A ORIGEM DO PENTATEUCO – O PROBLEMA

Sem negar a inspiração divina do Pentateuco, o estudioso tem a direito de investigar qual tenha sido o autor humano de tal obra.

Até o século XVI d. C. admitia-se que Moisés no séc 13 AC tivesse escrito os cinco livros da Lei. Em favor desta tese, podem ser citados textos do Antigo Testamento como Ex 17 14;24,4; Nm 33,2; Dt 31,9.22.24… e do Novo Testamento: Jo 5,45-47; Mt 8,4, 19,8; Mc 7,10; 12,26 – “Não penseis que vou acusar-vos perante o Pai. Quem vos acusa é Moisés, em quem depositastes vossa esperança. Se acreditásseis em Moisés, certamente acreditaríeis também em mim, porque Moisés escreveu a meu respeito. Se porém não acreditais em seus escritos, como acreditareis em minhas palavras?” (João 5,45-47)

Todavia nos últimos séculos o estudo atento do Pentateuco mostrou que Moisés não parece ser simplesmente o autor de toda esta obra. Eis os principais argumentos que justificam este novo modo de pensar:

A morte de Moisés é narrada em Dt 34,5 -6 : Moisés, o servo do Senhor , morreu ali, na terra de Moab, conforme a vontade do Senhor. E ele o enterrou no vale, na terra de Moab, defronte de Bet-Fegor. Mas ninguém até hoje sabe onde fica a sepultura. – Dt 34,5-6.

Há trechos em que Deus é designado, de preferência, pelo nome revelado Javé, ao passo que em outros predomina a designação Eloim . Isto parece insinuar diversidade de autores.

Há narrações em duplicata. Por exemplo, há dois relatos da criação do mundo (Gn 1,1-2,4a e 2,4b-25), da expusão de Agar (Gn 16,4-16 e21,9-21), ” Ele se uniu a Agar, que concebeu. Percebendo-se grávida, começou a olhar com desprezo para a patroa. Sarai falou para Abrão: “Caia sobre ti a afronta que sofro. Fui eu mesma que coloquei minha escrava em teus braços, mas ela, apenas ficou grávida, se pôs a desprezar-me. O Senhor seja o juiz entre mim e ti”. Abrão disse para Sarai: “Olha, a escrava é tua. Faze dela o que bem entenderes”. E Sarai a maltratou tanto que ela fugiu. Um anjo do Senhor a encontrou junto à fonte do deserto, n caminho de Sur, e lhe disse: “Agar, escrava de Sarai, de onde vens e para onde vais?” E ela respondeu: “Estou fugindo de Sarai, minha senhora”. E o anjo do Senhor lhe disse: “Volta para tua senhora e sujeita-te a ela”. E o anjo do Senhor acrescentou: “Farei tua descendência tão numerosa que não poderá ser contadoa”. E disse por fim o anjo do Senhor: “Olha, estás grávida e darás à luz um filho e o chamarás Ismael, porque o Senhor te escutou na aflição. Ele será indomável como um jumento selvagem, sua mão estará contra todos e as mãos de todos contra ele. Mas ele habitará na presença de todos os irmãos”. Ela deu, então, um nome ao Senhor , que lhe havia falado: “Tu és o Deus-que-me-vê, pois -disse ela -aqui cheguei a ver Aquele que me vê”. Por isso aquele poço se chamou poço de Laai-Roí. Está entre Cades e Barad. Agar deu a Abrão um filho. Abrão pôs o nome de Ismael ao filho que Agar lhe deu. Abrão tinha 86 anos quando Agar deu à luz Ismael”.- Gn 16,4-16) Agora, para confronto vamos ver Gn 21, 9-21 : “Mas Sara viu o filho de Agar, a egípcia que dera um filho a Abraão, brincando com seu filho Isaac. E disse para Abraão: “Manda embora essa escrava e seu filho, pois o filho de uma escrava não pode ser herdeiro com meu filho Isaac”.
Abraão ficou muito desgostado com isto, por causa do filho. Mas Deus lhe disse: “Não te aflijas a propósito do menino e da escrava. Atende ao pedido de Sara, pois é por Isaac que uma descendência levará teu nome. Também do filho da escrava farei um povo por ser descendência tua”.

Abraão levantou-se de manhã, tomou pão e um odre de água e os deu a Agar, pondo-lhe nas costas junto com o menino, e a despediu. Ela foi-se embora e andou vagueando pelo deserto de Bersabéia.

Tendo acabado a água do odre, largou o menino debaixo de um arbusto e foi sentar-se em frente dele, à distância de um tiro de arco. Pois dizia consigo: “Não quero ver o menino morrer”.

Assim ficou sentada defronte do menino, que chorava em voz alta. Deus ouviu o menino e o anjo de Deus chamou Agar de lá dos céus, dizendo: “Que tens, Agar? Não temas, pois Deus escutou a voz do menino que aí está. Lavanta-te, toma o menino e segura-o pela mão, pois farei dele uma grande nação”. Deus abriu-lhe os olhos e ela viu um poço de água. Foi então encher o odre de água e deu de beber ao menino. Deus estava com o menino que cresceu e habitou no deserto, tornando-se arqueiro. Morou no deserto de Farã e a mãe escolheu para ele uma mulher egípcia “.

Há outras narrações em duplicata, como a da aliança de Deus com Abraão (Gn 15,1-21 e 17,1-27), da vocação de Moisés (Ex 3,1-4 e 6,2-8), da queda do maná e das codornizes (Ex 16,2-36 e Nm 11,4-34), da produção da água do rochedo (Ex 17,1-7 e Nm 20, 1-13);

– há três recensões do decálogo (Ex 20,1-17; 34,10-28; Dt 5,6-21), da lei concernente aos escravos (Ex 21,2-1 1; Lv 25,39-46; Dt 15,12-18), da lei referente ao homicídio (Ex 21,12-14; Dt 19,1-13; Nm 35,9-34);

– há cinco recensões do catálogo das festas: Ex 23,14-19; 34,18-26; Dt 16,1-17; Lv 23,4-44; Nm 28, 1-29,39;

– há nove recensões da lei do sábado: Ex 20,8-1 1; 23,12; 31,12-17; 34,21; 35,2s; Dt 5, 1 3s; Lv 23,3; 25,2; N m 28,gs.

– Há cortes e enxertos: assim – em Gn 4,25s acorre o início da genealogia de Adão, que recomeça e continua em Gn 5,1;

– as palavras de Ex 2,23a não se ligam com 2,23b, mas, sim, com Ex 4,19;

– em Ex 19,25 lê-se: “Moisés desceu, foi ter com a povo e disse-lhe…” sem continuação;

– em Ex 32-34 a narrativa da infidelidade de Israel e da restauração da ALIANÇA interrompe um trecho jurídico homogêneo (Ex 25-31 e 35-40).

Estes dados são suficientes para justificar as dúvidas dos críticos sobre a origem do Pentateuco: dificilmente se poderia sustentar que Moisés tenha escrito o “livro da Lei” como ele hoje se encontra.

A SOLUÇÃO

Depois de muito pesquisar a questão, os estudiosos propõem hoje a seguinte teoria para a origem do Pentateuco, teoria que a Igreja Católica aceita:

O povo de Israel teve seu começo quando Deus chamou o Patriarca Abraão no séc. XIX a. C., levando-o a emigrar para a terra de Canaã. Abraão deu início ao povo de Israel (Israel-Jacó era filho de lsaque, e este era filho de Abraão ). No decorrer dos tempos, o povo foi criando suas tradições históricas e jurídicas (leis sociais, militares, religiosas … ).

No século XIII a. C. Moisés tornou-se o chefe do povo cativo no Egito, Por essa ocasião, no deserto Deus quis travar aliança com o povo eleito; mandou, pois, que Moisés codificasse leis e tradições históricas já existentes em Israel (cf, Ex 24,3-8; 34,28). O mesmo Moisés terá redigido outras leis, ampliando o bloco legislativo da sua gente. Assim Moisés tornou-se para a posteridade o legislador de Israel por excelência; o seu nome e o conceito de Lei (Torá) ficaram definitivamente associados entre si.

Uma vez estabelecido na terra de Canaã, após o cativeiro egípcio, a povo de Israel foi constituindo seus santuários (Betel, Hebron, Dã, Siquérn, Mambré, Bersabé, Jerusalém … ), aonde os fiéis iam periodicamente para celebrar a culto do Senhor.

Nesses santuários residiam sacerdotes e levitas, que cultivavam as tradições históricas e jurídicas de Israel; redigiam-nas em peças adaptadas à catequese ou à liturgia, e assim as comunicavam ao povo.

Desta forma a bloco de tradições que no séc. XIII recebeu a cunho de Moisés, foi aos poucos sendo acrescida de novas leis motivadas pelas sucessivas mudanças de condições históricas e sociais do povo de Israel.

A partir dos tempos de Salomão (972-932), passou a existir na corte dos reis tanto de Judá como da Samaria (reino cismático desde 930) um corpo de escribas, que zelavam pelas tradições de Israel; eram homens letrados, que se achavam em estrito contato com os sacerdotes.

Os escribas e os sacerdotes procuravam recolher em compilações mais ou menos sistemáticas os ensinamentos (da história e da legislação) de Israel, a fim de possuir urna visão de conjunto dos benefícios de Deus para com seu povo. Do trabalho dos escribas e sacerdotes, resultaram algumas coleções de narrativas históricas e de leis. Dessas coleções, quatro podem ser identificadas, pois entraram como fontes na composição do Pentateuco:

1) A coleção ou a código ou o documento dito Javista (J), – ( Século X – a C)- no qual predomina a nome Javé para designar Deus. Teve origem no reino de Judá sob Salomão – (972-932). O código J caracteriza-se por seu estilo simbolista e antropomórfico , mostrando Javé muito perto dos homens – o que é forte sinal de antigüidade: assim notemos o segundo relato da criação (Gn 2,4b-25), onde o Senhor é descrito corno oleiro (2,7), jardineiro (2,8), cirurgião (2,21 ), arquiteto (2,22); Javé passeia no jardim em 3,8, é, alfaiate em 3,21, fecha a porta da arca de Noé em 7,16, visita Abraão e ceia com ele em 18,1-8; desce para ver o pecado de Sodoma em 18,21.

O código J apresenta narrativas cheias de vivacidade, realçando o dramático da história; ver Gn 3 (a queda dos primeiros pais), Gn I8s (a visita do Senhor a Abraão), Ex 7,8-10,29 (as pragas do Egito)… Reproduz também as etimologia populares de nomes de pessoas e lugares; ver Gn 3,20 (Eva); 11,9 (Babel); 25,26 (Jacó); 25,30 (Edom); 32,29 (Israel); Nm 20,13 (Meribá).

2) O código (ou documento) Eloísta (E). Dá larga preferência ao nome Elohirn (= Deus). Foi redigido entre 850 e 750 no reina cismático da Samaria (parte setentrional da Palestina). Evita os antropomorfismos de J, pondo mais em relevo a transcendência de Deus; Este fala aos homens por vias menos diretas, servindo-se de sonhos ou da intervenção de anjos (cf. 15,1; 20,3.6; 21,17; 22,11.15; 28, 12).

Após a queda do reino da Samaria em 722, as tradições eloístas codificadas foram levadas para o reino de Judá, ao Sul. Aí um editor as fundiu com as tradições javistas, dando origem ao código JE (Javista-Eloísta). Nessa fusão, julga-se que o documento E foi menos aproveitado do que J, de modo que algumas de suas características hoje em dia não podem mais ser reconhecidas. Os críticos apontam como as mais belas peças do Eloísta os textos de Gn 22,1-4 (a sacrifício de Abraão), 40-42 e 48 (partes da história de José).

3) Deuteronômio (= repetição da lei, em grego) ou documento D. Este código, sob a forma de discursos de Moisés ao povo, apresenta de novo e desenvolve as grandes linhas da Lei,

A sua origem é a seguinte: nos grandes santuários do reino da Samaria (Siquém, Dã, Betel … ), o povo de Israel se reunia periodicamente (cf. Dt 31,10-13), a fim de renovar a sua aliança com Javé (à semelhança do que narra Js 8,30-36; 24,1-28).

Os levitas dos santuários devem ter redigido formulários que repetiam a Lei do Senhor em termos breves e eram lidos solenemente ao povo antes da renovação da promessa de fidelidade ao Senhor. Essas “repetições da Lei” retomavam elementos antigos da legislação israelita, mas adaptavam-nos aos tempos e às novas condições sociais de Israel. Aos poucos, a repetição da Lei foi assumindo uma forma única em cada santuário do reino do Norte.

Quando estes lugares sagrados em 722 foram invadidos pelos assírios, os levitas levaram consigo para Jerusalém os seus deuteronômios (ou repetições da Lei). Julga-se que alguns desses textos (o núcleo central Dt 12-26, talvez acompanhado de Dt 4,44-11,32 e 27,1-28,68) foram depositados no Templo do Senhor, onde cairam no esquecimento, em virtude da decadência religiosa de Judá.

Todavia, sob o reinado de Josias (640-609), o código foi de novo encontrado, servindo então para inspirar a reno- vação religiosa empreendida por este rei piedoso (cf. 2Rs 22). Por ocasião de sua des-‘ coberta e depois, o código chamado Deuteronômio (que compreendia alguns “deute- ronómios” ou repetições da lei) terá recebida acréscimos correspondentes às condições sociais da época.

A redação final do D se deve ao século V a. C. quando o Deuteronômio, na íntegra, foi anexado ao bloco da Torá. No Deuteronômio hoje existente distinguem-se cinco “deuteronômios” ou repetições da Lei: 1,1-4,43; 4,44-11,32; 12,1 28,68; 29,69- 30,20;31,1-29.

A principal característica do código D é a eloqüência do seu estilo, que lembra as pregações e exortações feitas pelos sacerdotes ao povo fiei. As frases são caden- ciadas, de modo a penetrar nos corações e movê-los ao amor e à generosidade para com Javé.

4) Código Sacerdotal (ou “Priesterkodex”, P). No século VI, durante o exílio da Babilônia (587-536 a. C.), os sacerdotes de Jerusalém terão por sua vez, redigido as tradições de Israel num código que foi chamado “Código Sacerdotal”. Viam-se diante de um povo prostrado moralmente e destituído da sua monarquia.

Quiseram, portanto, mostrar aos judeus a continuidade das bênçãos e promessas de que gozava o antigo povo de Israel. Isto explica a tendência de P a apresentar dados cronológicos e tabelas genealógicas, elementos que ligavam aos Patriarcas o povo do exílio e do pós-exílio (cf. Gn 5,1-32; 6,gs; 10,1-17; 11,10-32; 25,7-20; 36;46,8-27). Os trechos históricos e jurídicos de P têm a finalidade de mostrar que Deus mesmo instituiu Israel como uma comunidade de Culto ou como uma nação sacerdotal (cf. Ex 19,5s); tal era realmente a condição dos judeus após a queda da monarquia.

Notemos a ênfase com que P menciona o Templo, a Arca, o Tabernáculo, o ritual, a Aliança. De modo geral, o estilo desse documento revela urna mentalidade culta, que sabe exaltar a transcendência de Deus.

Para concluir, ‘observemos: no século V a. C., um sacerdote (Esdras?) deve ter fundido os documentos P e JE, colocando em apêndice a esse bloco o código D. Assim se constituiu a Pentateuco ou a Torá como a temos hoje.

Como se vê, Moisés não pode ser tido como o autor do Pentateuco no sentido.moderno; não escreveu por inteiro a Lei. Moisés, porém, é o inspirador de toda a legislação hebraica antiga: ele criou a tradição jurídica e historiográfica de Israel; deu-lhe seus fundamentos e suas grandes linhas, que os juristas posteriores adaptaram e desenvolveram.

Daí dizer-se que Moisés é o autor da “substância do Pentateuco

Esta função era suficiente para que os judeus antigos atribuíssem simplesmente o Pentateuco a Moisés. Os semitas tinham um conceito especial de totalidade – no núcleo inicial de determinada obra já viam incluída toda a evolução posterior dessa obra e atribuíam o conjunto inteiro ao autor do núcleo – assim é que Moisés pôde, sem mais, ser considerado pela tradição judaica como autor do Pentateuco.

O fato de se admitirem fontes e mãos diferentes na redação não exclui a índole inspirada desse livro.

O redator ou os redatores que concorreram na elaboração desse livro foram iluminados pelo Senhor a fim de distinguir, em suas fontes ou em seus conhecimento, o que correspondia e o que não correspondia à mensagem que o Senhor por ele/eles queriam comunicar aos homens – e assim iluminados só incluíram no texto canônico do Pentateuco os elementos portadores de autêntica lição religiosa.

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