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Maria entre os Santos Padres

13 set

Designamos com o nome de “Santos Padres”, Padres da Igreja” ou “Pais da Igreja”, aqueles escritores cristãos dos primeiros séculos, que se distinguiram pela exposição da doutrina cristã. Eles defenderam as verdades do Cristianismo contra as heresias que surgiram e que procuravam se infiltrar no mundo cristão do seu tempo. Na Igreja Latina, como na Oriental, apareceram nomes preeminentes, em cujos escritos se encontram os fundamentos das pregação da Igreja Primitiva. Ambrósio, Agostinho, Jerônimo, Atanásio, João Crisóstomo, etc. – são alguns desses Santos Padres que nos transmitem a fé e a vivência das primeiras gerações cristãs.

No Brasil, D. Antonio Figueiredo publicou um Curso de Teologia Patrística, em que focaliza a contribuição dos Padres da Igreja para a vida do Cristianismo primitivo. Das obras desses escritores, o autor faz emergir a Igreja, em suas estruturas e funções. A maior parte dos escritos patrísticos é formada de comentários à Sagrada Escritura.

A veneração a Nossa Senhora foi se manifestando paulatinamente. Ela foi tomando formas diferentes e crescendo na vida dos cristãos, através dos séculos. Nós não a encontramos, por exemplo, nos escritores do 2° e 3° séculos, como apareceu no século 5°, no tempo de S. Bernardo (século XII), ou em nossos dias. Mas, desde as primeiras gerações cristãs, vão surgindo depoimentos, reflexões sobre o papel de Maria na Economia da Salvação, que levaram os cristãos a prestar uma homenagem especial Àquela que foi escolhida por Deus para ser a Mãe do Verbo Encarnado.

Em dois grossos volumes, J.B. Terrien agrupou dezenas e dezenas de textos dos Santos Padres sobre “A MÃE DE DEUS E A MÃE DOS HOMENS”. Os primeiros escritores cristãos gostavam de focalizar, de modo especial, a fé e a obediência da Santíssima Virgem. Estes eram, certamente, os pontos da vida de Maria, que mais estimulavam os cristãos. Vejamos como a Virgem aparece nos escritos de alguns Padres, anteriores ao Concílio de Éfeso.

Irineu, bispo de Lião na França, morreu por volta do ano 202. Foi discípulo de Policarpo que, por sua vez, o fora do apóstolo S. João. Irineu é um escritor muito importante. Nos seus escritos, são muitos os artigos do símbolo católico, cuja apostolicidade se encontra atestada. Contra alguns hereges de sua época, levanta-se o bispo de Lião, afirmando a maternidade divina de Maria e a sua virgindade, e mostrando o plano divino, por ele chamado de “recirculatio”, em que a nova Eva, MARIA, se apresenta digna e merecedora da nossa veneração e amor. Diz Irineu: “Consequentemente a este plano, Maria Virgem nos aparece obediente, ao dizer: Eis a escrava do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra. Eva, porém, foi desobediente, embora ainda fosse virgem. Do mesmo modo que Eva, tendo Adão por esposo, desobedeceu e tornou-se causa de morte para si e para todo o gênero humano, assim também Maria, tendo um varão predestinado e, contudo, permanecendo virgem, obedeceu e tornou-se para todo o mundo causa de salvação.” (ENCHIRIDION PATRISTICUM, N° 224). São de Irineu também estas palavras: “Assim como Eva, seduzida pela palavra do maligno, para que se afastasse de Deus, pecou contra a palavra d’Este, assim Maria, evangelizada pela palavra, mereceu trazer a Deus. E se aquela desobedeceu a Deus, esta foi obediente a Ele, para que a Virgem Maria se tornasse advogada de Eva.” (ADVERSUS HAERESES L. 5, cap. 19).

Percebemos como Irineu gostava de comparar Eva com Maria, para salientar o papel de Mãe de Deus, no plano da salvação. Maria é a advogada de Eva e de todos os seus filhos. Há, nas palavras de Irineu, um certo reconhecimento a Maria, pela sua obediência, pela sua fé, pela sua fidelidade ao Senhor. Esse reconhecimento iria levar muitos a manifestá-lo em gestos e palavras de louvor e veneração.

Com expressões semelhantes, Tertuliano, no século 3, também escreveu: “Deus recuperou, por um desejo de emulação, a sua imagem e semelhança, arrebatadas pelo demônio. Em Eva, virgem, insinuou-se a palavra que gerou a morte. É também numa virgem que devia nascer o Verbo que gerasse a vida, a fim de que a humanidade, perdida pelo sexo feminino, recebesse a salvação por esse mesmo sexo. Eva creu na serpente, Maria acreditou em Gabriel. A falta cometida pela credulidade de uma foi destruída pela fé da outra.” (ENCHIRIDION, N° 358). A fé de Nossa Senhora é exaltada. Tertuliano, por assim dizer, repete o louvor que Isabel havia feito. Maria é a Mãe do Senhor da vida. Sua fé, sua plena adesão à vontade de Deus, fez dela um modelo perfeito para cristão.

Justino, apologista do século 2, no seu “Dialogus cum Tryphone”, faz este comentário: “A Virgem estremeceu de fé e de alegria, ao receber da boca do anjo a boa nova de que o Espírito de Deus desceria ao seu seio, de que a virtude do Altíssimo a cobriria com a sua sombra, e que, em conseqüência, o Santo que nasceria dela seria o Filho de Deus. Sua resposta foi: “Faça-se em mim segundo a tua palavra.” Dela nasceu Aquele que foi predito pelas Escrituras, Aquele por meio do qual Deus esmagou a serpente com os anjos e os homens degradados, e livrou da morte os pecadores que, crendo n’Ele, fizeram penitência de seus crimes.” (D. Ruiz Bueno – PADRES APOLOGISTAS GREGOS, séc. II, pág.479).

Como Mãe do Salvador do mundo é que Maria merece um destaque todo especial, na Igreja de Cristo. Sendo a Mãe de Jesus, ela se tornou a fonte de alegria para toda a humanidade. “Eis que vos anuncio uma grande alegria: nasceu-vos hoje um Salvador que ó Cristo Senhor.” (Lc. 2, 10-11).

Orígenes, outro escritor do século 3 da era cristã, considerado o “engenho mais universal e o varão mais douto da época ante-nicena”, comentando o primeiro capítulo de Mateus, escreveu: “Esta virgem Maria é chamada mãe do Filho único de Deus. Digna mãe de um digno Filho; mãe imaculada de um Filho santo e imaculado; mãe única de um Filho único. Tomai a Maria como um trono celeste que se vos dá a guardar, diz o anjo a José, como todas as riquezas da divindade, como a plenitude da santidade, como uma justiça perfeita. Tomai-a e guardai-a, como residência do Filho único de Deus, como seu templo honorável, como o dom de Deus, como a morada imaculada do rea1 e celeste esposo.” (Apud. A. Nicolas – LA VIERGE MARIE ET LE PLAN DIVIN, tomo 4° págs.l03-104).

A partir do quarto século, os pronunciamentos e sermões dos Santos Padres sobre Nossa Senhora se multiplicam. Ela foi proclamada “BEM-AVENTURADA”, em todos os recantos do mundo cristão. 0 entusiasmo por aquela que é o modelo fiel do verdadeiro discípulo de Jesus Cristo cresceu de modo impressionante. Nas catacumbas, nas artes, nos templos, na liturgia, na pregação, foi sempre mencionada com muito amor e com muita gratidão, pois, afinal, ela é a Mãe de Nosso Senhor. (Lc. 1, 43). 0 culto Mariano foi tomando dimensões sempre maiores e bem expressivas. Se abusos houve ou aparecem ainda hoje, a Igreja procurou sempre corrigi-los. A atitude de alguns fiéis menos esclarecidos e afastados da orientação da Igreja não significa a ilegitimidade da devoção à Virgem Santíssima. A profecia bíblica “Todas as gerações me chamar-se-ão Bem-aventurada” vem se realizando através dos séculos.

As coletâneas de Barbier (4 volumes), de Terrien (2 volumes) e outros estudos que reuniram tópicos dos Santos Padres sobre a Mãe de Jesus, são mananciais onde encontramos o pensamento e o afeto das primeiras gerações cristãs para com a Mãe do Senhor.

 
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Publicado por em 13/09/2013 em Mariologia, Patrística

 

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