NOÇÕES GERAIS SOBRE ALGUMAS VERDADES DA FÉ CATÓLICA

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1 – Julgando ser útil a muitos leigos uma noção básica de algumas verdades da fé católica, com pequena fundamentação teológica, faço aqui algumas considerações, sem pretensão, porém, de estar trazendo novidades sobre o assunto, mas tão-somente um subsídio à formação de pessoas que gostariam de colocações assim.

2 – Escatologia, parusia, juízo final, morte, céu, purgatório e inferno, serão, pois, aqui comentados de maneira breve, nos pontos julgados essenciais à sua compreensão e na objetividade da fé católica.

ESCATOLOGIA

3 – Entende-se por Escatologia a temática do fim dos tempos e da história, mas não se limita ela àquilo que nos dá uma noção sistemática de fim. Diz respeito também ao “agora”, ao “já” da vida humana. A Escatologia, para o cristão, começa com o Batismo e se desenvolve no dinamismo da vida cristã, orientada por uma sadia vivência evangélica, à espera do dia da ressurreição.

4 – De fato, o cristão já vive o “já” e o “ainda não” da plenitude cristã. Estas duas dimensões são, porém, vividas simultaneamente, e Santo Agostinho vai dizer: “A Igreja conhece duas vidas, que lhe foram anunciadas por Deus: uma é vivida na fé; a outra, na visão. Uma, no tempo da caminhada; outra, na mansão eterna. Uma, no trabalho; outra, no descanso. Uma, no exílio; outra, na pátria. Uma, no esforço da atividade; outra, no prêmio da contemplação”.

E Santo Agostinho conclui que a primeira dimensão é representada pelo apóstolo Pedro, e a segunda pelo apóstolo João. Assim, quanto a Pedro, o evangelho vai dizer “Segue-me” (cf. Jo 21,19), isto é, assume, como eu, a cruz, e morre pelos teus, e quanto a João, o evangelho sugere que “ele permanece” (cf. Jo 21,22), ou seja, que Deus o predestinou a viver mais profundamente a dimensão contemplativa da fé cristã e do evangelho. Ambos os aspectos devem contudo, como se falou acima, estar presentes na vida do cristão, pois, se São Pedro representa o aspecto militante, de pastor, e São João o de contemplativo, de místico, ambos os apóstolos, porém, viveram as duas dimensões.

5 – Também a história humana, com suas vicissitudes, ordena-se para a Escatologia, notando-se que a Escatologia manifesta também a sua face histórica. Em síntese, podemos então dizer que a história tem uma dimensão escatológica, isto é, caminha também para a sublimação, ao mesmo tempo que a Escatologia é marcadamente histórica, quer dizer acontece positivamente na realidade temporal. E o que caracteriza a Escatologia – diga-se – não é tanto o gênero apocalíptico com que muitas vezes ela é descrita e pensada, como acontece até mesmo nos textos bíblicos, mas o novo, o transparente e sublime que ela nos traz.

6 – Pela revelação bíblica (cf. Rm 8,19-23; 2Pd 3,13; Is 65,17; 66,22; Ap 21,1), sabemos então que Deus vai criar novos céus e nova terra, não no sentido plural daquilo que já se vê aqui. Novos céus e nova terra são, em última palavra, o Reino de Deus implantado definitivamente por Cristo, onde Deus será tudo em todos (cf. 1Cor 15,28).

7 – A Escatologia confirma o relativismo e a instabilidade do mundo (cf. 1Cor 7,31; 1Jo 2,17), e assim somos chamados a buscar as realidades do alto, perenes, definitivas e eternas, nas palavras de São Paulo (cf. Rm 12,2; Cl 3,1-4). Sendo peregrinos, marchando para a Terra Prometida, não temos portanto aqui uma cidade permanente, mas buscamos a que há de vir (cf. Hb 13,14; Fl 3,20). Assim, estamos no mundo, mas não somos do mundo (cf. Jo 17,16), e aqui todo país estrangeiro é nossa pátria, ao mesmo tempo que nossa própria pátria é sempre, para nós, terra estrangeira (cf. Carta a Diogneto – Século II).

PARUSIA

8 – Por Parusia devemos entender, inicialmente, a segunda vinda de Cristo, que se dará no fim dos tempos. A primeira se deu, como sabemos, no Natal. Os textos litúrgicos do Advento, até o dia 16 de dezembro, preparam os cristãos para a Parusia, como também a Solenidade de Cristo Rei, no fim do Ano Litúrgico, nos dá uma idéia bem clara dessa verdade da fé cristã.

9 – Na Parusia, Cristo não virá, porém, como salvador, a exemplo do Natal, mas virá como juiz, para julgar os vivos e os mortos, numa realeza absoluta, outorgada pelo Pai. São Cirilo de Jerusalém comenta: “Virá o Salvador, não para ser novamente julgado, mas para chamar a juízo aqueles que se constituíram seus juízes”. E São Paulo vai dizer-nos que Cristo então submeterá ao Pai tudo o que lhe foi confiado, e ele mesmo ao Pai se submeterá, quando então, definitivamente, Deus será tudo em todos (cf. 1Cor 15,23-28).

10 – Também, segundo São Tiago, o juízo será sem misericórdia para os que não vivem a misericórdia, mas a misericórdia triunfa sobre o juízo (cf. Tg 2,13; 5,8-9). Para os que vivem no desamor, sem Deus, para os que vivem na impiedade, essa doutrina é assustadora. Para os cristãos, porém, é fonte de eterno consolo, pois, chamados na vida a viver as bem-aventuranças, agora, no final da existência humana, são então bem-aventurados, por tê-las de fato vivido.

É interessante notar que Mateus coloca, assim, as bem-aventuranças de maneira pedagógica no seu evangelho: no início (cf. Mt 5,1-11), elas têm uma proposta de vida, no seguimento de Cristo; e, no fim (cf. Mt 25,31-46), elas são o coroamento celeste de quem plenamente as viveu.

11 – A Parusia, finalmente, deve ser vista como a volta de um rei triunfante, que visita o seu povo, para partilhar com ele os frutos de sua vitória. Este é o sentido grego também de parusia. Um rei, porém, misericordioso, no sentido cristão, e não simplesmente um juiz implacável, como às vezes acontece em muitas interpretações. Aliás, o Apocalipse, já no início, diz: “Ei-lo que vem com as nuvens” (cf. Ap 1,7a), e os cristãos, no fim do livro, respondem: “Amém. Vem, Senhor Jesus”! (cf. Ap 22,20).

JUÍZO FINAL

12 – Há um juízo final, segundo a revelação bíblica (cf. Ez 34,17; Rm 2,5-10; 2Tm 4,1; Mt 24,37; Mc 13,1-4), isto é, um julgamento universal de todas as coisas criadas, aqui presente sobretudo a vida de cada ser humano, a história de seu “sim”, ou de seu “não”, ao projeto do Pai. Isto se dará no fim dos tempos (Escatologia), na vinda gloriosa de Cristo (Parusia), hora só conhecida pelo Pai. “O juízo final revelará que a justiça de Deus triunfa de todas as injustiças cometidas por suas criaturas e que o seu amor é mais forte do que a morte” (CIC 1040 e Ct 8,6).

13 – No juízo final, segundo a fé cristã, todos os corpos ressuscitarão, uns para a alegria eterna de bem-aventurados, outros para a condenação eterna. É a ressurreição da carne, como professamos no Credo. Não é, porém, a retomada do corpo para a mesma realidade da vida, pois o corpo ressuscitado, embora seja o mesmo corpo humano, é, porém, um corpo glorioso, como nos ensina São Paulo, com suas quatro características: incorruptibilidade, claridade, agilidade e espiritualidade (cf. 1Cor 15,42-44).

14 – Lembremo-nos de que, para o cristão, o importante não é só o juízo final, mas também o juízo particular, que se dá após a morte. Aqui já acontece a destinação eterna, para a glória ou para a condenação.

15 – No juízo final, o Rei-Juiz (Cristo) porá uns à sua direita e outros à sua esquerda, no simbolismo bíblico de ovelhas e cabritos (cf. Ez 34,17; Mt 25,31-33). Aqueles, isto é, as ovelhas, serão os eleitos; e estes, ou seja, os cabritos, serão os condenados. Os primeiros, por terem vivido as bem-aventuranças evangélicas; os segundos, por as terem desprezado.

16 – Podemos dizer, clareando um pouco ainda mais, que o juízo final já começa também aqui e agora. Se nós nos colocamos ao lado dos pobres, infelizes e injustiçados, se clamamos na vida por justiça e vivemos o amor na dimensão evangélica, então, sim, segundo o Evangelho, seremos aqueles que estarão à direita de Cristo, no reino eterno. Se, porém, fizermos o contrário, numa vida de insensibilidade fraterna, estaremos então nos colocando à sua esquerda. Na verdade, como se vê, nós é que nos colocamos à direita ou à esquerda de Cristo, por uma opção livre e consciente e, no juízo final, Cristo apenas confirmará aquilo que na vida escolhemos, e o fará com plena soberania.

MORTE

17 – A morte é um fantasma, que ronda a nossa vida. Um fantasma, portanto uma sombra. Com a morte de Cristo, no sacrifício do Calvário, a morte foi destronada e vencida, deixando de reinar, isto é, deixando de ser vitória sobre a vida. Diga-se mais: com Cristo e em Cristo, a morte transforma-se em vida. Ensina-nos a revelação bíblica que Cristo venceu a morte pela morte (cf. Jo 18,11; Mt 16,21; 17,22; 26,42; Mc 9,31; Lc 9,44), assumindo-a e enfrentando-a, mesmo às vezes com as dificuldades de aceitação da condição humana (cf. Mt 26,39), e assim ela se tornou para todos porta para a vida definitiva.

18 – O mistério cristão nos dá, pois, este sentido teológico da morte, sentido que, pleno de Deus, se torna também plenamente humano. A morte, entrando no mundo, pelo pecado, do mundo é expulsa pela graça, como nos ensina São Paulo (cf. Rm 5,12.15-17). E o mesmo São Paulo, em tom jubiloso, vai dizer, fazendo eco às palavras de Oséias: “Morte, onde está a tua vitoria? Onde está o teu aguilhão?” (cf. 1Cor 15,55; Os 13,14).

Também o Concílio Vaticano II, nos ensina: “Enquanto toda a imaginação fracassa diante da morte, a Igreja contudo, instruída pela revelação divina, afirma que o homem foi criado por Deus para um fim feliz, além dos limites da miséria terrestre” (GS 18-b). E falando do mistério que envolve a morte, o Concílio fala também de sua índole cristã (SC 81), isto é, do sentido que lhe foi dado por Cristo.

19 – A exemplo do Inferno (cf. Mt 25,41), a morte não foi criada por Deus (cf. Sb 1,13), e foi por inveja do diabo que ela entrou no mundo (cf. Sb 2,24). Enquanto, porém, o amor não vencer plenamente, a morte continuará tentando destruir os valores da vida, criando culturas que com ela se identifiquem. Tais são as chamadas culturas de morte, tão presentes hoje em nossos sistemas políticos, econômicos e sociais, como verdadeiros agentes de opressão e de exclusão.

20 – O medo da morte, mesmo com todo o sentido cristão que lhe é dado pelo Cristianismo, é compreensível, pois o ser humano não foi criado para morrer. Santo Agostinho nos diz: “Se o mal da morte fosse insignificante, não seria tão grande a glória dos mártires”. Criado, pois, à imagem e semelhança de Deus, jamais poderá o ser humano aceitar o fim da vida terrena como fim simplesmente, e isto é grandemente positivo. Remido por Cristo, o cristão assume então a morte, na esperança da ressurreição, o que, diga-se, não o isenta de lutar contra a morte. Isto significa que a vida, no conceito da fé cristã, deve ser cultivada, protegida, sustentada e favorecida em todas as circunstâncias, históricas e pessoais.

21 – Um dado interessante é que, tanto pela vida como pela morte, podemos engrandecer Cristo (cf. Fl 1,20-21), e a morte jamais poderá nos separar do amor de Deus, como também não poderá fazê-lo qualquer outra criatura, visível ou invisível (cf. Rm 8,35-39). Cristo, como sabemos, é o centro do universo, da história e da vida humana. Assim, para o cristão, tanto a vida como a morte deve estar mergulhada no mistério de Cristo, conforme a rica doutrina de São Paulo, nesse sentido (cf. Rm 6,8; 2Tm 2,11pp.)

CÉU

22 – “Morada eterna dos justos”, “paraíso”, “seio de Abraão”, “Jerusalém celeste”, “pátria que brilha com a glória do Senhor”, “comunhão perpétua da vida incorruptível”, e mil outros nomes, jamais conseguirão dar-nos uma idéia exata do Céu. É surpresa que Deus reserva àqueles que aqui o amam. Os olhos jamais viram, os ouvidos jamais ouviram e a mente humana não será jamais capaz de perceber, em dimensões humanas, aquilo que Deus reserva para os seus eleitos (cf. 1Cor 2,9; Rm 8,18; 2Cor 4,17-18).

23 – Teologicamente, o Céu não é um lugar, em sentido geográfico, pois não pode caracterizar-se pelo espaço físico. Este, por si mesmo, poria limite àquilo que é sem limites. Não é também o Céu a realização de um sonho maravilhoso, pois, humanamente, ninguém seria capaz de sonhar tal sonho, e o Céu transcende a mais pura elevação humana. Nem pode ser a desejada concretização de um ideal, dado que o ideal humano, mesmo o mais nobre, espiritual e sublime, é sempre relativo e imperfeito.

24 – A experiência humana revela-nos um paradoxo: queremos ir para o Céu, mas não agora. Quer dizer: desejamos sempre o Céu, mas a Terra continua sendo o nosso atrativo maior. São Cipriano, no seu tratado sobre a morte, diz: “Que coisa mais fora de propósito, mais absurda: pedimos que a vontade de Deus seja feita, e quando ele nos chama e nos convida a deixar este mundo, não obedecemos logo à sua vontade”. Interessante é sabermos que ao Céu ninguém chega se nele, de uma certa maneira, já não se vive. Em outras palavras: o Céu não é para depois, mas se inicia aqui. Não podemos, pois, chegar ao Céu sem uma experiência, aqui na Terra, daquilo que é celeste, ou seja, sem uma experiência profunda do amor, na dimensão evangélica. “Ganhar o Céu, depois”, pode significar “Dar o Céu, antes”, ou seja, amar na medida de Deus, principalmente os que são mais indignos de amor.

25 – A liturgia da Igreja nos fala de “prelibações das alegrias celestes”, isto é, que nós já experimentamos na vida, antecipadamente, sobretudo nas celebrações litúrgicas, aquilo que um dia vamos viver plenamente. A consciência de participação litúrgica deve levar-nos à alegria desse dado fundamental de nossas celebrações.

26 – Finalizando, podemos dizer que o Céu é, em última palavra, o próprio Deus, vivendo em suas criaturas, no admirável mistério da Trindade, e as criaturas vivendo em Deus, na sublime participação da vida divina. Viver no Céu não significa simplesmente viver perto de Deus, mas viver em Deus, mergulhado no mistério divino e por Deus totalmente assumido.

PURGATÓRIO

27 – Como a palavra indica, Purgatório é um estado de purificação, antes de os eleitos entrarem na posse definitiva de Deus, ou seja, da visão beatífica, na eternidade (LG 49). É uma purificação, não em um lugar, mas em Deus. Um sofrimento, é verdade, mas no amor. No purgatório, se assim podemos dizer, existe não só esperança, mas a firme certeza do amor de Deus. É, assim, um estado intermediário entre a vida terrena e a vida da glória, após a morte. Quem está no Purgatório é eleito de Deus e, mesmo sem contemplá-lo ainda face a face, já sente a grandeza do amor divino.

28 – O estado de purgação para as pessoas não ainda em estado de graça plena ajusta-se à natureza de Deus, o qual habita numa luz inacessível (cf. 1Tm 6,16), sendo luz em plenitude e todo santidade. Assim, o pecado venial, mesmo leve e perdoável, exclui a pessoa do convívio divino. Isto, é claro, provisoriamente. A existência, pois, do Purgatório é mais uma iniciativa do favor divino, que não quer excluir ninguém da felicidade eterna.

29 – Diante do já aqui exposto, o Purgatório não é, pois, como muitos erroneamente entendem, um estado de condenação, mas de purificação, e quem nele se encontra é um eleito de Deus e participa da plena comunhão dos santos. Daí o valor da oração pelos mortos, como a Igreja coloca em suas orações e em sua liturgia.

30 – Na Bíblia não há uma revelação plena e explícita do Purgatório, mas sua existência é evidenciada por alguns textos (cf. 2Mc 12,43-45; 1Cor 3,15, p. ex.). Aliás, sem a plena realidade do Purgatório, não teríamos como entender a perícope de 2Mc, aqui citada, como não seria explicável, teologicamente, o sacrifício expiatório de que fala.

31 – A Igreja, no seu magistério universal, sempre se referiu ao Purgatório, de maneira positiva, e a celebração de Finados recebe na liturgia grau de solenidade, como o das grandes celebrações litúrgicas. Aqui podemos falar da comunhão dos santos, como verdade sublime da fé cristã, pois os fiéis falecidos, que se encontram em estado de purificação, estão em comunhão com os que ainda militam na Terra, como também com os bem-aventurados no Céu. O Purgatório é um dado de fé, que somente o Cristianismo sustenta e, de acordo com o que foi aqui explicitado, não tem nada de comum com outras posições religiosas sobre os mortos.

INFERNO

32 – Escreveu um monge de nosso tempo que no Inferno não existe comunhão. Daí, ser Inferno. A única comunhão possível no Inferno, segundo o monge, é a do ódio. No Inferno todos se odeiam mutuamente. Odeia-se também no outro aquilo que se odeia em si mesmo. É claro que a linguagem aqui é alegórica e simbólica, como se conclui pelas considerações abaixo. 

33 – A tragicidade do Inferno está no fato de ser ele o oposto da predestinação dos eleitos de Deus, na felicidade que Deus pensou para aqueles que o amam. Como sabemos, o ser humano foi criado para a alegria eterna, mas, livre, pode optar por uma vida sem Deus, a qual, aqui mesmo, já se traduz por uma vida infernal. Inferno é, pois, “estado de auto-exclusão definitiva da comunhão com Deus e com os bem-aventurados” (CIC 1033).

34 – Deus não criou o Inferno, nem para ele predestina ninguém. Os réprobos, como antes os anjos decaídos (cf. 2Pd 2,4; Jd 6), pela auto-exclusão de que se falou acima, é que nele se lançam, dada a miséria do pecado. Inferno é, portanto, rejeição de Deus, abismo sem retorno, caracterizando-se pela ausência total do amor, a maior desgraça a que pode chegar um ser criado. O Concílio Vaticano II refere-se a ele, em linguagem simples, como “condenação eterna” e “trevas exteriores” (LG 16; 48c), lembrando o próprio Evangelho (cf. Mt 22,13; 25,30).

35 – Costuma-se chamar de inferno as guerras no mundo. De fato, elas nos dão uma ideia do ambiente infernal, mas – vejamos – é apenas uma ideia, uma pálida imagem de sua realidade trágica. Isto mostra que o Inferno, teologicamente, é o fruto mais cruel do “mistério da iniquidade” (cf. 2Ts 2,7). Não é apenas o oposto do Céu, mas a triste realidade em que um ser criado se vê na impossibilidade de amar e de ser amado. Criado por amor, para o amor e destinado ao amor eterno, a ausência definitiva desse dado da fé constitui, pois, para o ser humano aquilo que chamamos, na limitação verbal, de Inferno. Conclui-se, pois, que, ao contrário do Purgatório, no Inferno não existe a menor sombra de esperança, ou seja, nenhuma porta possível de acesso à felicidade. “A ameaça do Inferno diz apenas que de tal modo Deus é a fonte, que ninguém pode fechar-se a Ele sem eternamente morrer de sede”. É de se esperar que ninguém se condene eternamente, por uma recusa radical ao projeto divino.

36 – Segundo um pensador cristão, se no Inferno a morte quisesse morrer, sentir-se-ia eternamente viva, e se a vida quisesse viver, ver-se-ia eternamente morta. Esse pensamento mostra o absurdo existencial que é o Inferno.

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A escolha de Pedro

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(Das Homilias sobre o Evangelho de São João, de São João Crisóstomo)

O que mais atrai sobre nós a benevolência do Alto é a nossa solicitude para com o próximo. Assim, é justamente esta a disposição que Cristo exige de Pedro: “Simão, filho de João, tu me amas mais do que estes?” (Jo 21,15). Ele respondeu: “Sim, Senhor, tu bem sabes que eu te amo” (Jo 21,15). E Jesus lhe diz: “Apascenta as minhas ovelhas” (Jo 21,15).

Por que, deixando os outros apóstolos de lado, Jesus se dirige  a Pedro, a respeito deles? É que Pedro era o primeiro entre os apóstolos, o que falava em nome deles, o chefe do seu grupo, tanto que o próprio Paulo vem consultá-lo um dia, e não aos outros. Para demonstrar a Pedro que podia confiar plenamente em que sua negação fora anulada, Jesus lhe dá agora a primazia entre os seus irmãos. Não menciona que o negou, nem o envergonha com o seu passado. “Se tu me amas, diz ele, permanece à frente de teus irmãos; e dá provas, agora, daquele amor apaixonado que sempre demonstraste por mim, com tanta alegria! A vida, que dizias estar pronto a dar em meu favor, eu quero que a dês pelas minhas ovelhas”.

Interrogado uma primeira vez e depois uma segunda, Pedro apela para o testemunho daquele que conhece o segredo dos corações. Interrogado uma terceira vez, ele se perturba, e o temor o domina. Lembra-se de que outrora fizera afirmações solenes, que os acontecimentos haviam desmentido. E é por isso que procura, agora, apoiar-se em Jesus: “Tu conheces tudo, diz ele, tanto o presente quanto o futuro”. Vede como se tornou melhor e mais humilde, como perdeu sua arrogância e seu espírito de contradição! Perturbou-se ao pensamento de que podia ter a impressão de amar, sem amar realmente. “Tanto estava seguro de mim mesmo no passado, pensa ele, como agora me sinto confuso”. Jesus o interroga três vezes, e três vezes lhe dá a mesma ordem: “Apascenta as minhas ovelhas”. Demonstra assim o apreço que tem pelo cuidado de suas ovelhas, pois faz, de tal cuidado, a maior prova de amor para com ele.

Depois de ter falado a Pedro deste amor, Jesus prediz o martírio que lhe está destinado. Manifesta desse modo toda a confiança que deposita nele. Para nos dar um exemplo de amor e mostrar a melhor forma de amar, diz ele: “Quando eras jovem, tu mesmo amarravas teu cinto e andavas por onde querias; quando, porém, fores velho, outros te cingirão e te levarão para onde não queres ir” (Jo 21,18). Era, aliás, o que Pedro tinha querido e desejado outrora; por isso é que Jesus lhe fala assim. Pedro dissera, com efeito: “Eu darei a minha vida por ti” (Jo 13,37). E também: “Ainda que eu tenha de morrer contigo, não te negarei! “(Mt 26,35; Mc 14,31). Jesus acede ao seu desejo. Fala-lhe desse modo não para amedrontá-lo, mas para reanimar seu ardor. Conhece seu amor e sua impetuosidade; pode anunciar-lhe o gênero de morte que lhe reserva no futuro. Pedro sempre desejara enfrentar perigos por Cristo. “Tem confiança, diz Jesus, teus desejos serão satisfeitos; o que não suportaste em tua mocidade, suportarás na velhice”. E, para chamar a atenção do leitor, o evangelista acrescenta: “Jesus disse isso para dar a entender com que morte Pedro iria glorificar a Deus” (Jo 21,19). E esta palavra nos ensina que morrer por Cristo constitui uma honra e uma glória.

 

Homilia 88 sobre o Evangelho de São João

(Patrologia Grega, 59, 477-480)

 

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Como se comportar na Santa Missa?

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O zelo pela liturgia ajuda o povo de Deus a rezar mais e melhor. Vivendo, durante a celebração eucarística, o que a Igreja nos propõe, estamos a fazendo com mais devoção e dignidade. O seminarista Gabriel Vila Verde escreveu, eu linguagem clara e descontraída, uma “catequese” sobre como portar-se na Missa. Publicamos aqui, após sua cordial concessão. Leia com atenção e, caso te ajude a rezar melhor durante a Missa, coloque-as em prática.

 

“1. Após o comentário inicial (tomara que não seja uma palestra), fique de pé, atento ao Mistério que será celebrado.
2. No Ato Penitencial, de pé, incline a cabeça e peça perdão pelos pecados veniais (porque os mortais só na confissão auricular).
3. Após o Glória (se houver), sente-se para ouvir as leituras. Faça um profundo silêncio e deixe o folheto em paz, porque o mandamento de Deus é “Ouve Israel” e não “Leia Israel”. Sem contar que o abre e fecha do folheto faz um ruído terrível. (Não precisa aplaudir as leituras). (Lembrete nosso: se o Evangeliário [livro com os evangelhos] for usado para dar a benção, não é hora de aplaudir!)
4. No canto de aclamação ao Evangelho, fique de pé, na direção do ambão. Após a proclamação, torne a se sentar e ouça com atenção a homilia. Se o seu bebê chorar, saia com ele para dar uma volta ao redor da Igreja. Bebês são lindos, mas na hora da homilia o choro não convém. O padre pode não se incomodar, mas o irmão do banco de trás não vai ouvir a reflexão.
5. No credo, fique de pé e diga, em voz audível, o Credo. Depois das preces, volte a sentar e só levante quando o padre dizer: orai irmãos… (se tiver ofertas, coloque a sua discretamente no cestinho. Não precisa mostrar a todos que é 2,00 reais porque não é muita coisa).
6. Na hora do Santo, não é bom fazer coreografias. Neste momento os anjos descem do Céu para adorar Jesus na Hóstia Consagrada e você pode bater o braço na face de um deles.
7. Quando o padre disser: “Enviai sobre estas oferendas…”, fique de joelhos. É o momento sublime da consagração. Diante de Jesus todo joelho se dobra (Fl 2), a não ser que você tenha artrose. Nesse caso, incline a cabeça em gesto de profunda adoração. Faça silêncio, mesmo que um fiel ao lado grite “meu Senhor e meu Deus, eu creio…” Deixe ele gritar sozinho.
8. Levante-se quando o padre disser: “Eis o Mistério da Fé”.
9. Na Oração Eucarística, pense nos ministros ordenados, nas almas do Purgatório, em toda a Igreja e reze. Você está oferecendo todas estas pessoas ao Pai, por meio do Filho que se imola no altar.
10. No Pai Nosso, não faz parte do rito dar as mãos. Mas se o padre pedir ou se alguém segurar, não seja soberbo ao ponto de colocar as mãos no bolso. O gesto de segurar a mão do irmão não diminuirá tua catolicidade. Lembre que você está numa assembléia e não num curso de liturgia. Evite qualquer desconforto durante a celebração. (Lembrete nosso: não se fala “amém” após a oração, pois ela continua. Se alguém fala sem saber que não é necessário, não está pecando. Se você falou por falta de atenção, não pecou. Apenas atente-se mais à celebração na próxima vez. Os irmãos que falaram “amém” não são menos santo que você!)
11. Se houver abraço da paz, não precisa correr a Igreja inteira para abraçar os fiéis. Basta saudar de forma discreta os que estão mais próximos. Lembre-se também que, ao andar pela rua, você precisa fazer o mesmo e não virar o rosto quando um irmão passar.
12. Quando você ouvir a frase “Cordeiro de Deus que tirais…”, pare imediatamente a saudação e volte seu olhar para o altar. O sacerdote irá erguer o Santíssimo Corpo do Senhor.
13. Na hora da comunhão, muita atenção. Faça um exame de consciência e veja se sua alma está limpa para receber tão grande hóspede. Se você não perdoou seu inimigo, fique sentado. Se cometeu pecado contra a castidade, fique sentado. Se é desonesto e gosta do dinheiro dos outros, fique sentado também. Se tua confissão foi a pouco tempo e ela foi sincera, Levante-se piedosamente e vá ao encontro de Jesus.
14. Não converse na fila, não procure saber qual é a fila do padre porque o ministro extraordinário também está com Jesus. Não mastigue chiclete ou bala (em nenhum momento da Missa). Vá rezando em silêncio, sem olhar a roupa dos outros. Ao chegar diante do sacerdote, você escolhe: ou estender as duas mãos em forma de concha e receber Jesus, ou ficar de joelhos discretamente e recebê-lo diretamente na boca. Eu indico a segunda opção, mas a Igreja deixa à sua escolha.
15. Comungou? Volte para o seu lugar em silêncio, com as duas mãos no coração, e faça a sua ação de graças. Adore o Senhor como o Anjo ensinou aos pastores de Fátima, ou diga outras orações de sua devoção (Alma de Cristo, Adoro-te devote, Ave Maria, etc). Evite fazer muitos pedidos. É hora de louvar e agradecer.
16. Quando o padre disser: Oreeeeemos… Fique de pé e aguarde a bênção final. Se tiver parabéns e avisos (algo que tira um pouco a nossa paciência), aguarde. Não saia da Igreja como quem vai pegar o trem. Você está em casa, na casa do seu Pai. Pra que pressa?
Por fim, gostaria de dar breves conselhos:
– Pense na roupa que você vai usar. Isso não é moralismo. É questão de caridade para com os olhos do próximo. Nossa Senhora pede a modéstia no vestir. Obedeça a Mãe de Jesus e você será feliz. Isso vale para nós homens, também.
– Se for com o namorado (a), deixe as carícias para o lado de fora da Igreja, em respeito ao templo santo. Se for solteiro (a), vale fazer um discreto aceno para a candidata (o). O melhor lugar para buscar pretendentes é na Igreja, porque tudo está começando aos pés de Jesus. (Mas não vá a Missa com esse interesse).”
Lembrete nosso: Não é proibido o uso do véu durante a Missa, mas também não é obrigatório. Se você quiser usar, é permitido. Caso acredite que vai despertar mais atenção dos fiéis para si do que para Jesus, despreze o véu. Não o use também para “ostentar santidade”. Isso é luxúria espiritual.
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Padres da Igreja e o dom das línguas

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No séculos II, Santo Irineu (c.115-200) se refere a uma fala extática não-idiomática, do tipo que os pentecostais praticam hoje. Descreve e condena as ações de um certo Marcos que “profetizava”, sob influência “demoníaca”. Marcos compartilhava o seu “dom” e outros também “profetizavam”. Seduzia mulheres e lhes prometia o carisma. Quando a recebiam, falavam algo sem sentido:

“Então ela, de maneira vã, imobilizada e exaltada por estas palavras e grandemente excitada… seu coração começa a bater violentamente, alcança o requisito, cai em audácia e futilidade, tanto quanto pronuncia algo sem sentido, assim como lhe ocorre”. (Contra Heresias I, XIII, 3)Irineu também se refere ao dom de línguas dos apóstolos e da época em que vivia. Cita II Cor. 2:6, explicando que “os perfeitos” falam em “todos os tipos” as línguas:

“… nós também ouvimos muitos irmãos na Igreja,… e que através do Espírito, falam todos os tipos de línguas, e trazem à luz para o benefício geral as coisas escondidas dos homens, e declaram os mistérios de Deus…”. (Contra Heresias V,VI,1)

Ao informar que falam todos os tipos de língua, Irineu parece se referir a línguas que admitem classificação.

O curioso é que o movimento de herético de Montano (c.150-200) envolveu um êxtase religioso, com elocuções não-idiomáticas, semelhantes à pseudo-glossolalia pentecostal.

De acordo com descrições registradas por Eusébio (c.265-?), Montano entrou em uma espécie de delírio e balbuciava “coisas estranhas”. Ele “encheu” duas mulheres com o “falso espírito”, e elas falaram “extensa, irracional e estranhamente”:

“ficou fora de si e [começou] a estar repentinamente em uma sorte de frenesi e êxtase, ele delirava e começava a balbuciar e pronunciar coisas estranhas, profetizando de um modo contrário ao costume constante da igreja (…) E ele, excitado ao lado de duas mulheres, encheu-as com o falso espírito, tanto que elas falaram extensa, irracional e estranhamente, como a pessoa já mencionada.” (História da Igreja V,XVI:8,9 )

Depreende-se deste texto que o fenômeno lingüístico montanista envolvia:

(a) uma forte expressão emocional, deduzida das menções de “êxtase”, “frenesi” e delírio;

(b) o texto indica uma linguagem não-idiomática, de “balbucios”, e um falar “estranho”, “irracional”. Tomadas em conjunto, estas características assemelham-se à glossolalia pentecostal. A comparação torna-se tão evidente, ao ponto de o montanismo ser apelidado de “protótipo dos pentecostais”.

Sabe-se que a “glossolalia” montanista se tratava de uma reminiscência dos excessos frígios. Sob esta ótica, a glossolalia pentecostal perdeu o apoio da igreja do segundo século e se alinhou com uma religião não-cristã da mesma época.

Orígenes (c.195-254) em sua época, se opôs a um certo Celso, que clamava ser divino, e falava línguas incompreensíveis:

“A estas promessas, são acrescentadas palavras estranhas, fanáticas e completamente ininteligíveis, das quais nenhuma pessoa racional poderia encontrar o significado, porque elas são tão obscuras, que não têm um significado em seu todo.” (Contra Celso, VII:9)

Uma linguagem ininteligível soa “estranha”, “obscura” e “fanática” para Orígenes. Assim como para Irineu e mais tarde foi para Eusébio. Para Orígenes, as palavras “completamente ininteligíveis”, eram mais o subproduto de uma distorção religiosa.

Arquelau, bispo de Carcar no fim do segundo século comenta sobre o dom de línguas no Pentecostes. O contexto indica uma identificação como idiomas naturais. Para Arquelau, Mane era incapaz de conhecer a língua dos gregos porque não possuía o dom de línguas do Espírito, que o capacitaria a entendê-las:

“Ó seu bárbaro persa, você nunca foi capaz de conhecer a língua dos gregos, dos egípcios, ou dos romanos, ou de qualquer nação, (…). Pelo que diz a Escritura? Que cada homem ouvia os apóstolos falarem em sua própria língua através do Espírito, o Parácleto”.(Disputa com Mane, XXXVI)

Na Didaquê Siríaca comenta-se o evento do Pentecostes. Os discípulos estavam preocupados sobre como iriam pregar ao mundo, se eles não conheciam os idiomas. Então, receberam o dom de falar idiomas estrangeiros e foram para os países onde esses idiomas eram falados:

“de acordo com a língua que cada um deles tinha diferentemente recebido, para que a pessoa se preparasse para ir ao país no qual a língua era falada e ouvida”. (Didaquê Síriaca, seção introdutória).

No século IV, Cirilo de Alexandria (c.315-387), Doutor da Igreja em seus Sermões Catequéticos (sermão XVII: 16), interpreta o dom de línguas do Pentecostes como idiomas estrangeiros. Isto indica que, pelo começo do quarto século, a glossolalia apostólica também era tida como um idioma comum. Cita por nome alguns idiomas falados pelos apóstolos:

“O galileu Pedro ou André falavam persa ou medo. João e o resto dos apóstolos falavam todas as línguas para aquela porção de gentios (…) Mas o Santo Espírito os ensinou muitas línguas naquela ocasião, línguas que em toda a vida deles nunca conheceram” (Sermões Catequéticos (sermão XVII: 16)

Para Gregório Nazianzeno (c.330-390), Doutor da Igreja, o dom de línguas em Atos também se referia a idiomas estrangeiros:

“Eles falaram com línguas estranhas, e não aquelas de sua terra nativa; e a maravilha era grande, uma língua falada por aqueles que não as aprenderam”. Gregório ainda argumenta que o dom foi de falarem línguas estrangeiras e não dos ouvintes as entenderem. Segundo ele, se fosse assim, o milagre não seria dos que “falam” em línguas, mas “dos que ouvem”.(Do Pentecostes, oração XLI:16)

Ambrósio (330-397), também Doutor da Igreja, embora não discuta a natureza do dom de línguas, ressalta que cada pessoa recebe dons espirituais diferentes. Para ele,

“todos os dons divinos não podem existir em todos os homens, cada um recebe de acordo com a sua capacidade ao deseja ou merece” (Do Espírito Santo II, XVIII, 149)

Se Ambrósio também quer dizer com isto que o falar em línguas não se manifesta em todos os cristãos, a citação pode se confrontar e divergir completamente com a posição pentecostal de que todos devem ter “o” dom de línguas.

São João Crisóstomo (Doutor da Igreja) (347-406), é o primeiro a interpretar detidamente a glossolalia em I Coríntios. Em sua conhecida retórica de orador, questiona a ausência do dom de línguas: “Por que então eles aconteceram, e agora não mais?”

São João Crisóstomo detalha sua explicação. Ele vê o dom de línguas do N.T. como um fenômeno reverso ao da Torre de Babel. Os discípulos receberam o dom porque deveriam

“ir afora para todos os lugares (…) e o dom era chamado de dom de línguas porque ele poderia falar de uma vez diversas línguas”.

Comentando I Co. 14:10, aplica a passagem à diversidade de idiomas:

“i.e., muitas línguas, muitas vozes de citianos, tracianos, romanos, persas (…) inumeráveis outras nações.”E sobre I Co. 14:14, São João Crisóstomo sublinha que aquele que fala em línguas não as entende, porque não conhece o idioma em que fala:

“Pois se um homem fala somente em persa ou outra língua estrangeira, e não entende o que ele diz, então é claro que ele será para si, dali em diante, um bárbaro (…) Pois existiam (…) muitos que tinham também o dom da oração, junto com a língua; e eles oravam e a língua falava, orando tanto em persa ou linguagem latina, mas o entendimento deles não sabia o que era falado”.98 (Homilias na Epístola de Paulo aos Coríntios, capítulo XXXV).

Para Agostinho (Doutor da Igreja) (354-430), o dom de línguas concedido aos apóstolos no Pentecostes se tratava da capacidade sobrenatural de falar línguas estrangeiras. Demonstra que, no período apostólico, o Espírito operava…

“sensíveis milagres… para serem credenciais da fé rudimentar” (Contra os Donatistas: Sobre o Batismo, III:16).

Agostinho reforça o dom de línguas como idiomas naturais. Eram línguas que os discípulos“ não tinham aprendido”. E, na pregação posterior,

o… “evangelho corria através de todas as línguas”.100 (Epístola de São João, Homilia VI:10)
“Nos primeiros tempos, o Espírito Santo descia sobre os fiéis e estes falavam em línguas, sem as ter aprendido conforme o Espírito lhes dava a falar. Foram sinais oportuno para esse tempo… o sinal dado passou depois” (Comentário da Primeira Carta de São João, Tratado IV, 10).Algo a se notar nos Padres da Igreja é a completa ausência do dom de línguas do tipo pentecostal. Percebe-se que na Igreja do tempo dos Padres, o dom de línguas não esboçava qualquer centralidade, ou mesmo relevância como possui hoje em dia para a heresia pentecostal. Caso o dom de línguas como se difunde hoje, fosse fundamental na doutrina apostólica como evidência do batismo do Espírito Santo, teria certamente teria feito parte dos credos e da tradição dos Padres da Igreja.

Logo, num prisma negativo, pseudo-glossolalia pentecostal considerados neste artigo não encontram suporte nos Pais da Igreja:

(1) A glossolalia não-idiomática :

(a) não foi considerada como dom do Espírito;

(b) foi rejeitada pela igreja da época;

(c) revelou origens e feições não-cristãs. Tida como principal manifestação lingüística do pentecostalismo, a glossolalia não-idiomática encontra reprovação no conjunto dos Pais da Igreja.
Nos Pais da Igreja a glossolalia:

(a) não é indicadora da plenitude do Espírito Santo;

(b) não é indicadora indireta da própria salvação do crente; ou

(c) não é um elemento distintivo dos verdadeiros crentes.

Em relação à glossolalia como o dom, os Pais da Igreja têm o falar em línguas como:

(a) não-obrigatório para o cristão;

(b) o dom de línguas na patrística é apenas “um” entre outros.

A doutrina do dom das línguas em Santo Tomás de Aquino

Santo Tomás de Aquino, ao comentar o Capítulo XIV da primeira carta de São Paulo aos Coríntios, escreveu:

“Quanto ao dom de línguas, devemos saber que como na Igreja primitiva eram poucos os consagrados para pregar ao mundo a Fé em Cristo, a fim de que mais facilmente e a muitos se anunciasse a palavra de Deus, o Senhor lhes deu o dom de línguas” (S. Tomas de Aquino, Comentario a la primera espistola a los Conrintios, Tomo II, pag 178.)

Vê-se, portanto, que o dom de línguas foi dado aos primeiros cristãos para que anunciassem a religião verdadeira com mais facilidade. Os Coríntios, por sua vez, desvirtuaram o verdadeiro sentido do dom de línguas:

“Porém, os coríntios, que eram de indiscreta curiosidade, prefeririam esse dom ao dom de profecia. E aqui, por ‘falar em línguas’ o Apóstolo entende que em língua desconhecida e não explicada: como se alguém falasse em língua teutônica a um galês, sem explicá-la; esse tal fala em línguas. E também é falar em línguas o falar de visões tão somente, sem explicá-las, de modo que toda locução não entendia, não explicada, qualquer quer seja, é propriamente falar em língua” (S. Tomas de Aquino, Comentario a la primera espistola a los Conrintios, Tomo II, pg 178-179.).

Temos aqui uma consideração importante. Para São Tomás, o “falar em línguas” pode ser entendido de duas formas:

a) falar em uma língua desconhecida, mas existente, como no caso de Pentecostes, no qual pessoas de várias línguas compreendiam o que os apóstolos pregavam.

b) a pregação ou oração sobre visões ou símbolos.

E o doutor angélico confirma isso mais adiante:

“ suponhamos que eu vá até vós falando em línguas’ (I Co 14, 6). O qual pode entender-se de duas maneiras, isto é, ou em línguas desconhecidas, ou a letra com qualquer símbolos desconhecidos” (Santo Tomas de Aquino, Comentario a la primera espistola a los Conrintios, Tomo II, pg 183.)

Haja vista que a primeira forma de falar em línguas é suficientemente clara – ou seja, que é um milagre pelo qual uma pessoa, que tem por ofício pregar às almas, fala numa língua existente sem nunca a ter estudado – consideremos a segunda forma de manifestação desse dom, segundo São Tomás. Neste caso, falar em línguas é uma simples predicação numa linguagem pouco clara, como, por exemplo, falar sobre símbolos, visões, em parábolas, etc:

“(…) se se fala em línguas, ou seja, sobre visões, sonhos (…)” (Santo Tomas de Aquino, Comentario a la primera espistola a los Conrintios, Tomo II, pg 208.).

E ainda:

[lhes falarei] “ ‘Em línguas estranhas’, isto é, lhes falarei obscura e em forma de parábolas”(Santo Tomas de Aquino, Comentario a la primera espistola a los Conrintios, Tomo II, pg 200).

“(…) em línguas, isto é, por figuras e com lábios (…)” (Santo Tomas de Aquino, Comentario a la primera espistola a los Conrintios, Tomo II, pg 200.)

Para São Tomás, quem assim procede, isto é, usa de símbolos nas práticas espirituais, tem o mérito próprio da prática de um ato de piedade. Caso o indivíduo compreenda racionalmente o que diz, lucra, além do mérito, o fruto intelectual da ação.

Quem reza o Pai-Nosso, por exemplo, mesmo sem compreender perfeitamente o valor de suas petições, tem o mérito próprio da boa ação de rezar. Por outro lado, quem reza o Pai-Nosso com o conhecimento de seu significado mais profundo, lucra, além do mérito, a consolação intelectual da compreensão de uma verdade espiritual. Por esse motivo, São Paulo exorta aos que “falam em línguas” – ou seja, que usam símbolos nos atos de piedade – para que peçam também o dom de “interpretar as línguas”, quer dizer, de compreender o que diz por meio simbólico, afim de que possa ganhar, além do mérito, a compreensão racional do ato.

No que se refere ao uso público do dom de línguas, o Apóstolo determina que ele nunca deve ser usado sem que haja intérprete, ou seja, sem que haja quem explique os símbolos para os que não os compreendem.

Comentado o versículo 27, no qual São Paulo exorta que não falem em línguas mais que dois ou três durante o culto público, diz São Tomas:

“É de notar-se que este costume até agora (…) se conserva na Igreja. Por que as leituras, epístolas e evangelhos temos em lugar das línguas, e por isso na Missa falam dois (…) as coisas que pertencem ao dom de línguas, isto é, a Epístola e o Evangelho” (Santo Tomas de Aquino, Comentario a la primera espistola a los Conrintios, Tomo II, pg 208.)Para São Tomás, a leitura da Epístola e do santo Evangelho, na Missa, são a forma de “falar em línguas” que a Igreja conservou dos tempos apostólicos! Nada mais contrário ao delírio pentecostal carismático!

Ora, no que diz respeito a “interpretação das línguas”, na Missa, depois da Epístola e do Evangelho, o padre faz o sermão, pelo qual explica os símbolos dos textos sagrados que foram lidos. O sermão é, pois, a ‘interpretação das línguas’ (Epístola e Evangelho) que foram faladas na Missa.Fica, portanto, bastante claro o verdadeiro significado do dom de línguas, que nada mais é do que:

1 – o milagre de pregar o Evangelho numa língua sem a ter estudado ou

2 – o simples fato de usar uma linguagem simbólica na vida espiritual, seja na oração particular, seja na oração pública, sendo que nesta última é necessário alguém que “interprete as línguas”, ou seja, que explique o significado dos símbolos ao povo, função dos ministros da Igreja.

Cf. AQUINO, TOMÁS de. COMENTARIO A LA PRIMERA EPÍSTOLA DE SAN PABLO A LOS CORINTIOS. Disponível em: http://www.clerus.org/bibliaclerusonline/es/index3.htm 

Santo Antônio e o dom das línguas

“ E todos estiveram cheios do Espírito Santo, e começaram a falar em diversas línguas, segundo o Espírito Santo lhe dava a falar”. Falavam todas as línguas; ou também falavam sua língua hebréia, e todos os entendiam, como se falassem na língua de cada um dos ouvintes”
(PÁDUA, Santo Antônio de. Sermones, Tomo I. Domingo de Pentecostes (I). Buenos Aires:El mensajero de san Antonio, 1995, p. 333.)

“Sobre todas memorável ficou a pregação, que o santo franciscano fez no dia da Ressurreição. Tinham afluído, como vimos, a Roma gentes das diversas regiões e nacionalidades da terra, como latinos, gregos, alemães, franceses, ingleses e de outras línguas. Pregou também Santo Antônio, segundo a vontade do sumo Pontífice, naquela grande solenidade; e este seu sermão foi um digno remate e coroa aos seus triunfos oratórios. Inflamado pelo Espírito Santo, anunciou a palavra de Deus de um modo tão eficaz, devoto e penetrante, e com tal suavidade, clareza e inteligência, que todos os presentes, apesar da diversidade das línguas, lhe entenderam as palavras, tão clara e distintamente, como se houvesse pregado na língua de cada um” (MARTINS (S.J), Manuel Narciso. Vida de Santo Antônio. Bahia: Duas Américas, 1932, p. 74


São Francisco Xavier e o dom das línguas

O livro Milagros y prodígios de San Francisco Javier, que foi escrito pela historiadora de arte Maria Gabriela Torres Olleta, constitui o sexto e, de momento, último volume da colecção “Biblioteca Javeriana” publicada desde 2004 pela Cátedra San Francisco Javier, Universidade de Navarra, como preparação para o ano jubilar de 2006. O livro conta que quando São Francisco Xavier falava em sua língua própria, no Oriente, cada um que o ouvia o entendia em sua língua materna. O dom das línguas (pp. 45-47), cuja enorme importância se justifica pela atividade missionária de Xavier entre muitos povos e muitas nações diferentes, foi um outro aspecto muito fomentado pela hagiografia de S. Francisco Xavier, tendo sido, por isso, igualmente incluído na bula de canonização.(OLLETA, Maria Gabriela Torres. Milagros y prodígios de San Francisco Javier. Biblioteca Javeriana, 2006, p. 45-47)

São Francisco Solano e o dom das línguas

“São Francisco Solano, cuja festa comemoramos no dia 14, santo genuinamente franciscano, aprendeu milagrosamente em 15 dias o dialeto de uma tribo indígena. Adquiriu também o dom das línguas, falando em castelhano a índios de tribos diferentes, sendo entendido como se estivesse expressando-se no dialeto de cada um. Uma vez, por exemplo, estando em San Miguel del Estero durante as cerimônias da Quinta-Feira Santa, veio uma terrível notícia: milhares de índios de diversas tribos, armados para a guerra, avançavam para atacar a cidade. A balbúrdia foi geral. Só Frei Francisco, calmo, saiu ao encontro dos selvagens. Estes, que o respeitavam, pararam para o ouvir. E cada um o entendeu em sua própria língua. Ficaram tão emocionados, que um número enorme deles pediu o batismo. No dia seguinte, viu-se essa coisa portentosa: ao lado dos espanhóis, esses índios convertidos participavam da procissão da Sexta-feira Santa, flagelando-se por causa de seus pecados.” (Cf. Fr. Justo Pérez de Urbel, O.S.B., Ediciones Fax, Madrid, 1945, tomo III, p. 184; Les Petits Bollandistes, Bloud et Barral, Paris, 1882, tomo IX, pp. 8 e ss; Enriqueta Vila, Santos de America, coleção Panoramas de la Historia Universal, Ediciones Moreton, S.A., Bilbao, 1968, pp. 93 e ss. )


O dom das línguas e o Papa Bento XVI

“Diferentemente do que tinha acontecido com a torre de Babel (cf. Jo 11, 1-9), quando os homens, intencionados a construir com as suas mãos um caminho para o céu, tinham acabado por destruir a sua própria capacidade de se compreenderem reciprocamente. No Pentecostes o Espírito, com o dom das línguas, mostra que a sua presença une e transforma a confusão em comunhão. O orgulho e o egoísmo do homem geram sempre divisões, erguem muros de indiferença, de ódio e de violência.O Espírito Santo, ao contrário, torna os corações capazes de compreender as línguas de todos, porque restabelece a ponte da comunicação autêntica entre a Terra e o Céu.” Disponível em: http://www.vatican.va/holy_father/benedict_xvi/homilies/2006/documents/hf_ben-xvi_hom_20060604_pentecoste_po.html

O dom das línguas e a teologia

F. Prat em “La Théologie de Saint Paul” (Beauchêsne éditeur, Paris 1913) diz:

“Trata-se de falar à multidão, Pedro fala em nome de todos e, não podendo falar senão uma língua por vez, é natural que ele falasse na sua língua própria. Se houve milagre, foi nos ouvintes que ele se realizou e não em Pedro. [Pois cada um entendeu o que Pedro dizia na sua própria língua] (F. Prat, La Theologie de Saint Paul, p. 175).

Fonte: O Segredo do Rosário

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A Ave Maria por S. Tomás de Aquino

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SAUDAÇÃO ANGÉLICAPRÓLOGO


1. — A saudação angélica é dividida em três partes: A primeira, composta pelo Anjo: Ave, cheia de graça, o Senhor é contigo, bendita és tu entre as mulheres. (Lc 1, 28). A segunda é obra de Isabel, mãe de João Batista, que disse: Bendito é o fruto do teu ventre.
A terceira parte, a Igreja acrescentou: Maria

O Anjo não disse: Ave Maria e sim, Ave, Cheia de graça. Mas este nome de Maria, efetivamente, se harmoniza com as palavras do Anjo, como veremos mais adiante.

AVE

2. — Na antiguidade, a aparição dos Anjos aos homens era um acontecimento de grande importância e os homens sentiam-se extremamente honrados em poder testemunhar sua veneração aos Anjos.

A Sagrada Escritura louva Abraão por ter dado hospitalidade aos Anjos e por tê-los reverenciado.

Mas um Anjo se inclinar diante de uma criatura humana, nunca se tinha ouvido dizer antes que o Anjo tivesse saudado à Santíssima Virgem, reverenciando-a e dizendo: Ave.

3. — Sé na antiguidade o homem reverenciava o Anjo e o Anjo não reverenciava o homem, é porque o Anjo é maior que o homem e o é por três diferentes razões:

Primeiramente, o Anjo é superior ao homem por sua natureza espiritual.

Está escrito: Dos seres espirituais Deus fez seus Anjos. (Sl 103).

4. — O homem tem uma natureza corrutível e por isso Abraão dizia a Deus: (Gn 18, 27) Falarei a meu Senhor, eu que sou cinza e pó.

Não convém que a criatura espiritual e incorruptível renda homenagem à criatura corruptível.

Em segundo lugar, o Anjo ultrapassa o homem por sua familiaridade com Deus.

Com efeito, o Anjo pertence à família de Deus, mantendo-se a seus pés. Milhares de milhares de Anjos o serviam, e dez milhares de centenas de milhares mantinham-se em sua presença, está escrito em Daniel (7, 10).

Mas o homem é quase estranho a Deus, como um exilado longe de sua face pelo pecado, como diz o Salmista: (54,  Fugindo, afastei-me de Deus.

Convém, pois, ao homem honrar o Anjo por causa de sua proximidade com a majestade divina e de sua intimidade com ela.

Em terceiro lugar, o Anjo foi elevado acima do homem, pela plenitude do esplendor da graça divina que possui. Os Anjos participam da própria luz divina em mais perfeita plenitude. Pode-se enumerar os soldados de Deus, diz Jó (25, 3) e haverá algum sobre quem não se levante a sua luz? Por isso os Anjos aparecem sempre luminosos. Mas os homens participam também desta luz, porém com parcimônia e como num claro-escuro.

Por conseguinte, não convinha ao Anjo inclinar-se diante do homem, até, o dia em que apareceu urna criatura humana que sobrepujava os Anjos por sua plenitude de graças (cf n° 5 a 10), por sua familiaridade com Deus (cf. n° 10) e por sua dignidade.

Esta criatura humana foi a bem-aventurada Virgem Maria. Para reconhecer esta superioridade, o Anjo lhe testemunhou sua veneração por esta palavra: Ave.

CHEIA DE GRAÇA

5. — Primeiramente, a bem-aventurada Virgem ultrapassou todos os Anjos por sua plenitude de graça, e para manifestar esta preeminência o Arcanjo Gabriel inclinou-se diante dela, dizendo: cheia de graça; o que quer dizer: a vós venero, porque me ultrapassais por vossa plenitude de graça.

6. — Diz-se também da Bem-aventurada Virgem que é cheia de graça, em três perspectivas:

Primeiro, sua alma possui toda a plenitude de graça. Deus dá a graça para fazer o bem e para evitar o mal. E sob esse duplo aspecto a Bem-aventurada Virgem possuía a graça perfeitissimamente, porque foi ela quem melhor evitou o pecado, depois de Cristo.

O pecado ou é original ou atual; mortal ou venial.

A Virgem foi preservada do pecado original, desde o primeiro instante de sua concepção e permaneceu sempre isenta de pecado mortal ou venial.

Também está escrito, no Cântico dos Cânticos: (4, 7) Tu és formosa, amiga minha, e em ti não há mácula.

Com exceção da Santa Virgem, diz Santo Agostinho, em seu livro sobre a natureza e a graça; todos os santos e santas, em sua vida terrena, diante da pergunta: estais sem pecados? teriam gritado a uma só voz:. Se disséssemos: estamos sem pecado (cf. 1, Jo 1, 6), estaríamos enganando-nos a nós mesmos e a verdade não estaria conosco.

A Virgem santa é a única exceção. Para honrar o Senhor, quando se trata a respeito do pecado, não se faça nunca referência à Virgem Santa. Sabemos que a ela foi dada uma abundância de graças maior, para triunfar completamente do pecado. Ela mereceu conceber Aquele que não foi manchado por nenhuma falta.

Mas o Cristo ultrapassou a Bem-aventurada Virgem. Sem dúvida, um e outro foram concebidos e nasceram sem pecado original. Mas Maria, contrariamente a seu Filho, lhe é submissa de direito. E se ela foi, de fato, totalmente preservada, foi por uma graça e um privilégio singular de Deus Todo Poderoso que é devido aos méritos de seu Filho, Jesus Cristo, Salvador do gênero humano. (N.T.).

7. — A Virgem realizou também as obras de todas as virtudes. Os outros santos se destacam por algumas virtudes, dentre tantas. Este foi humilde, aquele foi casto, aquele outro, misericordioso, por isto são apresentados como modelo para esta ou aquela determinada virtude; como, por exemplo, se apresenta São Nicolau, como modelo de misericórdia.

Mas a Bem-aventurada Virgem é o modelo e o exemplo de todas as virtudes. Nela achareis o modelo da humildade.

Escutai suas palavras: (Lc 1, 38) Eis a escrava do Senhor. E mais (Lc 1, 48): O Senhor olhou a humildade de sua serva.

Ela é também o modelo da castidade: ela mesma confessa que não conheceu homem (cf. Lc 1, 43). Como é fácil constatar, Maria é o modelo de todas as virtudes.

A Bem-aventurada Virgem é pois cheia de graça, tanto porque faz o bem, como porque evita o mal.

8. — Em segundo lugar, a plenitude de graça da Virgem Santa se manifesta no reflexo da graça de sua alma, sobre sua carne e todo o seu corpo.

Já é uma grande felicidade que os santos gozem de graça suficiente, para a santificação de suas almas. Mas a alma da Bem-aventurada Virgem Maria possui uma tal plenitude de graça, que esta graça de sua alma reflete sobre sua carne, que, por sua vez, concebe o Filho de Deus.

Porque o amor do Espírito Santo, nos diz Hugo de São Vitor, arde no coração da Virgem com um ardor singular, Ele opera em sua carne maravilhas tão grandes, que dela nasceu um Homem Deus, como avisa o Anjo à Virgem santa: (Lc 1, 35)

Um Filho santo nascerá de ti e será chamado Filho de Deus.

9. — Em terceiro lugar, a Bem-aventurada Virgem é cheia de graça, a ponto de espalhar sua plenitude de graça sobre todos os homens.

Que cada santo possua graça suficiente para a salvação de muitos homens é coisa considerável. Mas se um santo fosse dotado de uma graça capaz de salvar toda a humanidade, ele gozaria de uma abundância de graça insuperável. Ora, essa plenitude de graça existe no Cristo e na Bem-aventurada Virgem.

Em todos os perigos, podemos obter o auxílio desta gloriosa Virgem. Canta o esposo, no Cântico dos Cânticos: (4, 4) Teu pescoço é como a torre de Davi, edificada com seus baluartes. Dela estão pendentes mil escudos, quer dizer, mil remédios contra os perigos.

Também em todas as ações virtuosas podemos beneficiar-nos de sua ajuda. Em mim há toda a esperança da vida e da virtude (Ecl 24, 25).

MARIA

10. — A Virgem, cheia de graça, ultrapassou os Anjos, por sua plenitude de graça. E por isto é chamada Maria, que quer dizer, iluminada interiormente, donde se aplica a Maria o que disse Isaias: (58, 11) O Senhor encherá tua alma de esplendores. Também quer dizer: iluminadora dos outros, em todo o universo; por isso, Maria é comparada, com razão, ao sol e à lua.

O SENHOR É CONVOSCO

11. — Em segundo lugar, a Virgem ultrapassa os Anjos em sua intimidade com o Senhor. O arcanjo Gabriel reconhece esta superioridade, quando lhe dirige estas palavras: O Senhor é convosco, isto é, venero-vos e confesso que estais mais próxima de Deus do que eu mesmo estou. O Senhor está, efetivamente, convosco.

O Senhor Pai está com Maria, pois Ele não se separa de maneira nenhuma de seu Filho e Maria possui este Filho, como nenhuma outra criatura, até mesmo angélica. Deus mandou dizer a Maria, pelo Arcanjo Gabriel (Lc 1, 35) Uma criança santa nascerá de ti e será chamada Filho de Deus.

O Senhor está com Maria, pois repousa em seu seio. Melhor do que a qualquer outra criatura se aplicam a Maria estas palavras de Isaias: (12, 6) Exulta e louva, casa de Sião, porque o Grande, o Santo de Israel está no meio de ti.

O Senhor não habita da mesma maneira com a Bem-aventurada Virgem e com os Anjos. Deus está com Maria, como seu Filho; com os Anjos, Deus habita como Senhor.

O Espírito Santo está em Maria, como em seu templo, onde opera. O arcanjo lhe anunciou: (Lc 1, 35) O Espírito Santo virá sobre ti. Assim, pois, Maria concebeu por efeito do Espírito Santo e nós a chamamos Templo do Senhor, Santuário do Espírito Santo. (cf. liturgia das festas de Nossa Senhora).

Portanto, a Bem-aventurada Virgem goza de uma intimidade com Deus maior do que a criatura angélica.

Com ela está o Senhor Pai, o Senhor Filho, o Senhor Espírito Santo, a Santíssima Trindade inteira. Por isso canta a Igreja: Sois digno trono de toda a Trindade.

É esta então a palavra mais nobre, a mais expressiva, como louvor, que podemos dirigir à Virgem.

MARIA

12. — Portanto o Anjo reverenciou a Bem-aventurada Virgem, como mãe do Soberano Senhor e, assim, ela mesma como Soberana. O nome de Maria, em siríaco significa soberana, o que lhe convém perfeitamente.

13. — Em terceiro lugar, a Virgem ultrapassou aos Anjos em pureza.

Não só possuía em si mesma a pureza, como procurava a pureza para os outros.

Ela foi puríssima de toda culpa, pois foi preservada do pecado original e não cometeu nenhum pecado mortal ou venial, como também foi livre de toda pena.

BENDITA SOIS VÓS ENTRE AS MULHERES

 

14. — Três maldições foram proferidas por Deus contra os homens, por causa do pecado original.

A primeira foi contra a mulher, que traria seu filho no sofrimento e daria à luz com dores.

Mas a Bem-aventurada Virgem não está submetida a estas penas. Ela concebeu o Salvador sem corrupção, trouxe-o alegremente em seu seio e o teve na alegria. A Ela se aplica a palavra de Isaias: (35, 2) A terra germinará, exultará, cantará louvores.

15. — A segunda maldição foi pronunciada contra o homem (Gn 3, 9): Comerás o teu pão com o suor de teu rosto.

A Bem-aventurada Virgem foi isenta desta pena. Como diz o Apóstolo (1 Cor 7, 32-34): Fiquem livres de cuidados as virgens e se ocupem só com o Senhor.

A terceira maldição foi comum ao homem e à mulher. Em razão dela devem ambos tornar ao pó.

A Bem-aventurada Virgem disto também foi preservada, pois foi, com o corpo, assunta aos céus. Cremos que, depois de morta, foi ressuscitada e elevada ao céu. Também se lhe aplicam muito apropriadamente as palavras do Salmo 131, 8:

Levanta-te, Senhor, entra no teu repouso; tu e a arca da tua santificação.

MARIA

A Virgem foi pois isenta de toda maldição e bendita entre as mulheres. Ela é a única que suprime a maldição, traz a bênção e abre as portas do paraíso.

Também lhe convém, assim, o nome de Maria, que quer dizer, Estrela do mar, Assim como os navegadores são conduzidos pela estrela do mar ao porto, assim, por Maria, são os cristãos conduzidos à Glória.

BENDITO É O FRUTO DE VOSSO VENTRE

 

18. — O pecador procura nas criaturas aquilo que não pode achar, mas o justo o obtém. A riqueza dos pecadores está reservada para os justos, dizem os Provérbios (13, 22). Assim Eva procurou o fruto, sem achar nele a satisfação de seus desejos. A Bem-aventurada Virgem, ao contrário, achou em seu fruto tudo o que Eva desejou.

19. — Eva, com efeito, desejou de seu fruto três coisas:

Primeiro, a deificação de Adão e dela mesma e o conhecimento do bem e do mal, como lhe prometera falsamente o diabo: Sereis como deuses (Gn 3, 5), disse-lhes o mentiroso. O diabo mentiu, porque ele é mentiroso e o pai da mentira (cf. Jo 8, 44). E por ter comido do fruto, Eva, em vez de se tornar semelhante a Deus, tornou-se dessemelhante. Por seu pecado, afastou-se de Deus, sua salvação, e foi expulsa do paraíso.

Bem-aventurada Virgem, ao contrário, achou sua deificação no fruto de suas entranhas. Por Cristo nos unimos a Deus e nos tornamos semelhantes a Ele. Diz-nos São João: (1 Jo 3, 2) Quando Deus se manifestar, seremos semelhantes a Ele, porque o veremos como Ele é.

20. — Em segundo lugar, Eva desejava o deleite (cf. Gn 3, 6), mas não o encontrou no fruto e imediatamente conheceu que estava nua e a dor entrou em sua vida.

No fruto da Virgem, ao contrário, encontramos a suavidade e a salvação. Quem come minha carne tem a vida eterna (Jo 6, 55).

21. — Enfim, o fruto de Eva era sedutor no aspecto, mas quão mais belo é o fruto da Virgem que os próprios Anjos desejam contemplar (cf. 1 Pe 1, 12). É o mais belo dos filhos dos homens (Sl 44, 3), porque é o esplendor da glória de seu Pai (Heb 1, 3) como diz S. Paulo.

Portanto, Eva não pôde achar em seu fruto o que também nenhum pecador achará em seu pecado.

Acharemos, no entanto, tudo o que desejamos no fruto da Virgem. Busquemo-lo.

22. — O fruto da Virgem Maria é bendito por Deus, que de tal forma encheu-o de graças que sua simples vinda já nos faz render homenagem a Deus. Bendito seja Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo que nos abençoou com toda a bênção espiritual em Cristo, declara São Paulo (Ef 1, 3).

O fruto da Virgem é bendito pelos Anjos. O Apocalipse (7, 11) nos mostra os Anjos caindo com a face por terra e adorando o Cristo com seus cantos: O louvor, a glória, a sabedoria, a ação de graças, a honra, o poder e a força ao nosso Deus pelos séculos dos séculos. Amém

O fruto de Maria é também bendito pelos homens: Toda a língua confesse que o Senhor Jesus Cristo está na glória de Deus Pai, nos diz o Apóstolo (Fp 2, 11). E o Salmista (Sl 117, 26) o saúda assim: Bendito o que vem em nome do Senhor.

Assim, pois, a Virgem é bendita, porém, bem mais ainda, é o seu fruto.

De Santo Tomás de Aquino, Doutor Angélico.

Fonte: Pai Nosso e Ave Maria – Sermões de Santo Tomás de Aquino. Editora Permanência, Rio de Janeiro, 2003.

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Maria atrapalha a fé de vocês em Jesus?

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Se você  entra em uma BR, pode ter um asfalto muito bom, mas se este asfalto não tem sinais, fica difícil.

Como é bom que tem um bom asfalto e que seja bem sinalizado, assim você trafega com mais facilidade.

Jesus é esta estrada, uma estrada muito boa, pois Ele deixou muito sinais para ir nós orientando; os anjos, os santos e o grande sinal que é a virgem Maria, que nos vai  dizendo, converte, cuidado…

Maria é um sinal pra nós para que nós continuemos trilhando, seguindo Jesus.

Então queridos irmãos, Maria atrapalha a fé de vocês em Jesus? Quem tem Maria, diminui Jesus na sua vida? Claro que não!

Muito pelo contrario, Maria reza e nós a chamamos de intercessora. O meu Deus!

Se nós podemos interceder um pelos outros, Maria pode mais, porque ela é a mãe de Jesus.

Se você vem e pede para mim, padre Marcio reze por mim, porque não pedir para Maria, ela está na gloria junto ao Senhor Jesus.

Queridos, Jesus viveu 30 anos com sua mãe, tudo o que se refere a humanidade Ele aprendeu com sua mãe.

E eu quero dizer para vocês, alguém que se diz amigo do padre Marcio mas, fala mal da minha mãe, eu não gosto, a gente nem gosta, na verdade a gente nem deixa.

Tem gente que diz que é amigo de Jesus mas fala mal da mãe.

Vejam é tão simples, é simplório, é tão claro, tão claro.

Ou então alguém diz assim eu quero muito que tu estejas comigo, mas, não me apresente tua mãe, não quero saber da tua mãe, ora a nossa alegria é poder apresentar a mãe, não é verdade.

Então um amigo que diz, gosto de ti mas não quero saber de tu mãe, gosto de ti mas não gosto de tua mãe.

Pode até não precisar, mas respeite, respeite.

Eu digo isto porque nós somos muitos bombardeados e com o respeito que eu tenho pelos irmãos de outras religiões, mas bombardeado com esta conversa de sempre, não muda a conversa, não vira a fita, não acha outra coisa, toda vida a mesma coisa, porque Maria, porque Nossa Senhora?

Porque vocês tem Maria, vocês têm ídolos, vocês isto, vocês aquilo, já é uma conversa tão antiga…

Vira o disco de vinil…  toda vida a mesma coisa…

Para mim quando vem conversar e toca sempre nesta mesma tecla, eu digo gente para chega, eu gosto de minha mãe, é mãe de Jesus é minha mãe, vou ficar com ela é para sempre. Amém.

Então quando vierem com esta lorota também dizendo que vocês adoram imagem é porque está na bíblia, não faras para ti escultura de homens que está no céu e que está na terra, aquilo que está lá em deuteronômio, ai meu filho, muda o disco, porque o mesmo Deus que disse não façais para ti escultura de nada em outra hora Ele disse, agora em cima da arca da aliança façais duas escultura de dois anjos e coloque eles em cima da arca da aliança.

Deus proíbe os ídolos, a idolatria, amém, sim a idolatria Deus proíbe.

E o que é idolatria?

É colocar algo, alguém, objeto em lugar de Deus.

Seria idolatria se eu dissesse gente aqui está o nosso Deus; o nosso Deus está aqui.

Aqui gente, ajoelhemo-nos prostremo-nos porque Deus está aqui e você começasse a acreditar que aqui está Deus.

Ai seria idolatria.

Mas algum padre, só se for um doido, mas algum padre já mostrou uma imagem e disse aqui está o nosso Deus? Você ouviu isto alguma vez na igreja? Não.

Há mais fazem procissão.

Procissão é uma homenagem, uma homenagem que se faz com uma imagem, com uma figura, como se fosse uma encenação, como se fosse um teatro, é uma forma de homenagear e venerar.

Venerável é alguém que é digno de ser homenageado.

Ora, não colocam estatuas de pessoas importantes, as vezes nem tão importantes, colocam nas praças para homenagear, figura de bronze, de mármore.

Nós católicos colocamos na nossa igreja a figura de pessoas que foram importantes para nós, que são modelos para nós. Não para adorar.

E por isso você sabe muito bem.

Se for para mudar de religião, não mude por causa disto, isto é muito pouco, seria uma tolice muito grande, que ache um motivo mais plausível, mais forte; mas esse negócio, manda virar o disco.

E depois, alguém que diz, aceite Jesus, não quero mais saber de Maria, que piedade!

Tenha misericórdia de quem faz isto.

Que Deus nos abençoe e que neste final de maio homenageando a mãe de Jesus, desejemos ter os mesmos sentimentos que ela teve; a mesma fidelidade que ela teve, a mesma força que ela teve.

E ela teve tudo isto porque ela é cheia da graça do Espírito Santo de Deus.

Que Deus te abençoe, e que Maria tenha sempre lugar no teu coração na tua casa.

Não expulse a mãe de Jesus da tua casa, do teu coração, tenha sempre carinho, porque este foi um pedido de Jesus.

Filho eis ai a tua mãe.

Maria é nossa boa mãe e merece ser honrada e não desprezada, honrada e mal falada.

Honrada, querida e não rejeitada.

Amém. Deus seja louvado.

 

Padre Marcio Alexandre Vignoli

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Semana Santa

 

 

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A Semana Santa, para nós cristãos, é a semana mais importante do ano. Como bem diz o nosso povo: “estamos vivendo os dias grandes”. Esta Semana é grande porque nela celebramos o mistério da Paixão, Morte e Ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo. Nesta Semana Deus manifestou todo o seu amor pela humanidade e por cada um de nós. Com o apóstolo Paulo, cada um de nós pode dizer: “Ele me amou e se entregou por mim” (cf. Gl 2,20).

A Semana Santa, que ora iniciamos, pode ser considerada um manual de instruções para o cristão. Jesus pediu a seus discípulos que preparassem, com todo esmero, a sua Páscoa e, com isso, nos ensina hoje a fazer o mesmo. Vamos ler e meditar juntos o relato dos preparativos da Páscoa de Jesus?

Assim descreve o evangelista Marcos: “No primeiro dia dos ázimos, quando se imolava a Páscoa, os seus discípulos lhe disseram: ‘Onde queres que façamos os preparativos para comeres a Páscoa?’. Enviou então dois dos seus discípulos e disse-lhes: ‘Ide à cidade. Um homem levando uma bilha d’água virá ao vosso encontro. Segui-o. Onde ele entrar, dizei ao dono da casa: ‘O Mestre pergunta: Onde está a minha sala, em que comerei a Páscoa com meus discípulos?’ E ele vos mostrará, no andar superior, uma grande sala arrumada com almofadas. Preparai-a ali para nós”! (Mc 12b-15).

O apóstolo Paulo, por sua vez, lembra aos cristãos da comunidade de Coríntios para não celebrarem a Páscoa com o fermento da malícia e da perversidade (cf. 1 Cor 5,8). Não é esta uma orientação segura também para nós hoje? É triste constatar que muitos cristãos hoje vivem a Semana Santa com certa frieza e até na indiferença. A Semana Santa para nós, discípulos de Jesus, não é uma espécie de “carpe diem” (um aproveitar o hoje). Não é tempo para passear, pescar, se divertir, curtir a vida, relaxar, espairecer – como se fosse um feriadão. Assim como os discípulos de Jesus, também nós hoje devemos nos preparar bem para passar esses dias grandes na sua companhia. O Papa Francisco se lamenta que “há cristãos que parecem ter escolhido viver uma quaresma sem Páscoa” (EG 6). Contentam-se em celebrar uma Páscoa de aparência, sem graça, sem vida e sem passagem da morte para a vida. O bom cristão deve dizer com os cristãos de Abitine: “sem Eucaristia não podemos viver”. Parafraseando, “sem Semana Santa não podemos viver”. Onde, como e com quem vamos celebrar a Semana Santa deste ano de 2014?

Vejamos, então, os ensinamentos e as instruções que a Santa Mãe Igreja nos proporciona na Semana Santa através de sua liturgia:

O Domingo de Ramos é o grande portal de entrada na Semana Santa, a Semana em que Jesus caminha até ao ponto culminante da sua existência terrena. Ele sobe a Jerusalém para dar pleno cumprimento às Escrituras e ser pregado no lenho da cruz, o trono donde reinará para sempre, atraindo a Si a humanidade de todos os tempos e oferecendo a todos o dom da salvação. A liturgia deste Domingo inicia-se com a bênção dos ramos e a procissão que comemora a entrada triunfal de Jesus na Cidade Santa de Jerusalém, na qual é acolhido como Rei. Na liturgia Eucarística, o Evangelho proclamado é a narrativa da Paixão do Senhor. Somos convidados a entrar com Jesus no mistério de sua paixão e aquecer o nosso coração com o amor que não tem fim, o amor de Deus por nós. O ensinamento deste dia é que devemos acolher Jesus em nossa vida, nos deixar atrair pela força do seu amor e trilhar o caminho alto que nos conduz a Deus.

Na Quinta-Feira Santa inicia-se o Tríduo Pascal com a solene celebração da Ceia do Senhor. O mistério Pascal é o mistério central da vida cristã. Unidos a Jesus Cristo na sua Paixão, Morte e Ressurreição, podemos também nós viver santamente nossa paixão, morte e ressurreição. Neste dia Jesus instituiu o grande dom da Eucaristia e do sacerdócio ministerial. Também neste dia Jesus lavou os pés de seus apóstolos e nos deixou o mandamento do amor, nos ensinando, deste modo, a unir em nossas vidas, Eucaristia e serviço em favor dos irmãos. Quem se senta à mesa da Eucaristia não tem o direito de desprezar os pobres e marginalizados, nos quais Jesus se faz particularmente presente (cf. (Mt 25,31-46).

A Sexta-Feira Santa é um dia inteiramente centrado na cruz e na morte de Cristo. Não se celebra a Eucaristia neste dia. A principal celebração deste dia é a celebração da Paixão que, é, fundamentalmente, uma ampla celebração da Palavra que culmina com a adoração da cruz e termina com a comunhão eucarística. Não é dia de luto pela morte de Jesus. É a morte do Ressuscitado que celebramos, motivo pelo qual falar de luto é inadequado. É também dia de jejum e abstinência. Somos convidados e contemplar o mistério da morte de Jesus como mistério de amor infinito por nós. Neste dia “o Verbo emudece, torna-se silêncio de morte, porque se disse até calar, nada retendo do que nos devia comunicar. Está sem palavra a Palavra do Pai, que fez toda criatura que fala; sem vida estão os olhos apagados d’Aquele a cuja palavra e aceno se move tudo o que tem vida” (Papa Emérito Bento XVI, Verbun Domini, 13).

O Sábado Santo é considerado o dia do silêncio litúrgico. A Igreja permanece em comunhão com o seu Senhor que repousa no sepulcro. Por isso, neste dia não se celebra nenhum sacramento. O grande símbolo deste dia é o Círio Pascal que entra solenemente no início da Vigília Pascal, simbolizando Cristo, Luz do mundo, que dissipa as trevas do pecado. Na liturgia da Palavra a Igreja proclama as maravilhas operadas por Deus na história da salvação, começando pela criação do mundo e passando pela libertação da escravidão do Egito. Maravilhas de todas as maravilhas é a Ressurreição de Cristo. Esta é a noite da nova criação, do novo mundo recriado na luz da ressurreição do Senhor. Esta Vigília se conclui com o “Aleluia”, canto, por excelência, da ressurreição, e a Solene liturgia eucarística da Páscoa do Senhor.

Domingo da Páscoa. A Páscoa é a festa da nova criação. Jesus ressuscitou e nunca mais morre. A porta que dá acesso à nova vida foi arrebentada. Na Páscoa, ao amanhecer do primeiro dia da semana, Deus disse novamente: “Faça-se a luz!” Antes tinham vindo a noite escura do Monte das Oliveiras e da traição de Judas, o eclipse solar da paixão e morte de Jesus, a noite do sepulcro e do silêncio. Mas, agora a criação recomeça inteiramente nova. Jesus ressuscita do sepulcro. A vida é mais forte que a morte. O bem é mais forte que o mal. O amor é mais forte que o ódio. A verdade é mais forte que a mentira. O salmo desta liturgia canta: “Este é o dia que o Senhor fez para nós, alegremo-nos e nele exultemos”. A Ressurreição de Cristo é o mistério fundante da fé cristã. Já bem dizia Santo Agostinho: “Crer que Jesus morreu não é grande coisa. Isto até os pagãos professam. Grande coisa é crer que Jesus ressuscitou. A fé cristã é a ressurreição de Cristo”. O Ressuscitado vence toda forma de escuridão. Ele é o novo dia de Deus que dá sentido pleno à nossa vida. Celebremos, portanto, nossa Páscoa na pureza e na verdade.

FELIZ PÁSCOA DE RESSURREIÇÃO!

Dom Pedro Brito Guimarães
Arcebispo de Palmas (TO)

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