SÃO JOÃO E A INCULTURAÇÃO

Gilbraz Aragão

 

“A América é um mundo às avessas (…). O vento norte gélido da Europa é aqui bem morno. Tudo às avessas. Enquanto estou escrevendo, pela passagem da festa de São João, estamos no meio do inverno (…). Em dezembro e janeiro, quando na Europa tudo gela, comemos figos e colhemos lírios. Numa palavra, tudo aqui é diferente (…). A diferença está em nós mesmos, que precisamos modificar nosso conceito” (Antonio Sepp, jesuíta da redução do Japeju, em carta de 1692).
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O papa Paulo VI, referindo-se à modernidade européia, desabafou dizendo que “a ruptura entre o evangelho e a cultura é sem dúvida o drama da nossa época” (EN20). Mais dramática seria a constatação papal se ele falasse desde a América, onde nem ruptura haverá propriamente, posto que nunca houve muito amálgama entre a boa-notícia cristã e nossas culturas caboclas. As festas juninas, em torno do senhor São João principalmente, ensejam que reflitamos sobre a necessidade de inculturação litúrgica, doutrinal e ministerial da fé cristã na Igreja deste continente e na vida do seu povo.

 

Basta dizer que, para os milhões de brasileiros católicos que (mormente no Nordeste) possuem a agricultura como matriz cultural, as alegrias do natal de Jesus não são tão grandes como aquelas que se manifestam por ocasião da festa do nascimento de São João, que acontece na passagem do solstício do inverno entre nós. Na Europa, este solstício, que lá acontece em dezembro, foi aproveitado na fixação da data do natal, transformando-se o carnaval religioso pagão do deus-sol na celebração do nascimento de Cristo, tido como “luz do mundo”. O problema é que os missionários na América bem tarde perceberam que estavam do outro lado do mundo e que este era “um mundo às avessas”: o calendário litúrgico acabou transposto para cá, sem a inculturação que lá se deu. E São João batista, precursor da “luz do mundo”, terminou com a melhor ocasião.

 

Resultado: inconscientemente, movido pelo deslumbramento com a fartura que a natureza propicia pelo encontro do inverno com o sol que chega cada vez mais forte, o povo vai pras ruas e faz dia santo de qualquer jeito. A guarda é externada pela espera feita em redor da fogueira (também assimilada, entre os indo-europeus, dos cultos solares), numa vigília que reúne parentes em casa a partir do meio-dia de 23 de junho, com muitas pamonhas e canjicas, licores e cafés. Mesmo espalhados pela periferia das metrópoles do sul, e contrariando as normas da aeronáutica moderna, os nordestinos manifestam a beleza da sua cultura soltando os balões coloridos dessa festa. E a importância de São João é tanta, que o orixá sincretizado com ele na religião afro(nagô)-brasileira, que é o Xangô dos raios e do fogo, acabou por nomear sem mais os Terreiros de Pernambuco – onde Xangô/São João sai radiante na procissão animada da Bandeira de Alairá!

 

Portanto, as festas juninas são as maiores dessa religiosidade brasileira, que resultou da devoção aos santos trazidos pelos colonos portugueses e reverenciados nos oratórios domésticos, com “muita festa e pouca missa, muita reza e pouco padre”. De fato, o catolicismo paroquial, com missa dominical e vigário de batina, enfatizando a piedade e a moralidade, foi implantado em nosso país a partir de 1850. E novamente não se soube inculturar, pois a evangelização dos bispos romanizadores desvalorizou o catolicismo dos leigos, trazendo congregações missionárias e santos e festas que combatiam o liberalismo europeu (como a coroação de Nossa Senhora e a entronização do Coração de Jesus) para substituírem as folias de reis e do divino, procissões das almas e as festas juninas. Estas perderam destaque na liturgia oficial das igrejas.

 

Resultado: o povo festeja seus santos na rua mesmo. O dia de São João é santificado à moda brasileira: não se precisa ir à igreja. E mais: as festas juninas incorporaram as quadrilhas (valsas européias que são marcadas ainda em “francês” no interior do Nordeste) para celebrarem com alegria telúrica o prazer de corpos quentes que se enlaçam, celebrarem com rojões a bandeira de um fogoso São João. Elas principiam com o “casamento matuto”, que brinca teatralmente com a família tradicional e questiona as autoridades sociais (o delegado é bêbado, o prefeito tonto, o vigário é vigarista), evocando a possibilidade de novas relações, a saudade-esperança de ruas tomadas por um povo dançante, bem alimentado pelo milho e aquecido pelas fogueiras (a propósito: por que a eucaristia não é celebrada com a comida simples daqui, que é o milho, como o pão de trigo era para Jesus e os europeus – ou o arroz é para os asiáticos?!).

 

Tudo isso pode estar desaparecendo na sociedade que se mecaniza nas cidades, onde todo símbolo popular é transformado em espetáculo funcional e até as quadrilhas deixam de ser dança para todos (vem daí, inclusive, a sua música, forró: “for all”) e passam a ser “estilizadas”: um show “empresarialmente” tratado para o povo assistir. E tudo isso também está sendo contestado pela contra-cultura evangelical que cria agora uma festa de “Sem João, com Jesus“. Mas resta a lição: ao anunciarmos a santidade maior em Jesus Cristo, precisamos considerar a cultura ambiente e a saúde do povo – que do contrário fica mesmo é com São João do carneirinho, protetor do roçado e do rebanho, e com seus colegas José, Antônio e Pedro, encarregados de arrumarem chuva, casamento e casa. Através deles se busca (de um deus regulador e meio distante) soluções extraordinárias e individuais para as ameaças sofridas da natureza ou dos poderosos.
Mas o recurso mágico ao santo pode também ser seguimento da sua vida exemplar e emancipadora. Se estivermos junto ao povo, poderemos passar da dependência do milagre “sobrenatural” que traz benefício do “santo”, para a crença na possibilidade de sermos igualmente “santos” e capazes de fazer das nossas vidas um milagre “mais-que-natural” para a vida dos outros – pelo amor, que é (de) Deus! E disso São João é boa testemunha.
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