O demônio e seus prodígios

 
Alguns, por ignorância ou por orgulho, recebem positivamente os “maravilhosos” prodígios exibidos pelas seitas. Na maioria dos casos, são impelidos a este erro grosseiro não porque recusam a ideia de que os verdadeiros milagres só acontecem na Igreja Católica, mas porque não encontram outra explicação para o que veem de extraordinário nas reuniões dos hereges. Encantados pelos efeitos “inexplicáveis”, deixam-se arrastar para o abismo da heresia.
Com razão advertiram os Apóstolos contra as seduções do demônio. O alerta é enfático. São Paulo, referindo-se à segunda vinda de Nosso Senhor, previne os cristãos quanto à origem dos efeitos fantásticos que serão produzidos pelo ímpio:
“A manifestação do ímpio será acompanhada, graças ao poder de Satanás, de toda a sorte de portentos, sinais e prodígios enganadores” (II Tessalonicenses 2,9).
Falando sobre os sinais que precederão seu glorioso retorno, Nosso Senhor acautela contra os prodígios enganadores:
“Porque se levantarão falsos cristos e falsos profetas, que farão sinais e portentos para seduzir, se possível for, até os escolhidos” (São Marcos XIII, 22).
O poder dos ímpios será de origem diabólica. Seus prodígios, por mais fantásticos, não serão propriamente milagres, cuja finalidade é dar testemunho da verdade.
É da astúcia do diabo camuflar a mentira sob aparência de verdade. E ele se esforça para aproximar suas produções, tanto quanto possível, dos milagres divinos. Entretanto, como o anjo das trevas também é criatura finita, com poderes limitados, não pode fazer nada que ultrapasse a ordem da natureza criada, por exemplo, ressuscitar um morto.
Comentando o referido trecho do Evangelho de São Marcos, Santo Agostinho ensina que, enquanto os bons cristãos operam milagres pela pública justiça, os magos e hereges o fazem por contratos ocultos, auxiliados pelas potestades infernais. Concluindo, afirma o santo Doutor não ser absurdo crer que, por intervenção dos poderes inferiores dos anjos rebeldes, seja possível realizar verdadeiros prodígios (Cf. Catena Áurea, Comentário ao Evangelho de São Marcos XIII, 22).
Tratando das manifestações do Anticristo, Santo Agostinho escreve:

“Então ficará Satanás em liberdade, e implantará pelo Anticristo todo seu poder de um modo maravilhoso, ainda que falso. Ocorre que, com freqüência, se duvida da razão que teve o Apóstolo para chamá-los milagres e prodígios falsos. Pode ser que,ofuscados os sentidos, vejam uma aparição que faz o que não pode fazer, ou que, sendo verdadeiros prodígios, enganem aos que creem que só Deus pode fazê-los, não conhecendo o poder do diabo, e menos naquele tempo em que o terá maior que nunca” (op. cit.).

Este poder do príncipe das trevas é detalhadamente descrito no livro de Jó.
O texto sagrado diz que, para comprovar a fidelidade do justo chamado Jó, Deus permite ao demônio destruir os bens deste servo. Para executar o que lhe foi previamente concedido, o demônio fez cair fogo do céu, consumindo as ovelhas e os escravos de Jó. Além disso, produziu um furacão, fazendo desabar a casa sobre os filhos deste justo.
Nota-se com isso que, sob a concessão divina, o demônio tem poder sobre os fenômenos da natureza, podendo provocá-los para atingir seus fins, sempre malévolos.
Sobre isso, Santo Agostinho – e nele apoia-se Santo Tomás – afirma que o demônio pode manipular elementos da natureza, e com seu poder, produzir certos efeitos.
Na última tentativa de abalar a fidelidade de Jó a Deus, o demônio lança sobre ele uma terrível maldição: “Satanás retirou-se da presença do Senhor e feriu Jó com uma lepra maligna, desde a planta dos pés até o alto da cabeça” (Jó II, 7).
Vemos, portanto, que certas doenças também podem ser produzidas pelo demônio. E se ele pode causá-las, também pode retirá-las, sempre visando a perdição das almas.
Santo Tomás faz uma pertinente distinção:

“Alguns milagres não são verdadeiros, mas fatos fantásticos, pelos quais o homem é enganado, de tal modo que pareça ver o que não é. Outros são fatos verdadeiros, mas não são propriamente milagres, e que se devem às causas naturais. Estas duas classes podem ser realizadas pelo demônio” (Parte II-II, q.178, art.2).

Assim sendo, no que diz respeito às curas exibidas aos montes nas reuniões dos hereges, estas podem advir da imaginação e de fraude humana; podem ser “fatos fantásticos” destinados a iludir, ou ainda verdadeiros prodígios produzidos por meio de fenômenos naturais, forjados pelo pai da mentira.
São Francisco de Sales, relatando certas curas entre os não cristãos, não estranha a hipótese de que, com auxílio do diabo, Vespasiano tenha de fato curado um cego e um coxo, cujas deficiências não eram absolutamente incuráveis (Las Controvérsias. Madrid: Casa editorial San Francisco de Sales, 1898, p.199).
Em resposta a uma objeção, Santo Tomás argumenta que os poderes espirituais podem fazer aquelas coisas que se fazem visivelmente neste mundo, utilizando por movimento os germes dos corpos (Parte I, q.110, art.4, 3). Santo Agostinho é do mesmo parecer, dizendo que os demônios podem utilizar certos germes que se encontram nos elementos materiais (Parte I, q. 114, art.4, 2).
Ainda sobre os poderes do demônio, escreve Santo Tomás:

 “[…] todas as mudanças das coisas corporais que podem realizar-se por qualquer virtude natural, entre os quais estão os germes mencionados, podem realizar-se pela operação dos demônios utilizando tais germes. Exemplo: Ao converter certas coisas em serpentes ou rãs, as quais podem engendrar-se na putrefação. Mas as mudanças das coisas materiais que não podem realizar-se por virtude da natureza, de nenhum modo podem realizar-se na realidade pela ação dos demônios, como que o corpo humano se converta em corpo de besta ou que um corpo morto ressuscite. E se assim alguma vez parece fazer-se isso por virtude dos demônios, não é assim na realidade, mas só na aparência” (op. cit.).

Por sua natureza angélica, o demônio consegue fazer coisas que ultrapassam o poder e a previsão dos homens. Assim como certos truques, pela habilidade de quem os realiza, escapam ao alcance dos sentidos causando admiração, o demônio, com muito mais facilidade, executa ações que excedem o poder e o conhecimento humano, induzindo a crer que constituem verdadeiras manifestações milagrosas. Embora pareçam milagres para os homens, as obras prodigiosas dos demônios não chegam a essa categoria.
Ademais, se os anjos decaídos podem operar certas coisas dentro da ordem da criação, produzindo fenômenos naturais, manipulando ou movendo certos elementos contidos nos corpos, podem também alterar a imaginação e mesmo os sentidos das pessoas, levando-as a perceber algo como real, quando na verdade não é. (Parte I, q.114, art.4).
Essa ilusão demoníaca também pode ocorrer quando, a partir do ar, o demônio forma um corpo de qualquer forma e figura para aparecer visivelmente disfarçado. E o anjo das trevas não só pode assumir uma falsa aparência, como pode ocultar qualquer objeto corpóreo sob qualquer forma corpórea, de tal modo que não seja visto (Op. cit.).
Ora, São Paulo advertiu os cristãos de Corinto sobre o disfarce do diabo de “anjo da luz”. Aquele que é treva se apresenta em forma disfarçada de luz, ocultando a si mesmo e aos objetos.
Assim compreendemos porque Nosso Senhor preveniu os homens contra os embustes do demônio. Ele conhece bem esta criatura rebelada que, possuindo natureza superior à dos homens, os enganaria com sua astúcia. Por isso instituiu a Igreja, que pela luz da Fé, confirma a verdade e destrói as manobras mentirosas do diabo.
Apesar dos grandes poderes do diabo, suas falcatruas, embora prodigiosas, não resistem ao brilho da verdade. Quem sabe, se o demônio não estivesse tão esquecido nos seminários, nas Igrejas e até nos sermões clericais, o povo não seria tão facilmente enganado pelas seduções milagreiras dos hereges, algumas vezes auxiliados pelos anjos malignos.
A religião relativizada, somada à extinção – ou corrupção – da instrução religiosa nas paróquias, favoreceu essa busca por espetáculos sobrenaturais, onde quer que aconteçam. Um simples “prodígio” já é suficiente para arrastar multidões. Por desejo insaciável de milagres, desprezam as palavras que Nosso Senhor dirigiu ao apóstolo incrédulo, porque exigiu provas de sua divindade: “Felizes aqueles quecrêem sem ter visto (S. João XX, 29).
É verdade que para a rápida difusão e adesão ao Evangelho de Cristo, os milagres foram abundantes nos primeiros séculos. Segundo explica São Gregório Magno, isso foi necessário no começo da Igreja porque era preciso regar a semente da Fé com milagres. Porém, observa este santo Papa e doutor da Igreja que, na medida em que a “árvore” da fé está devidamente enraizada, tal como as plantas, deixa-se de regá-la com a “água” dos milagres (Cf. Catena Áurea: Comentário ao Evangelho de São Marcos XVI, 16-19).
Sobre isso explica Santo Agostinho:
“A Igreja católica, estando uma vez difundida e estabelecida por toda a terra, aqueles milagres não foram mais consentidos ao nosso tempo. Isso para que o nosso espírito não exija sempre coisas visíveis, e que o gênero humano não se arrefeça pelo costume de se apoiar nesses bens, com cuja novidade se tinha inflamado” (A Verdadeira Religião. 2ª ed. São Paulo: Edições Paulinas, 1987, p.80, grifo nosso).
Embora haja em Deus uma sapientíssima razão para esse arrefecimento dos milagres em relação aos primeiros séculos, eles nunca deixaram de existir na Igreja Católica, seja para confirmar sua doutrina e divindade, seja para confirmar a santidade de alguns de seus membros.
Acontece que, paralelamente, o diabo nunca deixou de tentar falsificar as obras de Deus. Ele não só quer enganar com seus plágios mal feitos, mas também vulgarizar os milagres divinos com seus prodígios, de modo a produzir, concomitantemente, fanatismo e desprezo.
Como sempre, quer enganar os católicos propondo falsos dilemas: ou se aceita tudo como milagre ou os nega completamente. Os dois extremos são falsos e cooperam para distorcer ou negar as maravilhas de Deus a fim de confundir as almas.
O diabo, por mais poderoso que seja em relação aos homens, sempre deixa falha em suas obras. Seus prodígios, ainda que fantásticos, nunca conseguem copiar perfeitamente os milagres divinos. Somente Deus perfeito pode produzir milagres perfeitos. Os anjos decaídos, apesar dos poderes que possuem, estão privados de perfeição. Ademais, enquanto criaturas que são, situam-se infinitamente abaixo de Deus.
Daí que, mesmo tratando-se de um anjo, é possível distinguir os sinais das obras do demônio se comparados aos das obras de Deus.
Em sua Apologética Cristã, o Padre W. Devivier faz algumas importantes ponderações:

“Sejam quais forem as faculdades naturais de que ele [o demônio] dispõe e de que na sua queda não ficou despojado, é certo que este inimigo de Deus nada pode fazer sem a permissão do soberano Senhor de todas as criaturas. Ora nunca a verdade, bondade e santidade de Deus poderão permitir que este anjo rebelde imite as divinas obras a ponto de invencivelmente induzir o homem ao erro e o levar deste modo à eterna perdição. Dizemos invencivelmente, porque havendo Deus feito o homem racional, não o dispensa do uso da razão para se garantir contra as ilusões” (Pe. W. Devivier S.J. Apologética Cristã. São Paulo: Editora-Proprietaria, 1924, p. 151).

Na distinção de fatos miraculosos e prodígios diabólicos, deve-se levar em contra três pontos, segundo orienta Santo Tomás: a pessoa que opera o milagre, a intenção pela qual opera e a maneira como opera. Assim, as qualidades pouco recomendáveis dos indivíduos de que se serve o diabo, a doutrina imoral que sustentam e os procedimentos pouco dignos que os acompanham, são alguns sinais da intervenção diabólica (op. cit.).
As obras de Nosso Senhor possuem efeitos diametralmente opostos, pois que sempre apresentam os sinais do poder divino, da simplicidade e da bondade. Nelas não encontramos extravagância, nem ostentação ou intenção de espantar, além de estarem sempre relacionadas com os ensinamentos dogmáticos e morais (op. cit., p. 152).
De todos esses sinais reveladores da autoria divina nos milagres, a verdade é a arma mais eficaz contra as falsificações do diabo. Jamais o pai da mentira fará um prodígio para confirmar uma verdade de Deus. Seu invencível desejo é precipitar as almas no inferno, induzindo-as ao pecado e aos erros contra a fé. Podemos dizer então que, onde reina a verdade, não pode haver prodígio diabólico destinado a confirmá-la. E, onde reina a mentira, não podem existir os milagres que ratificam a ortodoxia e a autoridade.
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