A História da Celebração do Natal

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“Com efeito, não nasceu antes, da santa Virgem, um homem qualquer, sobre o qual depois desceria o Verbo, mas se diz que este, unido desde o útero materno, assumiu o nascimento carnal, apropriando-se o nascimento de sua própria carne”

(Concílio de Éfeso, Definição sobre a Encarnação do Filho de Deus)

No início do cristianismo, não se celebrava o nascimento do Senhor. Os primeiros registros de uma celebração natalina remontam a meados do século IV, porém, com uma particularidade: enquanto em Roma o nascimento do Senhor fora fixado em 25 de Dezembro, no Oriente a mesma solenidade era celebrada em 06 de Janeiro. Apesar de distintas, dado que o calendário oriental tem uma diferença de 14 dias ao calendário romano, estas datas foram escolhidas pelos mesmos motivos.

O primeiro motivo está ligado ao solstício de inverno no hemisfério norte (21 de Dezembro). Este é o dia mais curto do ano, mas, a partir dele, os dias vão gradativamente ficando mais longos, o que caracterizava a “vitória” do Sol sobre as trevas.  Inclusive se celebrava uma festa pagã de culto ao Sol no dia 25 de dezembro: o “Natalis Solis Invictis” (Nascimento do Sol Invencível). A Igreja, querendo dar um sentido cristão às celebrações pagãs e apropriar-se da simbologia do solstício de inverno, fixa o Natal do Senhor nesta data. No dia em que se celebrava o nascimento do Sol, passou-se a celebrar o nascimento do verdadeiro Sol, Jesus Cristo, que com seu nascimento iluminou o mundo das trevas do pecado.

Um segundo motivo está ligado a uma tradição, que remonta ao início do século III, que Jesus teria sido crucificado no dia 25 de Março. Para os antigos cristãos, Cristo teria vivido um número inteiro de anos, o que fixa o dia da Encarnação no mesmo dia da Paixão. Estimando assim a Encarnação no dia 25 de Março, naturalmente fixa-se o nascimento do Senhor em 25 de Dezembro.

Da celebração em Roma, a partir do pontificado do Papa São Silvestre I (314-337), a celebração passa às igrejas do norte da África (segundo testemunho de Santo Agostinho), à Espanha e às dioceses da Itália: Milão (como testemunha Santo Ambrósio), Turim e Ravena.

No Oriente, a data de 25 de Dezembro foi introduzida entre o final do século IV e o início do século V. Em 380, São Gregório Nazianzeno introduz a celebração do Natal em Constantinopla. Seis anos depois, São João Crisóstomo a introduz em Antioquia. A igreja de Jerusalém, até o final do século IV, celebrava o natal em 06 de Janeiro, como testemunha Etéria; porém, no início do século V, Santa Melânia testemunha a mudança da data para 25 de Dezembro. O mesmo se aplica à igreja de Alexandria, cuja mudança remonta ao ano 432.

Desta forma, houve um mútuo enriquecimento das tradições oriental e ocidental: enquanto as igrejas do Oriente acolheram a celebração do Natal do Senhor em 25 de Dezembro, as igrejas do Ocidente assumiram a festa de 06 de Janeiro, mudando um pouco o seu sentido: passou-se a celebrar nesta data a manifestação (Epifania) do Senhor a todos os povos. Até hoje Oriente e Ocidente celebram separadamente as duas festas, Natal e Epifania.

Um fator que contribuiu para a consolidação da celebração do Natal foi a refutação das grandes heresias cristológicas do século IV, sobretudo o Arianismo e o Nestorianismo. A Igreja, com os quatro grandes Concílios Ecumênicos de Nicéia (325), Constantinopla (381), Éfeso (431) e Calcedônia (451), refutou tais heresias e definiu o dogma da dupla natureza de Cristo, que é verdadeiro Deus e verdadeiro homem. Assim, celebrar o Natal é professar a verdadeira fé em Jesus Cristo.

A origem das três Missas de Natal

A Solenidade do Natal do Senhor está enriquecida de três celebrações: a Missa da Noite (celebrada na noite do dia 24, preferencialmente à meia-noite), a Missa da Aurora (celebrada ao nascer do Sol no dia 25) e a Missa do Dia (que pode ser celebrada a qualquer hora do dia 25). Mas qual a origem destas três celebrações?

Primeiramente, o Papa celebrava apenas uma Missa na manhã do dia 25, na Basílica de São Pedro. Após o pontificado de São Sisto III, o Papa passou a celebrar uma missa à meia-noite na Basílica de Santa Maria Maior, a fim de homenagear a Virgem Maria, definida como Mãe de Deus pelo Concílio de Éfeso (431). Nesta celebração, construía-se um praesepe, isto é, uma pequena capela que reproduzia a Gruta da Natividade em Belém, na qual o Papa celebrava a Missa. O mesmo Sisto III teria introduzido o costume de, após a Missa, celebrar uma vigília noturna em honra do Nascimento do Senhor. O mesmo se fazia em Belém, segundo testemunho de Etéria: “os monges do lugar, todos eles, aí permanecem e velam a noite inteira na igreja de Belém, recitando hinos e antífonas”.

No final do século IV, o Papa passou a celebrar uma terceira Missa à aurora do dia 25 na igreja de Santa Anastácia, martirizada no dia 25 de Dezembro. Esta era apenas uma Missa em honra à mártir, sem ligação nenhuma com o Natal. Vemos aqui a importância que se dava à Santa Anastácia, cujo nome significa “ressuscitada”: o Papa Símaco a incluiu, em 514, entre as mártires mencionadas no Cânon Romano. Além disso, a igreja de Santa Anastácia situava-se próxima ao palácio do imperador romano, o Palatino, e esta celebração era realizada em deferência à autoridade imperial.

Ficava assim fixada a tríplice celebração do Natal: a primeira Missa, à meia-noite, no praesepe da Basílica de Santa Maria Maior; a segunda, à aurora, na igreja de Santa Anastácia; e a terceira, na manhã do dia 25, inicialmente na Basílica de São Pedro e posteriormente transferida para a Basílica de Santa Maria Maior, dado que esta fica mais próxima da igreja de Santa Anastácia. Por mais que os liturgistas medievais tenham tentado encontrar simbologias para a tríplice celebração, sua origem está ligado aos usos da igreja romana do século IV: foram introduzidas mais por razões pastorais do que por razões teológicas.

Inicialmente, a celebração das três Missas era privilégio do Papa. A partir do século X, permitiu-se a tríplice celebração, porém cada Missa seria presidida por um sacerdote distinto. Apenas no século XVI, segundo testemunho do Abade Pedro de Cluny, chegou-se à praxe atual, que prescreve que o mesmo sacerdote possa celebrar três Missas.

FONTES:

BERGAMINI, A. Cristo, festa da Igreja: O ano litúrgico. São Paulo: Paulinas, 1994.

ETÉRIA. Itinerarium. In: Peregrinação de Etéria: Liturgia e catequese em Jerusalém no século IV. Petrópolis: Vozes, 2004.

RIGHETTI, M. Historia de la liturgia. Madrid: Pontificia Universidad de Salamanca, 1955. vol. I.

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