Visão da Igreja primitiva acerca do Corpo de Cristo

Todos os católicos que um dia tiveram a oportunidade de serem catequizados, e receber a primeira comunhão, certamente ouviram dos lábios de um sacerdote estas palavras:

“O Corpo de Cristo!”, pelo que responderam: “Amém!”.

Esta expressão, todavia, nem sempre é compreendida em seu real sentido.

Como assim?

No Novo Testamento temos pelo menos 3 textos que apresentam a visão da Igreja primitiva acerca do Corpo de Cristo:

“O cálice de bênção, que benzemos, não é a comunhão do sangue de Cristo? E o pão, que partimos, não é a comunhão do corpo de Cristo?” (I Cor 10, 6);

“Ora, vós sois o corpo de Cristo e cada um, de sua parte, é um dos seus membros” (I Cor 12, 27);

“…Para o aperfeiçoamento dos cristãos, para o desempenho da tarefa que visa à construção do corpo de Cristo” (Ef 4, 12);

A princípio, temos a concepção de corpo como sacramento que nos une ao Cristo Jesus. No pão e no vinho consagrados, está a presença real de Jesus, como Ele mesmo falou:

“…Se não comerdes a carne do Filho do homem, e não beberdes o seu sangue, não tereis a vida em vós mesmos. Quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna; e eu o ressuscitarei no último dia. Pois a minha carne é verdadeiramente uma comida e o meu sangue, verdadeiramente um bebida. Quem come minha carne e bebe o meu sangue permanece em mim e eu nele” (Jo 6, 53-56).

Já nas Cartas aparece uma concepção menos sacramental, porém, mais eclesial.

Paulo afirmou:

“Vocês são o Corpo de Cristo!”.

Em outras palavras, a comunidade cristã é o Corpo de Cristo e cada batizado é um de seus membros.

Porém, historicamente este conceito de corpo comunitário, de uma Igreja de comunhão, centrada no mistério de Cristo e na ação do Espírito Santo, segundo as páginas do NT, foi sofrendo alterações.

Desde que a Igreja viveu a massificação no séc. IV, e passou a lentamente configurar-se como um estado eclesiástico, focando-se, sobretudo, no aspecto jurídico/institucional, a vida do povo de Deus não foi mais a mesma…

…De movimento perseguido e martirizado nos primeiros séculos, a Igreja passou a ser uma instituição privilegiada; de pequenas comunidades que viviam sua fé radicalmente, passamos ter um império cristão, centralizado nos templos.

Além de acentuar uma cisão entre clero e laicato, e departamentalizar a dimensão carismática da Igreja, limitando-a ao serviço dos ministros ordenados, este processo de imperialização foi dissolvendo gradativamente o conceito de Igreja povo de Deus, “Corpo de Cristo”, baseado na inter-relação entre a Igreja e a Eucaristia.

De tal modo isto se deu que até hoje a maioria de nós, ao ouvir a expressão “Corpo de Cristo”, automaticamente relaciona-a ao Sacramento do Altar, como também é conhecido, o qual comunica-nos a graça individualmente.

Se por um lado houve um incrível desenvolvimento no sentido teológico da Eucaristia, apresentada como fonte e ápice da vida eclesial, memorial do sacrifício do Calvário, ação de graças e louvor perfeito ao Pai e presença sacramental de Cristo, por outro, temos que reconhecer, que não houve a mesma evolução na compreensão de Corpo de Cristo, segundo a afirmação de Paulo:

“Vocês são o Corpo de Cristo!”

Daí que a fé tem sido vivida somente na perspectiva horizontal (eu e Deus, a minha Missa, a minha comunhão, a minha salvação), enquanto que a perspectiva horizontal, da comunhão fraterna, é pouco explorada.

É verdade que o Catecismo ensina que a Eucaristia faz a Igreja (CIC, 1396), afirmando que pela comunhão os fiéis têm sua incorporação à Igreja renovada e fortalecia, mas na prática, isto nem passa pela cabeça da maioria daqueles que “comungam”.

Comungam mesmo?

Assim, antes de respondermos: “Amém!” cada vez que o sacramento é administrado a nós, deveríamos pensar na seriedade de tal resposta.

“Amém” sem sempre tem significado: “SIM, É VERDADE, ASSIM SEJA…”.

Questione-se com base na Palavra de Deus, verifique se você tem vivido em comunhão ou se apenas tem “tomado a comunhão” (como alguns costumam dizer…).

Mais do que “tomar a comunhão”, I Cor 12, 27 nos chama a ser tomados pela comunhão, isto é, a sermos envolvidos pela comunhão fraterna, pelo cuidado uns com os outros, pelo amai-vos de Jesus (Jo 13, 34-35).

Encerrando, como podemos entender Ef 4, 12?

Como construir o Corpo de Cristo?

Pra quem só consegue entender Corpo de Cristo como hóstia consagrada, é impossível…

Mas para aquele que, a partir deste sacramento, passa a vivenciar sua fé na perspectiva comunitária, é possível se ver edificando o Corpo de Cristo.

Não é à toa que na instituição da Eucaristia Jesus nos tenha dado uma aula sobre a caridade e comunhão fraterna, servindo os seus (Jo 13).

Ora, os que participam da mesa eucarística devem assumir para si o gesto de Cristo, ofertando sua vida como uma hóstia viva, santa e agradável a Deus (Rm 12, 2).

No banquete eucarístico comungamos não um pão bento ou uma dose de remédio contra o pecado e os problemas da vida, comungamos aquilo que somos.

E se não o somos (nem estamos tentando ser), verdadeiro também não é o nosso “Amém”, e comemos sem diferenciar o Corpo de Cristo (I Cor 11, 29), o que é péssimo…

Procure edificar o Corpo de Cristo do qual você faz parte.

Sua comunidade… paróquia… não sei, você já é membro de um corpo?

Não de um conceito de corpo, algo universal, desencarnado, mas de um grupo mesmo, de uma pequena comunidade constituída de homens e mulheres, santos e ao mesmo tempo pecadores.

Para aprofundar: Rm 12, 4-5; I Cor 12, 12-13; I Cor 6, 15a; Ef 1, 22-23; Cl 1, 18; Ef 2, 14-16; Ef 2, 19-22; Gl 3, 28b; Cl 1, 24; Ef 4, 12; Cl 2, 19; Ef 4, 4. 15-16; Mt 1, 23; 18, 20; 28, 20b.

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