Corpus Christi

por D. Vison Dias de Oliveira, DC

A festa de Corpus Christi, ou, mais exatamente, do Corpo e do Sangue do Senhor, recorda que o mistério pascal está todo presente na celebração eucarística. E eucaristia é a memória da Páscoa, a ceia da nova aliança. É o centro da vida e da missão de Jesus entre nós. Ele veio fazer de nós uma comunidade solidária, cujos membros se amem, ajudem-se e vivam em união comum e na partilha, capazes de vencer as divisões, brigas, competições e exclusões.

1. Situando-nos

A Solenidade do Corpo e Sangue de Cristo entrou na liturgia da Igreja em 1247, em meio a polêmicas e dúvidas sobre a presença real de Jesus na eucaristia. Desde o início, a solenidade é marcada por grandes concentrações populares e procissões majestosas pelas ruas.

O Concílio Ecumênico Vaticano II deu-lhe novo significado, ligando-a estreitamente à Páscoa do Senhor, o mistério eucarístico por excelência. A Eucaristia como memória da Páscoa é a ceia da nova e eterna aliança, centro da vida e da missão de Jesus entre nós. A festa de Corpus Christi recorda que o mistério pascal está todo presente na Celebração Eucarística.

Celebrar a Eucaristia é renovar a aliança no sangue do Cordeiro, que se entregou por nós radicalmente como servo. Participando da Celebração Eucarística, somos convidados a fazer de nossa vida um serviço e dom gratuito, para o louvor de Deus e a libertação da humanidade. Uma oferenda perfeita com Cristo, pela ação amorosa e sempre fecunda do Espírito Santo. E, assim tornar autêntica a afirmação de nossa fé: “Ele está no meio de nós!”.

Na celebração da Eucaristia, nos comprometemos com a solidariedade para com as pessoas, a partilha do pão com os pobres e a comunhão com todos os que fazem o bem, fazendo, assim, memória do que Jesus realizou em toda sua vida: entregou-se na Cruz. E, na Cruz, o Pai o exaltou, ressuscitando-o.

O Pai vê, nessa entrega de seu Filho, uma grande força, que, aos poucos, vai nos unindo e reunindo em comunidades fraternas. Uma força que nos ajuda a vencer todas as divisões, explorações e desigualdades, e a sermos pessoas pascais e eucarísticas capazes de dar a vida e de criar comunhão. Enfim, a sermos testemunhas do Ressuscitado no dia a dia.

Na celebração de hoje, lembramos e proclamamos pelas ruas. Ele veio fazer de nós uma comunidade de pessoas solidárias, eucarísticas, que se amam, se ajudam e vivem em união e na partilha dos alimentos, capazes de vencer as divisões, brigas, competições e a exclusão. Saímos pelas ruas para cantar o que somos e o que somos chamados a realizar na sociedade e na Igreja.

2. Recordando a Palavra

Jesus e os seus discípulos encontram-se em Jerusalém. O Evangelho nos fala do primeiro dia, da preparação da Páscoa, dia em que se imolava o cordeiro e se eliminava das casas todo fermento, como o primeiro dia da festa que durava oito dias.

Os discípulos se dirigem a Jesus como chefe de família do grupo que vai celebrar a refeição pascal, para receberem orientação sobre a ceia. Os peregrinos vindos de perto ou de longe, deveriam encontrar uma sala no interior da cidade para a celebração da ceia, lembrança daquela última ceia, realizada naquela noite, na saída da escravidão do Egito.

Tudo indica que a última refeição de Jesus com o seu grupo tinha características de ceia pascal, memória do êxodo. Foi uma refeição de peregrinos, celebrada em clima de festa que atualizava a libertação do Egito e a aliança mosaica. Era celebrada para reanimar a esperança messiânica. Portanto, a Eucaristia cristã passa a ser a nova Páscoa.

Chama a atenção, no Evangelho, o homem estar carregando uma bilha com água. Trata-se certamente de um sinal, pois competia às mulheres o serviço de buscar água.

Ao derramar seu sangue na cruz, Jesus completa a aliança selada no Sinai com o sangue de animais. Proclama, assim, o cumprimento da nova aliança, predita pelos profetas, e apregoa o valor salvífico do seu sacrifício pela multidão, a humanidade toda. A expressão “sangue da aliança” é a mesma do Êxodo 24,8. Jesus diz que vai provar de novo o fruto da videira, no Reino de Deus, festa messiânica predita por Isaías, 25,6.

Não podemos separar a Eucaristia da Páscoa judaica. Ela constitui, teológica e historicamente, o seu contexto. A ceia pascal de Jesus é a celebração antecipada da entrega total de sua vida na cruz. A entrega do corpo e o derramamento de seu sangue selam a nova aliança. Com ela o Senhor nos dá uma nova vida e nos convida a sermos fieis à sua proposta de amor e de entrega ao Reino de Deus.

A primeira leitura lembra a aliança feita no Sinai entre Deus e seu povo, selada com sangue de animais. É a comunhão com Deus e comunhão dos hebreus entre si.

Nessa aliança, os parceiros são Javé, representado pelo altar junto à montanha, e o povo todo, simbolizando nas doze tribos. As cláusulas da aliança são o sangue dos novilhos. O povo ouve as cláusulas, concorda e promete: “Faremos tudo o que o Senhor disse”. Sela-se a aliança com o sangue das vítimas.

Metade do sangue é derramado sobre o altar e a outra metade é aspergida sobre o povo, com estas palavras solenes: “este é o sangue da aliança que Javé faz com vocês através de todas as essas cláusulas”. O povo não assina, mas deixa-se aspergir com o sangue. E o sangue representa vida. É, pois, uma aliança vital. É sangue de animais oferecidos em sacrifícios de comunhão; portanto, sangue que consagra e dignifica a aliança. E aí está a ligação forte com o Evangelho: “Isto é meu sangue, o sangue da aliança, que é derramado em favor de muitos”.

No Salmo 115 (116), o salmista, desiludido com a segurança que os homens lhe oferecem, afirma sua plena confiança em Deus e professa: “É valiosa aos olhos de Javé a morte dos seus fiéis”. Agradece tudo o que o Senhor lhe deu, oferecendo um sacrifício de louvor e ação e graças, lembrando a Ele as promessas feitas na presença do povo. O povo foi liberto e foram quebradas as cadeias que o prendiam. Por isso, agraciado, vai erguer o cálice da salvação e invocar o nome do Senhor.

A carta aos Hebreus lembra que Jesus Cristo foi livre ao entregar seu sangue para nos purificar e libertar. E, nesta entrega, realiza a nova aliança, o novo sacerdócio e novo sacrifício. Jesus é, ao mesmo tempo, sacerdote – o que oferece – e vítima – o que é oferecido.

Em sua morte e ressurreição está o único sacrifício da nova aliança. O sangue dos animais apagava os pecados e purificava o povo. O sangue de Cristo, vítima sem mancha, traz a plenitude: “Ele purifica das obras da morte a nossa consciência, para que possamos servir ao Deus vivo”.

3. Atualizando a Palavra

A Eucaristia é a aliança eterna e definitiva de Deus conosco, selada pelo sacrifício único de Jesus Cristo. Seu gesto de amor e entrega é para sempre e permanece atual, pela liturgia, em todo tempo e no decorrer da história da salvação da humanidade.

No pão e no vinho da última refeição de Jesus, faz-se presente antecipadamente o dom da sua vida entregue até a morte sangrenta na cruz. “A entrega de Jesus, sua morte-ressurreição, que aconteceram uma única vez (Hb 10,10-18), tornam-se presentes para nós pela ação litúrgica, ou seja, toda vez que fazemos memória destes fatos e de nossa salvação, anunciamos a morte do Senhor, até que Ele venha (1Cor 11,16). Não se trata de uma repetição, mas de uma atualização”. O sacrifício é um só.

Somos redimidos por um amor sacrificado, um amor que doou corpo e sangue, isto é, doou a vida. Não é o sangue por si mesmo que salva. O que salva são o amor e a fidelidade que levaram Jesus a enfrentar morte cruel e sangrenta. Depois da sua morte, não há outro sacrifício de sangue, o amor de quem o derramou, e este é valido para sempre.

Unindo-nos ao amor de Jesus, entregamos, no momento da Celebração Eucarística, o nosso corpo e sangue, toda nossa vida a serviço dos irmãos. Assim, nos tornamos “uma oferenda perfeita” com Cristo e em Cristo.

Se, na verdade, desejamos participar da mesa eucarística, agora e no banquete celeste, somos convidados a participar de seu serviço gratuito e assumir em nossa carne a sua doação radical.

“Se queres honrar o Corpo de Cristo, não o desprezes quando ele está nu. Não o honres assim, na Igreja, com tecidos de seda, enquanto o deixas fora, sofrendo frio e carente de roupa. Com efeito, o mesmo que disse: ‘Isto é o meu corpo’ e que realizou, ao anunciar, também disse: ‘Viste-me com fome e não me deste comida (…)’. Começa por alimentar os famintos e, com o que te sobre, ornamentarás o altar” (Catequese de São João Crisóstomo).

4. Ligando a Palavra com ação litúrgica

Hoje, cantamos com entusiasmo “coração ao alto”, no prefácio, e damos graças ao Pai pelo Cristo que fez, de sua vida, o dom total. Corpo entregue e Sangue derramado, como alimento e bebida, centro alegria, felicidade e comunhão com o Pai.

Corpo e Sangue do Senhor feito pão e feito vinho – sinal sempre presente da comunhão viva e total do Cristo com a humanidade, desde a encarnação até hoje e para sempre. Sacramento do Senhor que não exclui ninguém, mas que se entrega para comungar com todos e, assim, com todos formar um só corpo.

Pão e vinho transformados no corpo sacramental do Senhor nos unem; fazem de nós, que comungamos, o corpo vivo do Senhor – seu corpo eclesial a serviço de seu corpo cósmico e universal.

E a melhor maneira de dar graças é participar desse pão e desse vinho que Cristo nos oferta, fazendo nossa a “ação de graças” que Cristo oferece ao Pai. Com Ele, dedicamos nossa vida e, ao sermos alimentados dele, nos comprometemos com o seu projeto de erradicar a fome do mundo e tornar visível o Reino da paz e da fraternidade.

E, assim, celebremos com alegria e festa, num clima de profunda fé, a salvação que o mistério eucarístico realiza em nós. Saboreamos desde já, pela comunhão de seu Corpo e Sangue, o banquete eterno e a participação na festa do Reino que, no céu, dura para sempre.

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