Destino e Providência Divina

A mitologia grega personificava o Destino (moira), atribuindo-lhe símbolos que significavam a índole de necessidade cega e força inelutável. O Destino, em suma, podia tudo, exceto mudar os seus decretos; o que estava escrito não se alterava. Seus desígnios eram incompreensíveis aos humanos e até ao próprio Destino, que pairava acima dos deuses da mitologia.

A razão dos antigos chegarem a conceber uma figura tão misteriosa como responsável pela sorte dos homens está no fato de que o homem pagão se sentia incapaz de compreender o sentido da vida e de reger sua sorte. Isto o levava a supor a ação de uma força estranha e superior atuando sobre os acontecimentos de sua existência de maneira absoluta e impenetrável.

O pensamento cristão, por sua vez, é essencialmente contrário à existência de qualquer força cega que empurre o homem a agir deste ou daquele modo, pois entre Deus e os homens não há semideuses, nem algum ser misterioso que o obrigue a fazer algo. Deus criou o homem livre e deixa-lhe a liberdade de opção e ação. Deus deu a liberdade a cada ser humano para que cada um construa o seu destino e não fique sujeito a um cego destino já traçado. A liberdade é o dom mais precioso que Deus nos deu, e que nos faz à Sua imagem e semelhança. Assim, nem mesmo o demônio pode coagir alguém a cometer o mal, mas apenas sugerir o pecado, tentando a criatura humana. O demônio, anjo que Deus criou bom e que se perverteu pelo pecado da soberba, pode tentar o homem e levá-lo ao pecado se a pessoa tentada consentir nas suas sugestões, mas não pode forçá-la ao mal. Santo Agostinho dizia que “o demônio é um cão acorrentado, que pode ladrar muito, mas só faz mal a quem se lhe chegue perto”.

Os pagãos admitiam o Destino porque tinham concepções imperfeitas a respeito da Divindade; concebia-a à semelhança do homem, o que dificultava entender o que a linguagem cristã chama “Providência Divina”. O Destino na mitologia é figura fantasiosa ou fictícia, como também o encadeamento cego de causas e efeitos, sufocador da liberdade; é algo de irreal, decorrente de errôneas noções da Divindade e de Seus atributos. Jesus veio libertar o homem de todas as crendices e pavores da imaginação, e anunciou ao homem sua liberdade, devendo responder diretamente a Deus por suas escolhas.

O destino não existe. Se o destino de cada um já estivesse irremediavelmente traçado, de nada valeria o nosso esforço pessoal e a luta de cada um para ser melhor.

Desta forma, despachos ou trabalhos nada podem fazer contra quem quer que seja. Nada disso causa desemprego, destruição de casamento, doença, … A não ser que a pessoa acredite que seja eficaz, sugestiona-se, julga-se condenada a um infortúnio e, insegura, pode precipitar-se numa desgraça ou deixar-se envolver num acidente; em tal caso, a eficácia não é do despacho, mas da sugestão que a pessoa concebe por acreditar que o despacho é eficaz.

Por outro lado, o cristão não acredita em números de boa ou má sorte, horóscopo, amuletos, … Verdade é que, desde épocas antigas, os homens imaginaram estar debaixo do poder dos astros. Podem os astros, em alguns casos, influir sobre o físico e o psíquico do homem, causando reações psicossomáticas, o que não significa traçar o futuro do homem. Assim também, nenhum objeto de superstição faz bem ou mal a alguém. Amuletos, figas, talismãs, …, podem apenas desencadear a sugestão, mas sem qualquer fundamento real.

Em suma, o cristão não crê que as coisas acontecem porque Deus as determinou, retirando a liberdade do homem. Agora, Deus é onisciente, sabe tudo, até o futuro de cada ser vivo. Mas, isto não implica que Deus determine o futuro de cada pessoa. Ele sabe qual será este futuro, mas é no presente de cada um que se traça o futuro. Por ser Deus, já sabe o que vamos fazer, mas isso não restringe nossa liberdade nem um pouco. Jesus morreu na Cruz para que fossemos livres de todo mal, especialmente do pecado e do demônio.

A Providência Divina, por sua vez, é a ação pela qual Deus se dispõe a levar todas as criaturas para o seu fim devido; Deus não abandona a criatura depois de lhe ter dado existência, mas tendo-a criado em vista de uma finalidade sábia e grandiosa, provê os meios para que cada criatura possa atingir a sua meta, sem retirar da liberdade do homem.

Por abarcar toda a história da humanidade, a Providência Divina vê mais longe que a mesquinha mente humana, por isso, nem sempre coincide com o modo de pensar da criatura. Há momentos de silêncios de Deus ou momentos em que Ele parece ausente da história da humanidade, contudo as Escrituras mostram como também estas fases são acompanhadas pela Sabedoria Divina. Ele sabe tirar dos males, bens maiores. Santo Agostinho dizia que “o que, aos olhos dos homens, parece desastre final, Ele o converte em ponto de partida para o derramamento de novas graças”. O Novo Testamento insiste em que o cristão deve se configurar a Cristo mediante a Cruz, para participar também de Sua ressurreição (cf. Mt 10,24-31; Rm 8,28-32).

Assim, o Cristianismo repudia o Destino e, em seu lugar, professa a Providência Divina.

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