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O Jubileu e o ano que agrada a Deus (Lv 25; Is 61)

11 fev

O Jubileu e o ano que agrada a Deus (Lv 25; Is 61)

            Da prática de um descanso sabático semanal aos poucos surgiu em Israel, a tradição do ano sabático como ano de descanso da terra, ano de libertação de escravos e ano de perdão de dívidas. Brotou a concepção de um Jubileu como a temos atestada em Levítico 25: “Contarás sete semanas de anos, sete vezes sete anos, de maneira que os dias das sete semanas de anos serão 49 anos …. santificareis o ano quinquagésimo …ano de jubileu vos será e …”

Essa concepção de um ano de Jubileu recebeu sua composição e redação decisivas na época final do exílio e início do pós-exílio.

 

1. Um pouco de história

No ano de 587/6 a.C. o exército babilônico, sob o comando do general Nabucodonosor, tomou a cidade de Jerusalém, destruindo palácio, templo, casas e muros (cf. 2 Rs 24-25). Muitas pessoas foram mortas, outras tantas foram deportadas e muita gente do povo simples, “os mais pobres da terra”, acabaram ficando na terra, inclusive como “vinheiros e lavradores” (Jr 39,10; 52,16). Uma potência estrangeira provocou uma interferência profunda nas relações sociais. A cidade está destruída, o templo, demolido, o país, arrasado, e a estrutura de governo está desmantelada.

O povo de Israel passa pela difícil experiência do exílio. É um período em que o povo passa por uma profunda revisão da sua vida e da sua história. Tanto na Babilônia quanto na Palestina, desenvolve-se um profundo processo de reflexão, de alimentação de esperanças, de busca de reorganização de vida. O exílio é um tempo de sofrimento e esperanças, no qual se verifica também uma grande produção de textos.

No ano 538 a.C. com o chamado “decreto de Ciro” (cf. 2 Cr 36,22-23; Ed 1) o imperador persa autoriza o povo judeu deportado na Babilônia retornar para Judá e Jerusalém, para lá poder começar a reorganizar a sua vida. Com isso dá-se início ao período do pós-exílio ou do período de restauração da vida do povo de Deus. Foram 50 anos de  grande aflição mas profunda esperança. Após o exílio, recomeça, na terra de Israel, um tempo de reencontro, marcado por uma série de desencontros e conflitos.

Por um lado, dá-se um conflito quanto à posse da terra entre os que retornam do exílio na Babilônia e o povo simples que permaneceu na terra durante este período. Os retornantes voltam com clara pretensão de reintegração de posse de suas antigas propriedades. Por outro lado, justamente as atividades de reconstrução pesam como um ônus adicional sobre o povo e, novamente, as relações de empréstimo e dívidas marcam a vida sofrida no dia-a-dia.

É nesse contexto que surgem dois textos relacionados com o ano do Jubileu e com um tempo jubilar mais abrangente. Por um lado, encontramos a idealização do chamado Jubileu ou ano jubilar, o texto de Levítico 25. Por outro lado está o texto de Isaías 61, onde, em nome do Deus-Javé, o profeta anuncia a realização de uma ampla libertação (deror) e um “ano agradável ao Senhor” (vv. 1-2). Esses dois textos marcam, provavelmente, duas posições ou propostas distintas neste período.

 

2. O ano do Jubileu (Lv 25)

O nome Jubileu ou ano jubilar provém da palavra hebraica yobel, que significa “chifre de carneiro”, uma espécie de instrumento de sopro. Trata-se uma espécie de “berrante”, que servia para anunciar um chamado ou um julgamento de Deus (cf. Ex 19,13 = shofar). O ano do yobel é o ano que começa pelo toque do chifre/yobel. Daí o nome jubileu.

A proposta do “ano do Jubileu” é a realização exponenciada de sete vezes sete anos sabáticos, seguindo a lógica: 7 x 7 = 49. O ano seguinte, isto o ano quinquagésimo (50°), marca o ano Jubilar ou jubileu. Neste ano, segundo a proposta do texto de Levítico 25, deveria acontecer um amplo processo de transformações e libertações (deror).

Este texto de Levítico 25 propõe basicamente a realização de quatro ações ou atos essenciais neste ano do Jubileu:

1. descanso da terra (Lv 25,1-7),

2. reintegração de posse da terra (Lv 25,8-34),

3. probição da cobrança de juros (Lv 25, 35-38) e

4. libertação ou resgate de escravos (Lv 25,39-55).

A aplicação concreta dessa proposta do Jubileu pode ser entendida em pelo menos dois sentidos distintos.

a) Proposta libertadora – O sentido libertador basicamente supõe que a terra/propriedade familiar não seja vendida em perpetuidade. Alienação de terra/roça será sempre temporária (Lv 25,13-18). Aqui atribui-se à terra um valor de dádiva. Deus é o doador último da terra. Por isso, ela terá sempre um caráter de terra de trabalho e não deverá ser um objeto de especulação imobiliária. Nos vv. 23-28 parte-se novamente da concepção norteadora de que Deus é o doador e o verdadeiro proprietário da terra (= “a terra é minha” = de Javé, v. 23). O povo é “estrangeiro” e “morador/inquilino” (v. 23).

Lida assim, em perspectiva libertadora, a proposta do Jubileu traz intrinsecamente uma profunda dimensão utópica e transformadora. As relações de posse não são consideradas perpétuas. Tudo, ou quase tudo, pode ser reorganizado a partir do especial tempo de graça que é o Jubileu no ano 50.

b) Proposta problemática – A pretendida reintegração de posse pressupõe que os que foram exilados para a Babilônia retornem às suas antigas terras/posses, desapropriando com isso, aquelas pessoas e famílias que durante meio século cultivaram e habitaram estas terras. Lida nesta perspectiva, esta lei do ano jubilar poderia ter sido concebida como uma idealização para rearranjar os exilados que retomavam a Judá nas suas antigas posses/terras. Neste sentido, a lei do jubileu buscaria dar um “jeitinho” para os retornantes.

O texto e as propostas de Lv 25 apresentam problemas quanto à sua aplicabilidade. Talvez não seja acaso que na legislação do antigo Oriente não encontramos nenhum paralelo para essa proposta do Jubileu. Trata-se de uma concepção própria de Israel, buscando aplicação primordialmente para a situação dos exilados no início do período persa.

Apesar desses problemas, o texto de Lv 25 faz parte da Torá como um todo. Ele é parte integrante do Pentateuco. Por isso, essa proposta deve ser lida, corretamente, de forma complementar junto com os outros textos legislativos do Pentateuco que tratam de propostas jubilares.

Assim, apesar dessa possibilidade problemática embutida na proposta do jubileu, para nós hoje, é imprescindível ler essa proposta a partir de sua “reserva de sentido” como um texto libertador. Sua carga utópica pode energizar a nossa espiritualidade hoje e sobretudo dar-nos a consciência clara de que aos olhos de Deus, as relações humanas e sociais nunca são eternas; o futuro nunca está fechado para o novo, mas justamente o novo se abre porque Deus prevê tempos de graça. A Deus agrada manter o futuro aberto! Disso nos fala de modo particular o texto de Isaías 61.

 

3. O ano agradável ao Senhor (Is 61, 1-3)

            O tempo do pós-exílio tem sido, muitas vezes, designado como um tempo de “silêncio profético” (Carlos Mesters). Este texto de lsaías 61 busca quebrar esse silêncio e marca o tom profético para este período. A voz de Javé não se cala em meio ao silêncio profético geral. O capítulo 61, 1-3 traz mais fortemente a dimensão do anúncio. Aqui o profeta entoa um hino de libertação e consolo. “O Espírito do Senhor Javé está sobre mim, porque o Senhor me ungiu; para proclamar alegrias aos pobres ele me enviou, para proclamar a libertação aos cativos, para os amarrados/cativos, o desatamento de suas amarras; a proclamar um ano aceitável ao Senhor…”

Na base deste texto estão presentes os mais diversos conflitos entre o povo. Pessoas pobres, quebrantadas, cativas, enlutadas marcam a realidade sofrida. Esta realidade chega a Deus e recebe resposta neste texto.

No texto destacam-se dois termos indicativos de duas realidades agudas do povo. Por um lado, encontramos aqui o termo “proclamar libertação” (em hebraico: deror (v. 1). Este termo também é usado em Jr 34 como termo técnico para designar a libertação e/ou alforria de escravos e escravas (em forma de acordo com os senhores!). Podemos incluir aqui também a realidade de presos de guerras e de lutas, que anseiam por libertação.

Por outro lado, com a referência ao “ano aceitável ao Senhor” (v. 2), provavelmente está-se pensando na prática da remissão de dívidas, conforme proposta por Dt 15,1-4. Dentro do veio das tradições jubilares, este “ano da graça de Javé” constitui, muito provavelmente, uma indicação de um ano sabático, isto é, um ano em que as relações sociais precarizadas poderão novamente ser restabelecidas.

O texto profético-messiânico de Isaías ativa a memória subversiva do ideal das leis sociais, sobretudo no que se refere ao ano sabático como um ano de libertação e de remissão (Dt 15; Ex 21+23). Afirma ainda que o tempo de atuação de Javé é por excelência um tempo jubilar não submetido somente a uma lógica cronológica, mas à urgência e emergência do kairós, do tempo oportuno da salvação. Hoje – este é sempre tempo de graça.

 

4. Resumo e perspectivas

Nos tempos de sofrimentos e esperanças do exílio, a palavra de Deus, por força do seu santo Espírito, impulsionou um povo desterrado para um futuro a ser aberto pelo próprio Deus. Nos encontros e desencontros da época de reconstrução no pós-exfiio, vários projetos buscam concretização.

Os sonhos e as ansiedades dos exilados retornantes levaram à formulação da proposta de um amplo jubileu. O reencontro com a terra e com as pessoas que lá viviam naquela época e cultivavam estas terras mostrou os problemas e as dificuldades dessa proposta. Mas permaneceu a sua força utópica, como reserva de sentido também e sobretudo para nós.Temos nossos problemas e dificuldades para por em prática essa proposta do jubileu bíblico.

O autor de Is 61 busca trazer a voz do Deus libertador para dentro de um tempo de silêncio profético. Com a proclamação de um ano da graça do Senhor o texto evoca e vivifica utopias que em tempos passados já pautaram a realidade e que a poderão pautá-la a qualquer momento, porque o tempo de graça de Deus é sempre um tempo kairótico, tempo de salvação e redenção.

Esses projetos de u-topia, daquilo que ainda não tem lugar, mas que está no futuro firmado pela promessa de Deus, buscam por sua realização. Para nós, hoje, fala forte e, de forma mais radical, a proposta jubilar no ministério de Jesus de Nazaré (Lc 4).

Para nós cristãos o jubileu deve ser um tempo de profunda reflexão e ao mesmo de tomada de consciência da nossa missão comum de fazer acontecer essa proposta de Jesus, de evangelização dos pobres, de libertação dos cativos e de recuperação da vista aos cegos (cf. Lc 4,18b). Porque, no batismo o Espírito do Senhor nos ungiu e nos enviou em missão. Somos todos, por vocação, discípulos missionários de Jesus Cristo.

E temos a responsabilidade de tornar presente a utopia do jubileu.

O Espírito Santo nos ilumine e sustente, com a intercessão de São Pedro apóstolo.

 

(cf. Harold e Ironi Rchter Reimer, Tempos de Graça, o jubileu e as tradições jubilares na Bíblia, 1999, p.91-102)

 

 
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Publicado por em 11/02/2016 em Uncategorized

 

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