MANTRA E ORAÇÃO CATÓLICA SÃO COMPATÍVEIS?

Fonte: Falsas doutrinas, seitas e religiões / Prof. Felipe Aquino

Autor do texto: D. Estevão Bittencourt

Em nossos dias certos autores de espiritualidades católicos recomendam exercícios corporais e ritmos respiratórios para favorecer e provocar a oração. Estas técnicas têm origem na espiritualidade hinduísta, que é panteísta, identificando a divindade e o homem e como se este fosse uma centelha divina presa pela matéria Os exercícios físicos têm então a função de fazer que a centelha (existente no intimo do homem) se emancipe das limitações da matéria e entre em sintonia com a divindade existente fora do homem; as posturas físicas, o ritmo respiratório, a dieta alimentícia desempenham assim papel importante, porque, segundo esta concepção, contribuem para libertar o núcleo central do homem.

“Mantra” é uma palavra ou formula sagrada que conforme os hinduístas e budistas, provoca uma vibração interna do individuo e o põe em contato com a energia esparsa pelo cosmo; produz efeitos de sintonia com o universo. A repetição continua de uma prece, de um nome santo ou de um versículo tirado dos livros sagrados da Índia. Assim “Eu sou Bramam”, “Eu sou a consciência mesma”, “Eu sou isso”, “Eu sou aquilo”… Essas palavras devem entrar nos ouvidos do orante e atingir o seu subconsciente, aí; dizem que as palavras fazem surgir a divindade ou provocam uma espécie de obsessão, que elimina da mente toda idéia profana.

Diz que tem poder mágico, é divino como a divindade que o mantra exprime. O homem, o mundo e a divindade constituem uma grande rede de energia; a pessoa deve procurar sintonizar ou se colocar na onda de Deus para se encontrar com Ele e atingir o seu grande centro: Deus (a divindade) o centro do universo e o centro da pessoa humana. Já que o mantra confere benefícios e poderes a quem o profere, o mestre sopra no ouvido do neo-discípulo o mantra secreto; assim ele desperta as energias latente ou shakti do discípulo.

“O universo está sob o poder dos deuses; os deuses estão sob o poder dos mantras, os mantras estão sob o poder dos Brâmanes, por isso os Brâmanes são nossos deuses” (Dubois, Hindu Manners and Custom, Oxford, 1906, p. 139).

A explanação relativa ao mantra, por parte dos católicos que a querem usar na oração, dá a impressão de que a vibração do ar decorrente da repetição da “palavra sagrada” tem um efeito físico: ela põe o orante em sintonia com Deus”, como se Deus fosse uma emissora de ondas e energias que capta desde que utilize a vibração certa ou adequada para atingi-lo. O mantra teria eficácia física capaz de apreender de Deus como se Deus fosse uma realidade do nosso mundo físico, quantitativo, mensurável. Isso equivale de certa forma, a professar o panteísmo.

Tais concepções não se coadunam com a fé cristã, que professa um só Deus, que é radicalmente distinto do mundo e do homem. Deus é Pai e a oração filial com humildade e confiança o agrada, sem que haja necessidade de métodos mecânicos para atrair ao homem.

Daí a série de restrições que as táticas orientais merecem da parte da Santa Sé (veja na revista pergunte e responderemos 392/1995, pp.2-15 e n. 335/1995, pág. 156-157). Entre outras coisas diz o documento da Sagrada Congregação da Fé, de 15/10/1989.

“Certos exercícios produzem automaticamente a sensação de paz e de distensão, sentimentos gratificantes ou até fenômenos de luz e calor semelhante ao bem estar espiritual. Considerá-las como autenticas consolações do Espírito Santo seria uma forma totalmente errônea de conceber o progresso espiritual. Não devem ser identificadas com experiências místicas se a vida moral da pessoa interessada não está à altura devida; tal identificação viria a ser uma espécie de esquizofrenia mental, que poderia levar até a perturbações psíquicas e, por vezes, a aberrações morais” (n. 28).

“O amor de Deus, único objeto de contemplação cristã, é uma realidade de que ninguém se pode apoderar por algum método ou técnica, ao contrario, devemos ter olhar fixo sobre Jesus Cristo, através de quem o amor de Deus chegou até nós… Por conseguinte, havemos de deixar que Deus decida a maneira pela qual Ele nos fará participar do seu amor. Mas nunca poderemos procurar colocar-nos no mesmo nível do objeto contemplado ou do livre amor de Deus, nem mesmo quando nos é dado gratuitamente em Cristo, um reflexo sensível desse amor divino e nos sentimos como que atraídos pela verdade, a bondade e a beleza do Senhor”.

“Quanto mais é dado a uma criatura aproximar-se de Deus, tanto mais cresce nela a reverência ao Deus três vezes Santo. Compreendemos assim as palavras de Santo Agostinho: “Tu podes chamar-me amigo, mas eu me reconheço servidor” (Enarr, In Psalmum 142, 6).

A oração é também e principalmente, ação da graça de Deus no orante. Diz São Paulo: “O Espírito socorre nossa fraqueza… e intercede por nós com gemidos inefáveis” (Rm 8, 26s). A oração é um dom ou uma graça de Deus.

A Tradição Cristã, jamais empregou exercícios respiratórios ou posturas físicas como recursos para rezar bem. Pode-se até notar que não poucos Santos procuraram posições incomodas para rezar: ajoelhavam-se sobre pedrinhas ou grãos de milho, procuravam não se encostar em suas cadeiras, usavam cilícios…

Se a oração é a elevação da alma a Deus, suscitada pela graça divina (definição clássica), ela ocorre segundo a espontaneidade do Espírito Santo, ainda que o orante esteja na mais profunda tristeza, talvez mesmo em ocasiões de aflição e angústia, ela seja mais forte e espontânea. Quem muito valoriza os exercícios corporais para rezar, corre o risco de identificar oração e bem-estar, ou também o risco de identificar gestos corpóreos e valores éticos espirituais.

A fé cristã admite, sim, que Deus habita nos corações puros, mas está longe de professar que Deus pode ser experimentado mediante a vibração do ar.

Nunca é demais repetir a advertência do Pe. Henry Van Staclen, licenciado em Direito, Doutorado em Filosofia (Cambridge), perito do Concílio Vaticano II:

“Não se pode reduzir a Yoga, o Zen e, menos ainda a Meditação Transcendental a simples técnicas de relaxamento. Mesmo se no nível psicológico, nervoso e fisiológico se verifica uma certa eficácia, isso se dá, na maioria dos casos, ao preço grave dos bloqueios espirituais”.

(Revista Pergunte e Responderemos n. 408/1996, pág. 209s).

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