O Tempo da Quaresma

 

Por Dom Gueranger

Dá-se o nome de Quaresma ao período de oração e penitência durante o qual a Igreja prepara as almas para celebrar o mistério da Redenção.

A ORAÇÃO

Aos fiéis, ainda os melhores, nossa Mãe a Igreja propõe este tempo litúrgico como retiro anual que lhes brindará ocasião oportuna de separar todos os descuidos de outras temporadas, e acender a chama de seu zelo. Aos catecúmenos oferece, como nos primeiros séculos um ensinamento, uma preparação à iluminação batismal. Aos penitentes, os chama a atenção sobre a gravidade do pecado, e inclina seu coração ao arrependimento e às boas resoluções, e lhes promete o perdão do Coração de Deus.

A PENITÊNCIA

A penitência se pratica, ou melhor, se praticava com a observância do jejum. As dispensas temporais outorgadas desde há alguns anos pelo Sumo Pontífice não serão pretexto para silenciar prática tão importante a que aludem constantemente as orações das Missas quaresmais e da que todos devem, ao menos, conservar o espírito, se a dureza dos tempos ou a saúde débil não consentem se observe plenamente e com todo rigor.

A prática do jejum remonta aos primeiros séculos do cristianismo e mesmo anterior. Depois dos Profetas Moisés e Elias cujo exemplo nos será proposto na quarta-feira da primeira semana, o Senhor o praticou permanecendo sem alimento algum durante quarenta dias e quarenta noites, e se não quis estabelecer mandato divino, que nesse caso não haveria sido susceptível de discussão, declarou pelo menos que o jejum tão frequentemente preceituado por Deus na antiga lei, seria praticado também pelos filhos da nova lei.

Insiste Santo Agostinho que ao jejum acompanhasse o fervor da oração, a humildade, a renúncia absoluta aos maus desejos, muitas esmolas, perdão das injúrias e a prática de todas as obras de piedade e caridade. Se o jejum se interrompia aos Domingos, guardavam, entretanto, especialmente na liturgia, sua tonalidade penitencial.

NECESSIDADE DA PENITÊNCIA

Não obstante isso, já que em nossos tempos a mortificação corporal vai caindo em desuso, não julguemos inútil demostrar aos cristãos a importância e utilidade do jejum; as sagradas Escrituras do Antigo e Novo Testamento defendiam em favor desta santa prática. Podemos também afirmar que a tradição de todos os povos a corrobora, porque a ideia de que o homem pode apaziguar a divinidade submetendo seu corpo à expiação se acha em todas as religiões, mesmo nas mais distantes da pureza das tradições patriarcais.

PRECEITO DA ABSTINÊNCIA

São Basílio, São João Crisóstomo, São Jerônimo e São Gregório Magno declararam que o preceito a que foram submetidos nossos primeiros pais, no paraíso terrestre, era preceito de abstinência e que por terem quebrado esta virtude precipitaram a si mesmos e a toda sua descendência num abismo de calamidades. A vida de privações a que depois se viu submetido o rei da criação, mostrou melhor às claras essa lei de expiação que o Criador impôs justamente aos membros rebeldes do homem pecador. Até o dilúvio conservaram nossos avós sua existência com a exclusiva ajuda dos frutos da terra que arrancavam com a força do seu trabalho. Dignou-se logo Deus permitir-lhes se alimentassem da carne de animais como para suplir ao mínimo as forças naturais. Então Noé, movido pelo divino instinto, tirava o jugo do vinho e se acrescentava um novo alívio à força do homem.

ABSTINÊNCIA DE CARNE E VINHO

A natureza do jejum se fundamentou sobre os diversos elementos que sirvem ao sustento das forças humanas, e devia consistir na abstinência da carne de animais, porque essa ajuda, oferecida pela condescendência divina, é menos rigorosamente necessária para a vida. Durante muitos séculos, como o vemos hoje em dia nas igrejas do Oriente, ovos e lacticínios foram proibidos porque provinham de substâncias animais; e também no século XIX não eram permitidos nas igrejas latinas senão em virtude de dispensa anual mais ou menos geral.

Tal era ainda o rigor da abstinência de carne, que não se suspendia no Domingo na Quaresma apesar da interrupção do jejum, e os que haviam alcançado dispensa dos jejuns semanais ficaram submetidos a esta abstinência, se não se substraíam a ela por outra dispensa especial. Nos primeiros séculos do cristianismo, o jejum levava consigo a abstinência de vinho; nos adviertem disso São Cirilo de Jerusalém São Basílio, São João Crisóstomo, Teófilo de Alexandria, etc. Este rigor desapareceu logo entre os ocidentais, mas se conservou por mais tempo entre os orientais.

ÚNICA REFEIÇÃO

Finalmente o jejum, para ser completo, deve estender-se, em certa medida, até a privação do alimento ordinário: no sentido de que não tolera mais que uma única refeição ao dia. Tal é a ideia que devemos formar e que resulta de toda a prática da Igreja, apesar das muitas mudanças que aconteceram, de século em século, na disciplina da Quaresma.

REFEIÇÃO DEPOIS DAS VÉSPERAS

O costume judeu no Antigo Testamento era de diferir até o por do sol a única refeição permitida nos dias de jejum. Este costume passou à Igreja cristã e se estabeleceu até em nossas regiões ocidentais, donde se observou muitíssimo tempo inviolavelmente. Finalmente, já desde o século IX se filtrou pouco a pouco na Igreja latina uma mitigação; e achamos neste tempo um Capitular de Teodulfo, Bispo de Orleans en que este prelado protesta contra os que se creiam já autorizados a fazer a refeição à hora de Nona, isto é, às três horas da tarde; entretanto, esta relaxação se estendia insensivelmente; pois achamos no século seguinte o testemunho do célebre Rathiero.

REFEIÇÃO DEPOIS DE NONA

Encontramos no século XII uma nota de Hugo de São Victor, que testifica que o costume de interromper o jejum à hora de Nona, já era geral; e que esta prática foi preconizada, no século XIII, pelo ensinamento dos doutores eclesiásticos. Alexandre de Halés, a autoriza formalmente na Suma que compôs, e Santo Tomás de Aquino não é menos explícito.

REFEIÇÃO AO MEIO-DIA

A mitigação devia progredir, e assim vemos que até o fim do século XIII, o doutor Ricardo de Middleton, célebre franciscano, ensena que não se devem julgar como transgressores do jejum aos que comem à hora de Sexta, isto é ao meio-dia, porque, diz ele, prevalece já em vários lugares este costume, e a hora em que se come não é tão necessária à essência do jejum como o que seja uma única refeição. Em vão Alejandre de Halés e Santo Tomás procuraram deter a decadência do jejum fixando a refeição à hora de Nona; muito rapidamente se espalhou esta lei, e se pode dizer que a atual disciplina se assentou desde então.

A COLAÇÃO

Adiantando-se a hora da refeição, o jejum que consistia essencialmente em não fazer mais que essa única refeição, chegou a ser difícil na prática, pelo longo intervalo entre um e outro meio-dia. Necessário foi sustentar a fraqueza humana autorizando o que se apelidou: Colação. A origem deste uso é muito antiga, e provem dos usos monásticos. A Regra de São Bento preceituava, fora da Quaresma eclesiástica, grande número de jejuns, mas mitigava o rigor, permitindo a refeição à hora de Nona; deste modo fazia menos penoso o jejum que o da Quaresma, ao que todos os fiéis, seculares e religiosos, estavam obrigados até o pôr do sol. E como os monges tinham que realizar os trabalhos mais duros do campo no verão e outono, época em que os jejuns até Nona eram muito frequentes e ainda diários, desde o dia 14 de setembro, os abades, usando do poder autorizado pela mesma Santa Regra, concediam aos religiosos a liberdade de beber pela tarde antes de Completas um pouco de vinho para recuperar as forças esgotadas pelo trabalho do dia. Este alívio se tomava em comum, e enquanto se fazia a leitura da tarde, apelidada Conferência, em latím: Collatio, porque consistia em ler principalmente as célebres conferências (Collationes) de Cassiano; e de aí veio o nome de Colação dado a esse alívio do jejum monástico.

Estas mitigações ao primitivo jejum introduzidas nos claustros, naturalmente parecia que logo se estenderiam aos seculares. Estabeleceu-se pouco a pouco a liberdade de beber fora da única refeição; e no século XIII examinou Santo Tomás a questão de si a bebida rompe o jejum; se decide pela negativa; sem, porém, admitir que a essa bebida possa acrescentar alimento sólido. Porém, quando desde fins do século XIII e no transcurso do século XIV, se adiantou definitivamente a refeição ao meio-dia, não podia bastar uma simple bebida na tarde, para sustentar as forças do corpo; e então se introduz nos mosteiros e no mundo o uso de tomar pão, verduras, fruta, etc., além da bebida, com a condição de fazê-lo tão discretamente que a Colação não chegara a trasformar-se numa segunda refeição.

PRECEITO DA CONTINÊNCIA

A sociedade cristã testemunhava tão plausivelmente seu respeito às santas observâncias da Quaresma e tomava do Ano litúrgico suas estações e festas para assentar sobre elas as mais preciosas instituições. A vida privada mesma não experimentava menos o saudável influxo da Quaresma; e o homem recobrava cada ano novos brios para combater os instintos sensuais e sobrestimar a dignidade de sua alma, enfrentando a sedução do prazer. Durante muitos séculos se exigiu aos esposos a continência durante a Quaresma, e a Igreja conservou no Missal a recomendação de prática tão saudável.

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