O Canto na Igreja primitiva

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Se Jesus nasceu e cresceu num ambiente musical, se a música esteve sempre presente em sua vida, desde o nascimento: “De repente juntou-se ao anjo uma grande multidão de anjos. Cantavam louvores a Deus, dizendo: Glória a Deus no mais alto dos céus…” (Lc 2,13-14), até sua morte na cruz: “Meu Deus, Meu Deus, por que me abandonaste?…” ( Salmo 21, 2), e se a liturgia celebra as intervenções de Deus na história, que atinge seu ápice na encarnação, vida, morte e ressurreição de Jesus,  é certo que a Igreja dos primeiros séculos continuou a prática de entoar salmos e cânticos em suas liturgias, celebrando  Jesus Cristo e  seu mistério redentor.

São Paulo exorta os cristãos a que busquem a plenitude do Espírito… e juntos recitem salmos, hinos e cânticos inspirados, cantando e louvando ao Senhor de todo o coração. (Ef 5, 18-19). Que cantos e salmos seriam estes? Certamente os mesmos entoados nas sinagogas e no Templo de Jerusalém. O Livro dos Atos dos Apóstolos nos fala da Igreja de Jerusalém, daquela primeira comunidade, que após a Ascensão de Jesus, continuou a se reunir para fazer memória do Senhor: Diariamente frequentavam o Templo e nas casas partiam o pão, tomando alimento com alegria e simplicidade de coração. Louvavam a Deus e eram estimados pelo povo. (At 2, 46-47).

Com a perseguição, nos primeiros séculos do cristianismo, os cristãos foram obrigados a se reunir e celebrar suas liturgias à noite, em lugares subterrâneos chamados catacumbas, e é muito provável que seus cantos fossem escolhidos entre as mais simples e austeras melodias gregas, romanas e hebraicas, sem acompanhamento de instrumentos, segundo Miguel Izzo, em seu livro Noções elementares de música.

A chamada Época Patrística, dos Santos Padres da Igreja, a partir do século II, continuou tendo os Salmos como o centro da oração litúrgica, costume herdado da sinagoga judaica, permitindo sempre a participação dos fiéis no culto. É admirável e tocante o modo como o livro O Canto cristão na tradição primitiva, de Xabier Basurko – Editora Paulus, trata do assunto. Leitura quase obrigatória a quem se dedica ao canto litúrgico. Todos eles, adeptos entusiastas do canto na liturgia, defendem a expressão vocal e melódica  nas celebrações, porém sempre a serviço da Palavra.

Entre os que se ocuparam do canto litúrgico e enalteceram o seu valor, devemos citar Eusébio de Cesaréia, João Crisóstomo, Clemente de Alexandria, Gregório de Nazianzeno, Basílio,  Jerônimo, Ambrósio, Gregório Magno, Agostinho e Orígenes, além de outros. Para eles, o canto gera prazer e alegria de espírito, dá saúde física, é remédio e cura divina, favorece a comunhão, ajuda a penetrar os mistérios de Deus, encanta os ouvidos do coração, facilita a memorização da Palavra, cria comunidade. Santo Agostinho, falando sobre a importância do canto da assembleia, afirma: “Sempre é tempo bom para cantar coisas santas, quando os irmãos se reúnem na Igreja; a não ser quando se lê, quando se prega, quando o bispo reza em alta voz ou quando a voz do diácono dirige a oração comum. Nas demais ocasiões, não vejo que os cristãos possam fazer coisa melhor, mais útil e mais santa.” (Citado por Xabier Basurko, à pág. 37).

Santo Ambrósio, na Milão do século IV, compôs e introduziu em sua basílica muitos hinos e cânticos, com textos bem feitos e melodias simples, cantados por toda a comunidade, o que, aliás,   encantou e comoveu Agostinho, quando já estava em processo de conversão. Muitos desses “hinos ambrosianos” são usados até hoje em nossas liturgias, como o Te Deum.

O Papa Gregório Magno, dois séculos mais tarde, compilou, organizou e legislou o canto litúrgico, recolhendo melodias antigas e determinando os cantos para todo o ano litúrgico. Fundou uma escola de canto, a célebre “Schola Cantorum”, e fez surgir também o chamado “canto gregoriano”, que se tornou próprio da liturgia latina, se expandiu e perdurou na igreja por vários séculos. De grande valor, como arte e música espiritual, merece um aprofundamento maior, impossível de ser tratado aqui. O Dicionário de Liturgia pode iluminar este estudo.

Os Pais e Mães da Igreja são unânimes em alguns pontos: 1) Os que louvam vivam bem! Que o canto da vida se junte ao canto da boca e do coração! 2) A comunidade cristã que se reúne para celebrar a liturgia, é um povo em festa,  verdadeira lira tocada pelas cordas do Divino Músico, sobretudo quando se canta o Salmo! 3) O “canto uníssono”  é expressão da unidade espiritual da assembleia, por isso a voz em coro é mais importante que os instrumentos. 4) Finalmente, a primazia das palavras divinas, do texto sagrado,  no canto litúrgico!

É preciso voltar às fontes!…

Ir. Miria T. Kolling

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