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A renúncia do Papa Bento XVI: fraqueza ou humildade?

17 fev

A renúncia do Santo Padre o Papa Bento XVI nesta última segunda-feira, dia 12 de fevereiro de 2013, abalou o mundo e o dividiu em dois grupos; o dos que veem o gesto de Bento XVI como um sinal de fraqueza e o dos que o veem como sinal de humildade e de confiança na equipe que o cerca. Desde já, queremos nos posicionar no segundo grupo e estamos fazendo este texto exatamente com a intenção de mostrar a nossa posição.

Antes de tudo, convém lembrar que a renúncia de um Papa é algo já previsto nos códigos de leis da Santa Igreja e, portanto, totalmente possível e acatado pelas leis eclesiásticas, desde que ela ocorra dentro de algumas exigências também já postas por escrito.
Assim, por exemplo, o Código de Direito Canônico, no Cânon 332,2 afirma: “Se acontecer que o Romano Pontífice renuncie a seu múnus, para a validade se requer que a renúncia seja livremente feita e devidamente manifestada, mas não que seja aceita por alguém.”
Essa última afirmação se dá porque os outros bispos, por serem inferiores hierarquicamente ao Papa, precisam de sua autorização para renunciar. O Papa, porém, por ser a maior autoridade eclesiástica, não precisa da autorização de ninguém. Basta-lhe que esteja consciente e a revele devidamente.
No Cânon 187, o mesmo Código já havia dito: “Qualquer um, cônscio de si, pode renunciar a um ofício eclesiástico por justa causa.” O Cânon diz categoricamente “qualquer um”, sem excluir o Sumo Pontífice. Acho que para bom leitor, isso já é o suficiente para entender que o Código de Direito Canônico autoriza previamente a renúncia do Ministério papal.
Além disso, Bento XVI não foi o único Papa a se utilizar da possibilidade de renúncia para fazê-la. Na história da Igreja, nós temos vários outros que também renunciaram ao seu Ministério Papal. É o caso, por exemplo, do Papa São Clemente I (+ 100), o Papa São Ponciano (+235), o Papa São Silvério (+537), o Papa São Martinho (+ 655), Bento IX (+ 1085), o Papa Celestino V (+ 1296) e o Papa Gregório XII (+1417), os quais por motivos diferentes abdicaram da Cátedra de Pedro porque a Igreja assim o permite.
Em 2010, no livro “A luz do mundo”, o Papa Bento XVI já tinha dito expressamente que “um papa ao alcançar a clara consciência de que já não é física, mental e espiritualmente capaz de realizar seu encargo, então tem o direito e até o dever de demitir-se”.
Assim sendo, o Santo Padre não cometeu nenhum ato ilícito, não realizou nenhum ato arbitrário, mas, em total sujeição àquilo que já foi estabelecido, ele renunciou. Na exposição de sua renúncia, ele diz expressamente que está agindo com total liberdade e assim manifesta devidamente sua posição. Destarte, não há motivo porque se abalar com algo tão possível, previsível e ainda mais justo. Principalmente, se considerarmos a idade já avançada e a sua saúde abalada. Os desafios modernos que o Sumo Pontífice precisa enfrentar requer realmente um Papa que ainda tenha a vitalidade necessária para tal enfrentamento.
Se o seu antecessor, o Santo Padre o Papa João Paulo Segundo, não renunciou, não podemos exigir de Bento XVI nem de nenhum outro que tenha essa mesma disposição. Cada um é cada um. Até porque o Papa Bento XVI é um catedrático, um professor, um homem dos livros, talvez o maior teólogo católico ainda vivo. É bem possível que ele se sinta muito mais à vontade, tendo total disponibilidade para a leitura e a escrita de bons livros com os quais tanto beneficiou o mundo católico e mesmo não católico. Isso, sem esquecer que sempre foi um homem de profunda oração.
Não podemos esquecer que Bento XVI foi eleito Papa por quase unanimidade. O Colégio dos cardeais que o elegeu conhecia-o perfeitamente e mesmo assim o elegeu e se assim o fez é porque confiavam na sua capacidade para atuar no Ministério Papal. Não há, então, motivo para nenhuma desconfiança quanto a uma divisão do Papa com os cardeais que o elegeram com tamanha unanimidade.
Mas, perguntam alguns: onde fica a infalibilidade Papal em caso de renúncia?
Simples de entender. Basta compreender que a infalibilidade é algo de competência do múnus Papal, não da pessoa que o exerce. Assim, não é Ratzinger que é infalível, mas o Papa Bento XVI. Portanto, ao demitir-se do papado, fica também encerrada a sua infalibilidade. O Catecismo da Igreja Católica nos esclarece o limite dessa infalibilidade: “Goza desta infalibilidade o Pontífice Romano, chefe do colégio dos Bispos, por força de seu cargo quando, na qualidade de pastor e doutor supremo de todos os fiéis e encarregado de confirmar seus irmãos na fé, proclama, por um ato definitivo, um ponto de doutrina que concerne à fé ou aos costumes… A infalibilidade prometida à Igreja reside também no corpo episcopal quando este exerce seu magistério supremo em união com o sucessor de Pedro”, sobretudo em um Concílio Ecumênico. Quando, por seu Magistério supremo, a Igreja propõe alguma coisa “a crer como sendo revelada por Deus” como ensinamento de Cristo, “é preciso aderir na obediência da fé a tais definições. Esta infalibilidade tem a mesma extensão que o próprio depósito da Revelação divina.” (Parágrafo 891).
Como se vê, a infalibilidade não é algo do qual o Papa esteja sempre de posse. Não! Ela apenas ocorre quando o Papa se pronuncia oficialmente sobre doutrina ou moral. Qualquer posição pessoal do Sumo Pontífice não goza deste privilégio. Outra coisa importante é entendermos que a infalibilidade não pode ser confundida com impecabilidade nem com fragilidade de saúde do Papa. O Papa é infalível (apenas quando se pronuncia ex-cátedra), mas não é impecável, pois como qualquer cristão, ele é pecador e precisa se confessar. Quanto à fragilidade de saúde, isso é algo perfeitamente normal quando alguma doença ou a idade o atinge. Não há aí motivo para se desconfiar da infalibilidade papal, uma vez que esta não tem nada a ver com os pecados pessoais nem com os problemas de saúde a que qualquer criatura humana (inclusive o Papa, que também é humano) está sujeita.
Após a abdicação do cargo, o Papa Bento XVI será Bispo emérito de Roma, Ou Papa Emérito (se é que podemos chamar assim), mas não gozará mais da infalibilidade, uma vez que não estará mais exercendo o cargo, do qual se aposentou.
Com base em tudo isso que foi visto, como responder, então, à pergunta do título? Chamar o gesto do Papa de fraqueza é querer negar-lhe o direito que a própria lei da Igreja lhe permite. Concordamos com a segunda opção porque ela revela o real estado em que se encontra o Papado de Bento XVI. Com efeito, essa atitude do Papa demonstra explicitamente uma grande confiança no futuro governo da Igreja. Ele está consciente de que existem outros cardeais, senão todos, tão capazes quanto ele. Capazes de levar a Igreja avante, coisa que ele confessadamente não tem mais forças para fazer. Do contrário, se apegaria ferrenhamente ao cargo sem querer repassá-lo para outro. E o pior, que é assim que a mídia enxerga as realidades católicas. Se um Papa humildemente renuncia ao cargo, ele é visto como um covarde, um fraco; se, porém, leva-o até o túmulo, acusam-no de falta de humildade, como foi visto no caso de João Paulo II, quando alguns fizeram a ele essa acusação. Não dá para saber realmente o que querem os críticos da Igreja.
Abdicar do poder que unanimemente lhe foi outorgado pelo colégio cardinalício e a ele devolver tal poder, abdicar do cargo porque reconhece a sua incapacidade para dirigir uma instituição com essa envergadura e abdicar porque conscientemente enxerga os seus limites é realmente uma clara demonstração de total humildade.
Na contramão da lógica do poder (o qual os seus inimigos o acusavam), o Papado de Bento XVI deixa escancarado o verdadeiro sentido da autoridade no conceito cristão católico: a autoridade está a serviço. E não mais tendo condições de servir como o exige o cargo, melhor lhe é dele abdicar do que ficar a ele aferrado.
Essa atitude do Santo Padre serve-me como exemplo vivo e concreto de um tema de um texto que há alguns dias estava em minha mente para postar aqui no nosso querido site FALANDO DE FÉ: o do real conceito de autoridade no Cristianismo. Pretendia eu fazer um texto em que mostrasse aos nossos queridos leitores que a autoridade na Igreja não é poder tal como ocorre nas politicalhas do mundo profano, mas que no mundo religioso a autoridade se confundia com o serviço. Tem o poder aquele que está a serviço do outro, do irmão, da Igreja. Ter autoridade é estar a serviço de todos, como o próprio Jesus assim o definiu e os Santos Evangelhos e os documentos da Igreja o demonstram. No entanto, o gesto do nosso Santo Padre abertamente dispensa a feitura desse texto uma vez que a sua atitude é uma explícita demonstração de que o homem de Deus não é aquele que se apega ao poder, mas que se for para o bem de todos, desse poder ele abdica e o passa para quem melhor pode exercê-lo.
Com essa abdicação, o Papa renuncia ao poder máximo na Igreja, mas continua absorvido de uma outra autoridade muito mais cristã e mais humana: a autoridade do testemunho, da humildade concretizada na sua pessoa. Essa extrema humildade de Bento XVI servirá de protótipo para as atuais e para as futuras gerações e nos deixará como legado último (dentre tantos outros bons que ele nos deixou) o desapego ao poder.
Até os maiores opositores do Ministério Papal de Bento XVI, como o brasileiro Leonardo Boff e o suíço Hans Küng, reconheceram publicamente nestes últimos dias a grandiosidade do gesto do Sumo Pontífice. Afirmaram, sem hesitação, que a abdicação do Papa demonstra respeito, admiração e coragem. Portanto, longe de ser uma atitude fraca e covarde, o Santo Padre, com ela, demonstrou mais uma vez a sua grandiosidade. É que o mundo moderno acredita que a grandiosidade do homem está no apego ao poder. Bento XVI, porém, restaura o verdadeiro sentido cristão da autoridade e nos prega por gestos concretos que no Cristianismo a autoridade é mais humildade que mesmo autoridade.
Um Papa que ficou conhecido como o Papa do amor (por suas incontáveis cartas que escreveu sobre o tema) e que tanto nos orientou para a fidelidade à verdade que é Cristo e da qual a Igreja é coluna e sustentáculo, como o disse São Paulo (I Tm 3,15) abdica de seu cargo, deixando-nos esse tão sublime exemplo e nos mostrando como devemos realmente nos guiar na luta diária a que estão submetidos os cristãos, sobretudo, nos desafios da modernidade. A postura de Bento XVI, embora se choque com a atual ambição pelo poder, é realmente um exemplo para mim e para você, caro leitor do nosso querido FALANDO DE FÉ.
Que eu e você, espelhando-nos na modéstia desse “humilde servo da vinha do Senhor”, como assim se definiu o próprio Papa no início do seu Pontificado, em 2005, possamos em nossa essa atitude e, na contramão da lógica atual do poder, também ser luzes para este mundo tão carente de pessoas como o Sumo Pontífice Bento XVI que ora abre mão do poder para melhor servir a Cristo e aos irmãos.
Professor Evaldo Gomes 15/02/2013
 
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Publicado por em 17/02/2013 em Papa

 

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