As crianças continuaram sendo Batizadas na Reforma Protestante

Lutero condenou o rebatismo duramente. Para ele, quem rebatiza um adulto batizado como criança “blasfema e profana o sacramento em sumo grau” (Catecismo Maior IV, 55).
Esta propagação do batismo de crianças na Igreja Antiga, certamente deu-se pela convicção de que no batismo é Deus que age na vida do batizando, enquanto que este apenas recebe o batismo. A fé, neste caso, é fruto do batismo, ou seja, do agir de Deus. Outro motivo que permitiu a difusão do Batismo de crianças na Igreja Antiga, certamente, foi a convicção de que a Igreja precede o cristão individual como o espaço do senhorio de Cristo onde o Espírito Santo atua e como comunhão dos que crêem e mutuamente sustentam e fortalecem sua fé. Neste sentido, a fé da Igreja sempre precede à do batizando, seja ele adulto ou criança.
Portanto, os Pais da Igreja consideravam o Batismo de crianças uma tradição apostólica, e, por esta razão, foi uma prática comum desde os tempos da Igreja Primitiva. Somente no século XVI, com o surgimento do movimento anabatista é que se começou a questionar 1.500 anos de história da prática do batismo infantil. Lutero, no entanto, condenou o rebatismo duramente. Para ele, quem rebatiza um adulto batizado como criança “blasfema e profana o sacramento em sumo grau” (Catecismo Maior IV, 55).
Para Lutero, porém, a obra do Batismo e sua validade para o ser humano dependem exclusivamente da obra que Deus realiza neste sacramento. A fé, ainda que imprescindível, apenas recebe o batismo, confiando na sua obra. Por isso, o Batismo de crianças é válido mesmo que a fé e a confiança no sacramento cheguem mais tarde. Aliás, nem é possível dizer que o batismo de crianças aconteça sem fé. Os pais, os padrinhos, as madrinhas e toda a igreja agem em fé e em esperança: “Levamos a criança ao batismo com o ânimo e na esperança que ela creia; e rogamos que Deus lhe dê a fé” (Catecismo Maior IV, 57). Este, porém, ainda não é o argumento maior que permite Lutero batizar – sejam crianças ou adultos. O batismo acontece porque a Igreja age em obediência ao mandato divino: “Não é, porém, à vista disso que a batizamos, mas unicamente porque Deus o ordenou” (Catecismo Maior IV, 57).
Para Calvino, “Se as crianças cristãs não puderem ser batizadas, elas ficarão em desvantagem em relação às crianças judias, as quais eram pública e externamente seladas e introduzidas na comunidade da aliança através da circuncisão (Institutas da Religião Cristã, IV.xvi.6). Portanto, Calvino argumenta que as crianças deveriam ser batizadas, não lhes sendo negados os benefícios daí decorrentes.
E, no Catecismo de Heidelberg, cap. XXVII, temos a pergunta de número 74, que diz: “As crianças devem ser baptizadas?” A resposta é a seguinte: “Sim. Elas pertencem tanto como os adultos à aliança de Deus e à sua Igreja (Gén.17:7). Visto que a remissão dos pecados (Mt.19: 14) e o Espírito Santo, que produz a fé, lhes são prometidos não menos que aos adultos (Luc. 1: 14, Sal. 22: 11, Is. 44: 1-3, Act. 2: 39), devem ser incorporadas pelo baptismo, que é o sinal da aliança, à Igreja cristã e serem distinguidas dos filhos dos incrédulos (Act. 10: 47), como se fazia no Antigo Testamento pela circuncisão (Gén. 17: 14), em cujo lugar no Novo Testamento foi o Batismo instituído (Col.2:11-13).”
Zwínglio afirmou: “Visto que as crianças cristãs pertencem tão obviamente a Deus, como podemos negar-lhes o sinal dessa posse?”
João Wesley, em “Um Tratado Sobre o Batismo Infantil”, afirma: “A circuncisão era, então, o selo da aliança; o que é,em si mesma, portanto, figurativamente denominada de a aliança. (Atos 7:8). Por isto, as crianças daqueles que professaram a verdadeira religião foram, então, admitidas nela, e obrigadas às condições dela; e, quando a lei foi acrescentada, à observância dela também. E quando o antigo selo da circuncisão foi tirado, este do batismo foi acrescentado em seu lugar; nosso Senhor indicou uma instituição inegável para suceder outra. Um novo selo foi colocado para a aliança deAbraão; os selos diferiam, mas o contrato era o mesmo; apenas aquela parte foi cortada, a que era política ou cerimonial. Que aquele batismo veio em lugar da circuncisão, aparece da clara razão da coisa, como do argumento do Apóstolo, onde, depois da circuncisão, ele menciona o batismo, como aquele em queDeus ‘perdoou nossas transgressões’; ao qual ele acrescenta o ‘apagar dos manuscritos das ordenanças’, plenamente referindo-se à circuncisão e outros ritos judaicos; que tão fielmente implica que o batismo veio no lugar da circuncisão,como nosso Salvador denominar o outro sacramento de páscoa dos judeus, (Colossenses 2:11-13; Lucas 22:15) mostra que ele foi instituído no lugar dele.”
Wesley conclui assim o seu Tratado sobre o Batismo Infantil: “No conjunto, portanto, não é apenas lícito e inocente,mas adequado, correto, e nosso dever sagrado, em conformidade com a prática ininterrupta de toda a Igreja de Cristo, desde as primeiras eras, consagrar nossas crianças a Deus, através do batismo, como a Igreja judaica foi ordenada fazer, através da circuncisão.”

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