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Alguns pontos polêmicos na prática

05 nov

(a) A questão das imagens

Deus proíbe, no Antigo Testamento, a fabricação de imagens de ídolos:

observe-se que o contexto das proibições é sempre o de afirmação do verdadeiro e único Deus (cf. Ex 20,2-5; Dt 4,15-20; 5,8-10);
– Deus não revela sua face, por isso proíbe que se façam imagens suas (cf. Dt 4,15s)

Quando as imagens não induzem à idolatria são permitidas:

– a serpente de bronze (cf. Nm 21,4-9; Jo 3,14)
– os querubins do propiciatório (cf. Ex 25,18ss)
– os leões e bois no templo (cf.1Rs 7,29)
– os doze touros do mar de bronze (cf. 1Rs 7,25)

No Novo Testamento, não há uma única proibição a respeito das imagens; critica-se, sim, a idolatria: “Filhinhos, guardai-vos dos ídolos” (1Jo 5,21) “Mortificai vossos membros terrenos… e a cupidez, que é idolatria” (Cl 3,5). No Novo Testamento, Deus mesmo, invísivel em si, tornou-se visível em Jesus Cristo:

– ele é a imagem do Deus invísivel (cf. 2Cor 4,4; Cl 1,15)
– quem o vê, vê o Pai (cf. Jo 14,9)

Seria preciso que existisse um texto que fosse do Novo Testamento para impugnar o uso de imagens. Apegar-se a esta proibição do Antigo Testamento (antes da Encarnação) é negar a realidade da Encarnação do Verbo: podemos fazer imagens do Cristo porque o Verbo se fez carne; podemos fazer imagens dos santos, porque ele trazem em si a imagem do homem novo, Cristo Jesus (cf. Rm 8,29; 1Cor 15,49). Foi por isso que a Igreja, no segundo Concílio de Nicéia, em 787, condenou como heresia a negação da validade do uso das imagens.


(b) Os irmãos de Jesus

O Novo Testamento refere-se várias vezes aos irmãos e irmãs de Jesus: Mt 12,46; 13,55s; Mc 3,31-35; Mt 12,46-50; Lc 8,19-21; Jo 2,12; 7,2-10; At 1,14; Gl 1,19; 1Cor 9,5.

“Irmãos” em hebraico e aramaico: “ha”, em aramaico significava parente em qualquer grau. Recordemos o sentido tribal da cultura judaica. O Antigo Testamento traz vários exemplos:
Gn 13,8; 14,14.16: O sobrinho de Abraão, Lot, é dito seu irmão
Gn 29,12.15: Jacó, sobrinho de Labão, declara-se seu irmão
Gn 31,23: os membros do clã de Labão são chamados seus irmãos
1Cr 23,21-23: “irmãos” usado claramente como “primos”

Podem-se ver ainda 1Cr 15,5; 2Cr 36,10; 2Rs 10,13; Jz 9,3; 1Sm 20,29.

A tradução grega da Sententa conserva “adelphós” (irmão) apesar de existir o vocábulo “primo”. Prefere conservar o sabor semita do texto original hebraico, que não conhecia a palavra “primo” e usava sempre “irmão”.

Mas, quem são os irmãos de Jesus?
Tiago, Joset, Judas, Simão e as irmãs… (cf. Mt 13,55s)

Mc 15,40: ao pé da cruz, Maria, mãe de Tiago, o Menor e de Joset e Salomé
Mc 3,17s: Tiago, filho de Zebedeu, irmão de João e Tiago, filho de Alfeu

Assim, os pais dos irmãos de Jesus são, com toda probabilidade, Maria e Alfeu. Esta Maria é também chamada de Maria de Cléofas (cf. Jo 19,25). Cléofas e Alfeu são a mesma pessoa: Klopas é a forma grega do aramaico Claphai, enquanto Alphaios é a transcrição direta do Claphai aramaico. Assim, Alfeu ou Cléofas ou Clopas são a mesma pessoa.

Se Jesus tivesse irmãos, não teria deixado sua mãe com João, filho de Zebedeu (cf. Jo 19,25-27). Além do mais, os irmãos de Jesus nunca são ditos filhos de Maria.

Por que Maria está sempre com os irmãos de Jesus? Os costumes da época: Maria, com a morte prematura de José (a bíblia não o cita mais) e a saída de Jesus de sua casa para pregar o Evangelho, ficou uma mulher só. Ora, uma mulher de bem não andava sozinha na rua; por isso, a Virgem aparece quase sempre com os irmãos de Jesus, isto é, os homens da sua parentela, provavelmente pelo lado de José. Aliás, os primeiros escritores cristãos dizem isso claramente!

E o fato de se chamar Jesus “primogênito” (cf. Mt 1,25; Lc 2,7)? Em 1922 houveu ma interessante descoberta arqueológica: uma inscrição sepulcral do séc V aC, no Egito, de uma tal de Arsinoé, que morrera “nas dores do parto de seu filho primogênito”. A tal de Arsinoé só teve um filho, e era chamado “primogênito”. Por quê? Porque sendo o primeiro, herdou os direitos da primogenitura. Quando o evangelho insiste que Jesus é o primogênito não significa que ele teve outros irmãos, mas sim que ele, como primogênito, herdou todos os direitos da Casa de Davi e, assim, é o Messias de Israel. A mesma coisa quando se diz que ele é “o Primogênito de toda a criatura” (Cl 1,15); não se está dizendo que ele é criatura, o primeiro a ser criado, mas que ele tem a honra de ser o sustentáculo, o princípio de toda criação.

(c) A Besta – 666 (Ap 13,18)

Alguns protestantes ignorantes e maldosos fazem o seguinte raciocínio: o Papa é o Vigário de Cristo; Cristo é o Filho de Deus; então o Papa é o Vigário do Filho de Deus (Vicarivs Filii Dei, em latim). Somando as letras da expressão latina, chega-se a 666. Também a expressão latina “Dux cleri” (Chefe do clero), que os protestantes inventaram para o Papa, dá 666. Então, eles dizem: o Papa é a Besta! Besta… besteira dos protestantes! Primeiro, o Apocalipse foi escrito em grego, não cabe a escrita latina; segundoé de notar que a soma de “Jesus de Nazaré”, em hebraico, também dá 666! Ellen Gould W(V + V)hite, fundadora dos Adventistas de Sétimo Dia, também perfaz 666; o mesmo vale para Christe, Fili Dei! O próprio vocábulo “besta” (therion, em grego), em hebraico tryvn daria 666.
Segundo os exegetas 666 corresponde a César Nero em caracteres hebraicos. Mas, o sentido mais profundo da identidade da Besta é o seguinte: seu número é 666. Ora, 6 é o número do homem, criado no sexto dia. 7 é o número da plenitude; 6 significa o qua ainda é imperfeito, o que ainda não é pleno: é 7-1! A Besta quer se fazer passar por Deus (777), mas ela não passa de homem, imperfeito, limitado… E o Apoclaipse manga mesmo: diz que ela é três vezes 6: 666, isto é, imperfeição total! A Besta é tudo aquilo que se arvora de um poder divino (os grandes do mundo, o mercado financeiro, os por satrs, os falsos profetas)… e não passam de pobres mortais…

(d) O primeiro dia como Dia do Senhor

Jo 20,19ss: o sábado dos judeus (shabat = descanso) celebrava a criação e a aliança, ambas depois marcadas pelo pecado. No primeiro Dia depois do sábado, Cristo fez novas todas as coisas, um novo céu e uma nova terra e consumou a nova aliança no Espírito Santo. Passaram a antiga criação e a antiga aliança: “Toda aquele que está em Cristo é uma nova criatura. Passaram-se as coisas antigas, eis que tudo se fez novo” (2Cor 5,17).

At 20,7: no primeiro dia após o sábado (no Domingo), os cristãos se reúnem para a Fração do Pão (a Eucaristia).

1Cor 16,2: a coleta feita no primeiro dia da semana porque era o dia em que os cristãos se reuniam.

Ap 1,10: o primeiro dia da semana chamado de Dia do Senhor: kyriaké heméra, isto é, Dia do Cristo Ressuscitado!

Cl 2,16-18: São Paulo previne os cristãos; eles não devem cair na onda de quem vem com histórias de guardar o sábado ou de distinguir entre comida pura e impura ou de práticas do Antigo Testamento… Tudo isso era apenas “imagem”, “tipo”, preparação para a verdadeira realidade, que é Cristo no seu corpo, que é a Igreja!

(e) Missa na Bíblia

O Senhor mandou celebrar a Eucaristia em sua memória (cf. Mt 26, 26-29; Mc 14,22-25; Lc 22,19s). Os primeiros cristãos celebravam a Eucaristia e chamavam-na Ceia do Senhor ou Fração do Pão (cf. 1Cor 11,23-25; At 2,42; 20,7.11; 27,35; 1Cor 10,6). Logo cedo foi unida à Fação do Pão a Liturgia da Palavra (cf. Lc 24,13-32; At 20,7-11). Há muitos documentos primitivos que narram como se celebrava a missa no século I da nossa era.

(f) Um esquema simples dos evangelhos

1) Os evangelhos não são biografias de Jesus, mas proclamação crente, emocionada, parcial (não imparcial, fria, neutra) de Jesus morto e ressuscitado: “… foram escritos para crerdes que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais a vida em seu nome” (Jo 20,31).

2) Para Marcos, Jesus é o Messias, o Filho de Deus. Seu evangelho esquematiza-se assim:

Mc 1,1 traz o título e o programa da obra de Marcos: mostrar que Jesus é o Messias, o Filho de Deus.

A – Mc inicia-se no deserto – lugar de combate, de tentação, de medo, de morte, habitação dos demônios… lugar da pregação de João Batista (1,2 – 13).

B – Depois, Jesus aparece na Galiléia. A crise da Galiléia é dramática: Jesus, que iniciou seu ministério com um enorme sucesso, enfrenta oposição sistemática dos chefes, do povo, dos familiares, dos apóstolos… por fidelidade ao Pai, não muda seu procedimento (1,14 – 7,23).

C – Jesus deixa a Galiléia para preparar seus discípulos. Depois, sobe para Jerusalém. É o momento das grandes exigências para quem desejasse segui-lo (7,24 – 10,52). Aqui dá-se o primeiro ponto alto do Evangelho: Tu és o Messias… mas um messias sofredor (8,27-38).

B’ – O ministério de Jesus em Jerusalém: insiste no que ensinou na Galiléia: ele é o Messias, que age com autoridade, é o Filho de Davi, e nele o mundo e Jerusalém serão julgados – portanto, é necessário vigiar com ele (11,1 – 13,37).

A’ – A paixão e morte: o sepulcro vazio (conclusão original de Mc). Como o deserto, o sepulcro é lugar da provação da morte, dos demônios, de medo… lugar de gestação da Ressurreição (14,1 – 16,8). Aqui dá-se o segundo ponto alto de Mc: Verdadeiramente este era o Filho de Deus (15,39). A cruz é o lugar do reconhecimento de Cristo! A Igreja acrescentou 16,9-20 para explicitar aquilo que Mc deixara implícito: o sepulcro vazio é sinal de vitória.

O Jesus de Marcos fala pouco: o Evangelho é a própria pessoa de Jesus: suas palavras, gestos, opções, sentimentos, sua vida. Ser cristão, para Marcos, é seguir Jesus no caminho para Jerusalém, com ele morrer e com ele ressuscitar.

3) Mateus apresenta Jesus como o novo Moisés. Sua obra é articulada em cinco partes, recordando os cinco livros de Moisés. Além dos dois primeiros capítulos narrando a infância de Jesus e a Páscoa, eis as cinco partes do corpo do evangelho:

I – Parte narrativa (caps. 3 – 4)
Discurso da montanha (caps. 5 – 7)

II – Parte narrativa (caps. 8 – 9)
Discurso apostólico (cap. 10)

III – Parte narrativa (caps. 11- 12)
Discurso das parábolas (cap. 13) sete parábolas do Reino: centro do evangelho

IV – Parte narrativa (caps. 14 – 17)
Discurso sobre a Igreja (cap. 18)

V – Parte narrativa (caps. 19 – 23)
Discurso escatológico (caps. 24 – 25)


4 ) Para Lucas, basta observar o seguinte: Jesus é apresentado como o Salvador universal. Jesus é apresentado como Messias pobre, orante, misericordioso com os pecadores, conduzido pelo Espírito Santo.
O evangelho é apresentado como uma longa subida para Jerusalém, onde Jesus morrerá e ressuscitará: segui-lo é ser cristão. A subida inicia-se em Lc 9,51 e de modo solene: “Quando se completaram os dias de sua assunção (= de seu êxodo, de seu arrebatamento), ele tomou resolutamente o caminho de Jerusalém”.

5) João é o único evangelista que não estrutura sua obra como uma subida para Jerusalém. Para ele, Jesus é o Lógos revelador do Pai; é a luz que ilumina o homem com o esplendor de Deus: só o Filho viu o Pai e só ele o pode dar a conhecer. A estrutura de João é simples:

Jo 1,1-18: o Prólogo, que resume os temas do evangelho;
Jo 1,19 – 12,50: o Livro dos Sinais: Jesus realiza sete sinais que revelam quem ele é. Além dos sinais, há longos discursos que revelam a identidade de Jesus: eu sou a porta, eu sou o bom pastor, eu sou o camainho, eu sou a vida, etc.
Jo 13 -21,25: o Livro da Glória: para João a cruz e ressurreição são a hora da Glória do Filho.

Alguns pontos interessantes de João: a dependência total de Jesus em relação ao Pai; e a preocupação sacramental (o Batismo – cap. 3 – e a Eucaristia – cap. 6). O Evangelho de João, apesar de profundamente teológico é também profundamente sensível à história.

IX – Conclusão

Quis, nesta pequena apostila, apresentar algumas coordenadas para ajudar na leitura e compreensão da Sagrada Escritura. Vale a pena lê-la e meditá-la com fé, mas sempre unidos à fé da Igreja. A Bíblia não é para interpretação privada. Somente na Igreja católica ela é plenamente viva e corretamente interpretada: “Antes de mais nada, sabei isto: que nenhuma profecia da Escritura resulta de umai nterpretação particular, pois que a profecia jamais veio por vontade humana, mas homens, impelidos pelo Espírito Santo, falaram da aprte de Deus” (2Pd 1,20s). Agora, é tomar a Palavra e devorá-la com fé e amor, guiados pelos Santo Espírito.

 
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Publicado por em 05/11/2014 em Uncategorized

 

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