Idade Média: A ignorância sobre a “Ignorância”

Quem acredita que o ateísmo e o ceticismo já estão plenamente manifestados na mídia e no cotidiano dito científico, esperem adentrar em uma universidade de história e conhecerão a ignominiosa produção acadêmica a respeito; produção volátil sobre a negação, sobre a dúvida, sobre a “ignorância dos antigos historiadores”. É lugar-comum dos neo-historiadores a defesa de uma crítica estranha, a nível mental e discursivo, onde em um momento lúcido no contexto da discussão se afirma que não se pode julgar um passado de acordo com os paradigmas do presente, pois isso é a maior besteira que se poderia fazer [e realmente o é]; mas quando se inicia a verdadeira discussão sobre determinadas temáticas, aquela discussão em que professores e alunos debatem, é que cai por terra a máscara de respeito e toma corpo o circo dos horrores, momento candente onde se manifesta o show de ignorância e de ridícula encenação dos partícipes.

É aquela “fumacinha” de satanás que parece fluir das bocas dos estudantes e professores. O bode espiatório, ou melhor, o objeto a que se concede a preferência para a negativa dicotomia construída é a Igreja Católica; portanto, se a temática é Idade Moderna, convém-se que se eleve a racionalidade e a libertação dos conceitos e dogmas de até então e se comente sobre a decadência da Igreja Católica, além da Inquisição e sua caça as bruxas; se o campo é a Idade Média não se pode falar com muita propriedade sobre as artes, avanços tecnológicos, construção do saber nas universidades, pois agora se carece de provas e a preferência é criticar o cotidiano de uma piedade fanática e do domínio absoluto de uma igreja decrépita, perseguidora da razão. Tomemos o período do final da República Romana, então deve-se comentar o falso acordo entre Constantino e a Igreja, além do início do domínio astucioso da última que vai tomando poder de alguma forma e conquistando Reis e Rainhas para seu covil, esqueça-se, pois, da “beleza moral” que era uma desgraçada constante e da “bonança” dos governos de um Calígula ou de um Nero.

Face ao que fora informado acerca do cotidiano universitário, é preciso saber que nada resiste a críticas simplórias que ficam contidas na mente dos estudantes realmente interessados, dado que, sob o pretexto de incoerência crítica, aqueles que saírem em defesa da Igreja e de sua moral serão marcados a ferro candente. É o que afirmo em outros artigos sobre o alter-ego didático. Por esta razão repressiva, além de outras mais, o espaço universitário é o lugar-comum daqueles que fingem ser historiadores usando a igreja sempre como modelo negativo; mau sabem eles ou tal é o nível de entrega a uma doutrina cética que não se questionam sobre suas próprias palavras, impera sempre que não se tenha limites à falar da Igreja, utilize-se de palavrões e fatos “anedóticos” para não cogitar fantasias sexuais criadas pelos paladinos da moral e da ciências da modernidade.

Tomemos por exemplo, a fim de conceder corpo ao pensamento, uma reflexão em torno da Idade Média, situando-se ao período final (Sec. XVI-XVII) em que se forma um arcabouço empirista e ateu, tendo a Revolução Francesa como início concreto do movimento. Um primeiro fato que vem à mente é a famosa “perseguição às Bruxas”, uma nomeação daquilo que foi a aniquilação das heresias que pertubavam a ordem social reinante e promoviam o caos e a degeneração do que fora a mais perfeita das sociedades. Mau percebem os aprendizes de história que a maioria das heresias que foram combatidas não só pela Igreja, mas pelo estado (Inquisição Religiosa e Inquisição Secular, respectivamente) eram a disseminação do puro caros, tentando o Estado a princípio e posteriormente a igreja [para regular a violência do primeiro] depurar seu cotidiano da fragmentação destruidora promovida pelas heresias, além de doutrinas perversas que em último caso levariam ao definhamento das populações, tal qual propunha em seus auxiomas a famosa heresia dos Cátaros¹; portanto, como afirmam os maiores críticos categoricamente, qual não teria sido a nossa sorte se tal heresia vingasse? Sem dúvidas nada boa…

Vamos aproveitar esta perspectiva das bruxarias e nos aprofundarmos um pouco no cerne da questão. Algo muito estranho e que se explica de maneira muito superficial no ambiente acadêmico é o porque de se encontrarem nas investigações inquisitoriais a feitura de rituais de bruxaria em posse dos acusados, com todos os elementos indispensáveis e algumas vezes algumas inovações. Então, em uma tentavia desesperada de sustentar a fala, objeta-se a possibilidade de, em nome da manutenção da ordem social, a igreja ter manipulado as cenas e depois acusaria alguns indivíduos de a fazer, mas isso já seria extrapolar o âmbito vasto da fantasia; alias, persistamos neste fato cômico: afirma-se nos meandros universitários que após tantos discursos e construções sobre o que seria a heresia, ela de fato começou a surgir para tentar se opor a igreja, curiosamente usando de seu próprio discurso; mas não se explica o fato contudente de desde muito, desde séculos antes, serem relatados de maneira semelhante rituais de bruxarias. Em suma, as bruxarias existiam [existem!] e não em poucas quantidades, mas pululavam nas cidades que sofriam influências de outras correntes religiosas.

Diz-se que algumas senhoras e mulheres, consideradas mártires da bruxaria, descobriram muitos avanços a partir de ervas medicinais e por isso, devido ao nascente estrato dos médicos e à própria igreja que via ameaçada [acreditem!] a natureza milagrosa de Deus, foram perseguidas e deflagrou-se uma verdadeira aniquilação que beirava a um frenesi religioso. Não é necessário exigir muito dos parcos neurônios que ainda se exercitam para ter em vista que os conhecimentos acerca de ervas medicinais são anteriores mesmos às civilizações Romanas e Gregas, pois desde a caminhada do agrupamento de seres humanos que se descobre continuamente a potência benéfica das plantas, a exemplo dos ungüentos e óleos que já eram conhecidos pelos Orientais e desde muito faziam inclusive parte da doutrina católica. Seria um retrocesso muito sério, alias, desproporcional aos avanços do período, negar-se o poder curativo das plantas; ao que é ridícula a concepção de que a Igreja perseguiu a ciência médica que nascia. A título de exemplo, considando o quanto é desfocada esta proposta, levemos em conta o surgimento dos hospitais [mais do que salubres, ao contrário do que se narra] que já utilizavam as propriedades terapêuticas das plantas para a cura de seus doentes, aproveitando o conhecimento infinitamente rico do Oriente neste quesito para o tratamento de milhares de doentes nas redes hospitalares das diversas ordens que nasciam.

Reinava no contexto popular, isso realmente é verdade, a cultura de criar-se emplastros e verter sangrias, algo que ainda hoje, em nossa sociedade dita moderna, é visível na cultura popular, e não por causa da igreja. Desta maneira, é ridícula a questão de que a igreja negava a pesquisa e a aplicação de ervas medicinais em enfermos, quando na verdade ela o incentivava quando da criação de ordens do quilate da Ordem dos Cavaleiros Hospitalários ou de São João de Jerusalém², contemporânea das cruzadas.

Sobre a questão da “perseguição” católica, muito se cria e pouquíssimo se prova. Somente para lançar dúvidas, tomemos a questão das provas materiais: onde existem instrumentos de tortura que comprovem o uso de métodos escusos de interrogação por parte da Igreja? Pode-se afirmar que a mulher deixou de possuir mais direitos e por isso fora mais perseguida na Idade Média com que comprovações, e a formação universitária de religiosas e mulheres de outros estratos da sociedade não existiram? Os documentos por sí só são suficientes para aferir a totalidade de um julgamento? Tais perguntas calam fundo na mente dos que distorcem a pragmática e criam sua própria verdade, modismo a la Foucault, fazendo gemer uma teoria para que se crie um caldo entornado nomeado de verossimilhança.

Força-se a construção de uma verdade, como por exemplo, quando falamos em imagens do Satanás na Idade Média. Sejamos sinceros consigo mesmos: O apocalipse da Bíblia não fala em Satanás e sua imagem? Por acaso é uma construção da Igreja tudo o que se manifesta de maneira convicta na Idade Média? A presença subentendida de Satanás no antigo testamento, sugerido muitas vezes pelo adjetivo mau ou pelo substantivo mau, é patente e insofismável, os Escolásticos trataram disto de modo assaz feliz. Se alguma imagens foram de fato criadas no período medieval, isto não modifica a essência da representação do que elas faziam e não muda a existência anterior de Satanás.

A palavra-chave a se mensurar em discussões ateias e heréticas é: Presunção. Presunção em achar que o presente é o supra-suma da verdade, presunção em acreditar e achar existir faculdade suficiente para se tornar juízes do pretérito, presunção em criar histórias não congruentes com os fatos, presunção em querer criar uma verdade diferente da objetiva pré-existente. A arrogância é uma constante em querer definir uma ciência que não explica as origens – quando a bíblia já o explicava a mais de 2000 anos -, como o protótipo para analisar o cosmo, o tudo. Torna-se patente a construção de um Deus-razão adorado em lugar do Deus-Cristão, criou-se uma realidade, uma religião, em que a doutrina é aquela construída pelos teóricos da Revolução Francesa; a subjetividade é reinante pois a ordem que uniformiza e harmoniza é temida como inibidora de ações cognitivas, quando na verdade é ela que abre o entendimento humano para os aspectos que diferem do objeto, criando-se assim aprimorações da proposta inicial e não teorias ou postulados que improdutivamente questionem o objeto. O sacerdote desta religião é o “intelectual” que, utilizando-se de sua hermenêutica deturpada e de sua eloqüência discussiva questiona suas próprias construções acerca do pretérito, querendo demonstrar que a atualidade é infinitamente privilegiada por existir o questionamento de tudo e de todos, a aceitação da alteridade. Devido a esta alteridade o valor da vida humana decai, tendo em vista que tudo o que vem contra a existência do ser é somente uma questão cultural que deve ser respeitado, tal qual o assassinato de crianças indígenas na cultura americana que teriam nascido com alguma deformidade física, isso por questões não de sobrevivência como muito se diz, mas como explicam os próprios caciques, por questões culturais. A armadilha de se imaginar que a o respeito a alteridade é essencial para a promoção da dignidade humano é pregada por órgãos como a Franco-Maçonaria e a ONU, congênere da primeira³.

Observa-se, portanto, que a ciência empírica não esta sobre a Igreja como Presidente por sobre o cidadão, gozando de direitos e agigantados orgulhos sem fundamento; é ela a escrava dócil que sem alternativas é obrigada a reconhecer os milagres que pululam no meio católico, não consegue em toda sua envergadura explicar o princípio, achando na teoria do big-bang, oriunda de um cientista cristão, a insofismável verdade por trás do universo, verdade calcada em um princípio: Deus. A ciência ateia se encolhe para explicar fatos amplamente comprováveis como a Aparição de Fátima e o Milagre de Lanciano, além do Milagre de Nossa Senhora de Guadalupe.

É, enfim, um triste atentado terrorista à mente humana acreditar na não-existência de um Deus e creditar adoração ao Satanás.

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Publicado em História da Igreja

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