A  MISSÃO   DO ANJO GABRIEL

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Tudo começa em Jerusalém, no templo, num dia parecido a todos os outros, sem que ninguém perceba. O povo está reunido para a oração; os sacerdotes de serviço entram no santuário para oferecer o incenso. Há um descendente de Abraão irreprovável; ele espera e deseja a vinda do Messias. Ele não tem filhos e já não espera tê-los, pois sua esposa é idosa e estéril. O anjo Gabriel se apresenta, Zacarias fica perturbado, o anjo o tranqüiliza: “Não tenha medo, Zacarias, sua súplica foi ouvida!” (Lc 1,13). A espera do Messias terminou, seu precursor logo vai chegar para preparar-lhe o caminho.

O anjo esclarece que a súplica de Zacarias foi atendida para além de suas expectativas. Ele terá um filho, e esse filho será causa de alegria não somente para sua família, mas para o mundo inteiro. Será ele a preparar o povo para a vinda do Messias; ele será grande, o Espírito Santo repousará sobre ele desde o seu nascimento; ele será um novo Elias. Diante do anúncio de um tal evento, Zacarias custa a crer. Ele nunca teria pensado que poderia ser o pai daquele que os profetas haviam anunciado como o precursor do Messias.

Zacarias não ousa crer, ele quer um sinal. Se ele exige uma prova, é menos para saber de antemão se ele terá de verdade a alegria de ser pai apesar de sua idade, do que para ter a certeza de que esse filho a ele prometido, é a prova da iminente chegada do Messias esperado. Um tal acontecimento vai sacudir o mundo, é fácil iludir-se. O anjo dá as garantias de sua missão: “Eu fui enviado para falar com você e anunciar-lhe esta boa nova”. Depois, dá-lhe o sinal pedido, um sinal desconcertante onde se percebe um fio de humor:  “Você ficará mudo até o dia em que se cumprirão esses acontecimentos” (Lc 1,5-20).

Está claro que é Deus quem toma a iniciativa. É sempre ele que começa; ele toma as dianteiras e prepara discretamente aqueles e aquelas que ele destina a colaborar com o seu grande desígnio. Zacarias e Isabel eram pessoas irreprováveis; eles queriam um filho sem suspeitar que ao desejá-lo, aspiravam à realização das promessas de Deus. O Senhor os preparara para uma missão que eles desconheciam completamente. Foi só progressivamente que eles compreenderam que a intervenção divina sobre eles fazia parte de um plano muito mais abrangente.

Alguns meses depois, o mesmo anjo Gabriel foi enviado por Deus em missão, não mais ao templo de Jerusalém, mas a um vilarejo da Galiléia. O objetivo final de sua missão era o mesmo, a vinda do Messias, mas é tudo diferente. Não se trata mais de um casal de velhos cujos desejos são atendidos e que termina sua existência na paz de um belo anoitecer, mas de um casal jovem cuja vida será sacudida pela mensagem do anjo. Em Jerusalém, Gabriel dirigiu-se ao homem, um venerável sacerdote, em Nazaré ele dirige-se primeiro à mulher, uma jovem moça. Assim,  termina o Antigo Testamento e começa o Novo sem solução de continuidade.

O texto de São Lucas é muito interessante na sua simplicidade: “O anjo Gabriel foi enviado por Deus a uma aldeia da Galiléia, chamada Nazaré, a uma virgem, noiva de um homem da casa de Davi, chamado José, e o nome da virgem era Maria” (Lc 1,26). Tudo é determinado: o nome do anjo, o Senhor que lhe confia uma mensagem, a cidade para onde vai, a região onde ela se encontra, o nome da virgem, seu estado civil, o nome de seu noivo e a origem de sua família. Se o mais insignificante pardal não cai sem a permissão do Pai celeste (Mt 10,29), como pensar que possa haver palavras não queridas por Deus nessa passagem do Evangelho? Ela é importante pelo que diz respeito à Virgem Maria, e igualmente pelo que concerne a São José.

Essa cena da anunciação, tão delicadamente descrita por São Lucas, suscitou magnificas obras de arte na pintura e na escultura. A imaginação e o talento deram-se livre curso na decoração de interiores, no vestuário drapeado e nas atitudes das pessoas. Todos ao admirar sem reservas as realizações artísticas, podem-se perguntar se a perfeição do cenário não risca de desviar a atenção do acontecimento principal: a encarnação do Verbo. É Deus que tudo conduz.

Primeiramente, trata-se de um anjo, mensageiro de Deus. Somos colocados diante do problema do mundo invisível. Amiúde o Antigo Testamento trata o “anjo do Senhor” como simples personificação, ou atualização de sua presença e de sua ação. Em outras circunstâncias, e tal é o caso aqui, refere-se a um ser distinto de Deus, por ele criado e imbuído de uma missão junto aos homens. Os anjos ocupam um lugar importante na vida de São José e da Virgem Maria. O anjo da anunciação leva um nome, Gabriel, que significa “força de Deus”. É um ser real e não uma simples abstração ou o fruto poético da imaginação.

Deus pode sem dificuldades criar seres capazes de compreender e de amar, sem ligar sua existência a um planeta. Que sabemos nós sobre o além e as grandes realidades do mundo invisível? Os anjos manifestam-se, eles agem como enviados de Deus. Eles são pessoas, quer dizer, têm em si algo de incomunicável, que os torna distintos dos outros. Se Deus serve-se deles, não é por impotência de sua parte, mas por bondade e sabedoria para conosco. Ele é totalmente livre para agir como lhe agrada, e não precisa prestar contas da sua maneira de agir. Portanto, compreende-se facilmente as razões de se escolher um mensageiro para o anúncio do mistério da encarnação.

À primeira vista, parece que Deus deveria tratar a questão da encarnação de seu Filho diretamente com Maria, que havia de ser a primeira beneficiária. Um acontecimento que lhe tocaria tão de perto, não pediria a presença de um intermediário. Mas isso é esquecer a delicadeza com que Deus trata suas criaturas; ele guarda sempre a liberdade delas. Com Deus não se discute, mas alguém poderia discutir com os anjos. Zacarias em Jerusalém e Maria em Nazaré não se privaram desse direito. Zacarias, Maria e José perturbaram-se à chegada do anjo; qual teria sido a emoção deles se Deus se tivesse manifestado pessoalmente?

Uma outra razão para a presença dos anjos no mistério do Verbo encarnado é que esse mistério interessa tanto aos anjos quanto aos homens. Todo o cosmos é relacionado e renovado pela vinda do Filho de Deus em nossa carne. O “Filho do homem” é também o rei dos anjos, o Senhor do universo. Todos os seres capazes de conhecer e amar estão englobados nessa renovação da criação. Pode-se mesmo ajuntar: tudo o que vive e respira, pois tudo está rejuvenescido. Alguns teólogos pensam que o mistério da encarnação do Filho de Deus teria sido a pedra de tropeço que estaria na origem da queda dos anjos maus. Lúcifer ter-se-ia recusado a reconhecer como seu rei um ser nascido de uma simples mulher.

Para essa renovação universal do cosmos, Deus emprega, como para todas as grandes obras, meios que ao ver dos homens parecem completamente inadequados. Ele envia seu mensageiro a uma cidade desconhecida, a uma jovem moça sem passado nem futuro, e que, ainda por cima, não é livre, posto que está prometida em casamento. Ela deu sua lealdade a um homem e não pode dispor de si mesma sem prevaricação. É ela, portanto, que está para tomar uma decisão que compromete não só o seu futuro pessoal, mas ainda o do seu noivo, de sua família, de seu povo, e do mundo inteiro.

Essa virgem, à qual foi enviado por Deus o anjo Gabriel, e o noivo, a quem essa virgem está ligada, foram preparados por Deus para a missão que lhes haveria de ser confiada. Bem antes do nascimento deles, bem antes do nascimento de seus pais, o Senhor já havia disposto cada coisa, para que tudo se cumprisse segundo o seu amor. Isso se chama com uma palavra muito bonita, mas por vezes tão mal compreendida, a predestinação. É a presença no coração mesmo de Deus de uma criatura que ele destina a realizar seus desígnios de amor para o mundo. Os termos que o Evangelho usa para designar aquela a quem Deus envia seu anjo é revelador: uma virgem comprometida com um homem. Isso quer dizer que Maria e José são inseparáveis no pensamento e no coração de Deus.

Os Padres da Igreja e os teólogos debruçaram-se longamente sobre a questão das graças que Deus concedeu a Maria para prepará-la ao cumprimento de sua missão. A conclusão é que o Senhor deu a Maria todas as graças e todos os dons que seriam necessários para receber dignamente em seu seio o Filho de Deus. Da mesma maneira, tudo aquilo que decorre logicamente de sua maternidade divina vem de direito. O Senhor formou o seu corpo, o seu espírito e o seu coração de forma que ela se tornasse uma habitação adequada para o seu Filho.

Uma palavra resume essa predestinação de Maria: ela é a Imaculada! Tal título diz muito pouco, pois não visa senão o negativo, a ausência de manchas, uma vez que a beleza de Maria vem de uma plenitude. Portanto, esse título, Imaculada, se refletirmos bem, é extremamente rico de significado. Muita gente, ao pensar na Imaculada Conceição, detém-se na idéia de pecado. Então retiram da Virgem Maria tudo aquilo que poderia ser pecado ou fonte de pecado, com o risco de mutilar a obra-prima de Deus, retirando dela sua riqueza de sentimentos.

Imaculada Conceição quer dizer que a Virgem Maria veio ao mundo como todas as crianças. Ela foi concebida por seus pais da maneira humana, o que a torna plenamente da nossa raça. Ela é verdadeira filha de Eva, com todas as qualidades e limitações que esse termo supõe, mas ela é imaculada. Isso significa que desde o primeiro instante de sua existência ela recebeu de Deus toda a luz de que uma criatura é capaz. Nela não existe sombra, nenhum canto escuro, ela é toda luz. O pecado é uma sombra, uma opacidade, uma ausência de brilho, um obstáculo que impede a uma criatura de refletir plenamente a luz que ela recebe dos céus.

Uma imagem bem prosaica pode ajudar-nos a compreender como a Virgem imaculada permanece plenamente humana. Uma gota de orvalho que cintila em cima de uma folha de grama tem a mesma natureza da água do pântano vizinho onde pululam sapos. Isso suposto que a manhã esteja clara e o sol alto. Maria é essa pérola de orvalho que já brilha com a luz da Páscoa. Não é a luz da água que nós vemos, mas sim a do sol. Não é a beleza de Maria que nos encanta, é o esplendor do Cristo ressuscitado. Podemos servirmo-nos também de outra comparação: o carvão e o diamante. Ambos têm a mesma natureza, a mesma composição química, já que os dois são carbono. A diferença está em que o diamante é carbono totalmente puro. A água do nosso batismo nos transforma em pérolas de orvalho, e a luz da Páscoa torna diamantes a hulha humana.

São Bernardo diz que o Filho de Deus, já que podia, não se contentou de escolher uma mãe, mas a formou segundo seus próprios gostos. E acrescenta: “Ele que vinha purificar toda mácula, qui-la virgem a fim de nascer imaculado dessa imaculada.; ele a quis humilde a fim de nascer doce e humilde de coração” (Mis 2,1). É preciso pensar o mesmo a respeito de José. José foi criado e formado segundo o desejo de Jesus e Maria. Ele devia ser capaz de amar Jesus e Maria cordialmente e ser amado por eles sem restrição. Deus velou, portanto, com um desvelo ciumento, sobre a formação do corpo, do coração, do espírito e da alma de José para que respondesse perfeitamente às expectativas de Maria e de Jesus.

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