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Arquivo da tag: Patrística

Testemunhos dos primeiros cristãos que corroboram com a fé Católica

 

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Sobre o nome da Igreja
“Onde quer que se apresente o Bispo, ali esteja também a comunidade, assim como a presença de Cristo Jesus nos assegura a presença da Igreja Católica“(Santo Inácio aos Esmirniotas – 107 DC)
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Sobre o Primado de Pedro
“Depois da ressurreição, diz o Senhor: ‘Apascenta as minhas ovelhas’. Assim o Senhor edifica sobre Pedro a Igreja e lhe confia as suas ovelhas para apascentá-las. Se bem que dê igual poder a todos os Apóstolos, constitui uma só cátedra e dispõe, por sua autoridade, a origem e o motivo da unidade. Por certo os demais Apóstolos eram como Pedro, mas o primado é dado a Pedro e a unidade da Igreja e da cátedra é assim demonstrada. Todos são pastores mas, como se vê, um só é o rebanho apascentado pelo consenso unânime de todos os Apóstolos. Julga conservar a fé aquele que não conserva esta unidade recomendada por Paulo? Confia estar na Igreja aquele que abandona a cátedra de Pedro sobre a qual está fundada a Igreja?(Cipriano, +258, Sobre a Unidade da Igreja cap. 4)
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São Pedro foi Bispo de Roma
“[...]quanto a Lino, cuja presença junto dele [do Apóstolo Paulo] em Roma foi registrada na 2ª carta a Timóteo [cf. 2Tm 4,21], depois de Pedro foi o primeiro a obter ali o episcopado, conforme mencionamos mais acima.” (Eusébio Bispo de Cesaréia – HE,IV,8 – 317 d.C).
“[...]Alexandre recebeu o episcopado em Roma, sendo o quinto na sucessão de Pedro e Paulo” (Eusébio Bispo de Cesaréia – HE,IV,1 – 317 d.C).
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São Pedro sofreu o martírio em Roma
“Tendo vindo ambos a Corinto, os dois apóstolos Pedro e Paulo nos formaram na doutrina evangélica. A seguir, indo para a Itália, eles vos transmitiram os mesmos ensinamentos e, por fim, sofreram o martírio simultaneamente” (Dionísio de Corinto, ano 170, extrato de uma de suas cartas aos Romanos conforme fragmento conservado na HE II,25,8).
“Eu, porém, posso mostrar o troféu dos Apóstolos [Pedro e Paulo]. Se, pois, quereis ir ao Vaticano ou à Via Ostiense, encontrarás os troféus dos fundadores desta Igreja” (Discurso contra Probo – Caio presbítero de Roma, + ou – 199 d.C). 
Eusébio também trata deste escrito em HE II,25,7.
Pedro, finalmente tendo ido para Roma, lá foi crucificado de cabeça para baixo” (Orígenes, +253, conforme fragmento conservado na HE, III,1).
“Quando Nero viu consolidado seu poder, começou a empreender ações ímpias e muniu-se contra o culto do Deus do universo. [...] Foi também ele, o primeiro de todos os figadais inimigos de Deus, que teve a presunção de matar os apóstolos. Com efeito, conta-se que sob seu reinado Paulo foi decapitado em Roma. E ali igualmente Pedro foi crucificado [cf. Jo 21,18-19; 2Pd 1,14]. Confirmam tal asserção os nomes de Pedro e de Paulo, até hoje atribuídos aos cemitérios da cidade.” (Eusébio Bispo de Cesaréia – HE,II,25,1-5 – 317 d.C).
“Pedro, contudo, parece ter pregado aos judeus da Diáspora, no Ponto, na Galácia, na Bitínia, na Capadócia e na Ásia [cf. 1Pd 1,1), e finalmente foi para Roma, onde foi crucificado de cabeça para baixo, conforme ele mesmo desejara sofrer.” (Eusébio Bispo de Cesaréia – HE III,2 – 317 d.C)
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Sobre o Primado da Igreja de Roma sobre as Demais
“Já que seria demasiado longo enumerar os sucessores dos Apóstolos em todas as comunidades, nos ocuparemos somente com uma destas: a maior e a mais antiga, conhecida por todos, fundada e constituída em Roma pelos dois gloriosíssimos apóstolos Pedro e Paulo. Mostraremos que a tradição apostólica que ela guarda e a fé que ela comunicou aos homens chegaram até nós através da sucessão regular dos bispos, confundindo assim todos aqueles que querem procurar a verdade onde ela não pode ser encontrada. Com esta comunidade, de fato, dada a sua autoridade superior, é necessário que esteja de acordo toda comunidade, isto é, os fiéis do mundo inteiro; nela sempre foi conservada a tradição dos apóstolos(Ireneu de Lião, +202, Contra as Heresias III,3,2).
” Após termos discutido sobre os Escritos dos profetas e as Escrituras evangélicas e apostólicas acima, sobre os quais a Igreja Católica está fundada pela graça de Deus, também achamos necessário dizer, embora a Igreja Católica universalmente esteja difundida sobre todo o mundo, sendo a única noiva de Cristo, que à Santa Igreja romana é dado o primeiro lugar sobre as demais igrejas, não por decisão sinoidal, mas sim pela voz do Senhor, nosso Salvador, pois no Evangelho obteve a primazia: “Tu és Pedro” – Ele disse – “e sobre esta pedra edificarei a Minha Igreja e as portas do Inferno não prevalecerão contra ela; e te darei as chaves do Reino dos Céus e tudo o que ligardes sobre a Terra será também ligado no Céu, e tudo o que desligardes sobre a Terra será também desligado no Céu”.”(Decreto Gelasiano, 384 d.C)
“. Portanto, primeira é a cátedra da Igreja romana, do apóstolo Pedro, por não haver qualquer mancha, ruga ou qualquer outro [defeito]. Porém, o segundo lugar foi concedido, em nome do bem-aventurado Pedro, a Marcos, seu discípulo e autor do Evangelho, para Alexandria. Ele mesmo escreveu a Palavra da Verdade, no Egito, conforme [ouvira do] apóstolo Pedro; lá foi gloriosamente consumada [sua vida] no martírio. O terceiro lugar é guardado por Antioquia, do bem-aventurado e venerável apóstolo Pedro, que ali viveu antes de vir à Roma e onde pela primeira vez foi ouvido o nome da nova raça: cristãos.” (Decreto Gelasiano, 384 d.C)
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A Igreja de Cristo é Una e Visível
A Igreja é uma só, embora abranja uma multidão pelo contínuo aumento de sua fecundidade. Assim como há uma só luz nos muitos raios do sol, uma só árvore em muitos ramos, um só tronco fundamentado em raízes tenazes, muitos rios em uma única fonte, assim também esta multidão guarda a unidade da origem, se bem que pareça dividida por causa da inumerável profusão dos que nascem. A unidade da luz não comporta que se separe um raio do centro solar; um ramo quebrado da árvore não cresce; cortado da fonte, o rio seca imediatamente. Do mesmo modo, a Igreja do Senhor, como luz derramada, estende seus raios em todo o mundo e é uma única luz que se difunde sem perder a própria unidade. Ela desdobra os ramos por toda a terra com grande fecundidade; estende-se ao longo dos rios com toda a liberalidade e, no entanto, é uma na cabeça, uma pela origem, uma só mão imensamente fecunda. Nascemos todos do seu ventre, somos nutridos com seu leite e animados por seu Espírito” (Cipriano, +258, Sobre a Unidade da Igreja cap. 4)
Quem é tão ímpio e perverso, tão enlouquecido pelo delírio da discórdia que julgue poder ou que ouse dividir a unidade de Deus, a veste do Senhor, a Igreja de Cristo? O próprio Senhor adverte e ensina no Evangelho: ‘Haverá um só pastor e um só rebanho’. Pensa alguém que em um só lugar poderá haver muitos rebanhos e muitos pastores? Também o Apóstolo Paulo, insinuando esta mesma unidade, suplica, exorta e recomenda: ‘Rogo-vos, irmãos, pelo nome de nosso Senhor Jesus Cristo, que digais a mesma coisa e não haja cisões entre vós. Sede propensos no mesmo espírito e à mesma sentença’. Ainda outra vez: ‘Suportai-vos mutuamente no amor da paz, fazendo tudo para conservar a unidade do espírito no vínculo da paz’. Acreditas que podes subsistir afastado da Igreja, procurando para ti outras moradas? Disseram a Raab, que prefigurava a Igreja: ‘Reune contigo, em casa, teu pai, tua mãe, teus irmãos, toda a tua família. E quem ultrapassar a porta de tua casa, responderá por si’. Do mesmo modo como o mistério da Páscoa significa, na lei do Êxodo, a mesma unidade, o cordeiro que é morto, figurando a Cristo, deve ser comido numa só casa. Deus disse: ‘Será comido em uma só casa. Não lanceis a carne fora de casa’. A carne de Cristo, do Santo do Senhor, não pode ser lançada fora. E não há para os fiéis outra casa senão a Igreja.(Cipriano, +258, Sobre a Unidade da Igreja cap. 4)
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Sobre a Sucessão Apostólica
“Os apóstolos receberam do Senhor Jesus Cristo o Evangelho que nos pregaram. Jesus Cristo foi enviado por Deus. Cristo, portanto, vem de Deus, e os apóstolos vêm de Cristo. As duas coisas, em ordem, provêm, da vontade de Deus. Eles receberam instruções e, repletos de certeza, por causa da ressurreição de nosso Senhor Jesus Cristo, fortificados pela palavra de Deus e com plena certeza dada pelo Espírito Santo, saíram anunciando que o Reino de Deus estava para chegar. Pregavam pelos campos e cidades, e aí produziam sua primícias, provando-as pelo Espírito, a fim de instituir com elas bispos e diáconos dos futuros fiéis. Isso não era algo novo: desde há muito tempo, a Escritura falava dos bispos e dos diáconos. Com efeito, em algum lugar está escrito: “Estabelecerei seus bispos na justiça e seus diáconos na fé.” (São Clemente, + 90, Primeira Carta aos Corínitos,42)
“Nossos apóstolos conheciam, da parte do Senhor Jesus Cristo, que haveria disputas por causa da função episcopal. Por este motivo, prevendo exatamente o futuro, instituíram aqueles de quem falávamos antes, e ordenaram que, por ocasião de morte desses, outros homens provados lhes sucedessem no ministério. Os que foram estabelecidos por eles ou por outros homens eminentes, com a aprovação de toda a Igreja, e que serviram irrepreensivelmente ao rebanho de Cristo, com humildade, calma e dignidade, e que durante muito tempo receberam o testemunho de todos, achamos que não é justo demiti-los de sua funções. Para nós, não seria culpa leve se exonerássemos do episcopado aqueles que apresentaram os dons de maneira irrepreensível e santa. Felizes os presbíteros que percorreram seu caminho e cuja vida terminou de modo fecundo e perfeito. Eles não precisam temer que alguém os afaste do lugar que lhes foi designado. E nós vemos que, apesar da ótima conduta deles, removestes alguns da funções que exerciam de modo irrepreensível e honrado.” (São Clemente, + 90, Primeira Carta aos Corínitos,44)
“Já que seria demasiado longo enumerar os sucessores dos Apóstolos em todas as comunidades, nos ocuparemos somente com uma destas: a maior e a mais antiga, conhecida por todos, fundada e constituída em Roma pelos dois gloriosíssimos apóstolos Pedro e Paulo. ” (Ireneu de Lião, +202, Contra as Heresias III,3,2).
“Depois de ter assim fundado e edificado a Igreja, os bem-aventurados Apóstolos transmitiram a Lino o cargo do episcopado… Anacleto lhe sucede. Depois, em terceiro lugar a partir dos Apóstolos, é a Clemente que cabe o episcopado… A Clemente sucedem Evaristo, Alexandre; em seguida, em sexto lugar a partir dos Apóstolos, é instituído Sixto, depois Telésforo, também glorioso por seu martírio; depois Higino, Pio, Aniceto, Sotero, sucessor de Aniceto; e, agora, Eleutério detém o episcopado em décimo segundo lugar a partir dos Apóstolos” (Ireneu de Lião, +202, Contra as Heresias III,2,1s). (Nota minha: essa frase destroi qualquer protestante)
“Foi primeiramente na Judéia que eles (os Apóstolos escolhidos e enviados por Jesus Cristo) implantaram a fé em Jesus Cristo e estabeleceram comunidades. Depois partiram pelo mundo afora e anunciaram às nações a mesma doutrina e a mesma fé. Em cada cidade fundaram Igrejas, às quais, desde aquele momento, as outras Igrejas emprestam a estaca da fé e a semente da doutrina; aliás, diariamente emprestam-nas, para que se tornem elas mesmas Igrejas. A este título mesmo são consideradas comunidades apostólicas, na medida em que são filhas das Igrejas apostólicas. Cada coisa é necessariamente definida pela sua origem. Eis por que tais comunidades, por mais numerosas e densas que sejam, não são senão a primitiva Igreja apostólica, da qual todas procedem… Assim faz-se uma única tradição de um mesmo Mistério” (Tertuliano, + 202, De Praescriptione Haereticorum 2, 4-7.9).
“Depois do martírio de Pedro e Paulo, o primeiro a obter o episcopado na Igreja de Roma foi Lino. Paulo, ao escrever de Roma a Timóteo, cita-o na saudação final da carta [cf. 2Tm 4,21].” (Eusébio Bispo de Cesaréia – HE,III,2 – 317 d.C).
“[...]Alexandre recebeu o episcopado em Roma, sendo o quinto na sucessão de Pedro e Paulo” (Eusébio Bispo de Cesaréia – HE,IV,1 – 317 d.C).
“A Clemente [ sucessor de São Pedro na Cáthedra de Roma] sucedeu Evaristo; a Evaristo, Alexandre, depois, em sexto lugar desde os apóstolos, foi estabelecido Xisto; logo, Telésforo, que prestou glorioso testemunho; em seguida, Higino; após este, Pio, e depois, Aniceto. Tendo sido Sotero o sucessor de Aniceto, agora detém o múnus espiscopal Eleutério, que ocupa o duodécimo lugar na sucessão apostólica. Em idêntica ordem e idêntico ensinamento na Igreja, a tradição proveniente dos apóstolos e o anúncio da verdade chegaram até nós.” (História Eclesiástica Livro V, 6,4-5. Eusébio de Cesaréia, + ou – 317 d.C).
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Sobre a Eucaristia
“Não me agradam comida passageira, nem prazeres desta vida. Quero pão de Deus que é carne de Jesus Cristo, da descendência de Davi, e como bebida quero o sangue d’Ele, que é Amor incorruptível“. (Carta aos Romanos, parágrafo 7, cerca de 80-110 d.C.)
“Apartai-vos das ervas daninhas que Jesus Cristo não cultiva, por não serem plantação do Pai. Não que tenha encontrado em vosso meio discórdias, pelo contrário encontrei um povo purificado. Na verdade, o que são propriedade de Deus e de Jesus Cristo estão com o Bispo, e todos os que se converterem e voltarem à unidade da Igreja, pertencerão também a Deus, par terem uma vida segundo Jesus Cristo. Não vos deixeis iludir, meus irmãos. Se alguém seguir a um cismático, não herdará o reino de Deus se alguém se guiar por doutrina alheia, não se conforma com a Paixão de Cristo. Sede solícitos em tomar parte numa só Eucaristia, porquanto uma é a carne de Nosso Senhor Jesus Cristo, um o cálice para a união com Seu sangue; um o altar, assim como também um é o Bispo, junto com seu presbitério e diáconos, aliás meus colegas de serviço. E isso, para fazerdes segundo Deus o que fizerdes” . (Santo Inácio de Antioquia,Carta aos Filadelfienses,3 e 4, + 110 d.C.)
“Esta comida nós chamamos Eucaristia, da qual ninguém é permitido participar, exceto o que creia que as coisas nós ensinamos são verdadeiras, e tenha recebido o batismo para perdão de pecados e renascimento, e que vive como Cristo nos ordenou. Nós não recebemos essas espécies como pão comum ou bebida comum; mas como Cristo Jesus nosso Salvador, que se encarnou pela Palavra de Deus, se fez carne e sangue para nossa salvação, assim também nós temos ensinado que o alimento consagrado pela Palavra da oração que vem dele, de que a carne e o sangue são, por transformação, a carne e sangue daquele Jesus Encarnado.” – (São Justino, I Apologia, Cap. 66, cerca de 148-155 d.C.)
“Deus tem portanto anunciado que todos os sacrifícios oferecidos em Seu Nome, por Jesus Cristo, que está, na Eucaristia do Pão e do Cálice, que são oferecidos por nós cristãos em toda parte do mundo, são agradáveis a Ele.” – (São Justino,Diálogo com Trifão, Cap. 117, 130-160 d.C.)
“Outrossim, como eu disse antes, concernente os sacrifícios que vocês, naquele tempo, ofereciam, Deus fala através de Malaquias, um dos doze, como segue: ‘Eu não tenho nenhum prazer em você, diz o Senhor; e Eu não aceitarei os sacrifícios de suas mãos; do nascer do sol até seu ocaso, meu Nome tem sido glorificado dentre os gentios; e em todo o lugar incenso é oferecido em meu Nome, e uma oferta pura: Grande tem sido meu nome dentre os gentios, diz o Senhor; mas você O profana.’ Assim são os sacrifícios oferecidos a Ele, em todo lugar, por nós os gentios, que são o Pão da Eucaristia e igualmente a taça da Eucaristia, que Ele falou naquele tempo; e Ele diz que nós glorificamos Seu nome, enquanto vocês O profanam. (São Justino,Diálogo com Trifão, [41, 8-10], 130-160 d.C.)
“[Cristo] declarou o cálice, uma parte de criação, por ser seu próprio Sangue, pelo qual faz nosso sangue fluir; e o pão, uma parte de criação, ele estabeleceu como seu próprio Corpo, pelo qual Ele completa nossos corpos. (Santo Irineu de Lião, Contra Heresias, 180 d.C.)
“Assim então, se a taça misturada e o pão fabricado recebem a Palavra de Deus e tornam-se Eucaristia, que é dizer, o Sangue e Corpo de Cristo, que fortifica e reconstrói a substância de nossa carne, como podem essas pessoas dizer que a carne é incapaz de receber o presente de Deus que é a vida eterna, quando isto é feito pelo Sangue e Corpo de Cristo, que são Seu membro? Como o apóstolo abençoado diz em sua carta aos Efésios, ‘Nós somos membros de Seu Corpo, de sua carne e de seus ossos’ (Ef 5,30). Ele não está falando de forma ‘espiritual’ e de ‘ homem invisível’, ‘um espírito não tem carne e ossos’ (Lc 24,39). Não, ele está falando do organismo possuído por um ser humano real, composto de carne e nervos e esqueleto. Isto é este que é nutrido pela taça que é Seu Sangue, e é fortificado pelo pão que é Seu Corpo. O talo da vinha toma raiz na terra e futuramente dá frutos, e ‘o grão de trigo cai na terra’ (Jo 12,24), dissolve, ascende outra vez, multiplicado pelo Espírito de Deus, e finalmente depois é processando, é colocado para uso humano. Esses dois então recebe a Palavra de Deus e torna-se Eucaristia, que é o Corpo e Sangue de Cristo.” (Cinco Livros = Desmascarando e Refutando a Falsidade)
“Somente como o pão que vem da terra, tendo recebido a invocação de Deus, não é mais pão comum, mas Eucaristia, consistindo de duas realidades, divina e terrestre, assim nossos corpos, tendo recebidos a Eucaristia, não são mais corruptíveis, porque eles têm a esperança da ressurreição.”“Cinco Livros = Desmascarando e Refutando a Falsidade – especificamente a Gnose”. Livro 4,18; 4-5, cerca de 180 d.C.
“O Sangue do Senhor, realmente, é duplo. Há Seu Sangue corpóreo, por que nós somos redimidos da corrupção; e Seu Sangue espiritual, com que nós somos ungido. Que significa: beber o Sangue de Jesus é compartilhar sua imortalidade. O vigor da Palavra é o Espírito somente como o sangue é o vigor do corpo. Do mesmo modo, como vinho é misturado com água, assim é o Espírito com o homem. O Único, o Vinho e Água nutrido na fé, enquanto o outro, o Espírito, conduzindo-nos para a imortalidade. A união de ambos, entretanto, – da bebida e da Palavra, – é chamada Eucaristia, digna de louvor e presente excelente. Aqueles que partilham disto na fé são santificados no corpo e na alma. Pela vontade do Pai, a mistura divina, homem, está misticamente unida ao Espírito e à Palavra.” (São Clemente de Alexandria, O Instrutor das Crianças”. [2,2,19,4] + – 202.)
“A Palavra é tudo para uma criança: ambos Pai e Mãe, ambos Instrutor e Enfermeira. ‘Comam minha Carne,’ Ele diz, ‘e Bebam meu Sangue.’ O Senhor nos nutre com esses nutrientes íntimos. Ele nos entrega Sua Carne, e nos dá Seu Sangue; e nada é escasso para o crescimento de Suas crianças. Oh mistério incrível!“. (São Clemente de Alexandria, O Instrutor das Crianças [1,6,41,3] + – 202.)
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Sobre o Batismo de Crianças
“Ele (Jesus) veio para salvar a todos através dele mesmo, isto é, a todos que através dele são renascidos em Deus: bebês, crianças, jovens e adultos. Portanto, ele passa através de toda idade, torna-se um bebê para um bebê, santificando os bebês; uma criança para as crianças, santificando-as nessa idade…(e assim por diante); ele pode ser o mestre perfeito em todas as coisas, perfeito não somente manifestando a verdade, perfeito também com respeito a cada idade” (Santo Irineu, 202 dC – Contra Heresias II,22,4).
Onde não há escassez de água, a água corrente deve passar pela fonte batismal ou ser derramada por cima; mas se a água é escassa, seja em situação constante, seja em determinadas ocasiões, então se use qualquer água disponível. Dispa-se-lhes de suas roupas, batize-se primeiro as crianças, e se elas podem falar, deixe-as falar. Se não, que seus pais ou outros parentes falem por elas” (Hipólito, 215 dC, Tradição Apostólica 21,16).
“A Igreja recebeu dos apóstolos a tradição de dar Batismo mesmo às crianças. Os apóstolos, aos quais foi dado os segredos dos divinos sacramentos sabiam que havia em cada pessoa inclinações inatas do pecado (original), que deviam ser lavadas pela água e pelo Espírito” (Orígenes, ano 248 – Comentários sobre a Epístola aos Romanos 5,9)
“Do batismo e da graça não devemos afastar as crianças(São Cipriano, ano 248 – Carta a Fido).
 
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A Tradição dos Apóstolos foi fielmente conservada
“Em primeiro lugar [Inácio de Antioquia], acautelava-se a conservar firmemente a tradição dos apóstolos que, por segurança, julgou necessário fixar ainda por escrito. Estava já prestes a ser martirizado.” (História Eclesiástica Livro III, 36,4. Eusébio de Cesaréia, + ou – 317 d.C).
“Em teu favor, não hesitarei em aditar às minhas explanações que aprendi outrora dos presbíteros e cuja lembrança guardei fielmente, a fim de corroborar a manifestação da verdade.” (Pápias Bispo de Hierápolis, – ou – 120 d.C).
“Pápias, de quem nos ocupamos agora, reconhece ter recebido as palavras dos apóstolos por meio dos que com eles conviveram; declara, além disso, ter sido ele mesmo ouvinte de Aristion e do presbítero João. De fato, cita-os com freqüência nominalmente em seus escritos, referindo as palavras que transmitiram.Não foi ocioso ter dito tais coisas. É justo acrescentar às palavras supramencionadas de Pápias umas narrações ainda de fatos extraordinários e outras que chegaram até ele por meio da tradição.” (História Eclesiástica Livro III, 39,7-8. Eusébio de Cesaréia, + ou – 317 d.C).
“Floresciam nesta época na Igreja [tempo do Imperador Vero, por volta de 140 d.C], Hegesipo, já conhecido pelas narrações precedentes; Dionísio, bispo de Corinto; Pintos, bispo de Creta. Além disso, Filipe, Apolinário, Melitão, Musano e Modesto, e sobretudo Ireneu. Através de todos eles, chegou até nós por escrito a ortodoxia da tradição apostólica, a verdadeira fé.” (História Eclesiástica Livro IV, 21. Eusébio de Cesaréia, + ou – 317 d.C).
“Ora, sob [o episcopado de] Clemente, grave divergência surgiu entre os irmãos de Corinto. A Igreja de Roma enviou aos coríntios importante carta, exortando-os à paz e procurando reavivar-lhes a fé, assim como a tradição que, há pouco tempo, ela havia recebido dos apóstolos.” (História Eclesiástica Livro IV, 6,3. Eusébio de Cesaréia, + ou – 317 d.C).
“Esses mestres [Policarpo, Ireneu, Pápias, Justino, Clemente de Roma, Clemente de Alexandria, entre outros pois a lista é grande], que guardaram a verdadeira tradição da feliz doutrina recebida, como que transmitida de pai a filho, oriunda imediatamente dos santos Apóstolos Pedro e Tiago, João e Paulo (poucos são, contudo os filhos semelhantes aos pais), chegaram até nossos dias, por dom de Deus, a fim de lançar as sementes de seus antepassados e dos apóstolos em nossos corações” (História Eclesiástica Livro V, 11,5. Eusébio de Cesaréia, + ou – 317 d.C).
Impossível enumerar nominalmente todos os que então, desde a primeira sucessão dos Apóstolos, tornaram-se pastores ou evangelistas nas Igrejas pelo mundo. Nominalmente confiamos a um escrito apenas a lembrança daqueles cujas obras ainda agora representam a tradição da doutrina apostólica” (História Eclesiástica Livro III, 37,4. Eusébio de Cesaréia, + ou – 317 d.C).
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Veneração dos Santos
“Ignoravam eles que não poderíamos jamais abandonar Cristo, que sofreu pela salvação de todos aqueles que são salvos no mundo, como inocente em favor dos pecadores, nem prestamos culto a outro. Nós o adoramos porque é o Filho de Deus. Quanto aos mártires, nós os amamos justamente como discípulos e imitadores do Senhor, por causa da incomparável devoção que tinham para com seu rei e mestre. Pudéssemos nós também ser seus companheiros e condiscípulos!” (Martírio de Policarpo 17:2, +- 160 D.C).
“Vendo a rixa suscitada pelos judeus, o centurião colocou o corpo no meio e o fez queimar, como era costume. Desse modo, pudemos mais tarde recolher seus ossos [de Policarpo], mais preciosos do que pedras preciosas e mais valiosos do que o ouro, para colocá-lo em lugar conveniente. Quando possível, é aí que o Senhor nos permitirá reunir-nos, na alegria e contentamento, para celebrar o aniversário de seu martírio, em memória daqueles que combateram antes de nós, e para exercitar e preparar aqueles que deverão combater no futuro.” (Martírio de Policarpo 18, +- 160 D.C)
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Cânon Bíblico
“Cânon 36 – Parece-nos bom que, fora das Escrituras canônicas, nada deva ser lido na Igreja sob o nome ‘Divinas Escrituras’. E as Escrituras canônicas são as seguintes: Gênese, Êxodo, Levítico, Números, Deuteronômio, Josué, Juízes, Rute, quatro livros dos Reinos, dois livros dos Paralipômenos, Jó, Saltério de Davi, cinco livros de Salomão, doze livros dos Profetas, Isaías, Jeremias, Daniel, Ezequiel, Tobias, Judite, Ester, dois livros de Esdras e dois [livros] dos Macabeus. E do Novo Testamento: quatro livros dos Evangelhos, um [livro de] Atos dos Apóstolos, treze epístolas de Paulo, uma do mesmo aos Hebreus, duas de Pedro, três de João, uma de Tiago, uma de Judas e o Apocalipse de João. Sobre a confirmação deste cânon se consultará a Igreja do outro lado do mar. É também permitida a leitura das Paixões dos mártires na celebração de seus respectivos aniversários(Concílio de Hipona, 08.Out.393).

“Parece-nos bom que, fora das Escrituras canônicas, nada deva ser lido na Igreja sob o nome ‘Divinas Escrituras’. E as Escrituras canônicas são as seguintes: Gênese, Êxodo, Levítico, Números, Deuteronômio, Josué, Juízes, Rute, quatro livros dos Reinos, dois livros dos Paralipômenos, Jó, Saltério de Davi, cinco livros de Salomão, doze livros dos Profetas, Isaías, Jeremias, Daniel, Ezequiel, Tobias, Judite, Ester, dois livros de Esdras e dois [livros] dos Macabeus. E do Novo Testamento: quatro livros dos Evangelhos, um [livro de] Atos dos Apóstolos, treze epístolas de Paulo, uma do mesmo aos Hebreus, duas de Pedro, três de João, uma de Tiago, uma de Judas e o Apocalipse de João. Isto se fará saber também ao nosso santo irmão e sacerdote, Bonifácio, bispo da cidade de Roma, ou a outros bispos daquela região, para que este cânon seja confirmado, pois foi isto que recebemos dos Padres como lícito para ler na Igreja” (Concílio de Cartago III (397) e Concílio de Cartago IV (419)).

“Tratemos agora sobre o que sente a Igreja Católica universal, bem como o que se dever ter como Sagradas Escrituras: um livro do Gênese, um livro do Êxodo, um livro do Levítico, um livro dos números, um livro do Deuteronômio; um livro de Josué, um livro dos Juízes, um livro de Rute; quatro livros dos Reis, dois dos Paralipômenos; um livro do Saltério; três livros de Salomão: um dos Provérbios, um do Eclesiastes e um do Cântico dos Cânticos; outros: um da Sabedoria, um do Eclesiástico. Um de Isaías, um de Jeremias com um de Baruc e mais suas Lamentações, um de Ezequiel, um de Daniel; um de Joel, um de Abdias, um de Oséias, um de Amós, um de Miquéias, um de Jonas, um de Naum, um de Habacuc, um de Sofonias, um de Ageu, um de Zacarias, um de Malaquias. Um de Jó, um de Tobias, um de Judite, um de Ester, dois de Esdras, dois dos Macabeus. Um evangelho segundo Mateus, um segundo Marcos, um segundo Lucas, um segundo João. [Epístolas:] a dos Romanos, uma; a dos Coríntios, duas; a dos Efésios, uma; a dos Tessalonicenses, duas; a dos Gálatas, uma; a dos Filipenses, uma; a dos Colossences, uma; a Timóteo, duas; a Tito, uma; a Filemon, uma; aos Hebreus, uma. Apocalipse de João apóstolo; um, Atos dos Apóstolos, um. [Outras epístolas:] de Pedro apóstolo, duas; de Tiago apóstolo, uma; de João apóstolo, uma; do outro João presbítero, duas; de Judas, o zelota, uma. (Catálogo dos livros sagrados, composto durante o pontificado de São Dâmaso [366-384], no Concílio de Roma de 382)

“Quais os livros aceitos no cânon das Escrituras, o breve apêndice o mostra: Cinco livros de Moisés, isto é, Gênese, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio. Um livro de Josué, filho de Num; um livro dos Juízes; quatro livros dos Reinos; e Rute. Dezesseis livros dos Profetas; cinco livros de Salomão; o Saltério. Livros históricos: um de Jó, um de Tobias, um de Ester, um de Judite, dois dos Macabeus, dois de Esdras, dois dos Paralipômenos. Do Novo Testamento: quatro livros dos Evangelhos; quatorze epístolas do apóstolo Paulo, três de João, duas de Pedro, uma de Judas, uma de Tiago; os Atos dos Apóstolos; e o Apocalipse de João” (Papa Inocêncio I, 20.02.405; Carta “Consulenti Tibi” a Exupério, bispo de Tolosa).

“Devemos agora tratar das Escrituras Divinas. Vejamos o que a Igreja Católica universalmente aceita e o que deve ser evitado: Começa a ordem do Antigo Testamento: um livro da Gênese, um do Êxodo, um do Levítico, um dos Números, um do Deuteronômio, um de Josué (filho de Nun), um dos Juízes, um de Rute, quatro livros dos Reis, dois dos Paralipômenos, um livro de Salmos, três livros de Salomão (um dos Provérbios, um do Eclesiastes, e um do Cântico dos Cânticos). Ainda um livro da Sabedoria e um do Eclesiástico. A ordem dos Profetas: um livro de Isaías, um de Jeremias com Cinoth (isto é, as suas Lamentações), um livro de Ezequiel, um de Daniel, um de Oséias, um de Amós, um de Miquéias, um de Joel, um de Abdias, um de Jonas, um de Naum, um de Habacuc, um de Sofonias, um de Ageu, um de Zacarias e um de Malaquias.  A ordem dos livros históricos: um de Jó, um de Tobias, dois de Esdras, um de Ester, um de Judite e dois dos Macabeus. A ordem das escrituras do Novo Testamento, que a Santa e Católica Igreja Romana aceita e venera são: quatro livros dos Evangelhos (um segundo Mateus, um segundo Marcos, um segundo Lucas e um segundo João). Ainda um livro dos Atos dos Apóstolos. As 14 epístolas de Paulo Apóstolo: uma aos Romanos, duas aos Coríntios, uma aos Efésios, duas aos Tessalonicenses, uma aos Gálatas, uma aos Filipenses, uma aos Colossenses, duas a Timóteo, uma a Tito, uma a Filemon e uma aos Hebreus. Ainda um livro do Apocalipse de João. Ainda sete epístolas canônicas: duas do Apóstolo Pedro, uma do Apóstolo Tiago, uma de João Apóstolo, duas epístolas do outro João (presbítero) e uma de Judas Apóstolo (o zelota)” (Papa S. Gelásio, 384; Decreto Gelasiano; repetido em 520 pelo papa S. Hormisdas. Seguido também pelo Concílio Ecumênico de Florença15 [1438-1445], e novamente ratificado pelos Concílio de Trento16 [1546-1563] e Vaticano I [1870])). 

Para colocar todos os pingos nos “ís” seria necessário escrever uma obra bem mais extensa que este artigo. No entanto, espero que os testemunhos antigos aqui relatados sirvam para uma melhor reflexão daqueles que buscam a Verdade.
Para finalizar vejam na opinião dos primeiros Cristãos onde está a Verdade
___________________________________________________________________________________
Onde está a Verdadeira Doutrina Cristã
“Mas a Igreja de Éfeso, fundada por Paulo e onde João permaneceu até o tempo de Trajano, é também testemunha genuína da tradição dos apóstolos” (Contra as Heresias, Santo Ireneu Bispo de Lião, + ou – 202 d.C).
“Nesta ocasião [tempo do Imperador Vero. Meados do segundo século e início do terceiro], muitos homens da Igreja lutaram em prol da verdade com eloqüência e defenderam as proposições apostólicas e eclesiásticas. Alguns até, com seus escritos, deixaram aos pósteros uma profilaxia contra as heresias que acabamos de citar” (História Eclesiástica Livro IV, 7,5. Eusébio de Cesaréia, + ou – 317 d.C).
“A Clemente [3º sucessor de São Pedro na Cáthedra de Roma] sucedeu Evaristo; a Evaristo, Alexandre, depois, em sexto lugar desde os apóstolos, foi estabelecido Xisto; logo, Telésforo, que prestou glorioso testemunho; em seguida, Higino; após este, Pio, e depois, Aniceto. Tendo sido Sotero o sucessor de Aniceto, agora detém o múnus espiscopal Eleutério, que ocupa o duodécimo lugar na sucessão apostólica. Em idêntica ordem e idêntico ensinamento na Igreja, a tradição proveniente dos apóstolos e o anúncio da verdade chegaram até nós.” (História Eclesiástica Livro V, 6,4-5. Eusébio de Cesaréia, + ou – 317 d.C).
E quando, por nossa vez, os levamos [os hereges] à Tradição que vem dos apóstolos e que é conservada nas várias igrejas, pela sucessão dos presbíteros, então se opõe à Tradição, dizendo que, sendo eles mais sábios do que os presbíteros, não somente, mas até dos apóstolos, foram os únicos capazes de encontrar a pura verdade.” (Contra as Heresias, III,2,1, Santo Ireneu Bispo de Lião, + ou – 202 d.C)
“Portanto, a tradição dos apóstolos, que foi manifestada no mundo inteiro, pode ser descoberta e toda igreja por todos os que queiram ver a verdade. Poderíamos enumerar aqui os bispos que foram estabelecidos nas igrejas pelos apóstolos e seus sucessores até nós; e eles nunca ensinaram nem conheceram nada que se parecesse com o que essa gente [os hereges] vai delirando. [...] Mas visto que seria coisa bastante longa elencar numa obrar como esta, as sucessões de todas as igrejas, limitar-nos-emos à maior e mais antiga e conhecida por todos, à igreja fundada e constituída em Roma, pelos dois gloriosíssimos apóstolos, Pedro e Paulo, e, indicando a sua tradição recebida dos apóstolos e a fé anunciada aos homens, que chegou até nós pelas sucessões dos bispos, refutaremos todos os que de alguma forma, quer por enfatuação ou vanglória, que por cegueira ou por doutrina errada, se reúnem prescindindo de qualquer legitimidade. Com efeito, deve necessariamente estar de acordo com ela, por causa da sua origem mais excelente, toda a igreja, isto é, os fiéis de todos os lugares, porque nela sempre foi conservada, de maneira especial, a tradição que deriva dos apóstolos.” (Contra as Heresias, III,3,1-2, Santo Ireneu Bispo de Lião, + ou – 202 d.C)
 
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Publicado por em 28/11/2013 em Apologética, Patrística

 

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Ellen G. White x Patrística

Evidências históricas anteriores à Constantino

Sem recorrermos ao Novo Testamento como prova histórica,[1] é possível evidenciar documentalmente que os cristãos observaram o primeiro dia da semana desde os seus primórdios? Devemos recordar que o argumento de Ellen G. White é que o abandono do sétimo dia para a guarda do domingo somente ocorreu em 321 d.C. quando Constantino promulgou a “Lei Dominical”. Leiamos o que registraram os pais da Igreja, nos séculos que antecederam à Constantino, e a nossa conclusão poderá descansar sobre o firme alicerce da verdade.

Didaquê
O mais antigo manual de preparação de batismo e discipulado da Igreja Cristã (80-90 d.C.) conhecido por Didaquê instrui como deveria ser a vida comunitária. A orientação era de que “reúnam-se no dia do Senhor para partir o pão e agradecer, depois de ter confessado os pecados, para que o sacríficio de vocês seja puro.”[2] A expressão dia do Senhor, em grego kuriakê heméra e, em latim Dies Domini tornou-se o termo para indicar o primeiro dia da semana, a que chamamos de Domingo, o dia em que o Senhor ressuscitou!

Inácio de Antioquia
Inácio de Antioquia em sua Carta aos Magnésios (110 d.C.) declara que

aqueles que viviam na antiga ordem de coisas chegaram à nova esperança, e não observam mais o sábado, mas o dia do Senhor, em que a nossa vida se levantou por meio dele e da sua morte. Alguns negam isso, mas é por meio desse mistério que recebemos a fé e no qual perseveramos para ser discípulos de Jesus Cristo, nosso único Mestre.[3]

A sistematização doutrinária exposta por Inácio aponta para a transição da antiga para a nova aliança. Esclarece que a ressurreição de Cristo é a causa da descontinuidade e acomodação para a nova ordem, e, isto inevitavelmente envolve a mudança do dia de descanso do sétimo para o primeiro dia da semana, inaugurando uma nova era.

Plínio “o jovem”
Conhecido por ser justo em seus julgamentos, Plínio “o jovem”, segundo o seu relato, procurava através de tortura e questionamentos descobrir o grau de culpabilidade do réu. Num período em que o imperador romano Trajano exigia a prisão, tortura, e dependendo do caso a pena de morte dos cristãos, e, neste contexto Plínio escreve uma carta questionando do motivo de prender e executá-los, se neles nenhum motivo de culpa era encontrado. Em 113 d.C., o relator descreve que os cristãos, sob tortura, confessaram que “unânimes em reconhecer que sua culpa se reduzia apenas a isso: em determinados dias, costumavam comer antes da alvorada e rezar responsivamente hinos a Cristo como a um deus…”.[4]

O testemunho do governador pagão expressou admiração com o costume cristão. Não havia nada de absurdo, nem ofensivo naquela religião. A menção de determinados dias confirma que as suas reuniões seguiam uma norma semanal, e que antes do amanhecer se reuniam.

A carta a Diogneto
O desconhecido escritor da Carta a Diogneto afirma que “não creio que tenhas necessidade de que eu te informe sobre o escrúpulo deles a respeito de certos alimentos, a sua superstição sobre os sábados…”.[5] Em 120 d.C., o contraste entre cristãos e judeus estava estabelecido, de modo que a guarda do sétimo dia era visto pelos cristãos como sendo uma superstição judaica, e não como algo normativo para a Igreja.

A carta de Bárnabé
Um importante documento histórico apresenta alguns traços do Cristianismo do século II. A “carta de Barnabé” não tem autoria certa, mas pelo seu conteúdo a crítica literária especializada em patrística é de consenso datá-la entre 134-135 d.C.. O autor interpreta o significado do sábado. Ele declara que

vede como ele diz: não são os sábados atuais que me agradam, mas aquele que eu fiz e no qual, depois de ter levado todas as coisas ao repouso, farei o início do oitavo dia, isto é, o começo de outro mundo. Eis por que celebramos como festa alegre o oitavo dia, no qual Jesus ressuscitou dos mortos e, depois de se manifestar, subiu aos céus.[6]

O seu conteúdo é abertamente contrário aos sistemas judaizantes. Nesta interpretação acerca do sábado, o autor contrasta entre o entendimento do Judaísmo e o Cristianismo.

Justino de Roma
O apologista cristão expressou que “no dia que se chama do sol, celebra-se uma reunião de todos os que moram nas cidades ou nos campos, e aí se lêem, enquanto o tempo o permite, as memórias dos apóstolos ou os escritos dos profetas.” Noutro lugar ele continua

celebramos essa reunião geral no dia do sol, porque foi o primeiro dia em que Deus transformando as trevas e a matéria, fez o mundo, e também o dia em que Jesus Cristo, nosso Salvador, ressuscitou dos mortos. Com efeito, sabe-se que o crucificaram um dia antes do dia de Saturno e no dia seguinte ao de Saturno, que é o dia do Sol, ele apareceu a seus apóstolos e discípulos, e nos ensinou essas mesmas doutrinas que estamos expondo para vosso exame.[7]

A preocupação de Justino não era de firmar novas doutrinas, mas apenas de expor aos seus inquisitores o que era crença e prática tradional dentro do Cristianismo. A sua I Apologia é datada em 155 d.C. apontando para a proximidade da era apostólica, um período de pureza na fé cristã.

Irineu de Lião
Enquanto Justino defendia os cristãos diante dos governadores pagãos, Irineu se dedicava a atacar as heresias que brotavam dentro do Cristianismo. Irineu como apologista analisava os desvios doutrinários que haviam se infiltrado dentre os cristãos. Especificamente para o nosso propósito selecionamos os heréticos que se nomeavam ebionitas,[8] que segundo Irineu eles “praticam a circuncisão e continuam a observar a Lei e os costumes judaicos da vida e até adoram Jerusalém como se fosse a casa de Deus.”[9] Além de negar a salvação somente pela graça e a sua suficiência em Cristo, os ebionitas ensinavam uma redenção por meio da obediência da lei. Dentre os “costumes judaicos da vida” incluíam a prática de guardar o sétimo dia. Eles não entenderam a cessação dos aspectos civis da lei, nem o seu cumprimento cerimonial em Cristo, de modo que, persistiam em exigi-los como complemento da salvação, e nisto consistia a sua heresia. O livro Contra as Heresias é datado entre 180 a 190 d.C..

Tertuliano
No início do século III os cristãos demonstravam desprezo pelos costumes judaizantes. Em seu livro Da Idolatria, escrito entre os anos 200 e 210 d.C., Tertuliano declara que “não temos praticado os Shabbats ou, outras festividades judaicas, do mesmo modo que evitamos as práticas pagãs.”[10] A sua afirmação esclarece que, tanto a idolatria quanto práticas judaicas, eram evitadas no mesmo pé de igualdade. Não há dúvidas de que o descanso cristão no fim do século II era marcadamente o domingo, da mesma forma que o exclusivismo cristão testemunhava contra pagãos e judeus!

Conclusão
As evidências exigem um veredicto! A declaração da senhora Ellen G. White é insustentável por causa da ausência de fontes e de provas. A verdade está contra ela, pois todo testemunho histórico aponta para a celebração do primeiro dia da semana como sendo o santo dia de descanso, de comunhão e de celebração dos cristãos primitivos que antecederam a “Lei Dominical” de Constantino.

Todos os editos e leis foram promulgados para que os seus súditos incentivados por benefícios civis adotassem a religião cristã. O império romano estava se adaptando ao Cristianismo e não o contrário. Assim, o primeiro dia da semana tornou-se descanso civil, por ser tradicionalmente desde o final do primeiro século um dia reservado para o culto cristão.

Evidências históricas apontam para o favorecimento do imperador romano para o Cristianismo. O que vimos foi que a Igreja no período da Patrística não somente evitava a guarda do sétimo dia, mas desprezava-a como sendo superstição, idolatria e heresia judaizante! Não há no puro Cristianismo nenhum grupo, em nenhum lugar e período que celebrasse o sábado como o dia cristão.

Notas:
[1] Deixo esclarecido que aceito a plena inerrância e historicidade do Novo Testamento. Apenas não recorrerei a textos do NT para evitar uma discussão exegética, mantendo-me apenas na análise histórica extrabíblica. Aqueles que têm alguma dúvida quanto à historicidade do NT sugiro a leitura de Eta Linnermann, Crítica Histórica da Bíblia (São Paulo, Editora Cultura Cristã, 2009). Embora tenha pronto a argumentação bíblica, aqui será exposto apenas as evidências históricas.
[2] Didaquê in: Patrística (São Paulo, Editora Paulus, 1995), vol. 1, pág. 357.
[3] Inácio de Antioquia – Epístola aos Magnésios – Padres Apostólicos in: Patrística (São Paulo, Editora Paulus, 1995), vol. 1, pág. 94.
[4] Henry Bettenson, ed., Documentos da Igreja Cristã (São Paulo, ASTE, 4ªed., 2001), págs. 29-30.
[5] Carta a Diogneto – Pais Apologistas in: Patrística (São Paulo, Editora Paulus, 1995), vol. 2, pág. 21.
[6] Carta de Barnabé – Pais Apologistas in: Patrística (São Paulo, Editora Paulus, 1995), vol. 1, pág. 311.
[7] Justino de Roma, I Apologia in: Patrística (São Paulo, Editora Paulus, 2ªed., 1995), vol. 3, págs. 83-84.
[8] Sabe-se que “eram judeus que aceitavam Jesus como o Messias ao mesmo tempo em que continuavam a afirmar que Paulo era um apóstota da lei, negavam o nascimento virginal, praticavam a circuncisão, observavam o Sábado, a Páscoa e outras festividades judaicas”. Robert G. Clouse, et. al., Dois reinos (São Paulo, Editora Cultura Cristã, 2003), pág. 33.
[9] Irineu de Lião, Contra as Heresias in: Patrística (São Paulo, Editora Paulus, 2ª ed., 1995), vol. 4, pág. 108.
[10] Tertulian, On Idolatry in: Ante-Nicene Fathers, vol. 3, pág. 70 citado em G.H. Waterman, Sabbath in: The Zondervan Pictorial Encyclopedia of the Bible (Grand Rapids, Zondervan Publishing, 1977), vol. 5, pág. 187. Este pai da Igreja é conhecido por causa da sua ortodoxia trinitária. O termo “Trindade” foi cunhado por ele, e Philip Schaff concede-lhe o título de fundador do Cristianismo Latino.

 
 

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Maria entre os Santos Padres

Designamos com o nome de “Santos Padres”, Padres da Igreja” ou “Pais da Igreja”, aqueles escritores cristãos dos primeiros séculos, que se distinguiram pela exposição da doutrina cristã. Eles defenderam as verdades do Cristianismo contra as heresias que surgiram e que procuravam se infiltrar no mundo cristão do seu tempo. Na Igreja Latina, como na Oriental, apareceram nomes preeminentes, em cujos escritos se encontram os fundamentos das pregação da Igreja Primitiva. Ambrósio, Agostinho, Jerônimo, Atanásio, João Crisóstomo, etc. – são alguns desses Santos Padres que nos transmitem a fé e a vivência das primeiras gerações cristãs.

No Brasil, D. Antonio Figueiredo publicou um Curso de Teologia Patrística, em que focaliza a contribuição dos Padres da Igreja para a vida do Cristianismo primitivo. Das obras desses escritores, o autor faz emergir a Igreja, em suas estruturas e funções. A maior parte dos escritos patrísticos é formada de comentários à Sagrada Escritura.

A veneração a Nossa Senhora foi se manifestando paulatinamente. Ela foi tomando formas diferentes e crescendo na vida dos cristãos, através dos séculos. Nós não a encontramos, por exemplo, nos escritores do 2° e 3° séculos, como apareceu no século 5°, no tempo de S. Bernardo (século XII), ou em nossos dias. Mas, desde as primeiras gerações cristãs, vão surgindo depoimentos, reflexões sobre o papel de Maria na Economia da Salvação, que levaram os cristãos a prestar uma homenagem especial Àquela que foi escolhida por Deus para ser a Mãe do Verbo Encarnado.

Em dois grossos volumes, J.B. Terrien agrupou dezenas e dezenas de textos dos Santos Padres sobre “A MÃE DE DEUS E A MÃE DOS HOMENS”. Os primeiros escritores cristãos gostavam de focalizar, de modo especial, a fé e a obediência da Santíssima Virgem. Estes eram, certamente, os pontos da vida de Maria, que mais estimulavam os cristãos. Vejamos como a Virgem aparece nos escritos de alguns Padres, anteriores ao Concílio de Éfeso.

Irineu, bispo de Lião na França, morreu por volta do ano 202. Foi discípulo de Policarpo que, por sua vez, o fora do apóstolo S. João. Irineu é um escritor muito importante. Nos seus escritos, são muitos os artigos do símbolo católico, cuja apostolicidade se encontra atestada. Contra alguns hereges de sua época, levanta-se o bispo de Lião, afirmando a maternidade divina de Maria e a sua virgindade, e mostrando o plano divino, por ele chamado de “recirculatio”, em que a nova Eva, MARIA, se apresenta digna e merecedora da nossa veneração e amor. Diz Irineu: “Consequentemente a este plano, Maria Virgem nos aparece obediente, ao dizer: Eis a escrava do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra. Eva, porém, foi desobediente, embora ainda fosse virgem. Do mesmo modo que Eva, tendo Adão por esposo, desobedeceu e tornou-se causa de morte para si e para todo o gênero humano, assim também Maria, tendo um varão predestinado e, contudo, permanecendo virgem, obedeceu e tornou-se para todo o mundo causa de salvação.” (ENCHIRIDION PATRISTICUM, N° 224). São de Irineu também estas palavras: “Assim como Eva, seduzida pela palavra do maligno, para que se afastasse de Deus, pecou contra a palavra d’Este, assim Maria, evangelizada pela palavra, mereceu trazer a Deus. E se aquela desobedeceu a Deus, esta foi obediente a Ele, para que a Virgem Maria se tornasse advogada de Eva.” (ADVERSUS HAERESES L. 5, cap. 19).

Percebemos como Irineu gostava de comparar Eva com Maria, para salientar o papel de Mãe de Deus, no plano da salvação. Maria é a advogada de Eva e de todos os seus filhos. Há, nas palavras de Irineu, um certo reconhecimento a Maria, pela sua obediência, pela sua fé, pela sua fidelidade ao Senhor. Esse reconhecimento iria levar muitos a manifestá-lo em gestos e palavras de louvor e veneração.

Com expressões semelhantes, Tertuliano, no século 3, também escreveu: “Deus recuperou, por um desejo de emulação, a sua imagem e semelhança, arrebatadas pelo demônio. Em Eva, virgem, insinuou-se a palavra que gerou a morte. É também numa virgem que devia nascer o Verbo que gerasse a vida, a fim de que a humanidade, perdida pelo sexo feminino, recebesse a salvação por esse mesmo sexo. Eva creu na serpente, Maria acreditou em Gabriel. A falta cometida pela credulidade de uma foi destruída pela fé da outra.” (ENCHIRIDION, N° 358). A fé de Nossa Senhora é exaltada. Tertuliano, por assim dizer, repete o louvor que Isabel havia feito. Maria é a Mãe do Senhor da vida. Sua fé, sua plena adesão à vontade de Deus, fez dela um modelo perfeito para cristão.

Justino, apologista do século 2, no seu “Dialogus cum Tryphone”, faz este comentário: “A Virgem estremeceu de fé e de alegria, ao receber da boca do anjo a boa nova de que o Espírito de Deus desceria ao seu seio, de que a virtude do Altíssimo a cobriria com a sua sombra, e que, em conseqüência, o Santo que nasceria dela seria o Filho de Deus. Sua resposta foi: “Faça-se em mim segundo a tua palavra.” Dela nasceu Aquele que foi predito pelas Escrituras, Aquele por meio do qual Deus esmagou a serpente com os anjos e os homens degradados, e livrou da morte os pecadores que, crendo n’Ele, fizeram penitência de seus crimes.” (D. Ruiz Bueno – PADRES APOLOGISTAS GREGOS, séc. II, pág.479).

Como Mãe do Salvador do mundo é que Maria merece um destaque todo especial, na Igreja de Cristo. Sendo a Mãe de Jesus, ela se tornou a fonte de alegria para toda a humanidade. “Eis que vos anuncio uma grande alegria: nasceu-vos hoje um Salvador que ó Cristo Senhor.” (Lc. 2, 10-11).

Orígenes, outro escritor do século 3 da era cristã, considerado o “engenho mais universal e o varão mais douto da época ante-nicena”, comentando o primeiro capítulo de Mateus, escreveu: “Esta virgem Maria é chamada mãe do Filho único de Deus. Digna mãe de um digno Filho; mãe imaculada de um Filho santo e imaculado; mãe única de um Filho único. Tomai a Maria como um trono celeste que se vos dá a guardar, diz o anjo a José, como todas as riquezas da divindade, como a plenitude da santidade, como uma justiça perfeita. Tomai-a e guardai-a, como residência do Filho único de Deus, como seu templo honorável, como o dom de Deus, como a morada imaculada do rea1 e celeste esposo.” (Apud. A. Nicolas – LA VIERGE MARIE ET LE PLAN DIVIN, tomo 4° págs.l03-104).

A partir do quarto século, os pronunciamentos e sermões dos Santos Padres sobre Nossa Senhora se multiplicam. Ela foi proclamada “BEM-AVENTURADA”, em todos os recantos do mundo cristão. 0 entusiasmo por aquela que é o modelo fiel do verdadeiro discípulo de Jesus Cristo cresceu de modo impressionante. Nas catacumbas, nas artes, nos templos, na liturgia, na pregação, foi sempre mencionada com muito amor e com muita gratidão, pois, afinal, ela é a Mãe de Nosso Senhor. (Lc. 1, 43). 0 culto Mariano foi tomando dimensões sempre maiores e bem expressivas. Se abusos houve ou aparecem ainda hoje, a Igreja procurou sempre corrigi-los. A atitude de alguns fiéis menos esclarecidos e afastados da orientação da Igreja não significa a ilegitimidade da devoção à Virgem Santíssima. A profecia bíblica “Todas as gerações me chamar-se-ão Bem-aventurada” vem se realizando através dos séculos.

As coletâneas de Barbier (4 volumes), de Terrien (2 volumes) e outros estudos que reuniram tópicos dos Santos Padres sobre a Mãe de Jesus, são mananciais onde encontramos o pensamento e o afeto das primeiras gerações cristãs para com a Mãe do Senhor.

 
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Publicado por em 13/09/2013 em Mariologia, Patrística

 

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Os Padres Capadócios

Se na Antiguidade alguém quisesse fazer uma viagem por terra de Alexandria para Constantinopla, a pé ou a cavalo, o único meio seria o de atravessar o Egito e a Terra Santa, usando um caminho conhecido como Via Marítima, avançando em seguida para península Anatólica[1] em direção à capital. Exatamente por estar situada na península Anatólica, a Capadócia era uma das regiões mais importantes da Antiguidade, pois em seu território passava o melhor acesso da Ásia à capital do Império (Constantinopla).

Na época que compreendeu o intervalo entre os concílios de Niceia (325) e o de Constantinopla (381), três homens importantes viveram nessa região: Basílio, chamado de Magno ou o Grande; Gregório, seu irmão (mais tardiamente chamado de Nissa); Gregório, oriundo de Nazianzo, chamado pelos orientais de o Teólogo. Basílio e Gregório de Nazianzo concluíram seus estudos em Atenas, e voltando para a terra natal de Basílio, decidiram fazer uma experiência monástica[2] na região do Ponto[3].

A Igreja vivia um conflito entre a ortodoxia e o arianismo, que já havia sido condenado pelo concílio de Niceia. Os três capadócios, santos homens, começaram a trabalhar pela Igreja, especialmente para a manutenção da fé verdadeira. Basílio e Gregório abandonaram a vida monástica. Basílio foi eleito bispo para a Cesareia da Capadócia, começando a exercer um ministério que primava pela defesa da fé e que acabava influenciando os bispos das dioceses mais próximas no combate à heresia ariana.

O imperador oriental, que era ariano, viu que a Capadócia estava se tornando um foco de fé trinitária e resolveu dividi-la em duas partes, diminuindo a influência de Basílio sobre as diversas dioceses da Província, nomeando bispos arianos para as novas dioceses criadas. Basílio, porém, influencia na escolha dos novos bispos, ajudando seus amigos trinitários a serem eleitos para as novas dioceses. Mais tardiamente, foi por meio de uma articulação de Basílio que Gregório de Nazianzo foi designado para ser Bispo de Constantinopla, mesmo já havendo por lá um bispo ariano. Gregório se reunia com os fiéis católicos fora da cidade.

O maior dos capadócios, Basílio, foi um grande bispo, famoso pela sua espiritualidade e caridade, por ter escrito obras teológicas importantes, sendo também o grande responsável pela mudança na argumentação sobre o conflito que começava a surgir acerca da divindade do Espírito Santo. São Basílio percebeu que o melhor caminho para se enfrentar o arianismo seria o de buscar provar a divindade do Espírito Santo, para que automaticamente se provasse a divindade de Jesus. Os arianos, de alguma forma, eram subordinacionistas, pois acreditavam que a Trindade tivesse uma ordem hierárquica, sendo que o Filho e Espírito Santo não eram Deus, mas criaturas inferiores. Segundo Basílio, se o Espírito que era considerado o menor entre as três pessoas, fosse reconhecido como Deus, consubstancial ao Pai, automaticamente o Filho seria reconhecido como Deus.

Escreveu, neste intuito, um tratado sobre o Espírito Santo. Foi o responsável por incluir uma aclamação muito conhecida no meio católico: “Glória ao Pai e ao Filho e ao Espírito Santo”. Antes de Basílio, a saudação era dirigida ao Pai, pelo Filho no Espírito Santo, como ainda é costumeiramente usada nas celebrações litúrgicas. Porém, naquele momento, a expressão deixava espaço para uma impressão de que o Filho e o Espírito Santo eram menores do que o Pai. Basílio ensinou a rezar ao Pai “e” ao Filho “e” ao Espírito Santo. O “e” enfatizava a igualdade da divindade, de dignidade das 3 pessoas da Trindade.

Basílio também ensinou algumas coisas importantes sobre a Santa Tradição da Igreja:

“Entre as verdades conservadas e anunciadas na Igreja, umas nós as recebemos por escrito e outras nos foram transmitidas nos mistérios, pela Tradição apostólica. Ambas as formas são igualmente válidas relativamente à piedade (…) De fato, se tentássemos rejeitar os costumes não escritos como desprovidos de maior valor, prejudicaríamos imperceptivelmente o evangelho, em questões essenciais. Antes transformaríamos o Evangelho em palavras ocas. Por exemplo (para relembrar o que vem primeiro e é o mais comum), quem ensinou por escrito a assinalar com o sinal da cruz aqueles que esperam em nosso Senhor Jesus Cristo? Que passagem da Escritura nos instruiu a nos voltarmos para o Oriente durante a oração? Qual dos santos nos deixou por escrito as palavras da ‘epiclese’ no momento da consagração do pão na Eucaristia e do cálice da bênção? Não nos bastam as palavras referidas pelo Apóstolo e pelo Evangelho; antes e depois proferimos outras, recebidas do magistério oral, por terem grande importância para o mistério”. (Tratado sobre o Espírito Santo capítulo 27, 66, Paulus, 168.).

Outro padre capadócio de grande importância foi Gregório de Nazianzo. Não foi bispo de Nazianzo, mas sim de Sásima. Não conseguindo tomar posse em sua diocese, permaneceu por certo período como bispo auxiliar de seu pai, também chamado Gregório, este sim bispo de Nazianzo. Gregório, o Filho, não tinha muita vocação pastoral. Por necessidade, foi chamado para o episcopado. Era muito santo, radical na sua conversão e exatamente por isso tinha uma dificuldade de convívio muito grande com quem não vivia a radicalidade da conversão. Foi, mais tarde, indicado por Basílio para a Sé de Constantinopla, sendo um bispo contra o imperador, pois, como dito, já havia um bispo ariano na cidade.

O imperador ariano, Valente, morreu numa guerra e seu sucessor, Teodósio, mesmo longe de Constantinopla, enviou um recado a todo o império de que não iria tolerar o arianismo e que sua fé era nicena. Assim que chegou à capital do Império[4], querendo extinguir a heresia de seu território, convocou um Concílio a ser realizado no ano de 381[5]. Teodósio queria resolver definitivamente a disputa com os arianos, assim como a questão dos pneumatômacos[6].

Gregório de Nazianzo, já entronizado na sé de Constantinopla[7], e Gregório de Nissa participaram do Concílio. O símbolo[8] dos 318 padres nicenos foi retomado. O Concílio condenou os pneumatômacos (também conhecidos como macedonianos) e outra heresia chamada de sabelianismo ou modalismo[9]. Por fim, declarou a divindade do Espírito Santo, condenando definitivamente os pneumatômacos e também o semiarianismo.

O Concílio, porém, teve suas fraquezas. Gregório de Nazianzo insistiu para que houvesse uma definição clara de que o Espírito Santo era consubstancial ao Pai, afirmando que já que o Filho foi declarado consubstancial ao Pai, não havia razão para não se fazer o mesmo com relação ao Espírito Santo.

Os padres conciliares não quiseram usar o mesmo termo de Niceia (consubstancial, ὁμοούσιος) com medo de que se repetissem os mesmos conflitos do primeiro Concílio. Então, fizeram uma atestação da divindade do Espírito Santo de forma “fraca”, dizendo que o “Espírito Santo é Senhor que dá a vida, que procede do Pai e com o Pai e o Filho é adorado e glorificado, ele que falou pelos profetas”[10]. Usaram somente termos bíblicos para não gerar novas discussões. Afirmaram que o Espírito Santo é “Senhor”, ou seja, que é Deus; que o Espírito Santo “dá a vida”, isto é, que é criador; que o Espírito “procede do Pai”, portanto é consubstancial a ele; que “com o Pai e o Filho é adorado e glorificado”, ou seja, que o Espírito Santo está no mesmo nível do Pai e do Filho. A recepção[11] do Concílio, ao contrário do esperado, foi forte. A Igreja recebeu o concílio constantinopolitano de forma católica.

Constantinopla não afirmou claramente, como visto, a divindade do Espírito Santo. O texto é mais fraco do que Gregório previa. Revoltado, o bispo renunciou à sua Sé em represália à covardia dos padres. Para evitar um vexame maior, os padres conciliares apelaram a um cânone do Concílio de Niceia que dizia que nenhum bispo poderia ser transferido de sua diocese[12] , depondo Gregório de Constantinopla. Aprovaram o credo sem Gregório de Nazianzo.

Um autor resumiu a impressão causada pelos padres conciliares em Gregório de Nazianzo[13].

Não há dúvida que os discursos e as poesias de Gregório de Nazianzo são abundantes em ferozes juízos sobre o episcopado. Não acontece todos os dias que um bispo destinado ao título de Doutor da Igreja universal trate os seus irmãos de “sábios improvisados” ou de “teólogos fabricados com a eleição”, como faz Gregório nas primeiras linhas do discurso 20, no qual os acusa até mesmo de “vomitar sobre os altares o dinheiro dos pobres”. É claro que não se pode esperar de um escritor daquela época que faça retratos individuais nem que mencione nomes.

Melécio de Antioquia e Pedro de Alexandria são os únicos bispos indicados pessoalmente, mas de passagem. É o perfil geral do episcopado que é descrito em grandes e rudes traços. Ter-se-ia muito a dizer deste assunto sobre o qual a causticidade de nosso autor é quase que sem limites. O episcopado oriental, que Gregório descobriu justamente em Constantinopla, parece-lhe composto de notáveis, no mais das vezes dotados de capacidades administrativas, mas que alcançaram as responsabilidades eclesiais sem uma mínima preparação espiritual e sem formação religiosa. Estes prelados respiram o espírito do mundo: muitos deles, autoritários e orgulhosos, conservaram o costume de luxo e de ostentação.

Outros, que chegaram ávidos por dinheiro e poder, grosseiros e sem cultura, abandonaram há pouco o arado e a forja, carregando ainda no próprio corpo as marcas infames da escravidão e se enriqueceram de forma desonesta. Tanto de uns como dos outros não se pode esperar nada de bom. E já que o concílio foi convocado pelo imperador Teodoro para definir a fé da Igreja, é necessário que se saiba que tais bispos não têm outra convicção que a que lhes é sugerida pelo poder. Estão todos prontos a seguir a palavra de ordem do momento, seja qual ela for, e de mudá-la sem a menor dificuldade se o vento soprar em uma outra direção. Aristocratas ou parvenus (novos-ricos), os membros do segundo concílio ecumênico são, aos olhos de seu presidente, pessoas volúveis.

Encontrar provas do que acabamos de dizer não é uma dificuldade.

Se Máximo é invejoso, é porque se assemelha à maioria dos bispos:

Neste meio tempo contraiu também uma doença típica de que se senta no alto; uma doença que deriva da original: um implacável ciúme[14]. A respeito dos bispos egípcios que apoiavam Máximo, Gregório não hesita em falar nestes termos:

Depois vieram aqueles que haviam enviado os dignos estrategistas de uma tal falange, para usar um termo mais adequado para aqueles cães, digo, pastores[15].

A respeito dos membros do concílio reunidos em assembleia, dirá sem meios termos:

E eles começaram a grasnar de suas cadeiras; pareciam uma reunião de gralhas com suas roupas vistosas, uma bagunça de moleques, …, turbilhão que carrega consigo o pó levantado pelo vento. Gente à qual pessoa alguma que fosse madura e temente a Deus teria concedido a palavra, que cacarejavam de forma caótica ou que se apresentam improvisamente como um enxame de vespas[16].

Ou ainda:

Os que presidem o povo e o instruem, os dispensadores do Espírito que do alto de suas sedes proferem a palavra da salvação; os que proclamam em todos os lugares e constantemente a paz com a boca sempre aberta no meio da igreja, se arremessaram uns contra os outros com rancor e gritando como loucos, recrutando aliados, acusando e sendo acusados, prodigando-se em favores e esgueirando-se dos ataques por meio de seu bailado, injuriando aqueles sobre os quais foram os primeiros a impor as mãos; pelo desejo desenfreado de poder, e de poder pessoal – como gritar estas coisas, com quais palavras? –, tornaram-se odiosos ao mundo inteiro[17].

Além do mais, Gregório reclama de ter sido deixado de lado pela anarquia que domina as sessões:

“Mas, diga-me, não eras tu aquele que antes aprovava estas coisas? Quem deveria exercer a autoridade durante as sessões?” As sessões eram controladas por quem quer que conseguisse fazê-lo (hesito em repetir coisas das quais me envergonho). Todos mandavam, ou seja, ninguém; pois a autoridade que deriva do número é anarquia[18].

Mas há coisas piores:

Deixarei que se aproxime de mim esta horda de traficantes de Cristo somente quando conseguirem conciliar a fétida lama com a fragrância da pura mirra[19].

Estas condenações não são fruto de um momento de irritação devido a uma experiência infeliz: outras poesias são marcadas pela mesma veemência.

Entre eles, alguns são filhos de contadores do tesouro, e não têm outra finalidade se não a falcatrua; outros vieram diretamente deste ofício…; outros deixaram o arado e são queimados pelo sol; outros deixaram a enxada e a picareta que usavam todos os dias; outros ainda, que haviam deixado os remos ou o exército, emanam o fedor de porão dos navios e são cheios de cicatrizes… e outros têm ainda na pele o suor do trabalho feito junto ao fogo.

Esta gentalha de chicote e moinho… se incha e, manipulando o povo com a persuasão e com o medo, aspira às alturas como certos escaravelhos que se dirigem para o céu voando.

O caminho que seguem não é o do esterco e não sabem virar a cabeça para trás e para frente: acreditam ser mestres insuperáveis das coisas mais elevadas e proferem bobagens, não sabem nem mesmos quantos pés e quantas mãos possuem. Tudo isto não é desprezível e indigno de um bispo?[20]

Um se orgulha de sua origem nobre, outro de sua capacidade oratória; um outro da sua riqueza e um outro ainda de sua família. Os que nada têm, para causar admiração, se fazem conhecer pelos seus vícios[21].

Não sendo fácil encontrar pedras preciosas e já que nem todos os lugares produzem aromas, que cavalos mancos são abundantes no mercado e que os cavalos de raça são criados nas casas dos ricos, certamente não será fácil encontrar um prelado que não se tenha empenhado em sê-lo e que não tenha improvisado a própria dignidade[22].

Mas tu que eras cobrador de impostos ou que exercias algum cargo modesto como funcionário, dize-me, como me explicas o fato que eras pobre e hoje és mais rico do que Ciro o Medo, de Creso ou de Midas? E como te tornaste proprietário de uma casa coberta de lágrimas, como obtiveste acesso ao púlpito e te tornaste mestre da cátedra? Agora guardas todos os tesouros que acumulaste com a força e fazes pesar o teu domínio até mesmo sobre os mistérios de Deus[23].

Na poesia II, I, 13, intitulada Aos bispos, pode-se ler, por exemplo:

Vinde aqui todos vós que cavalgais o vício, refugo do gênero humano, porcos, vós que vos desafogais, despudorados, arrogantes, alcoolizados, vagabundos, bufões, efeminados, falsos, e insolentes, prontos a qualquer perjúrio, sanguessugas do povo, vós que alongais vossas mãos terríveis sobre os bens dos outros, invejosos, espertalhões, pérfidos, aduladores desavergonhados dos poderosos e leões ferozes com os humildes, personagens equívocos, oportunistas sem escrúpulos. Vinde aqui com confiança: há um trono enorme preparado para todos.

É claro que haveria muito a ser dito sobre estes acentos proféticos e vingativos. Eles demonstram claramente que o presidente do segundo concílio ecumênico não tinha estima pela maioria de seus colegas.

Além dos desvios morais do clero que ele estigmatiza desta forma, o que se poderia criticar sobre os trabalhos do concílio? Gregório sempre professou um grande respeito pela obra do concílio de Nicéia, mas emerge claramente que em geral as assembleias de bispos não lhe inspiravam qualquer simpatia. Durante o verão de 382, escreverá a Procópio:

Eis as minhas disposições, se tenho que escrever-te a verdade: fugir de toda assembleia de bispos, já que não vi concílio algum ter um êxito positivo e por fim aos males ao invés de aumentá-los[24].

Assim, parece que a causa foi identificada: as disputas pessoais que agitaram o concílio revelaram a mediocridade da maioria dos seus membros e Gregório preferiu evitar complicações apresentando sua demissão.

O terceiro padre capadócio de grande renome, São Gregório de Nissa, é bem diferente de seu irmão São Basílio. Não estudou em Atenas, mas foi formado pelo próprio irmão em casa. Quando Basílio e Gregório de Nazianzo decidiram fazer uma experiência monástica, Gregório de Nissa não quis viver como monge. Casou-se e depois passou a se lamentar de sua decisão. Mesmo não sendo celibatário, foi o único dos capadócios a escrever um tratado sobre a vida celibatária.

Gregório de Nissa não era um bom administrador e seus inimigos arianos usaram essa fragilidade para que fosse deposto de sua sé. Era mais moderado do que os dois outros capadócios. Durante o Concílio de Constantinopla, entrou em uma negociação com o partido adversário, dos semiarianos (que tentavam conciliar os ortodoxos e os arianos radicais com a proposição de uma fórmula intermediária, acrescentando um iota à palavra homoousios, dando origem ao termo homoiousios, isto é, semelhante). Através da diplomacia, Gregório de Nissa dialogou com os semiarianos e preparou o caminho para o Concílio de Constatinopla.

Após a morte do irmão, Gregório de Nissa aproximou-se, em termos de sensibilidade, de Orígenes, especialmente no que diz respeito ao seu método exegético, místico-alegórico. Basílio, ao contrário, escrevia críticas bem duras a Orígenes.

Dos três padres capadócios, Gregório de Nissa foi o mais místico. Os outros dois achavam o caminho místico mais próximo da heresia. Como se pode notar, os três padres têm características bastante diversas: Basílio Magno como já apresentado, era conhecido como teólogo e especialmente como pastor; Gregório de Nazianzo foi célebre por sua teologia (juntamente com o Apóstolo João é chamado de Teólogo pelos orientais). Cada um deles, através de seus dons, e deixando com que a graça e o Espírito se utilizassem deles como instrumentos para anunciar a fé verdadeira, deram um testemunho de que verdadeiramente, na Igreja de Cristo, um pouco de fermento leveda toda a massa. A partir destes três homens, e de sua fidelidade à fé ortodoxa, Deus espalhou novamente pelo mundo, a verdadeira doutrina católica.

Referências

  1. Atualmente Turquia
  2. Macrina, irmã de Basílio, também viveu essa experiência monástica.
  3. Norte da Turquia.
  4. Constantinopla, a nova sé imperial, foi inaugurada em 11 de maio de 330.
  5. Segundo informações do Concílio de Calcedônia, 150 bispos estiveram no Concílio de Constantinopla.
  6. Hereges que questionavam a divindade do Espírito Santo.
  7. No áudio, é dito que foi entronizado em Santa Sofia.
  8. A definição conciliar de Niceia é conhecida como Símbolo dos 318 padres.
  9. Heresia que diz que Deus é um só, e que usa máscaras diferentes para se relacionar com os homens. Afirma que não existe a Trindade, mas sim três modos de um mesmo Deus. Também é conhecido como sabelianismo por causa de Sabélio, condenado pelo papa Calisto em 220. O sabelianismo, originalmente, afirmava que quem morreu na cruz foi Deus, mas como dizia que Deus é um só, deu origem a mais uma heresia, o patripassionismo, pois para eles, o próprio Pai morreu na cruz. Em suma, os pneumatômacos foram condenados por distinguirem demais as pessoas em Deus; os sabelianismos por identificar demais, reduzindo a Trindade a uma única pessoa que se manifesta em três máscaras diferentes.
  10. O concílio de Constantinopla não usou a expressão “procede do Pai e do Filho”, também conhecida como Filioque. O Filioque é um acréscimo da época carolíngia, ou seja, do Sacro Império de Carlos Magno.
  11. Receptio, palavra latina que designa o modo como um Concílio Ecumênico é recebido pela Igreja. Se não há recepção de um Concílio por parte da Igreja, ele é herético. A Igreja recebeu o texto de forma católica. Como exemplo de receptio pode-se remeter à experiência do cardeal Newman, que preferiu esperar a recepção da definição da infalibilidade Papal decretada pelo concílio Vaticano I para então tomar partido.
  12. Cânon 15: “Διὰ τὸν πολὺν τάραχον, καὶ τὰς στάσεις τὰς γινομένας, ἔδοξε παντάπασι περιαιρεθῆναι τὴν συνήθειαν, τὴν παρὰ τὸν ἀποοτολικὸν κανόνα εὑρεθεῖσαν ἔν τισι μέρεσιν, ὥστε ἀπὸ πόλεως εἰς πόλιν μὴ μεταβαίνειν, μήτε ἐπίσκοπον, μήτε πρεσβύτερον, μήτε διάκονον. Εἰ δέ τις, μετὰ τὸν τῆς ἁγίας καὶ μεγάλης συνόδου ὅρόν, τοιούτῳ τινὶ ἐπιχειρήσειεν, ἢ ἐπιδοίη ἑαυτὸν πράγματι τοιούτῳ, ἀκυρωθήσεται ἐξ ἅπαντος τὸ κατασκεύασμα, καὶ ἀποκατασταθήσεται τῇ ἐκκλησίᾳ, ἐν ᾗ ὁ ἐπίσκοπος, ἢ ὁ πρεσβύτερος ἐχειροτονήθη”. Versão latina: Propter multam perturbationem et seditiones quae fiunt placuit consuetudinem omnimodis amputari, quae praeter regulam in quibusdam partibus videtur admissa: ita ut de civitate ad civitatem non episcopus, non presbyter, non diaconus transferatur.Si quis vero post definitionem sancti et magni concilii tale quid agere temptaverit et se huiusce modi manciparit, hoc factum prorsus in irritum deducatur et restituatur ecclesiae, cui fuit episcopus, presbyter aut diaconus ordinatus. (Tradução livre: Devido aos muitos tumultos e agitações que estão acontecendo, parece bem que seja absolutamente suprimido o costume, que em algumas partes ganhou forças, contra as normas eclesiásticas, de modo que nem bispos, nem presbíteros e nem diáconos se transfiram de uma cidade para outra. E se alguém, depois desta disposição do santo e grande concílio, fizesse qualquer coisa de semelhante, e seguisse o antigo costume, essa sua transferência seja considerada nula, e ele deverá retornar à Igreja para a qual foi eleito bispo, presbítero ou diácono).
  13. BERNARDI, Jean. Gregorio di Nazianzo: teologo e poeta nell’età d’oro della patristica. Roma, Città Nuova, 1997, p.216-221.
  14. Autob., vv.815-817.
  15. Ibid.,vv.845-847.
  16. Ibid.,vv.1680-1687.
  17. Ibid.,vv.1546-1558.
  18. Ibid.,vv. 1739-1744.
  19. Ibid.,vv.1756-1758.
  20. Ibid.,vv.154-176. Sobre estas figuras de parvenus, veja p. 324, nota 36.
  21. Ibid.,vv.345-348.
  22. Ibid.,vv.389-394.
  23. Ibid.,vv.432-439.
  24. Carta. 130. O mesmo juízo é formulado em Cm. I, I, 17, vv.91-94F.
  25. Fonte: Padre Paulo Ricardo
 
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Publicado por em 16/11/2012 em Patrística

 

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A Igreja dos Mártires

Apesar de ser uma realidade desconhecida para muitos, o martírio não é algo que faz parte do passado da Igreja. No século XX foram martirizados mais cristãos do que a soma de todas as vítimas de perseguições religiosas nos 19 séculos anteriores da história da Igreja. A grande maioria dos mártires atuais deu a sua vida em países que enfrentaram revoluções de cunho marxista (tais como Espanha[1], Rússia[2], China), ou foram mortos pelo nazismo ou em países muçulmanos.

Apesar de ser uma realidade desconhecida para muitos, o martírio não é algo que faz parte do passado da Igreja. No século XX foram martirizados mais cristãos do que a soma de todas as vítimas de perseguições religiosas nos 19 séculos anteriores da história da Igreja. A grande maioria dos mártires atuais deu a sua vida em países que enfrentaram revoluções de cunho marxista (tais como Espanha[1], Rússia[2], China), ou foram mortos pelo nazismo ou em países muçulmanos.

Embora a Igreja continue tendo muitos mártires, seu grande número é desconhecido por praticamente todo o mundo católico, pois há um silêncio completo dos meios de comunicação social acerca da situação na qual estes cristãos se encontram. Na China, por exemplo, ainda hoje, muitas e muitas pessoas estão nas prisões pelo simples fato de serem cristãs.

No século XXI a perseguição continua. E a única razão para justificar tal perseguição é a fidelidade ao papa, à fé, à doutrina da Igreja. Porém, é quase impossível, para o mundo contemporâneo, entender ou aceitar a espiritualidade do martírio. Para que seja possível uma redescoberta da beleza de se testemunhar a fé com a própria vida, nada melhor do que lançar um olhar para a espiritualidade original do martírio e alimentar uma chama que precisa arder no coração de cada cristão: a disponibilidade para dar a própria vida pela fidelidade ao nome do Senhor Jesus. Ser mártir é testemunhar a fé até o fim.

Será que no Ocidente, marcado por uma corrosão dos corações e da vontade, fruto de um enorme relativismo, ainda hoje existe a possibilidade de o martírio ser vivenciado como um dom? Qual pessoa seria capaz de não trair a sua fé, tendo em vista que a palavra humana parece ter perdido completamente seu valor e sua importância?

Para explicar melhor a espiritualidade do martírio, como já acenado, o caminho mais seguro é olhar para o início da Igreja. Tudo começa com o testemunho de dois apóstolos que são chamados de fundamentos da Igreja: São Pedro e São Paulo. Como já é do conhecimento da grande maioria dos cristãos, os dois testemunharam a Cristo com o derramamento do próprio sangue em Roma. No caso de São Pedro, um dos sinais de que atestam tal acontecimento é o fato de que a Basílica de São Pedro, coração da Igreja, foi construída no sopé de uma colina chamada Vaticano, exatamente sobre o túmulo que conserva os despojos do Príncipe dos apóstolos.

O Vaticano está localizado numa região conhecida pelo vinho ruim que produzia e por ser um local inóspito, afastado do centro da cidade, habitat de lobos e ladrões. Nero, porém, resolveu fazer ali um circo, isto é, um local para corridas de cavalos, batalhas navais, lutas de gladiadores. O circo construído por Nero era oval e tinha no seu centro o obelisco de Heliópolis[3], com 300 toneladas, e ficava à esquerda da atual Basílica de São Pedro. São Pedro foi martirizado neste circo e seus restos foram sepultados na Via Aurélia, numa das ruas que passavam na lateral do circo, no sopé da colina chamada Vaticano.

Quando veio a época Constantiniana, o imperador mandou construir uma basílica sobre o túmulo de São Pedro. O altar do papa, ainda hoje, está exatamente acima do túmulo do apóstolo. O trabalho de Constantino para a realização da construção da Basílica testemunha a favor da veracidade dessa informação. Os cristãos tinham certeza absoluta de que ali era o túmulo de Pedro. Eusébio de Cesareia relata testemunhos de que, na via Aurélia se encontrava o túmulo de Pedro e que o túmulo de São Paulo ficava na via Ostiense.

“Conta-se que sob o reinado [de Nero], Paulo foi decapitado em Roma. E ali igualmente Pedro foi crucificado. Confirmam tal asserção os nomes de Pedro e de Paulo, até hoje atribuídos aos cemitérios da cidade. De igual modo assegura-o um eclesiástico, de nome Caio, que viveu no tempo de Zeferino, bispo de Roma. Ao discutir por escrito com Probo, chefe da seita dos catafrígios, fala acerca dos lugares onde foram depositados os despojos sagrados dos citados apóstolos, o seguinte: ‘Eu, porém, posso mostrar o troféu dos Apóstolos. Se, pois, queres ir ao Vaticano ou à via Ostiense, encontrarás os troféus dos fundadores desta Igreja'”.[4]

Mas não só do testemunho do martírio dos dois principais apóstolos a Igreja encontrou forças para vivenciar o martírio. São Policarpo, que segundo Tertuliano foi ordenado bispo pelo próprio apóstolo João, tem seu martírio narrado num dos relatos mais conhecidos pelos cristãos antigos. O texto diz o seguinte:

“O diabo maquinava muitas coisas contra eles; graças a Deus, porém, não prevaleceu contra nenhum deles (…) Numa sexta-feira, pela hora da ceia, guardas e cavaleiros, armados como de costume, tomaram consigo o escravo e partiram, como se estivessem perseguindo um bandido. Chegando pela noite, encontraram-no deitado num pequeno quarto do piso superior. Ele podia ainda fugir daí para outro lugar, mas não quis, e disse: ‘Seja feita a vontade de Deus’. Ouvindo que tinham chegado, ele desceu e conversou com eles, que ficaram espantados com a sua idade veneranda, com a sua calma, e com tanta preocupação por capturar um homem tão velho. Ele imediatamente mandou que lhes dessem de comer e beber à vontade e pediu que lhe concedessem uma hora para rezar tranquilamente. E lhe concederam. Então ele, de pé, começou a rezar, tão repleto da graça de Deus, que por duas horas ninguém pôde interrompê-lo. Os que o ouviam ficaram espantados, e muitos se arrependeram de ter vindo prender um velho tão santo.

Quando por fim terminou de rezar, lembrou-se de todos aqueles que tinha conhecido, pequenos e grandes, ilustres ou obscuros, e de toda a Igreja Católica espalhada por toda a terra. Chegando a hora de partir, fizeram-no montar sobre um jumento e o levaram para a cidade. Era o dia do grande sábado. Herodes, o chefe da policia, e seu pai Nicetas foram até ele. Fizeram-no subir ao seu carro e, sentando-se ao seu lado, procuravam persuadi-lo dizendo: ‘que mal há em dizer que César é Senhor, oferecer sacrifícios e fazer tudo o mais para salvar-se?’ De início, ele nada respondeu. Como insistissem, ele falou: ‘Não farei o que vós estais me aconselhando’. Não conseguindo persuadi-lo, lançaram-lhe todo tipo de injúrias, e o fizeram descer do carro tão apressadamente que ele se feriu na parte da frente da perna. Sem se voltar, como se nada tivesse acontecido, ele caminhou alegremente em direção ao estádio. Aí o tumulto era tão grande que ninguém conseguia escutar ninguém.

Quando Policarpo entrou no estádio, veio do céu uma voz, dizendo: ‘sê forte, Policarpo! Sê homem!’ Ninguém viu quem tinha falado, mas alguns dos nossos que estavam presentes ouviram a voz. Finalmente o fizeram entrar e, quando souberam que Policarpo fora preso, levantou-se grande tumulto. Levado até o procônsul, este lhe perguntou se era Policarpo. Respondeu que sim. E o procônsul procurava fazê-lo renegar, dizendo: ‘Pensa na tua idade’, e tudo o mais que se costuma dizer, como: ‘Jura pela fortuna de César! Muda teu modo de pensar e diz: ‘Abaixo os ateus!” Policarpo, contudo, olhava severamente toda a multidão de pagãos cruéis no estádio, fez um gesto com a mão, suspirou, elevou os olhos e disse: ‘Abaixo os ateus!’ O chefe da polícia insistia: ‘Jura, e eu te liberto. Amaldiçoa o Cristo!’ Policarpo respondeu: ‘Eu o sirvo há oitenta e seis anos, e ele não me fez nenhum mal. Como poderia blasfemar o meu rei que me salvou?’.

Ele continuava a insistir, dizendo: ‘Jura pela fortuna de César!’ Policarpo respondeu: ‘Se tu pensas que vou jurar pela fortuna de César, como dizes, escuta claramente: eu sou cristão. Se queres aprender a doutrina do cristianismo, concede-me um dia e escuta’. O procônsul respondeu: ‘Convence o povo!’ Policarpo replicou: ‘A ti considero digno de escutar a explicação. Com efeito, aprendemos a tratar as autoridades e os poderes estabelecidos por Deus com o respeito devido, contanto que isso não nos prejudique. Quanto a esses outros, eu não os considero dignos, para me defender diante deles’.

O procônsul disse: ‘Eu tenho feras, e te entregarei a elas, se não mudares de ideia’. Eu disse: ‘Pode chamá-las. Para nós, é impossível mudar de ideia, a fim de passar do mal à justiça’. O procônsul insistiu: ‘Já que não desprezas as feras, eu te farei queimar no fogo, se não mudares de ideia’. Policarpo respondeu-lhe: ‘Tudo me ameaças com um fogo que queima por um momento, e pouco depois se apaga, porque ignoras o fogo do julgamento futuro e do suplício eterno, reservado aos ímpios. Mas por que tardar? Vai, e faze o que queres’.

Dizendo isso e tantas outras coisas, ele permanecia cheio de força e alegria, e seu rosto estava repleto de graça. Ele não só não se deixou abater pelas ameaças que lhe eram dirigidas, mas o próprio procônsul ficou estupefato e mandou seu arauto ao meio do estádio para anunciar três vezes: ‘Policarpo se declarou cristão!’ A essas palavras do arauto, toda a multidão de pagãos e judeus moradores de Esmirna, com furor incontido, começou a gritar: ‘Eis o mestre da Ásia, o pai dos cristãos, o destruidor de nossos deuses! É ele que ensina muita gente a não sacrificar e a não adorar.’ Dizendo isso, gritavam e pediam ao asiarca Filipe que lançasse um leão contra Policarpo. Este respondeu que não lhe era lícito, pois os combates de feras já haviam terminado. Então unânimes se puseram a gritar que Policarpo fosse queimado vivo. Devia cumprir-se a visão que lhe fora mostrada: enquanto rezava, ele tinha visto o travesseiro pegando fogo, e dissera profeticamente aos fiéis que estavam com ele: ‘Devo ser queimado vivo’.

Então, as coisas caminharam rapidamente, mais depressa do que se pode dizê-las. Imediatamente a multidão começou a recolher a lenha e feixes tirados das oficinas e termas. Sobretudo os judeus se deram a isso com mais zelo, segundo o costume deles. Quando a pira ficou pronta, o próprio Policarpo se despiu, desamarrou o cinto, e ele mesmo tirou o calçado. Ele nunca fizera isso antes, porque sempre cada um dos fiéis se apressava a ser o primeiro a tocar-lhe o corpo; mesmo antes do martírio, ele já fora constantemente venerado pela sua santidade de vida. Imediatamente colocaram em torno dele o material preparado para a pira. Como queriam pregá-lo, ele disse: ‘Deixai-me assim. Aquele que me concede força para suportar o fogo, dar-me-á força para permanecer imóvel na fogueira, também sem a proteção dos vossos pregos’.

Então não o pregaram, mas o amarraram. Com as mãos amarradas atrás das costas, ele parecia um cordeiro escolhido de grande rebanho para o sacrifício, holocausto agradável preparado para Deus. Erguendo os olhos ao céu, disse: ‘Senhor, Deus todo-poderoso, Pai de teu Filho amado e bendito, Jesus Cristo, pelo qual recebemos o conhecimento de teu nome, Deus dos anjos, dos poderes, de toda a criação e de toda a geração de justos que vivem na tua presença! Eu te bendigo por me teres julgado digno deste dia e desta hora, de tomar parte entre os mártires, e do Cálice de teu Cristo, para a ressurreição na vida eterna da alma e do corpo, na incorruptibilidade do Espírito Santo. Com eles, possa eu hoje ser admitido à tua presença como sacrifício gordo e agradável, como tu preparaste e manifestaste de antemão, e como realizaste, ó Deus, sem mentira e veraz. Por isso e por todas as outras coisas, eu te louvo, te bendigo, te glorifico, pelo eterno e celestial sacerdote Jesus Cristo, teu Filho amado, pelo qual seja dada glória a ti, com ele e o Espírito, agora e pelos séculos futuros. Amém’.

Quando ele ergueu o seu Amém e terminou sua oração, os homens da pira acenderam o fogo. Grande chama brilhou e nós vimos o prodígio, nós a quem foi dado ver e que fomos preservados para anunciar esses acontecimentos a outros. O fogo fez uma espécie de abóbada, como vela de navio inflada pelo vento, e envolveu como parede o corpo do mártir. Ele estava no meio, não como carne que queima, mas como pão que assa, como ouro ou prata brilhando na fornalha. Sentimos então um perfume semelhante a baforada de incenso ou a outro aroma precioso.

Por fim, vendo que o fogo não podia consumir o corpo, os ímpios ordenaram ao carrasco que fosse dar o golpe de misericórdia com o punhal. Feito isso, jorrou tanto sangue que apagou o fogo. Toda a multidão admirou-se de ver tão grande diferença entre os incrédulos e os eleitos.”.

(Martírio de São Policarpo 3.7-16)

O relato do martírio de São Policarpo pode não ser exatamente preciso historicamente, mas uma riqueza nele é indiscutível: a expressão da fé da Igreja e o espírito dos mártires. Os primeiros cristãos pareciam ser muito corajosos, de uma forma quase inacreditável para o mundo atual, coragem que poderia ser interpretada como uma disposição de ser ferido numa batalha visando um bem maior. Santo Tomás mostrava que a virtude da coragem é própria dos homens, pois só eles podem se ferir. A pessoa corajosa põe em ordem os seus medos (ordo timoris), sendo que o maior medo é o de perder o céu. Uma coragem assim só pode ser um dom de Deus. O martírio, na realidade, parece ser para aqueles que foram escolhidos por Deus para tal destino e não para aqueles que se oferecem a ele.

A beleza do martírio também é testemunhada por Santo Inácio de Antioquia em sua ilustre carta aos Romanos:

“Não desejo que agradeis aos homens, mas que agradeis a Deus, como de fato o fazeis. Eu não teria outra oportunidade como esta de alcançar a Deus, e vós, se ficásseis calados, poderíeis assinar obra melhor. Se guardásseis o silencio a meu respeito, eu me tornaria palavra[5] de Deus. Se amais minha carne, porém, ser-me-á preciso novamente correr. Não desejeis nada para mim, senão ser oferecido em libação a Deus, enquanto ainda existe altar preparado, a fim de que, reunidos em coro no amor, canteis ao Pai, por meio de Jesus Cristo, por Deus se ter dignado fazer com que o bispo da Síria se encontrasse aqui (…)

Para mim, peçam apenas a força interior e exterior, para que eu não só fale, mas também queira; para que eu não só me diga cristão, mas de fato seja encontrado como tal (…)

Deixai que eu seja pasto das feras, por meio das quais me é concedido alcançar a Deus. Sou trigo de Deus, e serei moído pelos dentes das feras, para que me apresente como trigo puro de Cristo. Ao contrário, acariciai as feras, para que se tornem minha sepultura, e não deixem nada de meu corpo, para que, eu não pese a ninguém. Então eu serei verdadeiramente discípulo de Jesus Cristo, quando o mundo não vir mais o meu corpo. Suplicai a Cristo por mim, para que eu, com esses meios, seja vítima oferecida a Deus. Não vos dou ordens como Pedro e Paulo; eles eram apóstolos, eu sou um condenado. Eles eram livres, e eu até agora sou um escravo. Contudo, se eu sofro, serei um liberto de Jesus Cristo e ressurgirei nele como pessoa livre. Acorrentado, aprendo agora a não desejar nada (…)

Possa eu alegrar-me com as feras que me estão sendo preparadas. Desejo que elas sejam rápidas comigo. Acariciá-las-ei, para que elas me devorem logo, e não tenham medo, como tiveram de alguns e não ousaram tocá-los. Se, por má vontade, elas se recusarem, eu as forçarei. Perdoai-me; sei o que me convém. Agora estou começando a me tornar discípulo. Que nada de visível e invisível, por inveja, me impeça de alcançar Jesus Cristo. Fogo e cruz, manadas de feras, lacerações, desmembramentos, deslocamento de ossos, mutilações de membros, trituração de todo o corpo, que os piores flagelos do diabo caiam sobre mim, com a única condição de que eu alcance Jesus Cristo.

Para nada me serviriam os encantos do mundo, nem os reinos deste século. Para mim é melhor morrer para Cristo Jesus do que ser rei até os confins da terra. Procuro aquele que morrei por nós; quero aquele que por nós ressuscitou. Meu parto se aproxima. Perdoai-me, irmãos. Não me impeçais de viver, não queirais que eu morra. Não me abandoneis ao mundo, não seduzais com a matéria quem quer pertencer a Deus. Deixai-me receber a luz pura; quando tiver chegado lá, serei homem. Deixai que seja imitador da paixão de meu Deus. Se alguém tem Deus em si mesmo, compreenda o que quero e tenha compaixão de mim, conhecendo aquilo que me oprime.

O príncipe deste mundo quer arrebatar-me e corromper o meu pensamento dirigido para Deus. Que ninguém dos que aí estão presentes o ajude. Colocai-vos do meu lado, isto é, do lado de Deus. Antes, colocai-vos do meu lado, isto é, do lado de Deus. Não tenhais Jesus Cristo na boca, desejando, ao mesmo tempo, o mundo. Que a inveja não habite em vosso meio. Mesmo se eu estiver junto de vós e vos implorar, não vos deixeis persuadir. Persuada-vos aquilo que vos escrevo. É vivo que eu vos escrevo, mas com anseio de morrer. Meu amor[6] foi crucificado, e não há mais em mim fogo vivo para a matéria. Dentro de mim há uma água viva, que murmura e diz: ‘Vem para o Pai’. Não sinto prazer pela comida e corruptível, nem me atraem os prazeres desta vida. Desejo o pão de Deus, que é a carne de Jesus Cristo, da linhagem de Davi, e por bebida desejo o sangue dele, que é o amor incorruptível.

O texto de Santo Inácio de Antioquia vem confirmar a certeza de que a virtude principal do mártir é a fortaleza, ou seja, a coragem. Existe algo maior do que a vida, pelo qual vale à pena derramar o próprio sangue.

O mundo, porém, parece ter se esquecido dessa verdade. Por exemplo, um materialista é uma pessoa que não tem coragem, no sentido apresentado por Santo Tomás. O materialista não morre porque algo vale mais do que a vida. Quando morre é porque despreza a vida, porque não a vê como um valor. Os cristãos, ao contrário, não têm medo de perder a vida, porque sabem que a vida verdadeira só pode ser vivida ao lado de Deus. E, além do mais, é mais lógico morrer em nome da verdade do que levar alguém à morte. Mas, isso diz respeito apenas àqueles que crêem verdadeiramente que o sangue de Cristo, derramado na Cruz, é o único caminho para a salvação do ser humano.

Infelizmente, mesmo dentro do âmbito cristão “católico” atual, são muitos os que parecem ter se esquecido desta verdade. Em nome de um amplo diálogo religioso, também conhecido como macroecumenismo, buscam pouco a pouco relativizar o conteúdo da Revelação, chegando a considerar o Senhor Jesus como um simples arauto de valores importantes para a humanidade, desprezando toda sua obra de Redenção, visando colocar todas as denominações religiosas em pé de igualdade. Infelizmente, não é possível pensar outra coisa sobre estas pessoas a não ser que, com tal atitude, parecem estar rindo do sangue derramado pelos mártires para que a fé católica fosse preservada de todo erro e contaminação mundana.

Referências

  1. Numa homilia sobre os mártires cristãos vítimas da guerra civil espanhola, o Papa João Paulo II, ao comentar a presença de um grupo de jovens seminaristas entre eles, disse que “os seminaristas celebraram sua primeira missa com o próprio sangue”.
  2. Conta-se que o patriarca Tikhon, da Igreja ortodoxa da Rússia, fez um último pedido antes de ser levado à prisão: “Dê-me a graça de celebrar pela última vez a Divina Liturgia, na certeza de que por meio desse sacrifício o mundo será salvo”.
  3. Obelisco que hoje está localizado no centro da praça de São Pedro. Uma curiosidade: o navio que trouxe o obelisco do Egito para a Itália foi afundado na região de Óstia, servindo como dique, tamanha a dificuldade encontrada para manobrá-lo devido às suas proporções monstruosas.
  4. EUSÉBIO DE CESAREIA. História Eclesiástica, II, 25,5-7. Tradução da Paulus, já citada em aula anterior.
  5. Segundo o original grego. A tradução da Paulus opta pela seguinte alternativa: “se guardásseis o silêncio a meu respeito, eu me tornaria pertencente a Cristo”.
  6. Segundo o original grego. A tradução proposta pela Paulus é: “meu desejo terrestre…”
  7. Fonte:http://padrepauloricardo.org/aulas/a-igreja-dos-martires
 

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A Igreja Subapostólica

Lutero tinha um desejo: colocar, na mão de cada fiel, um volume das Sagradas Escrituras. Porém, antes da invenção da imprensa, durante muitos e muitos séculos, possuir um volume que compilasse toda a Escritura era praticamente impossível, primeiramente pelo valor, pois o trabalho dos amanuenses[1] ou copistas exigia uma boa remuneração e, além disso, eram poucos os capacitados para tal empreitada; em segundo lugar, o material para a escrita era muito caro e também ocuparia muito espaço numa residência, por exemplo.

Continuando a responder ao questionamento protestante, acusar a Igreja de não ter colocado ao alcance dos cristãos a Sagrada Escritura é também não reconhecer que esta mesma Igreja, por mais de quinze séculos protegeu e anunciou a mensagem a ela confiada, mesmo sem poder colocá-la de uma forma mais acessível aos fiéis. A Palavra de Deus não se resume aos textos bíblicos organizados e compilados numa edição luxuosa da Bíblia. A Palavra é, na realidade, uma Pessoa[2], Jesus Cristo. E Jesus foi anunciado pela Igreja, que não se deixou vencer por perseguições e inúmeras dificuldades, anunciando, ininterruptamente, a tempo e a contratempo[3] o nome do Senhor para todo o mundo. Se não deu a Palavra materialmente, entregando a cada fiel uma cópia da Escritura, a Igreja o fez no seu ministério, anunciando o nome de Jesus na liturgia, preservando e conservando com fidelidade seus ensinamentos, suas ações e sua presença nos Sacramentos.

Idade Subapostólica

É o período da Igreja marcado pela geração de pessoas que conheceram os apóstolos, mas não chegaram a conhecer Jesus. O grande esforço dessa geração é o de acreditar na humanidade do Senhor. Não duvidavam da divindade de Cristo, mas tinham dificuldades para aceitar a sua humanidade. Os apóstolos, ao contrário, não duvidavam da humanidade de Jesus, pois viram, ouviram e tocaram o Verbo[4], mas tinham dificuldade para aceitar a divindade de Jesus e encontraram, na ressurreição, o acontecimento que lhes abriu os olhos para compreender e crer em todas as palavras do Senhor.

Exatamente pela dificuldade que os cristãos encontravam para professar a humanidade de Jesus, uma das primeiras heresias da história foi o docetismo, que afirmava que Jesus tinha somente a aparência de corpo humano. Em outras palavras, o docetismo afirmava que o Filho de Deus não havia se encarnado verdadeiramente. Os defensores desta heresia usavam a Carta de São Paulo aos Filipenses como um argumento para a defesa de sua tese (“Jesus tomou a forma [aparência] humana”[5]) e criaram grandes dificuldades para a Igreja nascente.

É no combate a esta heresia que a Igreja subapostólica, também conhecida como Igreja dos Padres Apostólicos, dará um testemunho que perpassará os séculos. A Igreja Católica, na época dos Padres Apostólicos, começou a transmitir a verdade da fé baseada não somente nas Escrituras, que eram importantes, mas ainda não tinham sua forma definitiva, havendo muita reserva quanto à lista dos livros que deveriam ou não ser considerados dignos de fé. Foi através da fidelidade aos bispos e à sintonia com aquilo que era ensinado pelos bispos que os primeiros cristãos tiveram, pouco a pouco, sua fé confirmada e encontraram a garantia de que estavam na única e mesma Igreja de Cristo.

Para um esclarecimento acerca da importância dos bispos na Igreja primitiva e do seu papel determinante no que diz respeito à condução das igrejas e dos fiéis para a verdade de Cristo, é necessário fazer uma breve digressão. Voltando um pouco no tempo, percebe-se que a grande característica dos apóstolos é a intimidade com Jesus. Quando surge a necessidade de se escolher um substituto para Judas, os apóstolos escolhem alguém que também havia visto o Senhor, pois cada apóstolo tinha uma missão muito específica: ser testemunha fiel e anunciar as palavras e ações de Jesus por todo o mundo. Os sucessores dos apóstolos são os bispos e são eles os encarregados pela Igreja de continuar a missão apostólica. Quando um bispo fala, deve sempre falar em comunhão com a Igreja, testemunhando com fidelidade as palavras e ensinamentos de Jesus, e quando isso acontece, os cristãos devem a ele obediência.

Um dos autores cristãos que mais escreveu sobre a importância e a necessidade da figura do bispo para a Igreja foi Santo Inácio de Antioquia. Inácio conheceu o apóstolo Pedro e lhe sucedeu na sé de Antioquia. Foi martirizado por volta do ano 107 d.C. Não conheceu a Jesus, mas ouviu a pregação dos apóstolos. Gozava de grande reputação entre os cristãos, recebendo até uma menção muito especial do primeiro historiador da Igreja, Eusébio de Cesaréia, na sua conhecidíssima História Eclesiástica:

” (…)Inácio, até hoje afamado, e que obtivera, como segundo sucessor de Pedro, o episcopado em Antioquia. Conta-se que foi enviado da Síria à cidade de Roma, para se tornar alimento das feras, por causa do testemunho prestado a Cristo. Enquanto fazia a viagem através da Ásia, sob a maior vigilância dos guardas, fortalecia as Igrejas por meio de sermões e exortações, em todas as cidades por onde passava”. (EUSÉBIO DE CESARÉIA, História Eclesiástica III, 36, 2-4)[6]

Inácio, a caminho do martírio em Roma, escreve aos cristãos para que se congreguem ao redor dos bispos, pois eles são os sucessores dos apóstolos e garantia da unidade da Igreja. Primeiramente, Inácio mostra que os bispos estão nos desígnios de Deus e que são escolhidos e amados por Deus[7]:

“De fato, Jesus Cristo, nossa vida inseparável, é o pensamento do Pai, assim como os bispos, estabelecidos até os confins da terra, estão no pensamento de Jesus Cristo” (Carta de Santo Inácio aos efésios, 3)

“Sei que o bispo, para servir à comunidade, não obteve o ministério, por si mesmo, nem pelos homens, nem por vanglória, mas pelo amor de Deus Pai e do Senhor Jesus Cristo” (Carta de Santo Inácio aos Filadelfienses 1)

E diversos são os trechos, nas várias cartas que escreve às várias Igrejas (dioceses) de então, que servem para mostrar aos cristãos que o caminho da fidelidade e da catolicidade passa pela unidade e pela comunhão com os bispos:

“Com efeito, todos aqueles que são de Deus e de Jesus Cristo, esses também estão com o bispo” (Carta de Santo Inácio aos Filadelfienses, 3)

“Segui todos ao bispo, como Jesus Cristo segue ao Pai, e ao presbitério como aos apóstolos; respeitai os diáconos como à lei de Deus. Sem o bispo, ninguém faça nada do que diz respeito à Igreja (…) onde aparece o bispo, aí esteja a multidão, do mesmo modo que onde está Jesus Cristo, aí está a Igreja Católica. Sem o bispo não é permitido batizar, nem realizar o ágape. Tudo o que ele aprova, é também agradável a Deus, para que seja legítimo e válido tudo o que se faz. De agora em diante, convém retomar o bom senso e, enquanto ainda temos tempo, converter-nos a Deus. É bom reconhecer a Deus e ao bispo. Quem respeita o bispo, é respeitado por Deus; quem faz algo às ocultas do bispo, serve ao diabo. (Carta de Santo Inácio aos esmirniotas, 8)

“Quando vos submeteis ao bispo como a Jesus Cristo, demonstrais a mim que não viveis segundo os homens, mas segundo Jesus Cristo, que morreu por nós, a fim de que crendo em seu morte, possais escapar da morte.” (Carta de Santo Inácio aos Tralianos, 2)

Como já afirmado acima, a figura do bispo remete a Cristo, mas remete também ao Pai. Desobedecer ou não servir ao bispo é desobedecer diretamente ao próprio Deus:

“Convém que não abuseis da idade do vosso bispo, mas, pelo poder de Deus Pai, lhe tributeis toda reverência. De fato, eu soube que vossos santos presbíteros não abusaram de sua evidente condição juvenil, mas, como gente sensata em Deus, se submetem a ele, não a ele, mas ao Pai do bispo de todos, Jesus Cristo. Portanto, para honra daquele que nos amou, é preciso obedecer sem nenhuma hipocrisia, porque não é ao bispo visível que se engana, mas é ao invisível que se mente. Não se fala da carne, mas do Deus que conhece as coisas escondidas (…) Por isso vos peço que estejais dispostos a fazer todas as coisas na concórdia de Deus, sob a presidência do bispo, que ocupa o lugar de Deus, dos presbíteros, que representam o colégio dos apóstolos, e dos diáconos, que são muito caros para mim, aos quais foi confiado o serviço de Jesus Cristo, que antes dos séculos estava junto do Pai e por fim se manifestou (…) que não haja nada entre vós que vos possa dividir, mas uni-vos ao bispo e aos chefes como sinal e ensinamento de incorruptibilidade” (Aos Magnésios 3, 6)

“Atendei ao bispo, para que Deus vos atenda” (Carta a Policarpo, 6)

Por fim, Inácio mostra que o caminho da ortodoxia é estar ao lado do bispo, pois eles são chamados, por sua própria missão, a enfrentar o erro e as heresias sem se deixar levar pelo medo. Estar afastado do bispo é um caminho de perdição para os cristãos:

“Aqueles que parecem dignos de fé, mas ensinam o erro, não te amedrontem. Permanece firme, como a bigorna sob os golpes do martelo. É próprio de grande atleta aparar os golpes e vencer. É por causa de Deus que devemos suportar tudo, a fim de que ele também nos suporte. Sê mais zeloso do que és, discerne os tempos. Espera aquele que está acima do tempo, atemporal, invisível, mas que se tornou visível para nós; aquele que é impalpável e impassível, mas que se tornou passível por nós, e por nós sofreu de todos os modos” (Carta de Santo Inácio a Policarpo, 3)

“Eu vos exorto, portanto, não eu propriamente, mas o amor de Jesus Cristo, a usar somente alimento cristão, abstendo-vos de toda erva estranha, que é a heresia” (Carta de Santo Inácio aos Tralianos, 6)

“Aqueles que, arrependendo-se, vierem para a unidade da Igreja, serão também de Deus, para que sejam vivos segundo Jesus Cristo. Não vos enganeis, meus irmãos. Se alguém segue cismático, não herdará o Reino de Deus. Se alguém caminha em conhecimentos estranhos, esse não participa da Paixão” (Carta de Santo Inácio aos Filadelfienses, 3)

Mal morreram os apóstolos, e já é possível ver a Igreja organizada ao redor dos sucessores dos apóstolos. Esta é a característica da Igreja: confiar-se aos cuidados destes homens que receberam de Deus a missão de conduzir o rebanho de Cristo, na fidelidade à sua Palavra e aos seus sacramentos, ao reino dos Céus. São eles agora os responsáveis por confirmar a fé dos seus irmãos. A cátedra que ocupam em cada uma das Igrejas confiadas aos seus cuidados é, na realidade, um sinal do trono do Cordeiro, sinal de que Cristo está ali, conduzindo seu rebanho através de um homem que se sacrificou, para não ser mais ele, mas para ser um outro Cristo. Esta é a missão de um bispo e, por isso, a Igreja subapostólica encontrou nestes homens a garantia de que, seguindo a eles, tinha a certeza de estar seguindo fielmente os passos do Senhor Jesus. Como se pode ver, a Igreja já nasceu católica, não se tornou católica com o passar dos tempos.

“Ofereço minha vida para os que se submetem ao bispo, aos presbíteros e aos diáconos. Possa eu, como eles, ter parte em Deus. Trabalhai uns com os outros e, unidos, combatei, lutai, sofrei, dormi, despertai, como administradores, assessores, servidores de Deus” (Carta de Santo Inácio a Policarpo 6).

Referências

  1. Amanuense é toda pessoa encarregada de fazer cópias ou registros de algum documento.
  2. Citar DV.
  3. Cf. 2Tm 4,2.
  4. Cf. 1Jo 1,1-4.
  5. Fl 2,6.
  6. A citação se refere, respectivamente, ao livro, capítulo e parágrafos citados. Texto extraído de EUSÉBIO DE CESARÉIA. História Eclesiástica. São Paulo: Paulus, 2000.
  7. Todas as citações são extraídas de do primeiro volume da coleção Patrística, publicada pelo Paulus, PADRES APOSTÓLICOS.
Todos os direitos resevados a padrepauloricardo.org

 
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Publicado por em 15/11/2012 em Patrística

 

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Os Pais da Igreja e a virgindade de Maria

O reconhecimento da virgindade de Nossa Senhora sempre foi professado e repetido pelos Padres da Igreja, não obstante os protestantes querem nos fazer crer, com citações fora de exatidão, que muitos admitiam que ela tivesse perdido o que de miraculoso se preservou nela. Chegam nas afirmações mais extremas e enfatuadas dizer que isso foi muito disputado entre os Pais primitivos. Esse trabalho, então, tem o intuito de transcrever o verdadeiro pensamento dos preservadores da Tradição e de refutar as menções indevidas feitas por nossos irmãos evangélicos.

Santo Irineu (130 — 203):

“Como por uma virgem desobediente foi o homem ferido, caiu e morreu, assim também por meio de uma virgem obediente à palavra de Deus, o homem recobrou a vida. Era justo e necessário que Adão fosse restaurado em Cristo, e que Eva fosse restaurada em Maria, a fim de que uma virgem feita advogada de uma virgem, apagasse e abolisse por sua obediência virginal a desobediência de uma virgem.” (Contra Heresias L. 5, 19.1)

Santo Hipólito de Roma (170 — 236):

“…corpo de Maria toda santa, sempre virgem, por uma concepção imaculada, sem conversão, e se fez homem na natureza, mas em separado da maldade: o mesmo era Deus perfeito, e o mesmo era o homem perfeito, o mesmo foi na natureza em Deus, uma vez perfeito e homem.” (As obras e fragmentos. Fragmento VII)

Orígenes de Alexandria (185 — 253):

“Mas, seguindo a tradição que está registrado no Evangelho segundo São Pedro ou no livro de Tiago, eles dizem que há alguns irmãos de Jesus, os filhos de José por uma ex-mulher, que vivia com ele antes de Maria. Agora aqueles que dizem por assim desejarem preservar a honra de Maria na virgindade até o fim, de modo que o organismo dela, que foi designada para ministrar a Palavra que diz: “O Espírito Santo descerá sobre ti, e o poder do altíssimo deve ofuscar a ti “, pode não ter tido relação sexual com um homem depois que o Espírito Santo veio ela e o poder do alto a tivesse ofuscado. E eu acho que em harmonia com a razão que Jesus era o fruto primeiro entre os homens da pureza, que consiste na castidade, e Maria entre as mulheres, pois não foram piedosos atribuir a qualquer outro do que o seu fruto primeiro da virgindade.”(Comentário ao Evangelho de Mateus x. 17)

“Para, se Maria, como aqueles que declaram, com exaltar sua mente sã, não tinha outro filho, mas Jesus, e ainda Jesus diz para sua mãe, “Mulher, eis aí teu filho”, e não “Eis que você tem esse filho também” ” (Comentário ao Evangelho de João, Livro 1, 6)

“Sobre este assunto, eu encontrei uma observação muito bem em uma carta do mártir Inácio, segundo bispo de Antioquia depois de Pedro, que lutou com as feras, durante a perseguição em Roma. A virgindade de Maria estava escondida do príncipe deste mundo, graças a José e escondido seu casamento com ele. Sua virgindade foi mantida escondida porque ela foi pensada para ser casado. (Homilias sobre Lucas, 6, 3-4.)

São Gregório de Neucaesarea (213 — 270):

“Para a santa Virgem guardado cuidadosamente a tocha da virgindade,  e deu ouvidos diligentemente que não deveria ser extinto ou contaminado.” (The Second Homily. On the Annunciation to the Holy Virgin Mary)

São Pedro de Alexandria (+ 311):

“…que tem o nome de Leucado, eles vieram para a igreja da mãe mais abençoada de Deus e sempre Virgem Maria, que, como se começou a dizer, ele tinha construído no oeste…” (Episolæ)

Santo Atanásio de Alexandria (295 — 373)

“Portanto, que aqueles que negam que o Filho do Pai, por natureza, e é adequado a esta essência, negam também que Ele tomou verdadeiro humano da Sempre Virgem Maria…” (Contra Arianos, cap 21)

Hilário de Poitiers (300 — 368):

“Se eles [os irmãos do Senhor] foram filhos de Maria e não tomados de casamento anterior de José, ele nunca teria sido entregue no momento da paixão [crucificação] para o apóstolo João, sua mãe, o Senhor dizendo: a cada um, ‘Mulher, eis aí teu filho’, e João, “Eis a tua mãe ‘[João 19:26-27), como ele legou o amor filial a um discípulo como um consolo para a desolação” (Comentário sobre Mateus 1 : 4 )

Santo Efrem da Síria (306 373):

“Em sua virgindade Eva colocou as folhas de vergonha: Sua mãe colocou na sua virgindade a roupa da Glória que é suficiente para todos.” (Hino da Natividade, hino 12)

“O que teria sido possível que aquela que foi a residência do Espírito, que foi ofuscada pelo poder de Deus, tornou-se uma mulher mortal, e ela suportou a dor, de acordo com a maldição em primeiro lugar? [...] A mulher que dá à luz na dor não poderia ser chamado abençoado. O Senhor, que veio com as portas fechadas, e fora do seio virginal, porque isso realmente virgem deu à luz sem sentir dor ”  (Efren, Diatessaron, 2,6: SC 121,69-70, cf. . ID, Hímni de Nativitate, 19,6-9: CSCO 187,59)

Santo Epifânio (310 — 403):

“De onde vem esta perversidade? De onde é que irrompeu tamanha audácia? Porventura o próprio nome não é suficiente atestado? Quem jamais houve, em tempo algum, que ousasse proferir o nome de Maria e espontaneamente não lhe acrescentasse a palavra virgem? O nome de Virgem foi dado a Santa Maria, nem se mudará nunca, ela sempre permaneceu ilibada (Panarion, Contra os hereges).

Dídimo, o cego (313 — 398):

“Nada fez Maria, que é honrada e louvada acima de todas as outras: não se relacionou com ninguém, nem jamais foi Mãe de qualquer outro filho; mas, mesmo após o nascimento do seu filho [único], ela permaneceu sempre e para sempre uma virgem imaculada”. (A Trindade 3,4)

São Cirilo de Jerusalém (315 — 386):

“o Unigênito do Único, Jesus Cristo, nosso Senhor, a produção, de acordo a carne, do ventre de São Maria, Virgem perpétua, em cuja santa casa somos eu reunidos neste dia para comemorar o dia de sua morte. ” (Homilias sobre a Dormição)

São Basílio de Cesareia (329 — 379):

“Os amigos de Cristo não toleram ouvir que a Mãe de Deus deixou de ser virgem num determinado momento” (Homilia Em Sanctum Christigenerationem, 5)

São Gregório de Nissa (330 — 395):

“Pois se José a tomou como sua esposa com o proposito de ter filhos, por que ela ficou pensando sobre o anuncio de sua maternidade, se ela mesma aceitou o fato de se tornar mãe de acordo com a lei da natureza? Mas assim como era necessário Guardar o corpo da consagrada a Deus como oferenda intocada e Espírito Santo, por esta mesma razão, ela afirma, mesmo se você é um anjo que desceu do céu e mesmo que este fenômeno está além da capacidade dos homens, no entanto, impossível para mim conhecer homem. Como devo tornar-me mãe sem conhecer homem? Pois, embora considere um José para ser meu marido, ainda assim não conhecerei homem” (Sobre a Geração de Santo Cristo, 5)

Santo Ambrósio de Milão (340 — 397):

“Hove quem negasse que Maria tivesse permanecido virgem. Desde muito temos preferido não falar sobre este tão grande sacrilégio. Maria (…) que é mestra da virgindade, (…) não podia acontecer que aquela que em si tinha trazido Deus , resolvesse andar às voltas com um homem. Nem José, varão justo, cairia nessa loucura de querer misturar-se com a mãe do Senhor, em relação carnal”.( De Inst. Virg. I , 3).

Rufino de Aquileia (340 — 410):

“A porta que estava fechada (Ezech. 44,2) foi a sua virgindade, través dela o Senhor Deus de Israel entrou, por isso Ele avançou a este mundo através do ventre da virgem. E, porque a sua virgindade foi preservada intacta, portão da Virgem permaneceu fechado para sempre “. (Comentário do Credo dos Apóstolos, 9)

Santo Agostinho (354 — 430):

“Virgem que concebe, virgem que dá à luz, virgem grávida, virgem que traz o feto, Virgem perpétua”(Sermão CLXXXVI, 1, 1)

“Concebeu-O [a Cristo Jesus] sem concupiscência, uma Virgem; como Virgem deu-lhe à luz, Virgem permaneceu” (Sermão sobre a Ressurreição de Cristo, segundo São Marcos, PL XXXVIII, 1104-1107).

São Jerônimo (347 — 420):

“Rogo também a Deus Pai para que demonstre que a mãe de Seu Filho – que se tornou mãe antes de se casar – permaneceu Virgem ainda após o nascimento de seu Filho.” (Contra Helvídeo, sobre a virgindade perpétua de Maria, cap II)

São João Cassiano (360 — 435):

“Por isso, confesso que o nosso Deus e Senhor Jesus Cristo, o Filho Unigênito de Deus, que por sua própria causa foi gerado do Pai antes de todos os mundos, quando ao tempo ele  por nossa causa se fez homem através do Espírito Santo e da sempre Virgem Maria, era Deus em Seu nascimento, e enquanto confessamos as duas substâncias, da carne e da Palavra.” (Sobre a Encarnação de Cristo contra Nestório, L. VII, 5)

São Cirilo de Alexandria (375 — 444):

“Salve, vaso puríssimo da temperança, a ti virgem, confiou, na cruz, nosso Senhor Jesus Cristo a Mãe de Deus, sempre virgem!” (Discurso em Concílio de Éfeso)

São Máximo, o Confessor (580 — 662):

“O nascimento e a adolescência daquela que concebeu e deu à luz – evento impensável, incompreensível, inefável! – ao Filho de Deus, o Verbo, Rei e Deus do Universo, já haviam sido mais maravilhosos que tudo o que se pode ver na natureza. Desde então, todos os dias de sua inteira existência, mostrou um estilo de vida superior à natureza [...] Logo, no caminho de sua fatigosa tarefa, sofreu e suportou muitas tribulações, provas, aflições e lamentos durante a Crucifixão do Senhor, alcançando uma completa vitória  e obtendo coroas de triunfo, até ao ponto de ser constituída a Rainha de todas as criaturas[...] A Virgem não só  animava e ensinava aos santos apóstolos e aos demais fiéis a ser pacientes e suportar as provas, senão que era solidária com eles em suas fadigas, lhes sustentava na pregação, estava em união espiritual com os discípulos do Senhor em suas privações e suplícios, em suas prisões[...] Depois da partida de João, o Evangelista, São Tiago, o filho de José, também chamado «irmão do Senhor», tomou a seu cuidado a santa Mãe de Cristo [...]” (Vida da Virgem)

Santo Ildefonso de Toledo (606 667):

“Tua pureza fica salva no anúncio sobre tua prole; tua virgindade encontra segurança no nome de teu filho, e assim permaneces honesta e íntegra depois do parto” (A virgindade perpétua de Santa Maria)

São João Damasceno (676 — 749):

“Tendo levado uma vida casta e santa, engendrastes a jóia da virgindade, aquela que deveria permanecer Virgem antes, durante e depois do parto, a única sempre Virgem de espírito, de alma e de corpo.” (Homilia sobre a Natividade de Maria, 5)

Poderia acrescer com os santos Papas que defenderam o mesmo nesse período, mas não o farei, dando esse gostinho aos protestantes, evito que venham com mais desculpas.

 

 
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Publicado por em 25/10/2012 em Mariologia, Patrística

 

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