666, o número da “besta”. Qual a visão católica sobre esse tema?

 

Dom Estêvão Bettencourt (OSB)

Esta questão tem ocupado calorosamente leitores e comontadores do Apocalipse desde o séc. II da nossa era. Com efeito, S. Ireneu (140-202) refere que já em seu tempo os códices do Apocalipse exibiam duas variantes do dito número (666 e 616), sem que se soubesse qual o seu significado exato (Adv. haer. 5,30, 2).

Contudo será preciso reconhecer que o enigma devia ter sentido evidente para os leitores imediatos do Apocalipse, ou seja, para os cristãos da Ásia Menor aos quais no fim do séc. I São João se dirigia ; era justamente com o intuito de os orientar que o Apóstolo escrevia o texto de Apc 13, 18 ; não lhes queria propor um «quebra-cabeça», mas algo de que pudessem tirar proveito, porque sabia que tinham os meios para o decifrar; infelizmente, porém, desde cedo se apagou nos cristãos a reminiscência dos elementos necessários à elucidação (perdeu-se a chave do enigma).

Vejamos o que hoje, coligindo alguns dados seguros, se pode dizer de mais provável sobre o assunto.

1) O misterioso número deve designar algum homem, pois o hagiógrafo adverte que é «número de homem» (13,18).

E como o designa?

Os gregos e hebreus atribuíam valor numérico a cada uma das letras do seu alfabeto (os romanos, ao contrário, só a algumas o atribuíam) ; baseados nisto, compraziam-se em contar o valor numérico de determinado nome e, em consequência, de determinada pessoa. Este proceder, que constituía a arte chamada «gematria»-, era muito usual entre os povos do Mediterrâneo (em Pompeia, por exemplo, no Sul da Itália, foi encontrada a seguinte inscrição : «Amo aquela cujo número é 545» ; cf. Sogliano, Rendiconti delia Reale Accademia dei Lincei 1901,256-9).

2) São João, em Apc 13,18, usou de modo de falar obscuro, provavelmente porque entendia proferir um juízo sinistro sobre algum dos dignitários (ou monarcas) do Império Romano; não queria incorrer no crime de lesa-autoridade ou de lesa-majestade nem tornar os seus leitores suspeitos disto; o livro do Apocalipse podia cair em mãos de pagãos que, se compreendessem a alusão à autoridade, se vingariam dos cristãos (as primeiras perseguições já tinham sido desencadeadas por Nero em 64), Por isto se referia a Roma mencionando Babilônia (cf, c. 16), à semelhança do que fizera São Pedro em 1 Pdr 5,13. — Disto se segue que se deve procurar o personagem designado pelo número 666 entre os chefes do Império contemporâneos ou anteriores a São João. Sim ; se os leitores do Apocalipse não tivessem de antemão certo conhecimento do varão mencionado, jamais poderiam decifrar o enigma proposto.

3) Consequentemente vê-se que será no vocabulário grego ou no hebraico (com os quais estavam familiarizados os destinatários do Apc) que se deverá buscar a solução. Não entra em questão o latim, pois este no séc. I da nossa era não passava de dialeto confinado ao Lácio (península itálica), dialeto que ficava alheio às cogitações dos leitores imediatos da obra de São João.

4) Feitas estas aproximações, só restam três soluções mais ou menos plausíveis para o nosso enigma : os nomes

– GAIOS KAISAR (Gaio César, designação de Calígula Imperador) ou

– KAISAR THEÓS (César é Deus). Estas são duas expressões gregas cujas letras somadas dão o total de 616. Ou então

– QESAR NERON (César Nero), termos gregos que, escritos em caracteres hebraicos, perfazem a soma de 666 : Q = 100; S = 60; R = 200; N = 50; R = 200; O – 6; N = 50 (as vogais e e a não se contavam em hebraico).

Destas três interpretações, a mais plausível é a última. Proposta pela primeira vez entre 1830 e 1840 por Fritzsche, Bénary, Hitzig, tem aliciado grande número de exegetas. Oferece, entre outras vantagens, a de explicar as variantes 666 e 616 dos antigos códices: alguns copistas influenciados pela forma latina Nero terão omitido o n final que figura no nome grego Neron, diminuindo assim de 50 unidades a soma total das letras. Note-se que, das duas variantes do número, a que parece originária e merece a clara preferência tanto de S. Ireneu (séc. II) como dos melhores códices, é 666. Teríamos, pois, em Apc 13,18, uma alusão ao famoso Imperador Nero.

Verdade é que este soberano já morrera quando São João escrevia o Apocalipse; o Apóstolo, porém, tomava-o como personificação do poder imperial hostil aos cristãos, pois Nero fora o iniciador das perseguições e ficava marcado, na reminiscência dos pósteros, como o tipo do perseguidor cruel e vicioso ou como a figura do Anticristo.

Poder-se-ia objetar que a solução QESAR NERON supõe uma ginástica mental assaz forçada: trata-se de dois nomes gregos que se pressupõem escritos em caracteres hebraicos, num livro destinado a leitores que pouco deviam conhecer o hebraico. A esta dificuldade replica-se que São João bem pode ter chamado a atenção dos seus leitores para este artifício; não chegou a escrever tal advertência para não se trair e não se expor a alguma represália da parte dos pagãos; mas por via oral terá instruído a respeito os cristãos que levaram o Apocalipse de Patmos para a Ásia Menor. Será preciso também tomar em conta que havia bom numero de judeus nas cidades da Ásia Menor às quais se dirigia o Apóstolo. — A hipótese se torna ainda mais provável caso se tenha em vista que, quando os gregos em seus papiros gregos, queriam aludir a pessoa ou coisa misteriosa, recorriam não raro a vocábulos hebraicos ou semíticos.

5) À luz do que foi dito, vê-se que qualquer sentença que procure na língua latina ou entre personagens posteriores ao séc. I a interpretação do número, está fora de propósito; São João teria frustrado seu desígnio de esclarecer e acautelar os leitores gregos e judeus da Ásia Menor aos quais ele escrevia.

Várias, porem, são as tentativas de solução que incorrem em tais incongruências. Eis alguns dos nomes para os quais apontam: o Imperador Juliano o Apóstata (+363), o invasor huno Átila (séc. V), Maomé (+632), o Papa Bonifácio VIII (+1303), Inácio de Loiola (+1556), Lutero (+1546), o rei Luís XIV de França (+1715), o imperador Napoleão (+1821), Adolfo Hitler, etc. —Já também quem diga que o Papa traz na tiara o título latino de VICARIUSS FILII DEI e que esta expressão perfaz a soma de 666 (V=5; I=1; C=100; I=1; U=5; I-1; L=50 ; II=2; D=500; I=1). O mesmo total 6 obtido por outro titulo que dizem ser característico do Sumo Pontífice: LATINUS REX SACERDOS. Na verdade, a tiara do pontífice não traz inscrição alguma. Quanto ao título que se costuma atribuir ao Papa, é o de VICARIUS CHRISTI.

Não será necessário perder tempo em demonstrar que todas estas explicações carecem de fundamento no texto sagrado ; são produtos arbitrários da fantasia. Tão longe têm ido os autores movidos por preconceitos que chegaram a ver no número 666 a soma das letras hebraicas do nome JESUS NAZARENO: YSW NCRV. O próprio Jesus Cristo seria então a besta do Apocalipse ou o Anticristo! Tal foi a sentença do rabino Davi Berman («Mercure de France», 1918, 190), o qual seguia Valentim Weigel, pseudomístico do séc. XVI e discípulo de Paracelso (cf. Corrodi, Geschichte des Chiliasmus III 32-s). — O caso do rabino Berman mostra bem que quem quer identificar a besta do Apocalipse com o Papa, não tem motivo para não a identificar com o próprio Cristo. Arbitrariedade por arbitrariedade, uma equivale à outra.

Por sua vez, o escritor norte-americano David Goldstein advertiu que o nome de ELLEN GOULD WHITE, a profetiza dos Adventistas do Sétimo Dia, tem o valor numérico de 666:

E L(50) L(5) EN GO V(5) L(50) D(500)W(=V(5) V(5)) H I(1) = 666

Vê-se assim quão vá é a polêmica moderna em terno do assunto.

Voltando agora a uma reflexão serena, pode-se observar que, segundo a mentalidade mística antiga, o número 666 indicava essencialmente precariedade ou derrota. Compõe-se, sim, do algarismo 6, que ó um 7 (símbolo da perfeição) truncado, ou um 12 (outro símbolo da perfeição) cortado pela metade. Por conseguinte, o indivíduo designado por três «seis» justapostos está, a duplo titulo, entregue à ruína; tal era a sorte que São João queria atribuir a Nero, ou seja, aos perseguidores dos cristãos e ao Anticristo.

Em oposição a 666 está o número 888, soma das letras gregas do nome JESOUS. Se seis era o algarismo típico da imperfeição, cito (que equivale a 7 + 1) designava a perfeição em toda a sua ênfase ; por conseguinte, três oito justapostos simbolizariam muito eloquentemente as riquezas do sabedoria e bondade do Redentor. É o que a Sibila (I 321-331), antigo apócrifo cristão, fazia notar com muito garbo no inicio da nossa era.

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