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O primado de Pedro

12 jul

Não resta dúvida de que já nos escritos do Novo Testamento o Apóstolo Pedro ocupa lugar de preeminência. É o Apóstolo mais citado: 171 vezes, ao passo que o segundo citado é João, cujo nome ocorre 46 vezes. Mais ainda:

a)  Pedro é o primeiro que Jesus chama e envia: Mc 1, 16-20; Mt 4, 15s; Lc 5, 1-11;

b)  na lista dos Apóstolos é sempre o primeiro, ao passo que Judas é o último: Mt 10, 2-4; Mc 3, 16-19; Lc 6, 14-16; At 1, 13.

c)  a vocação de Pedro está associada a uma mudança de nome; ver Jo 1, 41s; Mc 3, 16; Lc 6, 14; Mt 16, 18. Jesus lhe dá o nome de Kephas, Rocha. Na antigüidade o nome exprimia a realidade íntima do respectivo sujeito. No Antigo Testamento Deus mudou o nome de Abram para Abraham (Gn 17, 5), o de Sarai para Sara (Gn 17, 16), o de Jacó para Israel (Gn 32, 29). De cada vez a mudança implicou uma promessa…, promessa que dizia respeito aos fundamentos do povo de Deus. Ao trocar o nome de Simão pelo de Kephas (Rocha), Jesus quis significar que, no novo povo de Deus, Pedro teria o papel de fundamento sólido como a rocha.

Muito significativo são os textos de Mt 16, 13-19: (a promessa do primado); Lc 22, 31s (a oração de Jesus por Pedro, designado para confirmar seus irmãos na fé) e Jo 21, 15-17 (a entrega do primado: “Apascenta…”).

Passando agora para a antiga literatura cristã, observamos:

Não se pode esperar encontrar nos primeiros séculos um exercício do Papado (ou das faculdades entregues por Jesus a Pedro e seus sucessores) tão nítido quanto nos séculos posteriores. As dificuldades de comunicação e transporte explicam que as expressões da função papal tenham sido menos freqüentes do que em épocas mais tardias. Como quer que seja, podemos tecer a história do exercício dessas funções nos seguintes termos:

A Sé de Roma sempre teve consciência de que lhe tocava, em relação ao conjunto da Igreja, uma tarefa de solicitude, com o direito de intervir onde fosse necessário, para salvaguardar a fé e orientar a disciplina das comunidades. Tratava-se de ajuda, mas também, eventualmente, de intervenção jurídica, necessárias para manter a unidade da Igreja. O fundamento dessa função eram os textos do Evangelho que privilegiam Pedro ([1]), como também o fato de que Pedro e Paulo haviam consagrado a Sé de Roma com o seu martírio, conferindo a esta uma autoridade singular.

Eis algumas expressões do primado do Bispo de Roma:

1) No século II houve, entre Ocidentais e Orientais, divergências quanto à data de celebração da Páscoa. Os cristãos da Ásia Menor queriam seguir o calendário judaico, celebrando-a na noite de 14 para 15 de Nisa (daí serem chamados quatuordecimanos), independentemente do dia da semana, ao passo que os Ocidentais queriam manter o domingo como dia da Ressurreição de Jesus (portanto, o domingo seguinte a 14 de Nisã); o Bispo S. Policarpo de Esmirna foi a Roma defender a causa dos Orientais junto ao Papa Aniceto em 154; quase houve cisão da Igreja. S. Ireneu, Bispo de Lião (Gália) interveio, apaziguando os ânimos. Finalmente o Papa S. Vitor (189-198) exigiu que os fiéis da Ásia Menor observassem o calendário pascal da Igreja de Roma, pois esta remontava aos Apóstolos Pedro e Paulo.

Aliás, S. Ireneu (+202 aproximadamente) dizia a respeito de Roma: “Com tal Igreja, por causa da sua peculiar preeminência, deve estar de acordo toda Igreja, porque nela… foi conservado o que a partir dos Apóstolos é tradição” (Contra as Heresias 3, 2).

Muito significativa é a profissão de fé dos Bispos Máximo, Urbano e outros do Norte da África que aderiram ao cisma de Novaciano, rigorista, mas posteriormente resolveram voltar à comunhão da Igreja sob o Papa S. Cornélio em 251: “Sabemos que Cornélio é Bispo da Santíssima Igreja Católica, escolhido por Deus todo-poderoso e por Cristo Nosso Senhor. Confessamos o nosso erro… Todavia nosso coração sempre esteve na Igreja; não ignoramos que há um só Deus e Senhor todo-poderoso, também sabemos que Cristo é o Senhor…; há um só Espírito Santo; por isto deve haver um só Bispo à frente da Igreja Católica” (Denzinger-Schõnmetzer, Enchiridion 108 [44]).

O Papa Estêvão I (254-257) foi o primeiro a recorrer a Mt 16, 16-19, ao afirmar, contra os teólogos do Norte da África, que não se deve repetir 0 Batismo ministrado por hereges, pois não são os homens que batizam, mas é Cristo que batiza.

A partir do século IV, o recurso a Mt 16, 16-19 se torna freqüente. No século V, o Papa Inocencio I (401-417) interveio na controvérsia movida por Pelágio a respeito da graça; num de seus sermões S. Agostinho respondeu ao fato, dizendo: “Agora que vieram disposições da Sé Apostólica, o litígio está terminado (causa finita est)” (serm. 130, 107).

No Concílio de Calcedônia (451), lida a carta do Papa Leão I, a assembléia exclamou: “Esta é a fé dos Pais, esta é a fé dos Apóstolos. Pedro falou através de Leão”.

O Papa Gelásio I declarou entre 493 e 495 que a Sé de Pedro (romana) tinha o direito de julgamento sobre todas as outras sedes episcopais, ao passo que ela mesma não está sujeita a algum julgamento humano. Em 501, o Synodus Palmaris de Roma reafirmou este princípio, que entrou no Código de Direito Canônico: “Prima sedes a nemine iudicatur – A sé primacial não pode ser julgada por instância alguma” (cânon 1629).

É de notar, porém, que a preeminência do Bispo de Roma encontrou certas dificuldades, pois em Bizâncio (Constantinopla) reinava o Imperador com tendências cesaropapistas. Já Constantino o Grande (306-337) era tido como “o 13° Apóstolo”; seus sucessores intervinham em questões de teologia e disciplina da Igreja, como se fossem encarregados de vigiar em prol do bem das comunidades cristãs. Não obstante, por duas vezes o Imperador Bizantino mandou buscar violentamente o Bispo de Roma (o Papa) para que em Bizâncio assinasse uma fórmula de fé redigida pelo monarca; este parecia consciente de que, sem a aprovação do Papa, não teriam valor as suas intervenções teológicas: a primeira vez ocorreu em janeiro de 547, quando Justiniano mandou raptar o Papa Vigílio para que em Constantinopla assinasse a condenação dos Três Capítulos (escritos de Teodoro de Mopsuéstia, Ibas de Edessa e Teodoreto, tidos como nestorianos); o Papa resistiu, e passou mais de sete anos em Constantinopla, sofrendo pressões por parte do Imperador. A segunda vez ocorreu sob o Imperador Constante II: em 653, mandou prender o Papa Martinho I em Roma e levá-lo para Constantinopla, porque se opunha à heresia monotelita (em Jesus haveria uma só vontade: a divina); o Papa foi julgado diante do Senado por alta traição; depois de sofrer humilhações e maus tratos, o Papa Martinho I foi exilado para o Quersoneso (Criméia), onde morreu.

O Ocidente ficou isento de cesaropapismo, pois a sede de Roma fora abandonada pelos Imperadores. Em compensação, o papel do Bispo de Roma, como pai espiritual e tutor da ordem pública, foi sendo mais e mais reconhecido; o Bispo de Roma tornou-se o baluarte da paz no Sul da península Itálica. Desta maneira evidenciou-se com certa facilidade a função primacial do sucessor de S. Pedro ao qual em 756 foi reconhecida a soberania do Estado Pontifício. Foi-se dando uma centralização crescente do governo da Igreja, sendo expoentes da mesma os Papas Gregório VII (1073-1085), que se empenhou por libertar a Igreja da ingerência do Imperador da Alemanha; Inocêncio III (1198-1216), que também lutou pela liberdade da Igreja frente ao poder civil; e Bonifácio VIII (1294-1303), jurista, que defendia a teocracia pontifícia num momento da história em que os monarcas tendiam a afirmar teses nacionalistas.

 
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Publicado por em 12/07/2016 em Uncategorized

 

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