Pode um herege fazer milagres?

Conforme explica Santo Tomás em sua Suma Teológica, milagre é tudo aquilo que se realiza fora de toda a ordem natural (Parte I, q.110, art. 4). A ressurreição, por exemplo, é um evento milagroso que ultrapassa a ordem de toda a natureza criada.
Embora Deus seja o único Autor capaz dessa espécie de milagres, existem outros efeitos igualmente admiráveis, apesar de inferiores, que não recebem o título de verdadeiros milagres. São, por vezes, fenômenos naturais ou produções diabólicas. A concepção desse princípio, referido pelo Aquinate, é indispensável no processo de averiguação dos milagres divinos.
Conhecendo a astúcia do demônio, Nosso Senhor estabeleceu alguns critérios pelos quais a Igreja distingue Sua ação extraordinária no mundo das meras invenções do diabo. Neste intento, a fé em Cristo constitui o primeiro e principal elemento, mister para admissão de um verdadeiro milagre.
Pouco antes de ascender aos Céus, Nosso Senhor revelou os sinais que acompanhariam os convertidos:

Estes milagres acompanharão os que crerem: expulsarão os demônios em meu nome, falarão novas línguas, manusearão serpentes e, se beberem algum veneno mortal, não lhes fará mal; imporão as mãos aos enfermos e eles ficarão curados” (S. Marcos XVI, 16-19).

Cristo estabelece uma ligação entre os milagres e a Fé. O Evangelho, disse Ele, será anunciado a toda criatura pelos Apóstolos. Aos que acreditarem, Deus concederá o poder de fazer milagres.
Dessas claras palavras, proferidas pelo Verbo Encarnado, podemos inferir que sem fé verdadeira é impossível fazer milagres.
Comentando esse trecho do Evangelho de São Marcos, ensina São Jerônimo:

“Uma e outra coisa é necessária aos que servem ao Senhor: que as obras se provem com as palavras, e as palavras, com as obras” (apud Santo Tomás. Catena Áurea, Comentário ao Evangelho de São Marcos XVI, 16-19).

Fé e obras se confirmam mutuamente. Não pode existir contradição entre uma e outra. No caso dos milagres a relação é idêntica: o milagre é confirmado pela Fé, enquanto esta é confirmada pelos milagres. Neste sentido, Deus não pode validar a palavra enganosa dos hereges concedendo-lhes obras milagrosas.
Uma árvore ruim não pode produzir bons frutos (S. Mateus VII, 17-18).
Esses frutos, explica Santo Agostinho, são as ações do homem. Enquanto este persistir em sua maldade, não poderá fazer obras boas (Santo Agostinho, De Sermone Domini, 2, 24).
Alguns espíritos ecumênicos, esforçando-se para incluir as seitas entre os meios de salvação, afirmam a possibilidade de milagres em qualquer religião citando o seguinte trecho do Evangelho de São Marcos:

“João disse-lhe: Mestre, vimos alguém, que não nos segue, expulsar demônios em teu nome, e lho proibimos. Jesus, porém, disse-lhe: Não lho proibais, porque não há ninguém que faça um prodígio em meu nome e em seguida possa falar mal de mim. Pois quem não é contra nós, é a nosso favor” (S. Marcos, IX, 38-40).

Distorcendo a correta interpretação desta passagem, argumentam os indiferentistas em defesa do ecumenismo pós-conciliar, respeitador e favorecedor de todas as heresias. No entanto, o escrito sagrado, se examinado atentamente, não permite essa conclusão modernista.
Ao corrigir o Apóstolo São João, que havia proibido alguém de expulsar demônios porque não os seguia, Nosso Senhor fornece duas importantes informações:
1)    Ninguém que faça um prodígio pode em seguida falar mal de mim;
2)    Quem não é contra nós (Cristo e os Apóstolos), é a nosso favor.
Considerando esses dois princípios, a idéia ecumênica dos milagres não se sustenta. Ora, os hereges sempre acusam a Igreja Católica, recusando aceitar sua doutrina e suas legítimas autoridades. Desprezando a Igreja e seus representantes, rejeitam a Nosso Senhor como Ele mesmo asseverou: “Quem vos ouve, a mim ouve, e quem vos despreza a Mim despreza” (São Lucas X, 16).
Com isso Deus fornece mais uma luz para que os homens não caiam na sedução de certos “festivais de prodígios”. Sabendo que o “milagre” se realiza entre os que atacam e recusam submeter-se à Igreja de Cristo, pregando uma doutrina contrária ao que ela sempre ensinou, não podem concluir senão pela falsidade ou diabolicidade do prodígio.
Na Catena Áurea de Santo Tomás encontramos várias interpretações dos padres e doutores da Igreja que esclarecem os versículos do Evangelho segundo São Marcos (IX, 38-40).
O primeiro deles apresenta a seguinte explicação:

Muitos dos crentes haviam recebido certos poderes ainda que não estivessem com Cristo, como o de expulsar os demônios, mas nem todos os haviam recebido por ordem, posto que uns haviam-no recebido de uma vida simples…” (Pseudo-Crisóstomo apud Santo Tomás. Catena Áurea: Comentário ao Evangelho de São Marcos, IX, 38-40).

Ainda sobre o mesmo texto:

“E acrescenta para manifestar que nada deve opor-se ao bem: ‘Ninguém que faça milagres em meu nome poderá, portanto, falar mal de mim’. E o diz àqueles que cairiam em heresia, como Simão, Menandro e Cherinto, os que por outra parte, não operavam milagres em nome de Cristo, senão que os simulavam com certos enganos.Estes ainda que não nos seguem – disse – não poderão dizer verdadeiramente nada importante contra nós, posto que, fazendo milagres,honram meu nome (Op. Cit.).

Para concluir, as palavras de Santo Agostinho:

“Manifesta assim que aquele de quem havia tratado São João não havia se separado da companhia dos discípulos como para reprovar-lhe como aos hereges, mas como muitas vezes se separa os que, não se atrevendo a receber os Sacramentos de Cristo, se mostram benévolos com os cristãos sem outro objetivoque o de honrar seu nome” (Op. Cit.)

O conjunto dos comentários supra-expostos descarta a interpretação modernista dos milagres. Aquele que expulsava demônios, sem estar com os apóstolos, não era contra Cristo, como os hereges. Pelo contrário, acreditavam sinceramente em Cristo, falando e agindo em seu Nome, mesmo sem pertencerem ao grupo dos apóstolos. Portanto, o exorcista censurado por São João, de fato, seguia Nosso Senhor, embora não andasse com seus discípulos.
Enquanto o exorcista do Evangelho honrava o nome de Cristo e nada poderia dizer contra Ele e seus discípulos, Deus lhe concedia o dom de fazer milagres. Mas, como os hereges blasfemam contra Nosso Senhor, atacando sua Santa Igreja e ao mesmo tempo chamando seu divino fundador de mentiroso, não fazem senão falsos milagres, que afastam as almas da verdadeira religião.

“Por isto – diz São Gregório Magno – a Igreja despreza os ‘milagres’ dos hereges, porque não reconhece neles coisa alguma de santidade” (São Gregório Magno, Moralia, 20, 9).

Se o exorcista defendido por Cristo como sendo seu favorável fazia verdadeiros milagres, outros, embora recorressem ao Nome de Nosso Senhor, não lograram o mesmo êxito, porque não eram convertidos.
O mencionado evento consta nos Atos dos Apóstolos. Vejamo-lo a seguir:

“Alguns judeus exorcistas que percorriam vários lugares inventaram invocar o nome do Senhor Jesus sobre os que se achavam possessos dos espíritos malignos, com as palavras: Esconjuro-vos por Jesus, a quem Paulo prega. Assim procediam os sete filhos de um judeu chamado Cevas, sumo sacerdote. Mas o espírito maligno replicou-lhes: Conheço Jesus e sei quem é Paulo. Mas vós, quem sois? Nisto o homem possuído do espírito maligno, saltando sobre eles, apoderou-se de dois deles e subjugou-os de tal maneira, que tiveram que fugir daquela casa feridos e com as roupas estraçalhadas” (Atos XIX, 12-18).

Evidentemente, esses judeus não obtiveram sucesso em seu exorcismo porque não seguiam sinceramente Nosso Senhor. O mesmo se pode dizer dos hereges, inimigos ferozes da verdadeira fé, sem a qual é impossível agradar a Deus (Hebreus XI, 6). Separados de Cristo e excluídos da Igreja, nada podem fazer de sobrenatural, a não ser com auxílio das forças diabólicas.
A própria finalidade dos milagres suplanta o “show prodigioso” dos hereges.
Segundo expõe Santo Tomás, o milagre visa:
1) Confirmar a verdade predicada;
2) Demonstrar a santidade de alguém.
Quanto à primeira espécie de milagres, ensina o Aquinate que qualquer um que ensina a verdadeira fé e invoca o nome de Cristo, pode fazê-los; Quanto à segunda espécie, somente os santos podem realizá-los para dar provas de sua santidade (Parte II-II, q.178 art. 2).
A primeira finalidade dos milagres (confirmar a verdade ensinada) pode ser constatada no seguinte trecho do Evangelho de São Marcos:

“Os discípulos partiram e pregaram por toda parte. O Senhor cooperava com eles econfirmava a sua palavra com os milagres que a acompanhavam” (S. Marcos XVI, 20).

A segunda (demonstrar a santidade de alguém) verifica-se neste outro trecho:

“Deus fazia milagres extraordinários por intermédio de Paulo, de modo que lenços e outros panos que tinham tocado o seu corpo eram levados aos enfermos; e afastavam-se deles as doenças e retiravam-se os espíritos malignos” (Atos dos Apóstolos XIX, 11-12).

Acerca desse trecho, ratificador da santidade de São Paulo, escreve Teofilato:

“Mas devemos ter presente que a palavra se confirma com a obra, como nos Apóstolos, cujas palavras confirmavam os milagres que os acompanhavam(Cf. Catena Aurea).

Quando estava diante de Pilatos, Nosso Senhor declarou que veio ao mundo para dar testemunho da verdade (S. João XVIII, 37-38). Os milagres, diz Santo Tomás, são testemunhos daquilo para o qual se realizam. (Parte I-II, q.178 art.2, 2). Ora, Deus não pode dar testemunho contra Si mesmo. Portanto, não pode a Verdade Eterna testemunhar com milagres a mentira das seitas.
Orientando-se por essas inconfundíveis verdades, dificilmente alguém seria atraído pela propaganda “milagrosa” dos hereges. Os erros contra a fé bastariam para menosprezar esses falsos milagreiros de subúrbio, por mais numerosos e fantásticos que possam parecer seus espetáculos.
Caso Deus Sapientíssimo concedesse milagres aos hereges, muitos seriam enganados por uma falsa santidade e por uma falsa doutrina. E Deus, decreta a divina Escritura, não pode e não quer nos enganar (Números XXIII, 19).
Marcado com:
Publicado em Falsos Profetas

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Magnificat anima mea Dominum
Inquisição on Line
Curso de liturgia da Santa Missa // Padre Paulo Ricardo // Parte 1
Curso de liturgia da Santa Missa // Padre Paulo Ricardo // Parte 2
Curso de liturgia da Santa Missa // Padre Paulo Ricardo // Parte 3
Curso de liturgia da Santa Missa // Padre Paulo Ricardo // Parte 4
Catecismo de Adultos – Aula 01 – A Revelação Divina – Padre Daniel Pinheiro
Catecismo de Adultos – Aula 02 – O Modernismo, o problema atual na Igreja – Padre Daniel Pinheiro
Catecismo de Adultos – Aula 03 – Deus Uno e Trino – Padre Daniel Pinheiro
Catecismo de Adultos – Aula 04 – A Criação em geral e os anjos – Padre Daniel Pinheiro
Catecismo de Adultos – Aula 05 – Os anjos e o homem – Padre Daniel Pinheiro
Catecismo de Adultos – Aula 06 – A Teoria da Evolução contra a Ciência e a Filosofia – Padre Daniel Pinheiro
Catecismo de Adultos – Aula 07 – Cristo Nosso Senhor e Maria Santíssima – Padre Daniel Pinheiro
Catecismo de Adultos – Aula 08 – Aula 08 – O modo de vida de Jesus Cristo – Padre Daniel Pinheiro
Catecismo de Adultos – Aula 09 – As perfeições de Cristo e a Paixão – Padre Daniel Pinheiro
Catecismo de Adultos – Aula 10 – A Cruz, os infernos e a Ressurreição de Cristo – Padre Daniel Pinheiro
Catecismo de Adultos – Aula 11 – A Ascensão, os juízos particular e final, e o Espírito Santo – Padre Daniel Pinheiro
Catecismo de Adultos – Aula 12 – Como saber qual a verdadeira Igreja de Cristo? – Padre Daniel Pinheiro
Catecismo de Adultos – Aula 13 – A Igreja Católica e a Salvação – Padre Daniel Pinheiro
Catecismo de Adultos – Aula 14 – A Infalibilidade da Igreja e a união da Igreja e do Estado – Padre Daniel Pinheiro
Catecismo de Adultos – Aula 15 – Da comunhão dos santos à vida eterna – Padre Daniel Pinheiro
Catecismo de Adultos – Aula 16 – Os princípios da oração – Padre Daniel Pinheiro
Catecismo de Adultos – Aula 17 – Como rezar bem? – Padre Daniel Pinheiro
Catecismo de Adultos – Aula 18 – Os tipos de oração – Padre Daniel Pinheiro
Catecismo de Adultos – Aula 19 – O Pai Nosso – Padre Daniel Pinheiro

 

Catecismo de Adultos – Aula 20 – A Ave Maria e o Santo Terço – Padre Daniel Pinheiro

 

Catecismo de Adultos – Aula 21 – A Meditação Católica – Padre Daniel Pinheiro
Catecismo de Adultos – Aula 22 – Introdução à moral católica: uma moral das virtudes – Padre Daniel Pinheiro
Lutero e o Protestantismo: A História da Reforma – Profa. Dra. Laura Palma
Lutero e o Protestantismo: Vida de Lutero – Prof. André Melo
Lutero e o Protestantismo: Sola Scriptura – Profa. Dra. Ivone Fedeli
Lutero e o Protestantismo: Sola Fide – Prof. Marcelo Andrade
Lutero e o Protestantismo: Sola Gratia – Pe. Edivaldo Oliveira
Mídia Católica
Atualizações
Translator
Italy
Calendário
setembro 2012
D S T Q Q S S
« maio   out »
 1
2345678
9101112131415
16171819202122
23242526272829
30  
Visitantes
  • 4.031.199 acessos desde 01/05/2011
religião e espiritualidade
religião e espiritualidade
Categorias
Links
%d blogueiros gostam disto: