Inculturação e evangelização das culturas

1. Que é inculturação?

Esta palavra é desconhecida pelos nossos dicionários. Evidentemente, ela nada tem que ver com “inculto” nem com “incultura”, que significam ausência de cultura ou carência de cultivo. Não se trata de um termo antropológico como “aculturação” ou “enculturação” (com “e”). É um neologismo “teoló­gico”, criado na década de 70 e “canonizado” oficialmente no Sínodo Romano de 1977, para significar a missão da Igreja em relação às culturas da humanidade (“Mensagem do Povo de Deus”, n. 5).

2. Por que foi criado esse neologismo?

Esse neologismo se situa nos confins da antropologia cultural e da teologia. Sua novidade é apenas terminológica. E equacionamento moderno de um antigo problema. A questão da relação entre a mensagem cristã e as culturas é tão antiga quanto a Igreja. Mas a problemática da “inculturação” é recente, pois é o resultado da nova conscientização do pluralismo cultural da humanidade. Para expressar essa realidade foi proposta, antes da palavra “inculturação”, uma constelação de termos. Os tratados de missiologia falam de “adaptação”, “acomodação”, “contextualização”, “indigenização”, “aculturação” e “enculturação” (com “e”).

3. Quando surgiu esta palavra?

Em 1974, no Documento da 32ª Congregação geral da Companhia de Jesus, foi introduzida a palavra inculturatio. A introdução desse conceito foi devida à insistência dos jesuítas da Índia que, depois da descolonização, percebiam agudamente como os cristãos na sua pátria se distanciavam da cultura indiana e tinham se europeizado nos nomes, na línguas, nos trajes, no estilo de vida. A autonomia politica reivindicava uma autonomia cultural, e os católicos sentiam a necessidade de que sua fé pudesse se desenvolver e se expressar segundo a índole da cultura da Índia.

Como o Documento da 32ª Congregação geral estava escrito em latim, e em latim só existe o prefixo in (e não o prefixo “em”), então a forma que se impunha era inculturatio (com in). As traduções em línguas modernas preferem conservar esta grafia por causa da nova conotação eclesiológica do termo.

4. Qual a relação entre fé e cultura?

A fé deve continuamente sustentar o diálogo com todas as culturas, inclusive com aquelas que estão nascendo agora; fé e cultura devem estimular-se mutuamente; a fé purifica e enriquece a cultura, mas a cultura purifica e enriquece a fé, pois o diálogo continuo com as diversas culturas liberta a fé, permitindo-lhe mais plena expressão de si mesma e a superação dos limites, dentro dos quais uma cultura determinada poderia encerrá-la. A fé difunde sua luz sobre a vida cotidiana, sobre nosso mundo real.

A inculturação é, pois, um processo ligado diretamente à missão de evangelizar da Igreja. O Vaticano II ensina que a Igreja, “em virtude de sua missão e natureza, não está vinculada a nenhuma forma particular de cultura” (Gs 42).

5. Havia incultura ção na Igreja primitiva?

Na Igreja primitiva, a evangelização foi feita por meio da inculturação da fé no universo greco-romano e no Próximo Oriente. Foi assim que surgiram as modalidades bem diversas da teologia latina e da greco-oriental; foi assim também que surgiram diversas liturgias orientais de língua grega, siríaca, copta, árabe, páleo-eslava e as liturgias ocidentais na língua-latina. O mesmo se passou na Índia antiga, onde os missionários abandonaram a liturgia bizantina ou a romana e promoveram as liturgias nativas, como os ritos malabares e malancares.

6. Esse termo foi aceito pela Igreja?

O termo inculturação entrou nos documentos oficiais do Magistério da Igreja. A instrução da Congregação da Doutrina da Fé intitulada: Liberdade cristã e Libertação diz: “A fé é inspiradora de critérios de julgamento, de valores determinantes, de linhas de pensamento e de modelos de vida, válidos para toda a comunidade humana. E por essa razão que a Igreja, atenta às angústias de nossa época, indica o caminho de uma cultura na qual o trabalho seja reconhecido segundo a sua plena dimensão humana e onde cada ser humano encontra a possibilidade de se realizar como pessoa. Ela o faz em virtude da sua abertura missionária pela salvação integral do mundo, respeitando a identidade de cada povo e nação. A Igreja comunhão que une diversidade e unidade por sua presença no mundo inteiro, assume em cada cultura o que aí encontra de positivo. Todavia a inculturação não é simples adaptação externa; é uma íntima transformação dos autênticos valores culturais pela integração do cristianismo nas diversas culturas humanas.

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