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Maria nas Liturgias Antigas

13 set

No cemitério de Priscila, em Roma, encontra-se uma sugestiva pintura em que esta representada uma cena litúrgica de tomada de hábito de uma virgem. Um bispo, sentado no trono, assistido de um diácono, impõe o véu a uma jovem colocada em pé diante dele, e lhe fala, indicando, com o dedo, Maria que se vê do outro lado da pintura, assentada e tendo nos braços o seu Filho. Trata-se, possivelmente, de propor como exemplo de virgindade a Mãe de Deus e, parece, o bispo pronuncia as palavras de Sto. Ambrósio: “Ó minha filha, tomai esta mesma como modelo” (Scaglia, op. cit. pág. 207). É uma simples cena litúrgica que nos diz ser bem antiga a cerimônia de tomada de hábito de uma religiosa, à qual Maria é apontada como um exemplo a seguir.

Na história da liturgia cristã, encontramos indícios muito claros de que o culto a Nossa Senhora é muito antigo. Já foi observado que, nos primeiros séculos, os cristãos se cautelavam em mostrar publicamente as honras devidas a Maria, por causa dos pagãos que poderiam chamá-la de “deusa”, por ser Mãe de Deus, como fizeram muitos dos antigos. (Cf. Lerosey – Histoire et Symbolisme de la Liturgie, IV, pág. 590. Também M. Righetti – História de la Liturgia, pág.883).

Em 428 d.C., o papa Celestino, escrevendo as Igrejas da Gália, exortou: “Tenhamos atenção ao sentido das orações sacerdotais, recebidas por tradição apostólica, em todo o mundo. São de um uso uniforme em toda a Igreja Católica e, pela maneira com que devemos rezar, aprendei o que devemos crer.” (A. Nicolas, op. cit. pág. 8). Havia, pois, orações, no século V, que eram atribuídas aos tempos apostólicos. Essas orações foram reunidas em grupos e deram origem às primeiras liturgias que tinham o nome dos Apóstolos. Nessas liturgias, encontramos muitas comemorações da Santíssima Virgem.

Augusto Nicolas, em seu livro “Exposition Liturgique”, reproduz algumas das expressões usadas, nas liturgias antigas: “De novo e mais uma vez ainda, façamos memória da verdadeiramente feliz e preconizada por todas as gerações da terra santa, abençoada, sempre Virgem Maria, Mãe de Deus… Abençoada seja Maria e bendito 0 fruto que dela saiu… Pelas orações da Mãe da Vida, Mãe de Deus, Maria, e de todos os santos:….” (Tomo I, pág. 661).

Na própria liturgia dos nestorianos (que negavam a maternidade divina), Maria foi invocada: “Mãe de nosso Senhor , rogai por mim ao Filho único que nasceu de Vós, para que Ele perdoe minhas faltas e meus pecados, e que receba de minhas mãos fracas e pecadoras este sacrifício que minha fraqueza oferece sobre este altar, por vossa intercessão, Mãe santa.” (A. Nicolas, ib. pág.71).

As festas que, desde os primeiros séculos, se celebram em honra de Nossa Senhora, são testemunhos da veneração que os discípulos de Jesus tiveram para com a sua santa Mãe. “É preciso observar que o culto eclesiástico da Mãe de Deus se manifesta muito mais cedo que suas festas propriamente ditas. Constantino, por exemplo, lhe dedicou três Igrejas, na Capital do Império. Depois das recentes descobertas, antes da construção da Basílica Liberiana que era geralmente considerada como a mais antiga de Roma, existia uma outra Igreja dedicada à Virgem: Sancta Maria Antíqua.” (J.C. Broussole De la Conception Inmaculée à 1′ Anonciation Angélique, pág.36).

As festas mais antigas em honra de Maria. são: a Anunciação, a Purificação, a Natividade e a Assunção.

1) A Anunciação fundamenta-se no Evangelho (Lc. 1, 26-38). A festa da Anunciação também era chamada “Conceição de Jesus Cristo”, “Princípio da Redenção”, etc. Sem dúvida, ela é uma das mais célebres, em toda a Igreja dos primeiros séculos. Na celebração desta festa, fizeram sermões Santo Agostinho, Santo André de Jerusalém, S. Proclus de Constantinopla e muitos outros santos padres. (Cf. Lerosey, op. cit. pág.575).

2) A Purificação é outra festa fundamentada no Evangelho (Lc.2, 22 e ss.). No dia 2 de fevereiro, lê-se no antigo Martiriológico Romano, atribuído a S. Jerônimo: “Purificatio Sanctae Mariae Matris Domini Nostri Jesu Christi”. Á festa da Purificação, celebrada também desde os primeiros séculos, é atestada por S. Gregório de Nissa, S. João Crisóstomo, S. Cirilo de Alexandria, S. Leão Magno e outros. (Barbier – La SaintVierge d’après les Péres, Tomo IV, pág. 391).

3) A Natividade e a Assunção são duas festas baseadas na Tradição da Igreja. Não se sabe com muita precisão onde e quando nasceu e morreu Nossa Senhora. Mas os cristãos quiseram prestar uma homenagem à Mãe de Jesus, celebrando o dia do seu nascimento e da sua glorificação, após a sua morte. A festa da Natividade é celebrada no dia 8 de setembro, e a da Assunção, no dia 15 de agosto. Segundo informa o historiador Mario Righetti, “a Assunção é a festa mais antiga e solene que a Igreja celebra em honra de Maria, destinada a comemorar a sua morte e sua assunção ao Céu, em corpo e alma. Não nos é conhecido quando a Virgem exalou o último suspiro… a memória Mariana fixada em 15 de agosto deveu de ser a mais popular e festiva, porque as Igrejas da Armênia, de Jerusalém e de Constantinopla a tiveram com preferência sobre as outras”. (Op. cit. 895-904).

No decorrer dos séculos, a Liturgia católica foi se enriquecendo sempre mais com festas e comemorações da Virgem Maria. Mesmo Lutero conservou algumas festas de Nossa Senhora: aquelas que tinham uma fundamentação bíblica: a anunciação, a visitação, a purificação. Foram solenidades litúrgicas conservadas e aproveitadas por Lutero e outros reformadores, para ser também uma iniciação sobre Maria e sua importância para os cristãos reformados. (Gottfried Maron – “Maria na Teologia Protestante”, Rev. Concilium, n° 188, agost0 de 1983, pág. 67 e ss.).

 
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Publicado por em 13/09/2013 em Liturgia, Mariologia

 

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