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Sucessão apostólica tem fundamento bíblico ?

03 jul

INTRODUÇÃO

Há algum tempo, li em um fórum evangélico que a doutrina da sucessão apostólica não tinha fundamento bíblico, que era uma tentativa da Igreja Católica em atribuir para si uma autoridade que não lhe cabia. Quero, com o presente estudo de caráter apologético, estudar o que é a sucessão apostólica e o seu fundamento bíblico e histórico.

QUE É SUCESSÃO APOSTÓLICA?

Quando Cristo veio à terra e edificou a sua Igreja, dentre seus discípulos elegeu doze homens e lhes conferiu autoridade, poder e um ministério a cumprir: pastorear a Igreja. Com a expressão “sucessão apostólica” se indica, em teologia, que os Apóstolos, conscientes de que não viveriam para sempre e por vontade de Cristo, estavam destinados a possuir sucessores que continuariam o seu ministério, com a mesma autoridade que eles receberam de Cristo.

A AUTORIDADE

Somente pode ostentar autoridade aquele que a tem por direito próprio (Deus) ou aquele a quem lhe foi conferida (delegada).

Quando Cristo nomeou os seus Apóstolos lhes conferiu autoridade:

“E quando já era dia, chamou a si os seus discípulos e escolheu doze deles, a quem também deu o nome de Apóstolos: Simão, ao qual também chamou Pedro, e André, seu irmão; Tiago e João; Felipe e Bartolomeu; e Mateus e Tomé; Tiago, filho de Alfeu, e Simão, chamado Zelotes; e Judas de Tiago; e Judas Iscariotes, que foi o traidor” (Lucas 6,13-16).

 

“E convocando os seus doze discípulos, deu-lhes autoridade e poder sobre todos os demônios e para curarem enfermidades” (Lucas 9,1).


Os Apóstolos sempre souberam que a autoridade deles provinha do próprio Cristo que lhes nomeou Apóstolos.

“Embora pudéssemos impor nossa autoridade por ser Apóstolos de Cristo, nos mostramos amáveis com vós, como uma mãe cuida com carinho de seus filhos” (1Tessalonicenses 2,6-7).


Eles foram enviados assim como o Pai havia enviado a Cristo (com a mesma autoridade):
           

“Jesus disse-lhes outra vez: ‘A paz esteja convosco. Assim como o Pai me enviou, eu também vos envio’. Dito isto, soprou sobre eles e lhes disse: ‘Recebei o Espírito Santo. Aqueles a quem perdoardes os pecados, estes lhes serão perdoados; aqueles a quem os retiverdes, estes lhes serão retidos” (João 20,21-23).

 
Os Apóstolos fundavam as igrejas e também estabeleciam as regras a serem observadas, ordenando com toda a autoridade:

“Conforme iam passando pelas cidades, iam também entregando, para que observassem, as decisões tomadas pelos Apóstolos e presbíteros em Jerusalém” (Atos 16,4).


Nas epístolas paulinas, vemos comumente São Paulo enviar ordens a todas as igrejas:

“No demais, que cada um viva conforme foi apontado pelo Senhor, cada um da forma como foi chamado por Deus. É o que ordeno em todas as igrejas” (1Coríntios 7,17).


Só é possível ter real autoridade quando esta foi conferida por alguém que, por sua vez, possui legítima autoridade. E quando na Igreja primitiva se vêem casos onde certas pessoas ostentam uma autoridade que não lhes correspondia, suas atitudes são severamente condenadas pela Bíblia. Exemplos clássicos encontramos nas pessoas de Alexandro, Himeneo e Fileto, que por conta própria passaram a pregar doutrinas diferentes da Igreja; desconhecendo a autoridade do colégio apostólico, foram excomungados:
           

“Esta é a recomendação que te faço, filho meu, Timóteo, de acordo com as profecias pronunciadas a teu respeito anteriormente. Penetrado por elas, combate o bom combate, conservando a fé e a consciência reta. Alguns, por tê-la rejeitado, naufragaram na fé; entre estes estão Himeneo e Alexandro, a quem entreguei a Satanás para que aprendam a não blasfemar” (1Timóteo 1,18-20).

“Evita o palavreado profano, pois os que a ele se dão cresceram cada vez mais na impiedade e sua palavra evaluirá como gangrena. Himeneo e Fileto estão entre esses: desviaram-se da verdade ao afirmar que a ressurreição já ocorreu e perveteram a fé de alguns” (2Timóteo 2,16-18).


A PRIMEIRA SUCESSÃO APOSTÓLICA

A primeira sucessão apostólica que encontramos no Novo Testamento lemos no capítulo 1 dos Atos dos Apóstolos. São Pedro declara a vacância do posto (ministério) de Judas Iscariotes e aponta a necessidade de que alguém a ocupe:

“Naqueles dias, Pedro se pôs de pé em meio aos irmãos – o número de pessoas reunidas era de cerca de cento e vinte – e lhes disse: ‘Irmãos, era preciso que se cumprisse a Escritura em que o Espírito Santo, pela boca de Davi, havia falado acerca de Judas, que guiou aqueles que prenderam Jesus. Porque ele era um de nós e obteve um posto neste ministério, convém, pois, que dentre os homens que andaram conosco todo o tempo em que Jesus viveu entre nós, a partir do batismo de João até o dia em que nos foi levado, um deles seja constituído testemunha conosco de sua ressurreição. Apresentaram dois: José, chamado Barsabás, de sobrenome Justo, e Matias. Então oraram assim: ‘Tu, Senhor, que conheces os corações de todos, mostra-nos qual destes dois elegeste para ocupar no ministério do apostolado o posto do qual Judas desertou para ir para onde lhe correspondia’. Lançaram sortes e a sorte caiu sobre Matias, que foi agregado ao número dos doze Apóstolos” (Atos 1,16-17.21-26).


EVIDÊNCIA BÍBLICA DA INSTITUIÇÃO DOS PRESBÍTEROS COM AUTORIDADE POR INTERMÉDIO DOS APÓSTOLOS OU OUTROS PRESBÍTEROS PREVIAMENTE ORDENADOS
 
Comos vimos, está claríssima a consciência que tinham os Apostólos de que o ministério do apostolado não permanecia vacante (posteriormente este ministério será desempenhado pelos bispos). Os Apóstolos também estavam conscientes da obrigação que tinham de que seus sucessorem poderiam exercer seu ministério de forma plena, organizando igrejas e colocando à frente homens capazes. Assim vemos como o livro dos Atos dos Apóstolos nos narra que uma das principais atividades dos Apóstolos era fundar igrejas e designar presbíteros para elas:

“Designavam presbíteros em cada igreja e após fazer oração e jejuns, os encomendavam ao Senhor em quem haviam crido” (Atos 14,23).

 
No começo os presbíteros eram nomeados exclusivamente pelos Apóstolos; posteriormente, também por outros presbíteros já ordenados. Inexistia aqui o que se costuma a ver nas igrejas protestantes, onde alguém que possui um carisma simplesmente funda uma igreja e toma nela o posto de pastor.

Exemplos claros encontramos nas epístolas paulinas, onde Paulo menciona a ordenação de Timóteo como presbítero através da imposição das mãos e o exorta a não instituir presbítero a qualquer pessoa (resto claro que ninguém poderia se autoproclamar presbítero).

“Por isto te recomendo que reavivas o carisma de Deus que há em ti pela imposição das minhas mãos. Porque o Senhor não nos deu um espírito de timidez, mas de fortaleza, de caridade e de temperança. Não te envergonhes, pois, nem do testemunho que hás de dar de nosso Senhor, nem de mim, seu prisioneiro. Ao contrário, suporta comigo os sofrimentos pelo Evangelho, ajudado pela força de Deus, que nos salvou e nos chamou para uma vocação santa, não por nossas obras, mas por sua própria determinação e por sua graça que nos deu desde toda a eternidade em Cristo Jesus” (2Timóteo 1,7-9).

“Não descuideis do carisma que há em ti, que te foi comunicado pela intervenção profética através da imposição das mãos do colégio de presbíteros” (1Timóteo 4,14).
 
“Não te precipites a impor as mãos sobre alguém, nem te faças partícipe dos pecados alheios. Conserva-te puro” (1Timóteo 5,22).


Volto a observar que Paulo menciona que a ordenação de Timóteo se deu mediante a imposição das mãos do colégio de presbíteros (outras Bíblias traduzem como “conselho de anciãos”, que é uma expressão sinônima). Vemos, assim, que os primeiros presbíteros foram ordenados pelos próprios Apóstolos e os presbíteros seguintes foram ordenados pelos Apóstolos ou por outros presbíteros previamente ordenados. O certo é que para que uma ordenação ser considerada válida SEMPRE deveria o aspirante ser ordenado por presbíteros ordenados por outros presbíteros até se chegar aos Apóstolos. A esta legítima linha de sucessão chamamos “sucessão apostólica”.
     
O mesmo ocorre com Tito, que também sendo um presbítero, é enviado por Paulo a organizar as igrejas e instituir presbíteros para o seu governo:
 

“O motivo de ter-te deixado em Creta foi para que acabasses de organizar o que faltava e estabeleceres presbíteros em cada cidade, como te ordenei” (Tito 1,5).


A finalidade era sempre clara:

“Tu, pois, filho meu, mantei-te forte na graça de Cristo Jesus; e do quanto me tens ouvido na presença de muitas testemunhas, confiai-o a homens fiéis, que sejam capazes, por sua vez, de instruir a outros” (2Timóteo 2,1-2).


Paulo deixou em suas epístolas grande quantidade de recomendações referentes aos assuntos do governo da Igreja. Ele precisava se assegurar que os candidatos a estes ministérios eram irreprováveis porque sabia que no rebanho se infiltrariam lobos devoradores. Com estas diretrizes, a Igreja conseguiria identificá-los facilmente:

“É certa esta afirmação: se alguém aspira ao episcopado, deseja uma nobre função. É, pois, necessário que o bispo seja irrepreensível, casado uma única vez, sóbrio, sensato, educado, hospitaleiro, apto para ensinar, não beberrão nem violento, mas moderado, inimigo das pendências, despreendido do dinheiro, que saiba governar a sua própria casa, pois senão como poderá cuidar da Igreja de Deus? Não deve ser neófito, a não ser que, levado pela soberba, caia na mesma condenação do Diabo. É também necessário que tenha boa fama entre os de fora, para que não caia no descrédito e nas redes do Diabo. Também os diáconos devem ser dignos, sem dubiez, nem dados a beber muito vinho nem a negócios sujos; que guardem o mistério da fé com uma consciência pura. Primeiro serão submetidos à prova e depois, se forem irrepreensíveis, se tornarão diáconos” (1Timóteo 3,1-10).
 
“Os presbíteros que exercem bem o seu cargo merecem remuneração em dobro, principalmente os que se dedicam à pregação e ao ensinamento. A Escritura, com efeito, diz: ‘Não colocarás bocal no boi que trilha’ e também: ‘O operário é digno do seu salário’. Não admitas nenhuma acusação contra um presbítero se não vier acompanhada do testemunho de duas ou três pessoas. Aos culpados, repreendei-os diante de todos, para que os demais tenham temor” (1Timóteo 5,17-20).

“Ao sectário, após uma e outra advertência, evita-o; já sabes que esse é pervertido e peca, condenado por sua própria sentença” (Tito 3,10-11).


Veja também Tito 1,5-11.

A IGREJA É VISÍVEL

Muitas das igrejas protestantes que negam a sucessão apostólica costumam a ver também a Igreja não como um organismo visível (composto por todos os batizados e com as hierarquias constituídas pelos Apóstolos: bispos, presbíteros e diáconos), mas como um organismo invisível em que cada crente possui uma relação pessoal com Deus, sendo isto suficiente. Para eles não importa muito a que Igreja se freqüenta, desde que a relação pessoal com Deus seja verdadeira.

Este tipo de ideologia é muito perigosa, pois ainda que se possa aceitar a tese de que nessas igrejas existem muitos crentes com pureza de intenção que podem alcançar a salvação eterna (CIC cc. 818, 819 e 847), isto é muito diferente de afirmar que não importa a que Igreja se freqüenta pois se encontrará salvação da mesma forma.

Isto sem contar que a idéia de uma Igreja invisível choca de frente com o ensino da Bíblia. Como poderia Paulo impor a disciplina de excomunhão contra Himeneo, Alexandro e Fileto se a Igreja fosse invisível? (Estes simplesmente optariam por fundar uma igreja na outra esquina).

No entanto, na Bíblia, a Igreja sempre é descrita não como um ente invisível, mas como o corpo de Cristo, em que cada membro ocupa uma função:

“Pois bem, vós sois o corpo de Cristo e cada um, por sua vez, seus membros. Assim Deus vos pôs na Igreja primeiramente como Apóstolos; em segundo lugar, como profetas; em terceiro lugar, como mestres; depois, os milagres; a seguir, o dom das curas, da assistência, do governo, da diversidade de línguas. Por acaso são todos Apóstolos? Ou todos profetas? Ou todos mestres? Todos têm o poder de operar milagres? Todos têm o carisma das curas? Todos falam línguas? Todos interpretam?” (1Coríntios 12,27-30).


Uma forma de visualizar a Igreja, segundo a Escritura, é enxergá-la como um edifício espiritual, onde alguns são representados como bases ou colunas (Apóstolos), sendo Cristo a pedra angular:

“Assim, pois, já não somos estranhos nem forasteiros, mas concidadãos dos santos e familiares de Deus, edificados sobre a base dos apóstolos e profetas, sendo o próprio Cristo a pedra angular, em quem toda edificação bem construída se eleva até formar um templo santo no Senhor, em quem também vós estais sendo juntamente edificados, até ser morada de Deus no Espírito” (Efésios 2,19-22).


Resta muito claro para mim que a visão de uma Igreja como um ente invisível, onde o conjunto de crentes encontra-se disperso, não é a que se encontrava na mente de Cristo, quanto este disse que haveria um só rebanho e um só Pastor.
 
QUAIS IGREJAS RECONHECEM A DOUTRINA DA SUCESSÃO APOSTÓLICA?

Atualmente reconhecem a doutrina da sucessão apostólica a Igreja Católica, a Igreja Ortodoxa, as igrejas orientais, a igreja nestoriana e a igreja anglicana.
           
Algumas igrejas luteranas também reconhecem tal doutrina, mas na prática, para a maioria das igrejas protestantes a sucessão apostólica não é importante e chega, inclusive, a ser negada. Na verdade, sabem que se a reconhecerem sem possuírem uma legítima sucessão a fundação de sua denominação restaria injustificada e obrigatoriamente precisariam reconhecer a invalidez da autoridade de seus próprios pastores.

 
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Publicado por em 03/07/2016 em Uncategorized

 

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