AS PROFECIAS DE ISAÍAS SOBRE O SALVADOR

É sobretudo Isaías que, em sua grande profecia, descreve a natividade do Messias, seus atributos divinos, seu reino universal, seu sacrifício que salva todos os povos e seu triunfo.

Inicialmente, a natividade: “Pois por isso o mesmo Senhor vos dará este sinal: uma Virgem conceberá e dará à luz um filho e o seu nome será Emmanuel (VII, 14). Este texto isolado já seria surpreendente, mas ainda permanece obscuro. Trata-se de que Virgem? Isso torna-se mais preciso quando o nome Emmanuel é explicitamente determinado no capítulo seguinte (VIII, 8, 10) onde Emmanuel designa o Senhor, o Messias, “Deus conosco”. Também o evangelista S. Mateus (I, 23) e com ele toda a tradição católica, entende por Virgem, neste texto de Isaías, a Virgem Maria e por Emmanuel, o Verbo encarnado, o Filho de Deus feito homem, verdadeiramente Deus conosco [1]. São Mateus, I, 21, mostrará como a revelação feita a José antes do nascimento de Jesus é a coroação da profecia de que falamos: “O anjo do Senhor apareceu em sonhos a José dizendo: “José, filho de Davi, não temas receber Maria como tua esposa, porque o que nela foi concebido é (obra) do Espírito Santo. E dará à luz um filho ao qual porás o nome de Jesus, porque ele salvará o seu povo dos seus pecados. Ora, acrescenta São Mateus, tudo isto aconteceu para que se cumprisse o que o Senhor havia dito pelo Profeta: “Uma virgem conceberá e dará à luz um filho e ele será chamado Emmanuel”, isto é, observa S. Mateus, “Deus conosco”.

As funções do Messias são descritas a partir do capítulo IX, 6: “Porquanto um menino nasceu para nós e um filho nos foi dado e foi posto o principado sobre seu ombro; e será chamado Admirável, Conselheiro, Deus forte, Pai do século futuro, Príncipe da Paz”. Nada de maior pode ser anunciado; estas palavras, Deus forte, significam claramente que nessa criança que virá ao mundo residirá a plenitude das forças divinas. Muito poucos compreenderam seu sentido quando foram escritas. Vemos que elas já exprimem a devoção do Prólogo do Evangelho de São João: “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava em Deus e o Verbo era Deus… E o Verbo se fez carne e habitou entre nós”.

No capítulo XI, 1, está dito: “E sairá uma vara do tronco de Jessé (pai de Davi) e uma flor brotará de sua raiz. E repousará sobre ele o Espírito do Senhor, espírito de sabedoria e de entendimento, espírito de conselho e de fortaleza; espírito de ciência e de piedade [2] e será cheio do espírito de temor do Senhor… Julgará os pobres com justiça, e tomará com equidade a defesa dos humildes da terra”. É a enumeração dos dons do Espírito Santo que o Messias receberá eminentemente, e os justos por participação.

Seu reino universal é anunciado, XVI, 5; XVIII, 7; XXIV – XXVII; e também seu caráter de pedra angular, XXVIII, 16: “Portanto essas coisas diz o Senhor Deus: Eis que colocarei nos fundamentos da (nova) Sião uma pedra, uma pedra escolhida, angular, preciosa, assentada em (solidíssimo) fundamento; aquele que crer, não se apresse”. São Pedro depois de Pentecostes dirá aos membros do sinédrio: “esse Jesus (em nome de quem esse homem foi curado) é a pedra que foi rejeitada por vós que edificais, a qual foi posta por (pedra) fundamental do ângulo; e não há salvação em nenhum outro. Porque, sob o céu, nenhum outro nome foi dado aos homens, pelo qual nós devamos ser salvos”. (Atos IV, 11). Essa pedra angular, tinha dito Isaías VIII, 14, “será também pedra de tropeço (…); muitos tropeçarão e cairão e serão feitos em pedaços”. São Paulo lembra isso na Epístola aos Romanos, IX, 32, e acrescenta: “mas aquele que crê n’Ele não será confundido”. E assim: Ef. II, 20; I Ped II, 4.

Isaías anuncia, XXXV, 4…, que o próprio Deus virá: “eis vosso Deus… Ele mesmo virá e vos salvará. Então se abrirão os olhos dos cegos, e se desimpedirão os ouvidos dos surdos. Então saltará o coxo como um veado, e desatar-se-á a língua dos mudos… E haverá ali uma vereda e um caminho, que se chamará santo; não passará por ele o impuro, e este (caminho) será para vós um caminho direto, de sorte que andem por ele os próprios loucos sem se perderem… E os remidos pelo Senhor voltarão e virão a Sião cantando os seus louvores; e uma alegria eterna coroará a sua cabeça.”

A salvação messiânica está de ordinário associada pelos profetas à suprema aparição de Deus sobre a terra (Isaías, VII, 14; XL, 5; Malaquias III, 1).

As virtudes e obras do servo de Deus são claramente preditas, XLII, 1-9: “Eis o meu servo, eu o amparei; o meu escolhido, no qual a minha alma pôs a sua complacência; sobre ele derramei o meu espírito; ele espalhará a justiça entre as nações. (Sendo manso) não clamará, nem fará acepção de pessoas, nem a sua voz se ouvirá nas ruas. Não quebrará a cana rachada, nem apagará a mecha que ainda fumega; fará justiça conforme a verdade. Não será triste, nem turbulento, até que estabeleça a justiça sobre a terra… Eis o que diz o Senhor Deus, que criou os céus, e que os estendeu… Eu sou o Senhor, que te chamei na justiça… e te pus para seres reconciliação do povo, e a luz das nações; para abrires os olhos dos cegos e para tirares da cadeia o preso, e do cárcere os que estão sentados nas trevas. Eu sou o Senhor, este é o meu nome; eu não darei a outro a minha glória, nem consentirei que se tribute aos ídolos o louvor que só a mim pertence”. XLIII, 1: “Não temas, ó Israel, porque eu te remi… Quando tu passares por entre as águas (dos perigos) eu estarei contigo, e os rios não te submergirão; quando andares por entre o fogo, não serás queimado, e a chama não arderá em ti. Porque eu sou o Senhor teu Deus, o Santo de Israel, teu Salvador”.

“O servo de Deus” segundo alguns racionalistas significa o povo de Israel todo; mas hoje a maior parte dos críticos e todos os exegetas católicos observam que nessa profecia, XLII, 1-9, o servo de Deus é claramente distinto do povo de Israel; é uma pessoa real, distinta da massa da nação, da qual se diz: “Ele não quebrará a cana rachada, nem apagará a mecha que ainda fumega; fará justiça conforme a verdade”. E o próprio Jesus, como conta S. Mateus, XII, 17, pedindo aos apóstolos que não divulgassem seus milagres, para não excitar o gosto pelo extraordinário, aplicará a si mesmo essa profecia.

Isaías insiste muito no sacrifício do Salvador; ele o descreve, precisando vários detalhes que serão realizados ao pé da letra durante a Paixão de Jesus: L, 6: “Eu entreguei o meu corpo aos que me feriram, e a minha face aos que me arrancavam a barba; não desviei a minha face dos que me injuriavam e cuspiam. O Senhor Deus é o meu protetor, por isso não fui confundido… e sei que não ficarei envergonhado.” LII, 13, LIII: “Eis que o meu servo procederá com inteligência, será exaltado e elevado e chegará ao cúmulo da glória. Assim como pasmaram muitos à vista de ti, assim será sem glória o seu aspecto entre os homens, e a sua figura desprezível entre os filhos dos homens… ele não tem beleza, nem formosura, e vimo-lo, e não tinha aparência do que era, e por isso não fizemos caso dele. Ele era desprezado, e o último dos homens, um homem de dores, e experimentado nos sofrimentos; e o seu rosto estava encoberto; era desprezado e por isso nenhum caso fizeram dele. Verdadeiramente ele foi o que tomou sobre si as nossas fraquezas (e pecados), e ele mesmo carregou com as nossas dores; e nós o reputamos como um leproso, e como um homem ferido por Deus e humilhado [3]. Mas foi ferido por causa das nossas iniqüidades, foi despedaçado por causa dos nossos crimes; o castigo que nos devia trazer a paz caiu sobre ele, e nós fomos sarados com as suas pisaduras. Todos nós andamos desgarrados como ovelhas, cada um se extraviou por seu caminho; e o Senhor carregou sobre ele a iniqüidade de todos nós.”
Aí está o mistério da Redenção predito no que tem de essencial, e com vários detalhes: LIII, 7: “Foi oferecido (em sacrifício) porque ele mesmo quis, e não abriu a sua boca; como uma ovelha que é levada ao matadouro, e como um cordeiro diante do que o tosquia, guardou silêncio e não abriu sequer a boca. Ele foi tirado pela angústia e pelo juízo. Quem contará a sua geração? Porque ele foi cortado da terra dos viventes; eu o feri por causa da maldade do meu povo”. Nem mesmo os Apóstolos, exceto São João, compreenderão no momento da Paixão e da morte do Salvador, que é por nossa salvação que Ele se oferecia e morria daquele modo sobre a Cruz.

Essa profecia é de tal maneira surpreendente que é chamada “Paixão segundo Isaías”, a Paixão redentora no que ela tem de mais profundo, em seu motivo supremo de Misericórdia e Justiça, a Paixão vislumbrada antecipadamente no que ela tem de mais íntimo, no que aparecerá em certa medida a Maria ao pé da Cruz, a São João, às santas mulheres, ao bom ladrão, ao centurião; a Paixão, fonte infinita de graças, predita no que permanecerá escondido para a maior parte do que verão Jesus morrer em Sua Cruz.

Enfim Isaías, após as humilhações e sofrimentos do Messias, descreve seu triunfo e a conversão de muitos. LIII, 10: “E o Senhor quis consumi-lo com sofrimentos, mas quando tiver oferecido a sua vida pelo pecado, verá uma descendência perdurável, e a vontade do Senhor (isto é, a conversão dos povos e o estabelecimento do reino de Deus no mundo) prosperará nas suas mãos… Este meu servo justificará muitos… porque entregou a sua vida à morte, e foi posto no número dos malfeitores, e tomou sobre si os pecados de muitos e intercedeu pelos pecadores”. São Paulo escreverá aos Hebreus, VII, 25, depois da Ressurreição e da Ascensão: “Por isso pode salvar perpetuamente os que por ele mesmo se aproximam de Deus, vivendo sempre para interceder por nós”.

A profecia de Isaías se encerra com a descrição da glória da nova Jerusalém, que por sua luz atrai as nações, com o quadro de sua santidade e de seu esplendor. LV, 1, 5: “Todos vós que tendes sede, vinde às águas (…) os povos que não te conheciam correrão a ti por amor do Senhor teu Deus, e do Santo de Israel, que te glorificou. Buscai o Senhor, enquanto se pode encontrar; invocai-o, enquanto está perto. Deixe o ímpio o seu caminho… porque Ele é muito generoso para perdoar. Porque os meus pensamentos não são os vossos pensamentos; nem os vossos caminhos são os meus caminhos, diz o Senhor. Porque, quanto os céu estão elevados acima da terra, assim se acham elevados os meus caminhos acima dos vossos caminhos, e os meus pensamentos acima dos vossos pensamentos.” — LX, 1-3: “Levanta-te, recebe a luz, Jerusalém, porque chegou a tua luz, e a glória do Senhor nasceu sobre ti. Porque eis que as trevas cobrirão a terra, e a escuridão os povos; mas sobre ti nascerá o Senhor, e a sua glória se verá em ti. E as nações caminharão à tua luz, e os reis ao esplendor da tua aurora”. — Isaías entrevê até a Jerusalém celeste: LX, 19-20: “Tu não terás mais (necessidade do) sol para luzir de dia…o Senhor te servirá de luz eterna, e o teu Deus será a tua glória. Não mais se porá o teu sol… porque o Senhor te servirá de luz eterna, e terão acabado os dias do teu pranto.” Esses textos prevêem o que Nosso Senhor chamará tão freqüentemente de “vida eterna”.
Nesse magnífico poema, Jerusalém é representada como o centro do reino universal, estendendo-se a todas as nações: religioso, onde tudo converge para o culto de Javé, composto de justos e de santos; eterno (55,3; 60, 15, 19, 20; 61,8). Os teólogos têm razão de ver a realização dessas promessas na Igreja fundada por Jesus Cristo, já que o Servido de Javé é Jesus Cristo, e a numerosa posteridade do Servidor, as multidões de homens que lhe são dadas como prêmio de seus sofrimentos e de sua morte devem povoar a nova Jerusalém 53, 10-12; 54, 1-3).

Isaías é incontestavelmente o maior dos profetas, pela importância de suas revelações e o poder de seu estilo. Ele viveu numa época das mais conturbadas da história de Israel, que teve então muito que sofrer dos Assírios [4]. Como diz o Eclesiastes, XLVIII, 27, 28: “Isaías consolou os que choravam em Sião; Até ao fim dos séculos mostrou o que devia acontecer, e as coisas ocultas antes que acontecessem.” O estilo de Isaías é ao mesmo tempo simples e sublime, de perfeita naturalidade, enorme nobreza e brilho excepcional. Suas frases são concisas, penetrantes e dão relevo aos pontos principais, para dissipar as ilusões e fortemente chamar a atenção para o reino de Deus, para fazer pressentir a grandeza do Messias e a majestade da glória divina. Isaías também é dotado de um verdadeiro gênio poético; o poder de sua imaginação não é menor do que a grandeza das idéias que ele tem a exprimir. Esse gênio poético aparece em particular nos contrastes e antíteses de suas predições. Em sua obra, as profecias propriamente ditas estão sempre em estilo poético, uma parte em verso e versos de grande beleza. É a inspiração no sentido mais alto e inteiramente sobrenatural da palavra.

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