Estudando Atos dos Apóstolos – Autor e as Circunstâncias de Origem

1. O TESTEMUNHO MAIS ANTIGO QUE SE TENHA, É O DO CANON DE Muratori, de meados do sec. II:

“As proezas de todos os apóstolos foram escritas num livro. Lucas, com dedicatória ao excelentíssimo Teofilo, ai recolheu todos os fatos particulares que se desenrolaram sob seus olhos e os pós em evidencia deixando de lado o martírio de Pedro e a viagem de Paulo da cidade ( Roma) rumo a Espanha”.

2. Examinemos agora o texto de Atos para perceber o que nos diz sobre seu autor:

– A identidade de autor, para o Evangelho (Lucas) e Atos, depreende-se de que ambos estes escritos tem um prólogo (Lc1,1-4 e At 1,1-3);

– O segundo alude a “obra anterior”. Os livros são dedicados ao Excelentíssimo Teofilo (At 1,1 e Lc 1,3). Alem disto, nota-se que o inicio de Atos dá continuidade exata ao fim do Evangelho (Lucas) – ( cf. Lc24,47-53 e At 1,8-12).

O autor nunca cita o próprio nome nas listas dos numerosos personagens que acompanhavam S. Paulo.

Todavia ele descreve segmentos das viagens de São Paulo recorrendo a primeira pessoa do plural (em nós: 16,10-17; 20,5-15; 21,1-18; 27,1-28,16), isto é, incluindo-se entre os companheiros de São Paulo.

A modéstia de Lucas impedia-o de inscrever-se ao lado dos seus companheiros.

Donde se conclui:

– se a tradição apontou Lucas como autor dos Atos, de preferencia a outros mais conhecidos (Silvano, Timóteo, Tito …), esta indicação só se explica porque Lucas de fato escreveu Atos.

O estilo e o vocabulário de Lucas e Atos são afins entre si: 33 termos do NOVO TESTAMENTO só se encontram em Lucas e Atos.

Quanto aos indícios de autor medico em Atos, são tênues: citam-se a cura do paralítico com seus pormenores em At 3,7, e a descrição da moléstia do pai de Publio em At 28,8.

O autor dá provas de espirito culto, de visão ampla e de fino senso teológico ao descrever a difusão do Evangelho.

3. O livro dos Atos, dedicado a Teofilo e a todos os gentios convertidos, foi escrito em Roma, conforme S. Jeronimo ou, como prefere a exegese moderna, na Grécia.

A época de origem é discutida. Muitos argumentam a partir do fecho de Atos:

– o autor diz que Paulo ficou por dois anos em Roma sob regime de prisão domiciliar.

Perguntam, pois:

– Porque Lucas não relatou o desfecho desse período de prisão?

– Porque não referiu a libertação de Paulo (muito provável) ou a condenação ( improvável) do mesmo?

A resposta estaria no fato de que Lucas escreveu antes do fim do período de prisão, ou seja, por volta de ano 63.

O argumento é significativo; obrigaria a recuar a data de origem do 3 Evangelho para antes de 63, visto que os Atos são posteriores a Lucas.

Outros estudiosos não se prendem ao silencio de Lucas acerca do fim do período de prisão. Julgam que, para Lucas, o importante era apenas mostrar que o Evangelho, na pessoa de Paulo, havia chegado a capital do mundo antigo;

O autor sagrado teria atingido seu objetivo narrando a vinda de Paulo a Roma. Em conseqüência, tais autores atribuem a Atos origem mais tardia, a saber: entre 70 e 80.

Não merecem atenção outras sentenças. Os racionalistas de Tubinga, por exemplo, pretendiam, no século passado, atribuir a Atos origem pôr volta de 150, pois tal livro teria sido escrito para harmonizar entre si as supostas facções, petrina e paulina, da igreja antiga. É artificial ou destituída de fundamento tal hipótese.

O livro dos Atos aparece, antes, como a continuação do 3 Evangelho: é obra de catequese que tenciona complementar a formação crista dos leitores e mostrar-lhes a igreja como obra viva do Espirito Santo.

FONTES E HISTORICIDADE DE ATOS

Uma obra tão rica em noticias e documentos supõe ampla informação da parte do autor, que, alias era um pesquisador dedicado ( cf. Lc 1,1-4, prólogo que precede toda a obra de Lucas a Teofilo).

Os estudiosos tem procurado determinar as fontes utilizadas por Lucas, pois desta questão depende a fidelidade histórica de Atos.

1. Antes do mais, deve-se registrar o próprio testemunho ocular de Lucas.

Este foi companheiro de Paulo em viagens missionarias, como também no itinerário de Cesareia a Roma; em conseqüência, deve ter escrito suas memórias ou seu diário, que aparecem com minúcias e intenso colorido nas seções em nós: 16,10-17; 20,5-15; 21,1-18; 27,1-28,16.

Especialmente esta ultima, marcada por linguagem técnica e vivaz, relatando peripécias de viagem e naufrágio, é testemunho eloqüente da perspicácia e da cultura do autor.

A seguir, registramos tradições – escritas ou orais – recolhidas por São Lucas:

– as que dizem respeito a comunidade primitiva de Jerusalém (At 1-5),

– as que se referem a obra apostólica de determinados personagens, como Pedro ( 9,32-11,18; 12,1-19) e Filipe ( 8,4-40; cf. 21,8).

A comunidade de Antioquia, primeiro centro missionário em terra paga, deve ter oferecido a Lucas tradições referentes a sua fundação e aos judeus helenistas (6,1-8,3; 11,19-30; 13,1-3).

A tradição refere que Lucas mesmo era antioqueno; cf. At 11, 27, onde, segundo alguns manuscritos, Lucas se teria incluído entre os cristãos de Antioquia.

O próprio S. Paulo deve ter oferecido a Lucas informações sobre a sua conversão e suas viagens ( 9,1-30; 13,4-14,28; 15,36s).

Lucas soube harmonizar todo esse material, dispondo-o em seqüência concatenada; algumas vezes terá praticado cortes ou deslocamentos de dado, como parece ocorrer no capitulo 12: 12,25 se liga diretamente a At 11,30, de modo que Atos 12,1-24 quebra o relato da viagem a Jerusalém.

2. A fidelidade histórica de Atos se depreende da precisão e da sobriedade das narrações: estas parecem fazer eco a vida real e concreta; tenham-se em vista especialmente a descrição da viagem para a Roma ( 27,1-28,16), a estada de Paulo em Atenas ( 17,16-34), o tumulto dos ourives em Efeso ( 19,21-40), a celeuma levantada contra Paulo no Templo ( 21,27-22,22) …

Especialmente os discursos transmitidos por Lucas em Atos foram impugnados: seriam obra artificial, pela qual Lucas teria posto nos lábios dos oradores suas próprias palavras, a semelhança do que faziam antigos historiadores.

Todavia é difícil admitir que Lucas, por mais culto que fosse, pudesse após decênios compor discursos de caráter tão arcaico e semitizante como são os de Pedro (1,16-22; 2,14-36; 3,12-26; 4,-12; 0,34-43; 11,5-17) e Estevão (7,1-53);

Sem duvida, Lucas dispunha de documentos, que referiam esses discursos.

Isto não nos surpreende, se levamos em conta que a catequese primitiva voltava sempre a alguns temas essenciais (promessas feitas aos patriarcas, cumprimento em Cristo, infidelidade dos judeus, ressurreição do Senhor, apelo a penitencia… ), apoiados em argumentos ou raciocínios tradicionais e expressos de maneira cadenciada;

Ademais é de notar que grande parte desses discursos foram preferidos em aramaico;

Lucas teve que lhes dar a sua forma grega, recorrendo ao seu estilo pessoal.

Chama-nos a atenção também o fato de que o desenrolar de tais discursos se adapta bem aos respectivos destinatários:

– um é o modo de Paulo falar aos judeus ( 13,16-41);

– outro aos fieis ( 20,18-35);

– outro aos pagãos ( 17,22-31),

– outro ao Procurador romano ( 24,10-21),

– outro ao rei Agripa ( 26,2-23).

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