Marina Silva e o velho discurso do “novo”

Por Caio Vioto

É uma tendência da política ocidental, intensificada a partir da Revolução francesa e com novo impulso a partir do século XX, a idéia de que é possível “construir” uma sociedade, ou seja, de que a partir da tomada de poder por um determinado grupo ou indivíduo político, este, pelas suas nobres intenções e por sua sapiência fora do comum, vai ser capaz de “mudar” a realidade, sempre vista como “opressora”, “atrasada”, regida por pessoas que buscam apenas “o próprio interesse” e que “não pensam no povo”.

O sociólogo alemão Max Weber, ao tratar da ética na política, salientava que esta não repousa nas intenções, nos fins, mas nos meios, já que toda ideologia política teria uma “sinceridade”, uma “nobreza” subjetiva. Assim, ninguém faria o mal apenas por sadismo, pelo menos não de forma declarada. A maioria dos que fazem “o mal” (ou apenas governam mal) está sempre munida das melhores intenções.

No entanto, no mundo político existe um detalhe muito importante e também muito esquecido: as ações premeditadas têm conseqüências não intencionais, ou seja, desdobramentos não previstos por aqueles (bem-intencionados) que colocaram em prática determinada política.

Historicamente, podemos notar vários exemplos disso: a própria Revolução Francesa, o socialismo, o fascismo, o nazismo, etc. Todos com a melhor das intenções (sim, até o nazismo e o fascismo tinham boas intenções, mesmo que na mente insana de seus idealizadores e apoiadores), mas que resultaram, em maior ou menor grau, em verdadeiras tragédias para aqueles que foram sujeitados a tais regimes.

No Brasil, a “boa-intenção” e a tentativa de “construção do novo” também estiveram sempre presentes na história política e com uma característica particular: as “mudanças” sempre ocorreram num curto espaço de tempo, de modo que “o velho” nem teve tanto tempo assim para envelhecer. Não obstante discursos, promessas e propostas tão divergentes, as práticas cotidianas do poder sempre foram muito parecidas.

Se partirmos apenas da história do Brasil independente, desconsiderando os mais de 300 anos de colônia, temos o seguinte quadro: a república veio trazer o “progresso”, o “federalismo”, o “presidencialismo”, a “soberania popular”, em detrimento de um regime “hereditário”, “autoritário” e “arcaico” que seria o Império. A Era Vargas veio trazer a “modernização”, a “industrialização”, a “centralidade”, fazer o Brasil deixar de ser “uma grande fazenda”. No breve período de democracia formal entre 1945 e 1964, tivemos o “50 anos em 5”, o “plano de metas”, o presidente que iria “varrer” a corrupção, “as reformas de base”, etc.

Com o golpe militar, a promessa era “garantir a legalidade”, evitar a “paralisia decisória”, depois passou a ser “proteger o país da ameaça comunista”, “ame-o ou deixe-o”, “milagre econômico”, dados maquiados, criação de estatais, inflação e toda aquela história que a maioria conhece.

Vem a “redemocratização” (altamente negociada), a esperança depositada em Tancredo, a morte do mesmo, Sarney assume, vem a Constituição (altamente negociada e que, para contemplar todo mundo, se tornou uma aberração política e legal). Vem a eleição de 89, “o caçador de marajás”, os “caras pintadas”, o impeachment.

Com o Plano Real no governo Itamar, que rendeu duas eleições a FHC vem uma tão esperada estabilidade, tínhamos um “intelectual” no poder. Mas não bastava: ainda éramos lacaios do “imperialismo” e do “neoliberalismo”.

Veio Lula, o “trabalhador no poder”, o bolsa-família, a “nova classe-média”. Depois veio Dilma, “a lutadora contra a ditadura”, a “primeira mulher presidenta”, etc.

E agora estamos em 2014. Às vésperas da eleição ocorre uma tragédia: morre o candidato que seria a “terceira força” e o “fiel da balança” num eventual segundo turno, assume a candidatura a então terceira colocada na última eleição, que teria canalizado os votos dos “descontentes com o sistema”.

E chegamos à pergunta: será que Marina Silva é tão “anti-sistema” assim? Pelo menos experiência dentro do “sistema”, a candidata tem de sobra: já foi deputada, senadora, ministra e candidata à presidência. Já passou por um partido grande e outro médio, tentava (e  ainda tenta) viabilizar um partido que teria condições reais de disputar cargos. A despeito de vários convites de partidos menos expressivos para concorrer em 2014, se aliou a um projeto já pronto, a um partido que era a então terceira força do governo federal, que já contava com aliados, estrutura, etc.

Muito se fala agora sobre a inserção da candidata na disputa, projetando possíveis cenários. Creio que não muda muita coisa no primeiro turno. A Marina tem mais potencial de votos, em tese, do que o finado Campos, já que teve 20 milhões de votos, por um partido pequeno, sem coligação, com pouco tempo de TV e na primeira eleição presidencial que disputou. No entanto, o Aécio é um candidato, em tese, mais forte do que era o Serra, portanto tem mais chances de atrair o eleitorado insatisfeito. Seguindo a “estrutura” do eleitorado brasileiro dos últimos anos, PT e PSDB devem ir para o segundo turno, e é aí que a coisa complica. O Campos sinalizava que iria apoiar o Aécio, os dois tinham boas relações e o PSB seria a segunda força num eventual governo Aécio, já que este não conta com partidos fortes em sua base aliada. Não faria sentido para o Campos sair do governo, enfrentar o desgaste de uma campanha, para voltar a ser terceira (ou talvez quarta) força na continuidade do governo petista. A Marina jamais apoiaria o Aécio no segundo turno, por questões óbvias. O resto do PSB deve rachar, já que isso ocorreu mesmo antes da eleição (em que alguns preferiam continuar na base do governo). O Campos era a figura que dava coesão interna ao partido. Assim, a Marina deve se manter “neutra”, parte do PSB apoiará o Aécio e parte apoiará a Dilma, independente da posição oficial do partido (que também pode ser a neutralidade). Nesse cenário, a Dilma é favorecida.

De qualquer forma, Marina conta com o apelo do “novo”, do “fora do sistema”, do “diferente de tudo o que está aí”. A política em geral, é também o âmbito da promessa, da esperança, da novidade. Mas é também o campo das velhas práticas que são sempre vendidas como “redenção”, como “inovação”, como “mudança”.

Marina participou do governo PT. Saiu, é claro, mas não “radicalizou”, não foi para o PSOL, como muitos dos seus ex-colegas. A ministra mantém um discurso ambientalista, que se fortaleceu após a queda da URSS, quando muitos comunistas tinham vergonha de defender abertamente suas bandeiras e quando alguns jovens que tinha sido hippies nos anos 60 e 70 tinham envelhecido, mas sem perder “o espírito da juventude” e eram capazes de influenciar governos, empresas e universidades. Assim, a “ecologia”, o “respeito à natureza”, o “desenvolvimento sustentável” se configuram como bandeiras muito fáceis de carregar, que não são radicais, mas que, ao mesmo tempo, mantém a “ideologia”.

Além disso, ela é candidata pelo Partido Socialista Brasileiro. É claro que temos na realidade política brasileira, socialistas muito mais, digamos, convictos do que o PSB, no entanto, é impossível para qualquer pessoa em sã consciência ouvir a palavra socialismo e não lembrar de autoritarismo, miséria, tecnologias obsoletas, Chernobyl, etc.

Enfim, vemos que a “nova candidata” tenta juntar em seu discurso “inovador”, idéias que já estão (ou que já nasceram) caducas. E que tenta ser “anti-sistema” fazendo alianças com coronéis. No entanto, o eleitorado brasileiro, carente de um debate sério e de propostas realmente conflitantes em discussão, “compra” a “novidade” sem grandes críticas. O Brasil sempre espera “construir o novo”, talvez por isso nunca deixe de ser o “país do futuro”.

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