Sua existência é anterior ao nascimento da Igreja. Na realidade, as catacumbas eram os cemitérios comuns na Antiguidade, geralmente utilizados por pessoas pobres, que não possuíam recursos para a construção de mausoléus ou tumbas (o que não acontece, por exemplo, na suntuosa Tumba de Cecília Metella ou no Mausoléu de Adriano, também conhecido como Castel Sant’Angelo[1]). Elas são cemitérios subterrâneos, com inúmeros túneis e “ruas”.

As catacumbas só são encontradas em lugares onde o solo é de origem vulcânica, conhecido como tufo, uma forma de rocha porosa, macia, que ao contato com o ar se enrijece. Estão posicionadas fora dos limites da cidade, ao longo das estradas que conduzem a Roma. À medida que um viajante se aproximava de uma cidade, por exemplo, vários túmulos iam se tornando visíveis. Dentre as várias catacumbas existentes as mais famosas são as da Via Ápia (das quais se destacam as de São Sebastião e as de São Calisto).

Um dos mitos com relação à história da Igreja é a afirmação de que as catacumbas eram locais secretos, onde os cristãos se reuniam sem o conhecimento das autoridades romanas. A realidade, porém, não condiz com tal ideia. As catacumbas eram muito apertadas para comportar uma multidão de pessoas. Faltaria ar e espaço. O que acontecia nas catacumbas, com muita freqüência, era a reunião de pequenos grupos para venerar as relíquias dos mártires. Em virtude do espaço pequeno é que os cristãos começaram a fazer basílicas localizadas exatamente acima das catacumbas, com as relíquias sendo transladadas para as igrejas de modo a facilitar a veneração dos santos por um maior número de fiéis.

Outra dúvida que pode inquietar o coração de muitos: como os cristãos conseguiam celebrar a eucaristia numa época de perseguição?[2] Uma possibilidade seria a utilização de um espaço fora das cidades, próximo das catacumbas, ao ar livre, no sábado à noite ou na madrugada de domingo para se realizar a celebração. Outra possibilidade é a de que a celebração acontecesse nas cidades, em alguma casa. As “igrejas” mais antigas foram as casas de pessoas cristãs. Essas casas receberam o nome de “títulos”. À medida que o número de cristãos aumentava, mais títulos eram utilizados para as celebrações eucarísticas.

Voltando a falar especificamente das catacumbas, é interessante notar que, desde o início da Igreja, os cristãos adoravam ao Deus Uno e Trino, mas, mesmo assim, pediam constantemente a intercessão dos santos. Numa época em que não havia Bíblia em sua forma definitiva, os cristãos, por meio de inúmeros grafites[3], já suplicavam a intercessão dos santos em suas necessidades. Várias são as inscrições nas catacumbas nas quais é possível encontrar pedidos dirigidos aos apóstolos ou aos mártires.

Antigamente, era costume que o altar de uma igreja fosse erigido sobre o túmulo de um mártir. Tanto é assim que antes do Concílio Vaticano II todos os altares possuíam uma pedra chamada “pedra d’Ara”, isto é, uma pedra que continha uma relíquia de um mártir. Era recomendado que o sacerdote celebrasse a santa missa em cima do túmulo dos mártires. Isso expressa uma riqueza teológica muito grande: a unidade entre o sacrifício oferecido no altar, ou seja, o sacrifício da Cruz e o sacrifício de todo o corpo de Cristo, a Igreja, oferecido pelo mártir. O mártir é o corpo da Igreja que padece com o seu Divino Salvador. Quando o mártir padece, Cristo padece com ele[4].

As catacumbas são também importantes para a história da iconografia cristã. Desde cedo, nelas os cristãos faziam pinturas de personagens ou temas bíblicos, como é o caso da figura do Bom Pastor, uma lembrança do Cristo que consola e resgata a Igreja perseguida. Outra representação constante é a da própria Igreja, simbolizada por uma barca ou pela imagem de uma mulher orante, com um véu na cabeça, com as mãos estendidas, imitando as mãos do Senhor crucificado[5].

Por fim, nas catacumbas, é possível encontrar a imagem mais antiga da Virgem Maria, demonstrando a devoção à Virgem Santíssima como algo presente desde o início da história da Igreja. Nas catacumbas de Priscila, em Roma, existe um afresco, datado do início do III século, considerado por muitos estudiosos como a mais antiga representação da Virgem Maria. Segundo a explicação do próprio Catecismo da Igreja Católica:

“Esta imagem, entre as mais antigas da arte cristã, apresenta o que é central na fé cristã: o mistério da Encarnação do Filho de Deus nascido da Virgem Maria (…) concebido por obra do Espírito Santo (…) Maria o traz ao mundo e o dá aos homens. Assim ela é a figura mais pura da Igreja” (Catecismo, p. 20)

Justamente por todas estas contribuições, a Igreja das catacumbas se apresenta como um elemento importante não só da história, mas também da espiritualidade cristã. Nelas, os cristãos testemunhavam a sua fé no Senhor, celebrando a eucaristia e venerando a memória dos mártires, homens e mulheres que tiveram a coragem de derramar o seu sangue para não deixar com que o joio fosse semeado juntamente com a semente da Boa Nova. Ali também é possível perceber o uso da arte a favor da própria evangelização, como é o caso das representações de passagens bíblicas ou também o testemunho de outras realidades importantíssimas para a fé católica, tais como a devoção à Virgem Maria ou o testemunho da comunhão e da certeza da intercessão dos santos.

Referências

  1. Que, durante a idade Média, se tornou um refúgio para os papas durante as invasões bárbaras.
  2. Vale lembrar que as catacumbas também serviam como esconderijo para os cristãos na época das perseguições e em outras ocasiões. Um bispo falecido de uma das dioceses do mato Grosso, Dom Camilo Faresin, dizia que na II Guerra Mundial se refugiou nas catacumbas para escapar da perseguição dos nazistas por estar ajudando judeus.
  3. Grafite = inscrição numa parede.
  4. Quem persegue a qualquer cristão persegue o próprio Cristo. É o que é apresentado no relato da conversão de são Paulo em At 9, 4-5. É esta mesma certeza que movia o coração de Santa Felicidade, no momento de seu martírio. Felicidade deu à luz pouco antes de ser martirizada. Ironizada por um dos carcereiros pelo sofrimento enfrentado no parto, respondeu: “Agora sou eu que sofro o que sofro. Mas lá embaixo [na arena], haverá um outro em mim que sofrerá por mim, porque é por ele que sofrerei”. Santa Felicidade, apud: COMBY, Jean. Para ler a história da Igreja I. Das origens ao século XV. 3ª Ed. São Paulo: Loyola, 2001, p. 45.
  5. Tertuliano.
  6. Fonte: http://padrepauloricardo.org/aulas/a-igreja-das-catacumbas
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Publicado por em 15/11/2012 em História da Igreja

 

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