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O símbolo “TAU” em são Francisco e na História

20 ago

 

“Quando vier o Espírito Santo da Verdade, ele vos conduzirá à verdade plena, pois não falará de si mesmo, mas dirá tudoo que tiver ouvido e vos anunciará as coisas futuras.”(Jo 16,13)

As duas línguas bíblicas originais, hebraico e grego, possuem nos seus alfabetos a letra “Tau” (T). Este sinal gráfico adquiriu ao longo dos séculos conteúdos enigmáticos e ocupou um lugar de destaque na vida e atitudes de São Francisco de Assis, que o usou frequentemente e, mais ainda, tributou-lhe uma espécie de culto.

1 – Emblema e assinatura de São Francisco

O uso do Tau por São Francisco certificado pela testemunha ocular, Frei Tomás de Celano, que assim escreve na sua obra: “…Frei Pacífico começou a ter consolações que nunca tivera. Viu, diversas vezes, coisas que ninguém mais via. Pouco tempo depois, viu São Francisco marcado na fronte com um grande Tau, que tinha a beleza de um pavão, por seus círculos multicores.” (2 cel, Nº 106). O sinal do Tau era-lhe preferido acima de todos os outros: ele o utilizava como única assinatura para suas cartas e pintava-lhe a imagem nas paredes de todas as celas.

A escolha do Tau como carimbo e como emblema para a nascente Ordem dos menores indica a importância que São Francisco atribuía a este sinal. Além disso, este costume assumiu rapidamente o aspecto de culto, e isto é um fenômeno revelador, pois desvenda toda a riqueza de uma certa espiritualidade.

A dimensão devocional, quer dizer afetivo e religioso, destacou um outro biógrafo de Francisco: São Boaventura, que fala do uso do sinal em caráter de assinatura: “O tau era um sinal muito querido do Santo. Recomendava-o muitas vezes, fazia-o sobre si mesmo antes de iniciar qualquer trabalho e o escrevia de próprio punho no final das cartas que ele enviava, como se quisesse pôr todo seu empenho em imprimir esse tau, segundo a palavra do profeta (Ez 9,4), sobre a frente daqueles que gemem e choram seus pecados, de todos os verdadeiros convertidos a Cristo Jesus” (Leg. Men. Cap. 2, Nº 9).

Sintetiza-se neste pequeno escrito, ao mesmo tempo simbólico, toda a orientação do apostolado de São Francisco: “Ele mesmo o recomendava muitas vezes por palavras e o escrevia (…), como se sua missão consistisse, conforme a palavra do profeta Ezequiel. Posteriormente explicaremos o que esta frase de Ezequiel possa significar para Francisco.”

Para São Francisco o Tau não era apenas a assinatura pessoal. Frei Tomás de Celano informa que o santo usava-o como marco nas portas e muros das celas dos frades. Fazendo-nos pensar no Livro do Êxodo, segundo o qual o sinal da salvação era o sangue do Cordeiro nos portais. Para nós e para São Francisco, o sangue do cordeiro é o sangue do Cristo crucificado que nos remiu.

A informação de Celano, referente às inscrições nas paredes das celas é confirmada pelas descobertas arqueológicas. Durante a renovação da Capela de Santa Madalena, em Fonte Colombo, foi encontrado, na abertura da janela, um Tau pintado em cor vermelha, ao lado do Evangelho. A pintura é dos tempos de São Francisco.

Uma rápida revista a respeito da letra Tau na vida de São Francisco seria incompleta sem mencionar um milagre depois da sua morte, operado por São Francisco. Falam disso a “Legenda Áurea”, e Tomás de Celano no “Tratado dos milagres”, mostrando o culto do santo para com o “sinal da salvação”: “Na cidade de Cori, na diocese de Óstia, um homem tinha perdido completamente o uso da perna, e não conseguia de modo algum caminhar e mover-se. (…) Comovido com tais implorações, lembrando os favores recebidos, apareceu de repente o Santo ao homem, que nem podia dormir. Disse-lhe que veio a seu chamado trazer-lhe remédio para a cura. Tocou a parte doente com uma varinha, que portava sobre si o sinal Tau. Logo se rompeu a úlcera e, recuperada a saúde, ficou impresso naquela parte o sinal do Tau” (nº 159).

2 – Influências diretas

a – O concílio Lateranense IV

Durante o Concílio Ecumênico, realizado em Roma no ano 1215, o papa comunicou a todos os prelados ter concedido a Francisco e aos que quisessem imitá-lo, a aprovação da vida e da Regra evangélica.

É neste mesmo Concílio que aflora o simbolismo do Tau. Inocêncio III inaugura o Concílio com uma fantástica pregação que imediatamente adquire uma larga repercussão. O fio condutor são as palavras de Cristo: “Ardentemente desejei comer esta páscoa convosco” (Lc 22,15). Lembra que “páscoa” significa “passagem” e faz votos que o Concílio, a nova Páscoa, dê início à tríplice “passagem”: corporal, espiritual e eterna. A “passagem” corporal seria a armada e a recuperação de Jerusalém; a “passagem” espiritual deveria ser a mudança de um estado de coisas para outra, ou seja a conversão, a reforma da Igreja universal; enfim, a “passagem” eterna significa a passagem para a verdadeira Vida, com o auxílio dos sacramentos, principalmente a Eucaristia.

A Segunda parte da pregação, referente à passagem espiritual, é o enérgico comentário ao capítulo nono do Livro de Ezequiel. O papa faz suas as palavras de Deus ao profeta: “Percorre a cidade, o centro de Jerusalém, e marca com uma cruz na fronte os que gemem e suspiram devido a tantas abominações que na cidade se cometem” (Ez 9,4), e acrescenta: “O Tau é a última letra do alfabeto hebraico e a sua forma representa a cruz, exatamente tal e qual foi a cruz antes de ser nela afixada a placa com a inscrição de Pilatos. O tau é o sinal que o homem porta na fronte quando com todo o seu ser revela a irradiação da cruz; quando como diz o apóstolo crucifica o corpo com os seus pecados; quando diz: ‘Não quero gloriar-me a não ser na cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo, pela qual o mundo foi crucificado para mim, e eu para o mundo’(…). sejam portanto os mestres desta cruz!”

Assim soava o apelo, o clamor às consciências e corações para a mobilização geral, para a cruzada de conversão e penitência. Francisco acolheu este apelo. O simbolismo do Tau e as suas ligações com Ezequiel foram bem conhecidos de Inocêncio III, como também do povo da época. No seu tratado sobre o sacramento do altar, afirma que a letra Tau é o primeiro sinal no cânon da missa começa com as palavras: “Te igitur” no qual ocupa por desígnio da providência divina e não humana, toda a página, e isto tem um significado simbólico: a inicial que na sua forma gráfica lembra a cruz, é “sinal de penitência e salvação, confiado pelo Senhor ao ministério profético de Ezequiel”.

A reação de Francisco à pregação de Inocêncio foi espontânea. Acatou como um apelo dirigido diretamente a ele. O papa dizia: “Alcançarão a misericórdia aqueles que usarem o Tau, sinal da vida penitente e renovada em Cristo”. Francisco quis então marcar a si e aos seus frades com este sinal, que com o tempo tornar-se-á a marca da Vocação da ordem.

O tau dará o colorido a toda à espiritualidade de Francisco, que a partir de 1215 mais ainda aparecerá como espiritualidade da cruz e da salvação, o que demonstram, entre outros, as suas orações, principalmente “Ofício da Paixão do Senhor”. O Tau da penitência é o tema preferido da sua pregação. Sentia-se interiormente mobilizado pelo papa a esta cruzada.

Queria que os frades propagassem entre o povo a missão da conversão evangélica, isto é, da “passagem de Cristo”. O Tau da vida sacramental, principalmente da vida eucarística (terceira parte da pregação do papa Inocêncio) também será objeto das suas preocupações. “Viver em penitência e receber o Corpo e Sangue…” são dois inseparáveis conceitos que frequentemente aparecem nas cartas de Francisco, escritas depois do Concílio. Além disto, as consequências das resoluções conciliares são visíveis em muitos aspectos da vida do Santo. Por exemplo, na “Carta aos clérigos” (redação segunda), versículo 11, que fala do dever de conservar o Santíssimo em lugares dignos e sob chaves, é simplesmente a fiel reprodução do cânon do Concílio.

O Tau é também o sinal dos vitoriosos. Francisco é bem consciente disto. Primeiro prega o Tau e depois reproduz no seu corpo (estigmas) e brilha da alegria que brota do amor é a cruz.

b – Irmãos de Santo Antônio Eremita

A escolha do emblema do Tau por Francisco corresponde à linha de ação traçada pelo Concílio Lateranense. Nesta escolha influiu mais um fato determinante: o encontro de São Francisco com os Irmãos de Santo Antônio Eremita, chamados popularmente de antonianos. Para explicar isto, percorramos um caminho um tanto longo, com cuidado pelos detalhes.

A primeira questão que devemos resolver é: que lugar ocupam os leprosos na vida de Francisco. Os leprosos eram antes de tudo um mistério que Francisco observava e contemplava. O zelo por eles é o elemento constitutivo da sua espiritualidade. Para ele, como para os contemporâneos, o mistério de Cristo leproso era bem familiar e interpretado de várias maneiras: na liturgia (no ofício lia-se o cântico do Servo de Javé segundo o profeta Isaías: “Nós o reputávamos como um castigado” Is 53,4; na arte (escultura, pintura, vitrais apresentavam Cristo com traços de leproso); enfim, a literatura que expunha a famosa lenda se São Juliano Hospitaleiro, carregando nos ombros não o leproso, mas o próprio Cristo.

O fato de São Francisco chamar os leprosos de seus irmãos cristãos, decorre de um profundo e místico conceito. Viu neles o Cristo sofredor. Ele vai mais longe: da contemplação passa para a ação. O “prólogo” da conversão de Francisco é o famoso beijo depositado no rosto de um leproso.

Em Assis havia o leprosário “Casa Gualdi” sob os cuidados dos irmãos cruzados. Francisco permanecia lá e cuidava dos doentes.

Existia um hospital onde Francisco ficou por mais vezes: Hospital de Santo Antônio, em Roma. É esta a igreja que liga Francisco aos antonianos, chamados também de irmãos hospitaleiros, por serem eles os mantenedores deste hospital.

A tarefa principal dos antonianos foi cuidar dos doentes, principalmente dos leprosos.

Os antonianos tiveram o símbolo do Tau com emblema, sinal de pertencer à congregação e símbolo da vocação caritativa. Usavam a bengala, que era, na parte superior, em forma de Tau e o hábito no qual era visível este sinal… Alguns historiadores afirmam que os antonianos escolheram este sinal somente porque Santo Antônio Eremita foi representado na escultura com a bengala com uma haste vertical ou com o bastão em forma da letra Tau. A verdade é bem diferente. O culto procedia da iconografia. A aceitação do Tau, semelhança da cruz, está ligada a toda uma mística e atividade caritativa. O fato é que o Tau como símbolo da saúde entrou na consciência e na cultura religiosa do povo há muito tempo. Já em 546, durante uma solene procissão organizada por São Gall, bispo de Clermont, para afastar a peste no sul da França, nos muros de todas as casas e igrejas apareceu o “sinal reconhecido pelo povo como Tau”, e a epidemia cessou. O fato é narrado pelo historiador Gregório de Tours, que vivia na época.

No encontro de São Francisco com os antonianos, em 1209-1210, é possível enxergar um importante elemento, ou talvez um primeiro estímulo que provocou no Santo a devoção para com o sinal do Tau. E tudo o que foi dito acima torna compreensível uma das tarefas que Francisco traçou para a sua ordem, isto é o cuidado terno e atento pelos infortunados e doentes: “(todos irmãos) devem estar satisfeitos quando estão no meio dessa gente comum e desprezada, dos pobres e fracos, enfermos e leprosos e mendigos de rua”(Regra não-bulada, Cap.9).

3 – Influências secundárias

 

Tendo já conhecido o que significava o Tau para Francisco, aprofundemos agora o sentido místico deste sinal. O esforço da pesquisa terá caráter de um tipo de “penetração” nos caminhos da tradição, sem perder de vista a finalidade principal de reconstruir uma atmosfera espiritual que envolvia São Francisco, reconstruir os elementos do seu universo, perceber, do jeito como ele e seus contemporâneos perceberam, toda a riqueza mística acumulada ao longo dos séculos, relativa ao Tau. Descobriremos conceitos, idéias, representações que perderam para nós a eloquência, enquanto que naquele tempo eram bem familiares. O simbolismo de letras e números era compreensível a todos e era tema largamente explorado pelos pregadores, pela arte e pela literatura.

a – O simbolismo gráfico do Tau

A forma gráfica da letra Tau (T) tornou-se, ao longo dos séculos, a base da teologia da cruz, desenvolvida pelos judeus, Gregos e comentadores latinos.

Para os judeus, a antiga letra “T”, em sua grafia primitiva, tinha a forma de cruz: “x” ou “+”. A forma da letra, na escrita hebraica, sofria transformações até receber, pouco definida a forma de um pórtico. Contudo, ainda São Gerônimo (+420) sabia que o antigo sinal “T” possuía a forma de uma cruz: “Para os judeus, e também para os Samaritanos, ainda hoje o ‘Tau’, a última letra do alfabeto, tem a mesma forma da cruz que os cristãos marcam nas suas frontes e usam como proteção”(PL 25,88).

Falando em Tau, que para os cristãos lembra a forma da cruz, vale a pena citar as palavras de Cristo antes de ser crucificado: “Se alguém quer seguir, renuncie-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me” (Mc 8,34). Os apóstolos não podiam interpretar a frase como referência à cruz de Cristo, instrumento de castigo romano. A cruz, da qual fala o Mestre antes de ir para Jerusalém, é simplesmente o sinal da fé (atitude interior da qual a expressão externa é a imagem), quer dizer, do amor e apego à Lei (à Torah, que se inicia com a letra Tau) e sinal de ser de Deus. Somente depois da sua morte as palavras foram interpretadas à luz do sofrimento.

A comunidade cristã assimilou o Tau como cruz, mais ainda: colocou o tau em relação com a cruz de Cristo.

Para os gregos a letra Tau também possuía a forma de cruz. A letra grega ;e formada pelo traço vertical, semelhante a letra iota (i) e pelo traço horizontal chamado “Kereia”. Por isto muitas vezes à luz da cruz foram interpretadas as palavras de Jesus: Passarão o céu e a terra, antes que desapareça um Jota, um traço da Lei. (Mt 5,18)

Até para os Gregos descrentes em Cristo o Tau representava a imagem da cruz, naturalmente não a imagem da cruz de Cristo e sim, o instrumento de castigo dos escravos. Explica isto Luciano de Samosta (+200). Os gregos crentes e não-crentes, olhando o Tau, davam-lhe ainda outro significado, desconhecido para nós. Visualmente a letra representa a vela ou o mastro do navio. Não surpreende, então, todo este florescer “náutico” da exegese do Tau. Esta interpretação inspira-se na forma visual do sinal e é permeada da reminiscências da literatura. Recorre nela o fio da “Odisséia”, que fala de Ulisses segurando desesperadamente o mastro do navio. Daí nasce a representação da cruz em relação à epopéia nacional dos gregos da cruz como a última “tábua da salvação” durante a tempestade…

Para os latinos a letra Tau não existe, mas todos os comentadores das Escrituras acolheram a tradição anterior. Os Enciclopedistas, temos p.ex. Isidoro de Sevilla (+630), os exegetas e pregadores populares basearam-se, para as suas interpretações, no fato de que a letra hebraica e grega “Tau” possui a forma da cruz.

Estas considerações permitem penetrar mais profundamente na mentalidade religiosa de São Francisco. Quando falava do Tau, ele também pensava na cruz de Cristo. Espontaneamente interpretava o Tau com os seguintes conceitos: sinal e símbolo eficaz da salvação para todos os que desejam ser com ele marcados. Sabia que desta maneira seguia as pegadas de uma longa tradição, a qual ao longo dos séculos anunciava, inclusive através dos escritores não-cristãos, o Cristo Redentor e Vitorioso pela Cruz.

b – O simbolismo numérico do Tau

Tendo conhecido a grafia, a forma do Tau, passamos à aritmética, aos valores numéricos do sinal.

Para compreendermos o simbolismo aritmético, precisamos saber que nem sempre se expressavam os números com os sinais numéricos. Os antigos desconheciam os números que hoje nós usamos com herança dos Árabes. Conheciam apenas o alfabeto, para formar as palavras e para registrar os valores. Aqui está o fundamento daquele cruzamento entre as palavras e os valores numéricos, a sofisticada e enganadora acrobacia praticada pelos discípulos de Pitágoras, tão sensíveis a língua dos números. Vergílios, antes de São João, foi fascinado pelo famoso símbolo numérico 666. Até os mais simples sabiam que as letras do nome de Davi, somadas, significavam o número 14. No nome Iesous, liam 888, e em IN 13, e com tanta rapidez como hoje nós lemos valores de dezenas de milhões. Surgiu até um ramo da ciência que se dedicava a estabelecer as relações entre letras e números, oferecendo as chaves e abrindo as portas para a compreensão das alegorias aritméticas.

No alfabeto grego a letra Tau representava o valor 300. Para os cristãos do círculo da cultura grego-romana, o Tau significava ao mesmo tempo o sinal da salvação e o número 300 que ocorre na Bíblia, espontaneamente trazia à tona o Tau, colocando-o no contexto da salvação ou da vitória. Explicaremos este simbolismo aritmético nos três exemplos.

A Arca de Noé

“Deus disse a Noé: ‘Faze para ti uma arca de madeira resinada (…). E eis como a farás: seu comprimento será de trezentos côvados’”. (Gen 6, 4-15)

O fragmento citado tem para muitos comentadores um profundo significado, pois permite construir a “náutica” e a simbólica numérica cristianizadas. Entregam-se, então às complicadas especulações para descobrir o sentido místico dos trezentos côvados. Orígenes explica que a arca é a balsa salvífica que prefigura a cruz salvadora, pois o número 300 é igual a Tau, que é igual a mastro com a raia, que por sua vez é igual a cruz.

Na arca pode ser encontrado, com depois em toda a tradição, o duplo simbolismo, duplo sentido dialético da letra Tau; é ao mesmo tempo sinal de vida e sinal de morte; a vida eterna é dada aos homens pela morte de Deus do homem crucificado no madeiro. Percebemos que São Francisco jamais separou, na sua espiritualidade, Jesus condenado à morte do Cristo “glorioso e bendito pelos séculos”. Ainda no início do século XIII, a tradicional interpretação da arca ocorria até na liturgia e assim se perpetuou na mentalidade popular. Sem dúvida, Francisco cantava o seguinte hino litúrgico: “Ligno crucis fabricatur (Arca Noe qua salvatur) Mundus a miseria” Da madeira da cruz foi construída a arca de Noé que as;vará o mundo da miséria (Analecta Mymnica, Leipzig 1890, VIII, 29).

Servos de Abraão

“Abraão, tendo ouvido que Lot, seu parente, ficara prisioneiro, escolheu trezentos e dezoito dos seus melhores e mais corajosos servos, nascidos em sua casa, e foi ao alcance dos reis até Dan.” (Gen 14,14)

De que modo o Tau, valor numérico 300, entrou na interpretação dos trezentos e dezoito servos? Prestemos atenção às explicações do Pseudo-Barnaba (+ cerca de 130): “Saibam que a Bíblia, assim transcreve o número 318: INT, que equivale a IN 18 3 T 300. Dezoito como número equivale a IN e assim tens i início do nome de Jesus. A letra Tau, equivalente ao valor 300, anuncia o advento da graça pela cruz. Nas primeiras letras temos alusão a Jesus, na última, à sua cruz “.

Semelhante exposição encontramos entre os latinos, com p.ex. em Ambrósio (+397): os servos de Abraão constituem a figura dos futuros cristãos; seu número prefigura a cruz e o nome de Jesus; a vitória deles é a vitória da Graça, graças à qual foram escolhidos: “Escolha 318 para te ensinar que o que conta não é o número, mas a eleição. E escolhe 318 fiéis que acreditam em Jesus e em sua cruz, porque os 300 fiéis significam a letra grega Tau e 18 representa IN, que quer dizer Jesus”.

Nesta ocasião é mister lembrar o culto franciscano do nome de Jesus, paralelo ao culto do Tau. São Francisco, ao culto do Tau, acrescentou o lírico e muito medieval culto do nome salvífico de Jesus: “Os frades que conviveram com ele sabem, que estava todos os dias e continuamente falando sobre Jesus, e como sua conversação era doce, suave, bondosa e cheia de amor (…). possuía a Jesus de muitos modos: levava sempre Jesus no coração, Jesus na boca, Jesus nos ouvidos, Jesus nos olhos, Jesus nas mãos, Jesus em todos os outros membros. Quantas vezes ao sentar-se para almoçar, ouvindo, falando ou pensando em Jesus, esquecia-se do alimento corporal e, como lemos a respeito de um santo: “Vendo, não via; ouvindo, não ouvia”. Este amor pelo nome de Jesus e pela sua forma gráfica, encontra-lo-á dois séculos depois, o mestre, em São Bernadino de Sena. A palavra INS é a mais antiga forma abreviada de Jesus (que se encontra nos manuscritos e nas lápides sepulcrais) é IN, iota e eta, duas primeiras letras do nome de Jesus.

Vemos de modo claro que até os pormenores da história são analisados sob a ótica alegórica. O esforço constante em descobrir o mistério escondido por trás dos números. É uma tradição que Francisco enriquece ao seu modo; é o fluxo de idéias e conceitos que formam o clima do século XIII.

O Tau de Ezequiel

“Percorre a cidade, o centro de Jerusalém, e marca com uma cruz na fronte os que gemem e suspiram devido a tantas abominações que na cidade se cometem” (Ez 9,4).

O que foi dito a respeito deste texto, seja falando do sermão de Inocêncio III, seja da forma da letra Tau, dispensa as longas análises. Não podemos, porém, silenciar o fato de que a interpretação desta visão de Ezequiel está na base de todas as considerações sobre o Tau como sinal de cruz. A fé cristã no Messias sofredor foi predita no Antigo Testamento. Como cristãos, marcados pelo sinal da cruz no Batismo, devemos, pelo sofrimento, tornar-nos imitadores do Cristo crucificado. Assim se expressa São Gerônimo e muitos outros comentadores. O texto do Livro de Ezequiel colorirá toda a tradição, facilitando a passagem do Tau, que é igual a cruz e a cruz, que é igual a 300 o qual por sua vez, é igual a cruz, através do Tau, que é igual a 300.

Os exemplos citados conscientizam-nos que a mística do Tau não é um produto espontâneo da mente de Francisco, mas uma constante herança da longa tradição, original na idade média. Esta mística, emprestada da Igreja grega e absorvida pela Igreja latina, permanecerá como um dos mais queridos temas da exegese alegórica. Daqui podemos ter a certeza de que Francisco mergulhava nela e absorvia seus conteúdos. Todo o clero diocesano e religioso da época estudava a obra de Isidoro de Sevilla, cheios de tesouros de etimologia e alegoria. Mais ou menos era sob o fascínio da “Glosa comum”, que o faziam bíblico. Esta obra era a verdadeira base de cada biblioteca. Usava-se os seus textos na pregação. A arte religiosa transformava-a em pinturas e até o mais simples eram capazes de compreender os seus símbolos. Não surpreende, portanto, o fato de que para o entusiasta dotado de fantasia visual que foi Francisco, o mistério da cruz encontrou a iluminadora e dinamizadora expressão, a ajuda na contemplação e o impulso para a ação, até ele mesmo tornar-se um dia, pelos estigmas, a expressão viva do sinal do Tau que tanto amava e ao qual prestava uma verdadeiro culto.

 
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Publicado por em 20/08/2013 em Santos

 

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