A CULPABILIDADE DO ATEU


 

Rousseau pensava que era possível estabelecer a lei moral prescindindo de Deus. Em sua obra ‘Julie ou la nouvelle Héloïse’ aparece um personagem – Wolmar -que pode ser considerado o paradigma do ateu virtuoso. O mito do ateu virtuoso implica sempre a não culpabilidade do seu ateísmo. Wolmar, segundo a obra de Rousseau não é culpado de não conhecer a verdade, a culpa é da verdade que foge dele. (ROUSSEAU. Julie ou la nouvelle Héloïse. Garnier, Paris, s/f, II, p. 344).
Ora, chegar ao conhecimento da existência de Deus é não somente possível, mas é, sobretudo um dever moral. Responde a inclinação essencial da natureza humana a conhecer a verdade, e nessa inclinação se funda o dever de buscá-la. Deixando de lado as influências negativas que, desde os primeiros momentos da existência, possam ter sobre a pessoa as convicções dos pais, educadores, etc., queremos chamar a atenção sobre as causas internas que cerram a pessoa ao conhecimento de Deus.Santo Tomás explica que a culpabilidade dos que não conhecem a Deus não vem precedida da ignorância, senão o contrário: ‘a culpa engendra uma ignorância consequente, e neste sentido, esta ignorância possui também razão de culpa’. (In Ep. ad Rom.,cap.1,lect.7).

A ignorância da existência de Deus se deve, ao menos em muitos casos, a que más disposições morais subjetivas que impedem o reto uso da inteligência, que, por natureza, não se detém até chegar ao seu Criador. E isto, porque, na busca da verdade está implicada toda a pessoa; não somente o entendimento, senão também a vontade, as paixões e sentimento, a cabeça e o coração.

Quando uma verdade se apresenta ao entendimento, entra em jogo a vontade, que pode amar essa verdade ou rechaçá-la. Se a pessoa está bem disposta, moralmente disposta, sua vontade aceita como conveniente, e inclusive pode mandar ao entendimento que a considere mais profundamente, que busque outras verdades que a corroborem, e, por, último, se é necessário, ordena sua conduta de acordo com essa verdade. Mas ao contrário, se a pessoa está mal disposta, a vontade tem maior dificuldade para aceitar a verdade, e pode inclusive rechaçá-la como odiosa.
É o caso dos que não queriam conhecer a verdade da fé para pecar livremente, mencionados no livro de Jó: ‘Não queremos a ciência de teus caminhos’. O resultado é que a pessoa não ‘vê’ a verdade porque não quer. A verdade fica aprisionada pela injustiça (Rm 1,18). Para entender, para ‘reconhecer’ uma verdade como bem, é necessário querer: ‘Entendo, afirma Santo Tomás, porque quero, e do mesmo modo uso de todas as potências e hábitos porque quero’.(Quaestiones disputatae: De malo q.4, a.1). Isso não quer dizer que a vontade ou o desejo sejam, no fim das contas, os criadores da verdade, senão que se requer a ‘boa vontade’, a ‘pureza de coração’, para reconhecer a verdade e convertê-la em diretora da própria vida. A negação da verdade sobre a existência de Deus não é então fruto de um processo puramente intelectual, senão da própria má vontade.O modo de viver de alguns cristãos, a falta de coerência entre fé e conduta, tem alimentado, em certas ocasiões o mito do ateu virtuoso. Entretanto, não se pode ter uma vida moral plena, com todas as condições que exigem a palavra ‘moral’, algo que não coincide com o que se entende habitualmente por ‘boa pessoa’, se se prescinde da aceitação prática da verdade sobre Deus. Não há como.

Fonte de consulta: Cf. TOMÁS TRIGO. EL MITO DEL ATEO VIRTUOSO. ACTUALIDADE DE UN MITO. Actas del VI Simposio Internacional fe cristiana y cultura contemporánea “¿Ética sin religión?”, Eunsa, Pamplona 2007, pp. 325-336.
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Publicado em Ateísmo, Relativismo

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