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A HISTÓRIA DO ANO LITÚRGICO

08 jun

A liturgia da Igreja deve ser considerada como um momento da história salvífica

O ano litúrgico pode ser descrito como o conjunto das celebrações com que a Igreja celebra anualmente o mistério de Cristo. Sua história comprova que ele não é um fato meramente organizativo do tempo, em vista da distribuição funcional das festas cristãs, no decurso do ano. Com isso queremos dizer, que o ano litúrgico não surgiu obedecendo a um plano concebido de modo orgânico e sistemático, mas é fruto principalmente de uma reflexão teológica sobre o tempo.

Com efeito, a liturgia da Igreja deve ser considerada como um momento da história salvífica. Neste sentido, o ano litúrgico ou tempo litúrgico é continuação do tempo bíblico ou histórico salvífico, no qual sucederam os eventos da salvação; as celebrações do ano litúrgico tornam eficaz no presente, a realidade salvífica de tais eventos.

1-O TEMPO NAS CULTURAS ARCAICAS

Chamamos de tempo cósmico, aquela dimensão do universo com o qual se mede o perdurar das coisas mutáveis, ou também a sucessão rítmica das fases em que se processa o devir da natureza. É o tempo dos calendários, divididos em meses, semanas e dias. É um tempo neutro, é algo objetivo, independente do homem. Os ritmos do tempo cósmico são percebidos pelo homem primitivo, antes que ele o transforme em objeto de uma verdadeira reflexão filosófica, como o receptáculo das vicissitudes da sua vida pessoal, familiar e social e, desta forma, surge o tempo histórico.

A própria razão da religião é uma tomada de consciência diante do tempo histórico. Todas as antigas religiões,  conferem ao tempo cósmico um caráter sagrado: os dias, os meses e as estações assumem um valor religioso, pois são sinais nos quais se revela e mostra a divindade. Essa sacralização mística faz com que se estabeleça o calendário das festas, que seguem precisamente o ritmo das estações e dos meses.

Existe um tempo puro, primordial que é por princípio, o tempo repetível. Na festa se ritualiza o tempo original e se regenera o tempo cotidiano. Essa concepção cíclica do tempo parece ligado à cultura dos agricultores, na qual a experiência direta dos ritmos cíclicos de produção e da sua renovação anual, teria sido transferida a uma rotatividade de todo o tempo. A lei dominante é a do eterno retorno segundo o qual, os mesmos eventos se reproduzem eternamente.

Os autores sublinham que essa consciência cíclica do tempo, é característica particular das civilizações orientais e grega. O tempo cíclico, torna-se na verdade  sinônimo de uma rotação sem sentido. Nessa concepção, a história do mundo é vazia, porque não se baseia numa plenitude absoluta e não mede a vida real, o progresso de uma humanidade a caminho. É uma história sem esperança porque, sendo uma realidade cíclica fechada no ciclo eterno dos astros, recomeça sempre, sem jamais cumprir-se definitivamente. Se o homem busca a salvação, não pode achá-la senão fora do tempo, na fuga e na libertação do círculo eterno, que o amarra à fatalidade. Na imposição cíclica, pode-se representar o tempo como um grande disco, dentro do qual o homem prisioneiro e no qual, monotonamente, vive eventos repetitivos.

II-O TEMPO NA BÍBLIA

Não existe apenas uma concepção bíblica do tempo, mas o Antigo Testamento conhece diversas. A visão veterotestamentária do tempo, se sobrepõem dois aspectos: um, regulado pelos ciclos da natureza (tempo cósmico) e outro que se desenrola no fluxo dos acontecimentos (tempo histórico).

Deus os governa do mesmo modo e os orienta juntamente para um mesmo fim (tempo salvífico). Foi principalmente a visão profética que deu à narração histórica a sua unidade, revelando um comportamento divino que, partindo primeiro momento criativo de Deus, vai efetuando ao longo do percurso da história, o desígnio de salvação, que o amor de Deus concebeu desde a eternidade.

Novo Testamento tem uma concepção perfeitamente linear do tempo: ontem, hoje, amanhã. Neste contexto, torna-se possível e compreensível a realização progressiva e completa do plano salvífico divino. O evento decisivo desse plano é Cristo, que dá cumprimento ao tempo veterotestamentário (Mc 1, 15) e se propõe como realidade central e predeterminante do tempo posterior a ele: Cristo é o Alfa e o Ômega, o Primeiro e o último, o Princípio e o Fim da história (Ap 22, 1).

A interpretação neotestamentária do tempo, ressalta o fato de que a história não está submetida à lei do retorno cíclico do tempo cósmico, mas é orientada fundamentalmente pelo desígnio de Deus, que mela se realiza e se manifesta. Uma linha reta traça o caminho da humanidade, desde o primeiro momento criativo de Deus, até a plena e definitiva realização da redenção, no final dos tempos (Ef 1, 3-14).

III-AS FESTAS DA IGREJA

O ponto central referente ao tempo e à festa no Novo testamento, vem a ser a dinâmica que se encontra no evento Cristo, entre o já realizado e o ainda não completamente cumprido. O sacrifício de Cristo é oferecido uma só vez, isto é, todo de uma vez e uma vez por todas, distinguindo-se de tal forma dos sacrifícios da antiga aliança, repetido indefinidamente. O tempo salvífico se cumpriuem Cristo. Eleinaugurou o ano da graça do Senhor anunciado pelo profeta Isaías (Lc 4, 21). Para o cristão, é festa não em um dia particular da semana, mas toda a sua vida, inaugurada pelo evento pascal… Porém, a plenitude deste mistério, precisa ser desdobrada e recebida em cada uma de sua parte.

O traçado da história da salvação, contido na Bíblia, é vivido na liturgia; ela propõe um comentário vivo da Bíblia em toda a plenitude do seu significado, comentário este que se articula em etapas salvíficas, que são o desdobramento orgânico da memória dos mistérios de Cristo, que se conjugam no único mistério pascal.

IV-O ANO LITÚRGICO É O MISTÉRIO DE CRISTO

O tempo litúrgico, caracterizado pela circularidade própria do ano cósmico, faz a síntese da história da salvação, mas não a encerra no seu círculo. A circularidade do ano litúrgico, prende-se mais a um conceito de ano, entendido como uma seqüência  de pontos na linha temporal da história da salvação, isto é, um momento do grande ano da redenção,  inaugurado por Cristo (Lc 4, 19-21).

Portanto, o ano litúrgico não deve ser confundido como o eterno, fatalístico retorno das estações; é um tempo que se repete, como uma espiral progressiva, e vai em direção à parusia. O ano litúrgico é uma estrutura ritual, na qual a totalidade da história da salvação, a saber, o evento Cristo, nas suas diversas projeções temporais de passado-presente-futuro, se atualiza no tempo determinado de uma concreta assembléia eclesial e no espaço de um ano.

A repetição das celebrações, ano após ano, oferece à Igreja a oportunidade de um contínuo e ininterrupto contato com os mistérios do Senhor: como uma estrada que corre serpenteando ao redor de um monte, com o objetivo de poder atingir pouco a pouco, em subida gradual o escarpado pico, assim também nós devemos fazer de novo num plano mais elevado a mesma caminhada, enquanto não se atingir o ponto final, que é o próprio Cristo, nossa meta.

O mistério de Cristo torna-se a vida da Igreja, e a Igreja por sua vez, prolonga e completa o mistério de Cristo.

V-O ANO LITÚRGICO E A SACROSANCTUM CONCILIUM

A Santa Mãe Igreja, julga ser do seu dever celebrar em certos dias no decurso do ano com piedosa recordação, a obra salvífica de seu divino Esposo. Em cada semana, no dia que ela chamou Domingo, comemora a Ressurreição do Senhor, celebrando-a uma vez também na solenidade máxima da Páscoa, juntamente com sua sagrada Paixão. No decorrer do ano, revela todo o Mistério de Cristo, desde a Encarnação e a Natividade, até a Ascensão, o Dia de Pentecostes e a expectação da feliz esperança e vinda do Senhor.

Relembrando os Mistérios da Redenção, franqueia aos fiéis as riquezas do poder santificador e dos mérito de seu Senhor, de tal sorte que de alguma forma, os torna presentes em todo o tempo, para que os fiéis entrem em contato com eles e sejam repletos da graça da salvação…

Enfim, nos vários tempos do ano, segundo as instituições tradicionais, a Igreja aperfeiçoa a formação dos fiéis por piedosos exercícios da alma e do corpo, pela instrução, pela oração e pelas obras de penitência e misericórdia…

 
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Publicado por em 08/06/2016 em Uncategorized

 

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