A Doutrina das Indulgências

1Tendo entrado em Jericó, Jesus atravessava a cidade. 2Apareceu um homem chamado Zaqueu, chefe dos coletores de impostos, muito rico. 3Ele procurava ver quem era Jesus, e não conseguia por causa da multidão, pois era de pequena estatura. 4Ele correu para a frente e subiu num sicômoro a fim de ver Jesus, que ia passar por ali. 5Quando Jesus chegou a esse lugar, levantando os olhos, disse-lhe: “Zaqueu, desce depressa: hoje preciso ficar na tua casa”. 6Zaqueu desceu depressa e o acolheu todo alegre. 7Vendo isso, todos murmuravam; diziam: “É na casa de um pecador que ele foi se hospedar”. 8Mas Zaqueu, adiantando-se, disse ao Senhor: “Pois bem, Senhor, eu reparto aos pobres a metade dos meus bens e, se prejudiquei alguém, restituo-lhe o quádruplo”. 9Então Jesus disse a seu respeito: “Hoje veio a salvação a esta casa, pois também ele é filho de Abraão. 10Com efeito, o Filho do Homem veio procurar e salvar o que estava perdido”. (Lc 19,1-9).Dentre os pontos de difícil compreensão dentro da doutrina da Igreja Católica, destaca-se certamente o que fala sobre Indulgências. A falsa compreensão da doutrina, ou a ausência total dessa mesma compreensão, tem levado inúmeras pessoas a cometer verdadeiras loucuras contra a Igreja.

Segundo o ensino dado pelo Papa Paulo VI, indulgência é a “remição, diante de Deus, da pena temporal devida pelo pecado já perdoado, que o cristão alcança sob o influxo da autoridade da Igreja, mediante o cumprimento de certas condições”.

Parece complicada, à primeira vista, a definição. Mas podemos trocá-la em miúdos e assim caminhar no sentido de esclarecer nossas dúvidas.

Em primeiro lugar, “pena temporal”. O que seria isto?

Seria a obrigação de reparação do dano provocado pelo pecado. “Pois bem, Senhor, eu reparto aos pobres a metade dos meus bens e, se prejudiquei alguém, restituo-lhe o quádruplo”. No caso de Zaqueu, é certo que de nada adiantaria o arrependimento dos pecados se ele não restituísse os bens daqueles a quem defraudara.

Como no caso do roubo – o que adiantaria eu me arrepender de ter roubado um bem, se continuasse usufruindo do bem roubado? A restituição do bem, e não o arrependimento do pecado, é que caracteriza a chamada “pena temporal”, que certamente é devida para que haja a reparação do dano causado pelo pecado, ato pertinente ao seu autor, cujo perdão é outra coisa – é ato de Deus.Diante da impossibilidade da reparação direta do dano, cabe ao pecador substituí-la por outra ação tendente à prática do bem. Assim, a Igreja, usando de seu poder de ligar e de desligar, estabelece certas condições (marcadamente dirigidas à prática da oração, da esmola e da reflexão na Palavra de Deus) e lhes dá a eficácia de remição dessa mesma pena temporal. Remição significa satisfação.

Uma idéia que circula com bastante liberdade nos meios anticatólicos é a da suposta “venda de indulgências”, que Martinho Lutero tanto abordou, sem entender direito a que estava se referindo. Isto porque, na época, a Igreja estabeleceu como indulgência a contribuição para a construção da Basílica de São Pedro, em Roma (obra essa que durou cerca de trezentos anos). Essa contribuição serviria para remir a pena temporal pelos pecados que cada um tivesse cometido, deles feito confissão e recebido a absolvição (porque indulgência não perdoa pecado algum, mas dispensa da reparação direta do dano causado pelo mesmo).

No episódio narrado no início, tirado do Evangelho segundo S.Lucas, vemos clara a resposta de Jesus: “Hoje veio a salvação a esta casa, pois também ele é filho de Abraão. Com efeito, o Filho do Homem veio procurar e salvar o que estava perdido”. Ou seja – Jesus ligou a salvação à reparação que Zaqueu havia prometido, e que estava certamente a seu alcance realizar.

Esta situação difere e muito do caso do ladrão da direita, na cruz (Dimas). Preso à sua cruz, ele nada poderia fazer para reparar seus erros, e nem como satisfação indireta, e Jesus, obviamente, compreendeu isto. Afinal, como ele iria exigir daquele pobre homem algo de que estava impossibilitado de fazer?Indubitavelmente, o que Jesus tinha em mente, e que a Igreja entendeu, e que Lutero não entendeu, é evitar a “indústria do pecado” – eu roubo, confesso meu pecado, mas continuo com a coisa roubada. Fácil, não?

Com isto, fica evidenciado que conversão, mudança de vida, é questão de atitudes concretas. Não se pode parar no abstrato porque abstrato não conserta coisa alguma no relacionamento entre os membros do Corpo de Cristo.

AS indulgenciasé apenas um meio para se expiar ou reparar um pecado venial ou mortal que a pessoa comete, ou seja, a pessoa vai pede perdão numa boa confissao de coracao contrito mais volta a pecar pq nao tirou a raiz do pecado do teu coração, ou seja a indulgencia é um meio da pessoa de penitenciar para alcançar a cura do seu pecado em teu coracao.Para extirpar o princípio do pecado remanescente, o cristão deve excitar e exercitar mais intensamente o amor a Deus. Ora este estímulo do amor a Deus se realiza mediante a satisfação ou atos de penitência que despertem e fortaleçam o amor a Deus no íntimo do cristão.

Notemos bem: a satisfação assim entendida não deve ser comparada a uma multa mais ou menos arbitrária imposta por Deus ou a um castigo vingativo; é, antes, um auxílio medicinal; é também uma exigência do amor do cristão a Deus, amor que, estando debilitado, pode ser corroborado e purificado.

o Concílio de Trento em 1547, frente às objeções protestantes, fez importantes declarações. Rejeitou, por exemplo, a sentença segundo a qual “a todo pecador penitente que tenha recebido a graça da justificação, é de tal modo perdoada a ofensa e desfeita e abolida a obrigação de pena eterna que não lhe fica pena temporal a padecer ou neste mundo ou no outro, no purgatório, antes que lhe possam ser abertas as portas para o reino dos céus” (Enquirídio, DS nº 1580 [8401).

0 Concílio de Trento declarou ainda: No tocante à satisfação, é de todo falso e alheio à Palavra de Deus afirmar que a culpa nunca é perdoada. Com efeito, nas Escrituras Sagradas encontram-se claros e famosos exemplos que refutam este erro com plena evidência” (DS 1689-[904])

O perdão do pecado e a restauração da comunhão com Deus implicam a remissão das penas eternas do pecado. O cristão deve esforçar-se, suportando pacientemente os sofrimentos e as provas de todo tipo e, chegada a hora de enfrentar serenamente a morte, aceitar como uma graça essas penas temporais do pecado; deve aplicar-se, através de obras de misericórdia e caridade, como também pela oração e diversas práticas de penitência, a despojar-se completamente do ‘velho homem’ para revestir-se do ‘homem novo”. (Novo Catecismo da Igreja Católica, parágrafos 1472 e 1473)A culpa é perdoada, sim. Mas a Escritura mostra que, mesmo depois de perdoada, o Senhor Deus exige satisfação ou reparação da ordem violada pelo pecado. Esta exigência se compreende muito bem se levamos em conta o seguinte: Quem rouba um relógio, pode pedir e receber o perdão do respectivo proprietário, mas este exigirá que a ordem seja restaurada ou que o relógio volte ao seu dono. Quem difama caluniosamente o próximo, pode pedir e receber o perdão deste, mas a pessoa difamada exigirá que se restaure a fama a que tem direito.

Também os pecados meramente internos (de pensamento e desejo) alimentam ou suscitam a desordem interna no pecador, de modo que este tem que restaurar ou introduzir a ordem em seu íntimo mediante atos de penitência ou renúncia. Tenhamos em vista os seguintes casos:

Davi, culpado de homicídio e adultério, foi agraciado ao reconhecer o delito; não obstante, teve que sofrer a pena de perder o filho do adultério (cf. 2Sm 12,13s).

Moisés e Aarão cederam a pouca fé em dados momentos da sua vida; por isto foram pelo Senhor privados de entrar na Terra Prometida, embora não haja dúvida de que a culpa lhes tenha sido perdoada (cf. Nm 20,12s;27,12-14; Dt 34,4s).

Em outros casos, o perdão é estritamente associado a obras de expiação:Assim o profeta Joel, com a conversão do coração, exige jejum e pranto (cf. Jl 2,12s). 0 velho Tobit ensina a seu filho que a esmola o libertará de todo pecado e da morte eterna (cf. Tb 4,11 s). Algo de semelhante é anunciado por Daniel ao rei Nabucodonosor (cf. Dn 2,24).

Indulgências plenárias.

Muitos confundem indulgência com perdão dos pecados. Nada mais falso!Cristo deu à Sua Igreja (e não as seitas) o poder de ligar e desligar e o fez especialmente na pessoa de S. Pedro (cf. Mt 16,19), pois a sua autoridade serviria como fonte (cf. Lc 22,31-32) da unidade da fé (cf. Ef 4,5).

Se o pecado venial não priva o pecador da vida eterna (não o condena ao inferno(S. João “há pecado que não leva à morte” )), porém no céu só entra quem estiver com a alma perfeita (cf. Hb 12,21-24; Sl 14(13)), significa que a pena associada ao pecado venial é temporária, isto é quem morre tendo o perdão dos pecados graves poderá ir para o céu, porém, terá que pagar a pena temporal de seus pecados veniais e pagará esta pena até o último centavo (cf. Mt 5,25-26).

A Escritura ensina que Deus é indulgente com os homens (cf Jl 2,13). As indulgências nada mais são do que o perdão da pena temporal do pecado

Se as penas temporais do pecado servem para terminar a obra de reparação do velho homem no novo homem, estará isento de tais penas aquele que na vida terrena já procurar tal reparação, que só pode se dar através de obras de piedade. Com efeito, lemos no provérbio “O ódio desperta rixas; a caridade, porém, supre todas as faltas” (Pr 10,12).

Cristo também confirma o valor que as obras de piedade possuem para suprir “todas as faltas” (cf. Mt 6,2-18; Mc 9,41; Lc 11,41). Ver ainda 1Pd 4,8; At 10,3-4; 10,31.

 

Marcado com:
Publicado em Dotrina das Indulgências
Um comentário em “A Doutrina das Indulgências
  1. At least some bloggers can write. My thanks for this blog post..

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Magnificat anima mea Dominum
Inquisição on Line
Curso de liturgia da Santa Missa // Padre Paulo Ricardo // Parte 1
Curso de liturgia da Santa Missa // Padre Paulo Ricardo // Parte 2
Curso de liturgia da Santa Missa // Padre Paulo Ricardo // Parte 3
Curso de liturgia da Santa Missa // Padre Paulo Ricardo // Parte 4
Catecismo de Adultos – Aula 01 – A Revelação Divina – Padre Daniel Pinheiro
Catecismo de Adultos – Aula 02 – O Modernismo, o problema atual na Igreja – Padre Daniel Pinheiro
Catecismo de Adultos – Aula 03 – Deus Uno e Trino – Padre Daniel Pinheiro
Catecismo de Adultos – Aula 04 – A Criação em geral e os anjos – Padre Daniel Pinheiro
Catecismo de Adultos – Aula 05 – Os anjos e o homem – Padre Daniel Pinheiro
Catecismo de Adultos – Aula 06 – A Teoria da Evolução contra a Ciência e a Filosofia – Padre Daniel Pinheiro
Catecismo de Adultos – Aula 07 – Cristo Nosso Senhor e Maria Santíssima – Padre Daniel Pinheiro
Catecismo de Adultos – Aula 08 – Aula 08 – O modo de vida de Jesus Cristo – Padre Daniel Pinheiro
Catecismo de Adultos – Aula 09 – As perfeições de Cristo e a Paixão – Padre Daniel Pinheiro
Catecismo de Adultos – Aula 10 – A Cruz, os infernos e a Ressurreição de Cristo – Padre Daniel Pinheiro
Catecismo de Adultos – Aula 11 – A Ascensão, os juízos particular e final, e o Espírito Santo – Padre Daniel Pinheiro
Catecismo de Adultos – Aula 12 – Como saber qual a verdadeira Igreja de Cristo? – Padre Daniel Pinheiro
Catecismo de Adultos – Aula 13 – A Igreja Católica e a Salvação – Padre Daniel Pinheiro
Catecismo de Adultos – Aula 14 – A Infalibilidade da Igreja e a união da Igreja e do Estado – Padre Daniel Pinheiro
Catecismo de Adultos – Aula 15 – Da comunhão dos santos à vida eterna – Padre Daniel Pinheiro
Catecismo de Adultos – Aula 16 – Os princípios da oração – Padre Daniel Pinheiro
Catecismo de Adultos – Aula 17 – Como rezar bem? – Padre Daniel Pinheiro
Catecismo de Adultos – Aula 18 – Os tipos de oração – Padre Daniel Pinheiro
Catecismo de Adultos – Aula 19 – O Pai Nosso – Padre Daniel Pinheiro

 

Catecismo de Adultos – Aula 20 – A Ave Maria e o Santo Terço – Padre Daniel Pinheiro

 

Catecismo de Adultos – Aula 21 – A Meditação Católica – Padre Daniel Pinheiro
Catecismo de Adultos – Aula 22 – Introdução à moral católica: uma moral das virtudes – Padre Daniel Pinheiro
Lutero e o Protestantismo: A História da Reforma – Profa. Dra. Laura Palma
Lutero e o Protestantismo: Vida de Lutero – Prof. André Melo
Lutero e o Protestantismo: Sola Scriptura – Profa. Dra. Ivone Fedeli
Lutero e o Protestantismo: Sola Fide – Prof. Marcelo Andrade
Lutero e o Protestantismo: Sola Gratia – Pe. Edivaldo Oliveira
Mídia Católica
Atualizações
Translator
Italy
Calendário
junho 2011
D S T Q Q S S
« maio   jul »
 1234
567891011
12131415161718
19202122232425
2627282930  
Visitantes
  • 4.241.794 acessos desde 01/05/2011
religião e espiritualidade
religião e espiritualidade
Categorias
Links
%d blogueiros gostam disto: