As Catacumbas de Roma – Introdução

Em 31 de maio de 1578, menos de um século após a negação radical do dogma católico por Lutero, um desmoronamento acidental acontecia em um terreno situado a três milhas de Roma, sobre a via Salaria. A escavação revelou uma cidade subterrânea que se estendia como um labirinto, sem que pudessem determinar seus limites. Era uma das sete Catacumbas ascendendo ao tempo apostólico, o cemitério designado nos martirólogos sob o nome de Priscila, mulher do senador Pudens, patrício que tinha recebido em seu palácio o príncipe dos apóstolos e tinha feito assentar sobre sua cadeira o pescador Galileu, que se tornara a pedra sobre a qual Jesus Cristo edificou sua Igreja.

“Roma vibrava sabendo, diz Baronius, que seus subúrbios encobriam cidades subterrâneas, colônias cristãs datando da época das perseguições, necrópoles imensas de mártires. O que só se conhecia até então pela leitura dos autores antigos, ou se conjecturava vagamente pelo pequeno número de substruções permanecidas acessíveis, aparecia agora em sua realidade majestosa. Foi um brado de admiração universal. Eu mesmo acorri para lá com prontidão, com uma curiosidade impossível de descrever. E, depois, quantas vezes visitei e percorri, em todas suas sinuosidades, esse cemitério de Priscila, desenterrado maravilhosamente sob meus olhos! Na entrada, caminhamos em uma larga via que forma a artéria principal, aonde vem se abraçar milhares de ruas mais estreitas, se subdividindo em ramificações, em cruzamentos inumeráveis. Como nas cidades a céu aberto, encontramos certos intervalos, iguais ao fórum, mais vastos e mais espaçosos, onde se reuniam as assembleias dos fieis para a celebração dos mistérios. Imagens simbólicas decoram as paredes; haviam lucernários dispostos para possibilitar a entrada do ar e da luz exteriores[1].”

Desde esta época, a Roma subterrânea – esse foi o nome que lhe deram – não cessou mais de ser explorada; e hoje, se estendermos longitudinalmente todos caminhos já visitados das Catacumbas, eles formariam um comprimento igual ao da Itália, de Turim até o estreito de Messina. Ora, todos esses caminhos estão escavados entre dois tipos de tumbas, e essas tumbas estão quase todas consagradas aos mártires. Duas sociedades estão presentes nesta obscuridade das Catacumbas, ambas disputam o império do mundo. São as vítimas que venceram; são os mártires que derrubaram os Césares; são os mortos que chamaram à vida todas as nossas sociedades modernas. Os batalhões de Jesus Cristo, deitados no pó do túmulo, atestam a todos os olhares a realidade das perseguições, suas extensões, e o número prodigioso de suas vítimas. Em nosso tempo pretenderam justificar retrospectivamente os carrascos, e estabelecer a legalidade das medidas sangrentas tomadas contra os cristãos. Os Césares, dizem eles, tinham, sob o ponto de vista político, o dever e o direito de proscrever uma seita tenebrosa que viria derrubar o império e destronar todas as potências. Não, responde a história: nunca o cristianismo foi uma seita política; nunca seu programa ameaçou a existência de algum poder. Os fiéis do tempo de São Pedro, assim como aqueles do século dezenove, respeitavam os poderes, os serviam com devotamento, e davam a César o que é de César. É verdade que eles ofereciam, primeiro, a Deus o que é de Deus, e, sob Nero e Tibério, eles morreriam por seu Deus. Mas eles jamais se revoltaram? Encontramos, entre as milhares de tumbas que povoam as galerias de seus hipógeos, o ferro de um único punhal? Que saibam, portanto: os príncipes perseguidores, depois de Herodes até os mandarins, que derramam em nosso tempo o sangue cristão sobre as praias do Japão ou da Coréia, não somente são carrascos sob o ponto de vista legal, mas verdadeiros insensatos do ponto de vista político. Eles batem precisamente sobre os mais firmes apoios de seus poderes, sobre os homens mais profundamente penetrados dos princípios de subordinação e de obediência; de modo que podemos dizer que um decreto de proscrição contra a fé cristã é um suicídio político da parte do príncipe que o promulga.

Para entender todo o interesse que apresenta o estudo das Catacumbas, é preciso se fazer uma ideia da existência social do cristianismo durante os três primeiros séculos. Fechados para o exercício de seu culto nos arenários subterrâneos, os fiéis só vinham à luz, nesta qualidade, em face dos tribunais romanos onde eles confessavam sua fé e esperavam sua sentença de morte. Todas as torturas, todos os suplícios imagináveis eram praticados para forçá-los a entregar aos juízes as Escrituras, depósito sagrado de suas crenças. Os pagãos esperavam encontrar nesses livros misteriosos o plano geral da conspiração suposta contra o império, eles contavam em encontrar aí os sinais de identificação dos conspiradores, o sentido real das doutrinas cuja profissão de fé dos mártires, sempre idêntica, estava longe de lhes parecer a última palavra. Mas o ardor com o qual eles procuravam esses importantes testemunhos, pedia aos fiéis uma resistência heroica em sentido oposto: daí, os milhares de cristãos que sofreram a morte unicamente por não terem querido conceder aos juízes os Livros sagrados; daí, também, a necessidade de observar rigorosamente, nas obras de apologética, de controversa ou de moral cristã, a lei do segredo sobre os dogmas principais e sobre a organização interior da religião perseguida. Compreendemos desde então quantos ensinos, que poderíamos encontrar nas obras dos Doutores e dos Padres da Igreja nos três primeiros séculos, deveriam necessariamente ser escondidos ao olhar da malevolência e reservados para a iniciação oral. O protestantismo faltou ao tirar proveito do silêncio forçado que observavam nesta época. “Sire”, dizia Agrippa d’Aubigné a Henrique IV, “o cardeal Duperron é um homem sábio. Proponha-lhe reduzir a doutrina da Igreja ao que ela era nos três primeiros séculos, e nós estaremos de acordo”. Era aí uma presunção de soldado mais do que uma palavra de teólogo: pois o estudo atento da patrologia dos três primeiros séculos fornece certo número de testemunhos que bastam para derrubar por terra a tese de Lutero. Mas, enfim, a singularidade relativa desses textos, suas expressões sempre constrangidas pela inflexível necessidade do segredo podem dar lugar a uma controversa. Hoje, todos os véus caem, todas as sombras evaporam-se, todos os segredos aparecem ao grande dia; o olhar penetra na sociedade das Catacumbas, absolutamente como se assistíssemos, a luz de tochas e lamparinas, a uma reunião da Igreja primitiva. Os dogmas católicos, a hierarquia, os sacramentos, a moral cristã, se revelam à esta luz inesperada, tais como eles são hoje. Salvo a perseguição sangrenta, nada nos parece mudado entre a Igreja romana do ano de 170 e a Igreja romana do ano 1870.
Esta conclusão sobressai invencivelmente do estudo dos monumentos das catacumbas, das inscrições, das pinturas hoje classificadas pela ciência arqueológica. A oração pelos mortos, a invocação dos santos, o culto da Virgem Maria, para citar apenas esses exemplos dogmáticos, se encontram lá, e não na discussão de uma controversa de teologia; elas escapam animadas das ternas e piedosas exclamações dos primeiros fiéis. Seguimos suas expressões nos lineamentos de uma escritura por vezes impregnada de  rusticidade, e irregularmente traçada por uma ferramenta tosca sobre a pedra ou sobre o mármore. Pedro aí é representado sob a figura de Moisés; seu primado doutrinal e hierárquico é expresso pela vara do comando, que faz jorrar as fontes da verdade e da graça. As ovelhas vem se saciar nessas fontes puras, e, temendo que o peregrino não compreenda o sentido desta figura bíblica, a pintura tem escrito abaixo esse nome significativo: PETRVS. Nessas criptas, por muito tempo esquecidas e que foram os primeiros templos cristãos, encontramos os altares, os cálices decorados com as imagens da Santa Virgem, de São Pedro e de São Paulo, as tochas, a bacia de água benta e até o confessionário tão particularmente detestado do protestantismo. Assim, a tradição lapidária da fé cristã vem completar a tradição escrita dos Padres e dos Doutores. O que uma arma parecida entre as mãos de Boussuet, por exemplo, na luta contra os erros de Calvino e de Lutero, teria produzido de triunfos, ninguém jamais saberá.
Um dia, Rossi, cujo nome tornado europeu não precisa de elogios, conduzia, na Catacumba de Santa Priscila, um professor anglicano da universidade de Oxford. Chegados à um arcosolium cujo teto estava ornado de pinturas decorativas admiravelmente conservadas, Rossi disse ao estrangeiro: “Saberias fixar aproximadamente a data deste afresco? – Eu saí de Pompéia, respondeu o doutor protestante. Ali estudei as pinturas. Este aqui me parece absolutamente da mesma época. – O senhor tens razão: as duas pinturas, aquela de Pompéia e esta da Catacumba, são irmãs, e, por consequência, temos sob os olhos um monumento do fim do primeiro século, ou, ao menos, incontestavelmente dos primeiros anos do segundo.” O inglês fez um sinal de assentimento. A data conhecidíssima da erupção do Vesúvio, que enterrou sob um monte de cinzas a cidade de Pompéia, é o ano 79 da era cristã. Ele considerava, assim, atentivamente, os ornamentos de folhagem e de flores que o pincel de um artista desconhecido tinha caprichosamente lançado sobre a abóboda do arcosolium. “Olhe agora, disse Rossi, e, dizendo essas palavras, ele abaixou sobre a parede do muro lateral a luz de sua tocha, e mostrou ao estrangeiro uma encantadora pintura da Virgem Maria, segurando o Menino Jesus em seus braços – Reconheces esta imagem? perguntou ele ao visitante.” – “É uma pintura de Maria”, respondeu o estrangeiro – “Pois bem! há três meses, retomou Rossi, esta galeria estava completamente obstruída sob a areia que os próprios primeiros cristãos a tinham coberto, segundo o costume, quando todas as tumbas eram preenchidas. Eis, portanto, um monumento da Igreja primitiva, e ele atesta a antiguidade do culto da Santa Virgem.” O doutor anglicano permaneceu por muito tempo em silêncio, passeando a luz de sua tocha sobre todas as linhas desta figura maravilhosamente desenterrada. Enfim, ele levantou a cabeça, e disse para seu guia esta palavra que resumia todas as peripécias de uma luta interior sustentada no segredo da alma: “Antiqua superstitionum semina![2]” – “Digas de bom grado com São Cipriano, replicou o ilustre arqueólogo, digas voluntariamente: O tenebras ipso sole lucidiores![3]” A fé católica é, com efeito, o sol que resplandece na obscuridade das Catacumbas. O venerável padre dos Beneditinos de Beuron, dom Maurus Wolter, quis, em um livro curto mas substancial, estender à todos os leitores o benefício desta luz. A luz aqui é graça; a voz dos mártires é mais eloquente que todos os discursos; cada uma das páginas deste livro é assinada pelo sangue de seus autores. Quem quer, doravante, se dizer cristão, e repudiar a fé pela qual, durante três séculos, os primeiros cristãos ambicionaram morrer?

Padre J.-E. Darras

[1] Baron., Annal. eccles., ann. 136, 11; – ann. 57, 112; – ann. 266, 8 e 9. [2] Antigas sementes das superstições! [3] Ó trevas mais claras que o sol!
Dom Maurus Wolter. Les Catacombes de Rome et la doctrine catholique. Paris, G. Téqui, 1872.

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Publicado em Catacumbas de Roma
2 comentários em “As Catacumbas de Roma – Introdução
  1. Priscila disse:

    Belíssimo, mesmo porque tenho o nome desta admirável santa. Gostaria muito de ver este lugar, tão significativo.

  2. Cleide da silva santana pereira disse:

    Acabei de visitar este local!!!
    Muita emoção!!!!

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